café e dores

café e dores

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Seus olhos são mais clichês do que todas as cartas

São onze horas da noite
Lembro dos grandes olhos azuis tão mencionados por mim
Eu finjo que esqueci de você enquanto falo nomes de homens do meu passado para estranhos que me julgam desalmada, desamada, desarmada. E me dispo de suas características ao fazer poesias só para não assinar seu nome cru no papel da cor de sua pele glacial. Eu não preciso evocar nomes para reconhecerem que essa poesia é novamente sua.
É esse muro de concreto que nos separa?
São as cartas extraviadas que nos levam a rumos tão longínquos?
Eu atraso todos os dias o meu relógio só para não admitir que me atraso pois sei dos seus horários, mas tudo isso é perca de tempo. Perco você a cada dia que nos separa dessa mentira que criei sobre nós. Não existe nós, somente o nó na garganta, e tantos laços mal feitos em sapatos que reluzem um sol que insiste em me ver sorrir. Eu te sinto em cada batida de caminhão, no caos de cabelos embaraçados deixados no ralo do banheiro.
Estou tentando amar o poeta no fundo da sala que nunca me mostrou um único verso, o homem divorciado que só amou uma vez, o virgem tarado, o rapaz das flores... Estou tentando amar a minha frágil renúncia à sua lembrança hospedeira em um espaço exacerbado demais dentro de mim.
Eu prometi que não ia mais te escrever, mas a chuva inundou a rua e eu lembrei do choro que alagou seus grandes olhos azuis. Novembro e ainda penso em você cansado exposto ao sol que sabe das minhas mazelas e ainda sinto piedade e ainda me imagino te cuidando como um protetor solar.
Sei que se você abrisse o meu diário, ou esse blog de poesias, se assustaria, ligaria para a polícia, ameaçaria contar tudo para a minha família, mas quem teme esse amor sou eu sozinha.
O ano está acabando, imploro aos fogos e rezas à Deusa do mar para te esquecer, deixo todas essas poesias endereçadas a você, sei que mulher nenhuma te escreveu tão sem motivos quanto eu. Eu amo o que criei de inofensivo em você, amo a inspiração, o diálogo que nunca tivemos, seu beijo ausente, amo cada verso rancoroso e prosa metódica, essa insensatez e, no fundo, sempre odiei a cor de seus olhos clichês.

*esse eu escrevi em novembro, postando agora para fechar o ano com mais um escrito clichê

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

2015 motivos para justificar tanta tristeza

Quem vai ajudar a curar esse desassossego de ver o ano passar sem que tenha descoberto a razão de toda essa tristeza que me faz escrever poemas descalça de madrugada? 
Eu estou na sala ouvindo discos de cantores desconhecidos 
Lembrando que falta pouco tempo demais pra esse 2015 chegar 
sem que eu tenha entendido ainda o que aconteceu nos anos que passaram 
e me deixaram para trás sem bolsos para pagar uma passagem de ida 
Não consigo acompanhar os passos e esses pássaros suicidas no asfalto são tão tristes quanto eu
É o passado que me fere 
Eu não vivi e nunca estive aqui 

O que fazer com todas as cartas que lotaram meu armário?
E os choros guardados? 
Não tenho tanto travesseiro pro tamanho da mágoa que estoquei dentro de mim 
Não tenho sono 
Acho que só sobrou essa vontade de ser socorrida por ele antes que amanheça e eu me esqueça que admiti querê-lo aqui coando o café enquanto sorrio escondida atrás da parede da sala 

Espere, estou chegando aí
Até quem me vê lendo um jornal sabe que estou pensando em você aqui
Abre seu coração calado pois estou descalça recitando poesias
Só não esquece de me acordar...

sábado, 27 de dezembro de 2014

Um paraíso infernal que se chama Rio de Janeiro

Ah, porra
ainda não dormi e estou aqui
trabalhando por um futuro
provavelmente mais medíocre do que
posso medir com as palavras
essas poesias vão amenizando cada
dia estupido de volta pra casa em
meio a esse trânsito angustiante de
Gávea ao bairro Humaitá
o suicídio está mais distante do que
o ano novo, você consegue captar o quanto isso é sufocante?
esdrúxulas luzes quentes e coloridas
como é escroto esse calor do Rio de Janeiro...
algum dia ainda decapito Cristo
maldito motorista que não para
em frente ao meu prédio
malditos correios, carteiros, encomendas as quais não recebo
esses 41 graus devem ter sido
enviados pelo satanás maldito
só porque nós botamos toda a culpa nele...
algum dia ainda anoto essa placa e
denuncio aos direitos humanos por
me fazer sofrer
é mais fácil botar a culpa do meu ódio
universal no bendito satanás
do que em você


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

essa poesia não é digna de possuir seu nome

você grita de forma obscena todas essas frustrações que te deixam com cheiro de destilados caros e culpa os astros por essa doença que é quase um amuleto de suas poesias. é o amor que te impulsiona a renunciar a eternidade. retorce os lábios de forma quase cândida enquanto profana sacanagens em tom agudo desesperando os homens que te despem desse vestido de veludo preto-surrado. entra sorrateira no labirinto da boca de algum rapaz que se esconde atrás de uma barba negra e quando pensam que se perde, se encontra, mais límpida do que as águas de Búzios nesse Rio de Janeiro que te deixa tão sórdida e solitária.

eu sei que chora quando todos desligam as luzes para dormir, eu sei que os seus cabelos guardam os nós da garganta e se pintam com sua alma até gerar essa negritude mais profunda do que o abismo de estar perdido em seus olhos que condenam meu amor medíocre. tão pequeno diante dos seus versos galácticos. descobri em você um novo continente, um planeta próspero para a vida humana, a religião que prega o amor outrora apagado em qualquer igreja que eu botasse os pés, mas calo minha escrava veneração pois sei que sou indigno até de qualquer estrofe informal que venha de você. geme enquanto o sol te abraça e te chama de filha pródiga, e tenta se suicidar enquanto observa as fases da lua te acenando a melancolia rasgada em vértices da imensidão desse céu escuro. eu te escuto, poetisa. eu gozo contigo dessa infelicidade que é existir.

você vai continuar reclamando dos 40 graus do rio e das cólicas e do maldito carteiro. eu daria todas as minhas vidas de encarnações possíveis só para provar um ínfimo ensaio de seu amor por esse homem com os cabelos da cor de minha paixão monstruosa. deformada. cancerígena.
essa ferida exposta no lugar do coração vai ganhar espaço nas galerias da França e temo ardentemente que suas poesias fiquem trancadas em diários abençoados por algum Deus ciumento que te rege e te vela de perfeição canônica desde o ventre banhado por suas próprias lágrimas.
você é assim, já nasceu chorando, para mostrar ao mundo que sofrer é a fórmula da mais íntima poesia. eu sinto o gosto dos seus lábios mordidos por estarem sempre muito escassos de amor e me mantenho distante da fumaça desse cigarro de marca barata pois quero morrer refém apenas desse amor.

é esse amor que te mantém viva, poetisa
viva em mim

sábado, 20 de dezembro de 2014

Seu coração é menor do que os seus sonhos

Eu estou criando um amor assim manso, domesticado, só para deixar de me machucar. As avenidas tem estado assim, sem luz, sem endereço certo para eu me localizar. Eu sou dessa descendência de índios e escravos marcados pela exploração. Exploraram meus trajetos, trejeitos, as curvas do meu corpo, o meu medo da vida. Estou nua, estripando cada pedaço de passado em papéis amassados por conta de almas miúdas, falta de espaços.

É hora de seguir em frente guria, o mundo é maior do que o seu coração.  

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

00:25, eu menti, hoje é terça-feira e quero que você me leia

Noite de segunda-feira
A lâmpada do quarto queimou de repente, procurei o amor debaixo da cama, na muda de roupas sujas, na fila infinita do Banco do Brasil.
"Segura na fé e rema" Que fé eu teria depois de ver dentro de um prato um boi assado, no asfalto um indigente atropelado e essas manchas roxas em minha pele? Estou hospedando em minha fala um sotaque nordestino.
Que Deus eu devo procurar quando, míope, não encontro nem o amor?
Onde foi que enfiaram a minha crença?
Entupiram as minhas artérias. Cinco anos de quimioterapia, oito meses de dor intensa e mais algumas semanas para morrer de morte calculada.
Tenho câncer como ascendente.
Tenho planos para fugir desse planeta levada por alguma onda cansada de bater, de apanhar, de ser tão azul sublime. Esse azul é tão angústia quanto eu. Quanto nós enfileirados ao exaustivo amanhã. Dói, e você vai acreditando nas mentiras cantadas em comerciais, caixas de absorventes ou enxaguantes bucais que ardem mais do que álcool em ferida.
É tudo mentira. Você vive uma mentira, você almoça essa mentira e te transforma nessa mentira e é por isso que tu mentes.
Finjo não querer saber o que você vê de bonito em mim.
Eu vou me apertando, arrochando e sucumbindo só para não chorar na frente dos meus pais porque não sei admitir que sou uma ferida crônica de um metro e cinquenta que possui formato de flor.
Eu não saberia explicar porque quero morrer antes do sol nascer.
Maldito sol de quarenta e cinco graus.
Sou obrigada a chorar em ruas sem saída, dentro de ônibus com destino à Lapa, escondendo com a calça jeans uma mordida na perna porque isso é sinal de promiscuidade.
Onde existe fé nessa cidade?
Eu ainda não transei com mais de três.
Fiquei com média sete na faculdade e as minhas poesias estão sem rimas.
Ainda passo na rua acariciando cachorros e perguntando o nome deles para donos sem nomes. Por que os homens sempre querem dominar?
Em qual lugar se escondeu o amor com medo de toda essa cidade possessiva?

O horóscopo não avisou que doeria tanto pelo amor esperar.
Ainda nem chegou terça-feira, acabei de cuspir aqui a solidão de uma semana inteira.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Pode ser você

Quem sabe seja esse sol inocente que ultrapassa os quarenta
Ou os semáforos modernos que me fazem parar já que não sei o que significam as cores
Penso se não é culpa do sorvete desfigurado dentro do freezer, da bota descascada, das poesias guardadas dentro de cadernos azuis
Talvez sejam os carteiros que me trazem a esperança de receber cartas anônimas
Esse ano novo que se aproxima...
Só sei que alguma coisa me faz pensar que não estou cansada sozinha,

isso me alivia
?



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Quase dei seu nome para meu título

Nunca gostei de sapatos abertos, porque meus pés são feios e isso me lembra corações sem cadeados, assim desatentos, sem óculos ou lentes que aumentem o tamanho do perigo de um amor nesse Rio de Janeiro. Nunca gostei de você partindo em um ônibus colorido me partindo, e sorrindo assim sem jeito, como se não tivesse culpa pela minha paixão brutal
Eu te mostro muitos que gostariam de estar em seu lugar, de ter um pouco desse teu dissimulado olhar e esse par de olheiras forjadas por noites pensando nela; Nessa mulher de mil anos, sem quadris e com os dentes mais amarelos do que o pôr-do-sol.
Me põe no colo e me conte uma história sobre sua jornada de vida entregando declarações, minta sobre o nosso futuro, invente nomes para nossos dois filhos e cante algo que me faça chorar mais do que chorei por não te ouvir.

domingo, 7 de dezembro de 2014

29/11

Depois dessa fase inerte sem sexualidade ou ritual que me salvassem da vida, acordei em um apartamento enorme do Leblon, meio perdida, examinando os quadros e deitando em um chão estofado. Essa angustia é como um soco no estômago, me faz querer vomitar palavras, sangrar pelos braços, pernas e costas. Essa falta de amor é hereditária, vejo a solidão em cada parente que me sorri forçado só por possuirmos
talvez
o mesmo tipo sanguíneo. Eu decidi acordar, e matar esse medo que me mata, quero trepar com essa manhã nublada por causa das minhas decisões sem voz. No horizonte eu enxergo em braile ou latim algum manual que me tire disso aqui, dessa castidade, desse
não
ensaiado na frente do espelho.

Decerto eu tenho feito tudo errado

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Existe poesia na fotografia

http://instagram.com/gygoes_

Artísticos sonhos surrados II

Os sonhos dela são mais curtos do que as roupas que frequentemente usa,
e mais longos do que o horário de voltar para casa
quando o sol já está acordando em um horizonte distante.
Com a ponta do cigarro Hollywood ela queima um purgatório particular,
o inferno enraizado em seu nome trocado por algo mais artístico.
Transa com a falta de amor em cada homem de olhos vermelhos,
enrosca nos lábios uma armadura e se dá por um preço mais barato
do que custa o amor nos livros de Jorge Amado.
Os olhos são tão tristes quanto os discos de Chico às três da manhã, e chora,
chora enquanto finge gostar.
Finge gozar, e goza da vida de personagens que possui.
Coloca em um diário as dores enquanto vaga na casa seminua de móveis.
Não há vagas em corações envernizados.
Esconde a tristeza com um lápis preto,
delineia um borrão que se assemelha àqueles sonhos caóticos
perdidos em camas pequenas.
Ela é poeta mas só mostra sua arte na cama de solteiro de um quanto
mais escuro do que o próprio passado, arte mal paga, mal usada, maldita.
Se perde na calçada de Copacabana,
na avenida Atlântica ou no céu da boca de algum homem sem endereço.
Ela paga um caro preço.
O amor é tão caro que ninguém ainda comprou.

sábado, 29 de novembro de 2014

Quatro andares e uma música borrada de gingado

Vamos esquecer que amanhã é domingo, aumente o volume para dançarmos até o corpo ou a vergonha doer, levante essa saia porque eu sei que você quer as pernas livres ao embalo de uma bossa nova

isso me lembra que preciso de um (ana)lista
só escrever sobre suas mágoas
me faz solitário

Sei em ti um jeito agridoce que me exala o paladar, um misticismo infernal, uma crença no amor que me arrepia. Alguém vai magoar teu coração outra vez, pequena. Você não teme o inverno tendo um coração tão alugável? O golpe que levo de suas retinas cristalinas me impedem de fugir para longe do quarto andar de Botafogo, a raiz de suas pernas é um lago movediço o qual me arrisco, me afundando, submergindo em seus dons obscuros de me sorrir zombando. Temo por demais a sua febre em meu pescoço, seus suspiros na hora de voltar pra casa às onze.

onde foi que eu perdi os meus instintos sacanas de não me apegar àquelas moças de saia curta? talvez debaixo dessa alma que leiloa meu coração com um gingado ao som de um solo de Cícero

desculpa

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

botafogo

deixei um guardanapo marcado de batom na mesa do barzinho,
espero voltar lá num dia ensolarado
e ver algum garçom lembrar da moça dos lábios pintados
lembrar da minha solidão acenando ao rapaz que almoçava ao lado,
do peso nos ombros de martírios antigos, 
dos olhos ligeiramente borrados por alguma tristeza atraente
certamente ele virá com a piedade exposta na bandeja e desejará comprar o meu penar 
por um preço sem juros
espero ainda que algum transeunte 
me espie pela porta de vidro 
e me pague um café 
com açúcar mascavo só para tirar o amargo 
de meus lábios
espero que o balconista ao me ver pagando a conta
me dê um desconto por saber que pago caro por saudades que me matam de fome
e me degolam, esfolam, flagelam
eu não tinha esse rosto tão sem identidade, essa pele incolor, 
tantos sonhos deixados em guardanapos sujos
eu espero...
espero.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Eu matei o meu personagem

Eu te matei aqui, deitada na cama, vestida em um pijama esgarçado
com a maquiagem do dia anterior nos olhos de cachaça e o cabelo embaraçado
te vomitei inteiro no banheiro do botequim na Lapa
e os resquícios das gotas de sangue ainda estão em meu sapato

Eu esquartejei as suas lembranças usando um canivete de prata
e ao incendiar suas fotos em uma fogueira, te transformei em rima ruim
desfigurei seu ego tão esculpido, meu bem

Eu sou culpada por essa morte premeditada
e sei de cor as suas falas
os seus artifícios para me ver desnorteada
eu decorei as letras de suas músicas só para dizer o quanto são estúpidas

Todas as cartas foram ridículas, Fernando Pessoa

http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/508.php

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Existe amor até nós meus cabelos

A grama da praça está pisada, os cachorros fecharam o focinho e não ouço mais o choro por algum amor perdido pois não existe mais amor na praça.
Esse sol quer me ferir por ter saído com essas roupas pretas pelo luto ridículo de alma que não quer mais lutar.
Estou bebendo a mágoa de ser mais invisível do que a cor do álcool, costurando a cegueira desses olhos míopes de sanidade, padecendo por doutrinas não cumpridas depois das dez, por essa saia curta.
Falta um caminho curto, menos de um quilômetro para chegar ao seu coração, mas o trânsito dessa zona sul me deixa ao norte sem rumo algum
Os motoristas olham para mim, a janela não abre, e as orquídeas se tornaram raras. Tem alguém apagando as luzes do céu, mas um raio colorido ainda enfeita a palma da minha mão.
Existe amor pisado ao chão.
Existe amor nos meus cabelos pintados por tinta vermelha, e nas poesias existe alguém que eu sequer sei o nome inteiro
Há muitas metades pelas ruas, e quem parte é meu coração partido sem tomar partidos quanto a essa guerrilha que já entrei vencida

domingo, 16 de novembro de 2014

Seus olhos são mais tristes do que essas pedras sem cor

Leandro,
Você faz sua arte e torce seus garfos para botar uma pedra, me torceria mais fácil pois eu sou uma artimanha. Venha com essas mãos sujas e me corroa, esfregue a poeira da cidade em minha pele alérgica ao caos urbano. Você é esse oceano poluído, essa água escassa dos rios, meu açude enlameado. Na barba leva estórias que conta com essa voz de sotaque mestiço forjado, sei que seu sangue carioca carece de gingado. Acende esse baseado bem longe porque eu não quero compromissos, te queimo como esse isqueiro vermelho que pedi emprestado. Você quer um pouco do meu cigarro?
Volta e meia eu volto e aceito o convite ao cinema, roubo a cena e te roubo dessa vida sem rumo. Meu cárcere será amar homem tão livre quanto o mar.
Esses seus olhos ainda vão te levar ao inferno, rapaz-sem-endereço.
E lá encontrará abrigo.
Você pertence à liberdade e eu gostei de pertencer ao seu ínfimo desejo mesmo sem nos tocarmos. Sou sua menina das roupas pretas e estamos entre os vivos, levo essa pena de passarinho do Amazonas como brinco na orelha esquerda, mas pena maior é você não poder me levar contigo nessa fuga eterna em busca da paz de espírito.

Dedicado ao hippie, que esbarrei pelas ruas, possuidor de olhos sinistramente tristes

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

quase não dá tempo de fugir

quero fugir daqui pra algum lugar sem sol
pra te encontrar
porque eu sei que você gosta do frio
e isso é mais um pretexto pra te abraçar
quero te contar dos livros que comprei no sebo de Copacabana
dos riscos que tracei na parede
no corpo
do piercing que botei escondido
dos machucados e resfriados que me deixaram de cama
e da ausência do meu riso

da cor dos olhos dele quando me avista
dos poemas que fez nas minhas costas
e da marca de cigarro que ele gosta
você precisa saber que eu escrevo cartas pra ele
não tão autênticas
mas são cartas
e sei que por serem cartas
isso vai te ferir

eu vou correr daqui
pra te mostrar que eu estou intacta por fora
mas te esperando
e rezando
mesmo sem religião alguma
pra ele me sequestrar
antes que eu fuja pra te encontrar

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Mariana

Ela consegue ser essa rima que eu não fiz, o título desse poema,
a poesia em cada canto dessa cidade grande demais
ela está no quadro lúdico de Picasso, e nos versos tristes de Silvia Plath
no céu de hoje com poucas estrelas,
e será daqui a dias, a Lua Cheia
Sei que não são todos os que um dia verão aquele sorriso sutil,
que é Sol em pleno inverno
queimando com a ponta de um cigarro o paraíso

Vejo-a escondida por detrás de cabelos curtos,
vestida de sonhos, meia-calça fina
e vestidos que dançam com a primavera um ritmo progressivo
Ela tem pressa de amar,
então carrega o mar nas próprias pálpebras,
em telas tão delicadamente pintadas

Rabisca a solidão que é tão bonita nos braços,
no violão desafinado
e nas paredes líricas do quarto

Ela me contou dos seus segredos,
e de alguns medos
capazes de narrar fábulas e enredos sobre si
e se me atrevo a escrever o mínimo de tudo o que ela é,
coloco a culpa na licença poética
estampada nos
olhos de galáxia dela

domingo, 9 de novembro de 2014

Bar da Gávea

sete anos
de azar
tenho colocado a culpa da minha
falta de amar
em cima do espelhinho quebrado
dentro da bolsa,
e admirando a rua que não mudou tanto
desde que a minha solidão
criou nome,
percebo que preciso de um amor
que escreva em minha pele
por meio de hematomas
uma carta justificando
um supérfluo crime passional,
que me fume como se eu fosse
o último cigarro do maço
e da noite,
necessito ser folheada por mãos
que decifrem códigos
místicos.
os outros poetas sempre escrevem
o que eu pretendia dizer,
esqueci o casaco no bar da Gávea,
eu acho que esqueci
de colocar a ração dos cachorros,
a roupa para lavar e o coração de molho.
da janela eu vejo a dor
que nenhuma poesia consegue recitar

eu quase alcanço todo
dia essa
dor
ligeira

sábado, 8 de novembro de 2014

Três pintas nas solas dos pés

Desenhei-te no céu enquanto a aurora anunciava a primavera, você é a primeira coisa que me vem à cabeça quando saio dos sonhos esquecidos e esse seu rosto tão esdrúxulo de sedoso cai bem revestido pelo céu felpudo. Mesmo com traços tortos você sai bonita em qualquer esboço, e lembro da sua voz, e logo me vem uma vontade desesperada de acordá-la aos beijos ainda virgens.
Você abre os olhos e te queima a luz, te queima o meu amor exacerbado.
Eu reparei nas pintas que estão pintadas por todo seu corpo miúdo, há aquela mais sensual próxima à virilha e as três mais discretas na sola de seus pés número 33. Reparei em sua falta de vontade de sair de casa sem essa jaqueta jeans da Dior com cheiro de fumaça velha, e no seu medo de baratas, até das mais pequeninas do que as suas pintas. Você se esconde debaixo desses cabelos indisciplinados, e quando me encara, torce os lábios naturalmente rubros de forma tola, como se fosse rir da minha paixão ainda verde, te adoro a exatos seis meses. Eu sei dos seus segredos, e tenho pena daqueles que não absorvem um pouco da sua tristeza cotidiana, quando fita o próprio vazio, entendo o quanto é triste, pesada, marcada. E vive, vive por não conseguir morrer, aos vinte anos não sabe o que quer ser, apenas é.  E, moça, mesmo sem querer ser, quero que saiba que você é aquilo que eu gostaria de ter numa tarde ensolarada de primavera.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

5/11/14

Um coração feito de neve entrou em erupção

São os vinte anos! Amanheci e vi os vinte anos marcados
em minha identidade suja de café,
na carteira de trabalho e em letras condenáveis no diário
as palavras lunáticas não cabem no céu de meio-dia
Eu assisti o surgir de uma nova constelação
queimam meus dedos e
ardem esses sóis achados em sorrisos urbanos, cansados...
a melancolia marcou meu rosto com um traço salgado,
a estrela cadente é carente de amor

Lua alta demais
e eu minguando por ter visto os instantes passarem, me atropelarem
no asfalto, no beco da rua sem retorno,
onde foi parar a saída?
ou fui eu que parei na entrada?

E sou alucinada, feiticeira, cigana obsessiva
senhora de faces que desvendam seus olhos clandestinos,
sobrevivendo deixando destroços abandonados na varanda,
em quartos bagunçados,
no coração de algum pedestre apressado
Morrendo plena de poetizar incansável uma tristeza crônica,
expondo em cada verso uma ferida vulgar e nociva
aceitando a angústia como parasita

...composta do cárcere de amores inventados em ônibus abafados

Tenho vinte motivos para escrever sobre o amor
Vinte
e quatro horas
já passou da hora de acordar, coração...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

229

Acordei antes das seis ao ouvir o pássaro gritar as mágoas perto da minha janela semi-aberta. Infeliz andorinha que exibe a dor no nome e no canto embargado. Chorei até molhar a almofada, e quis morrer ali deitada. Quis falecer antes de acender a minha desistência diária, rezei mesmo sendo incrédula só para não ter que levantar a carcaça antes do despertador a dor acordar às sete da manhã. Na padaria pedi por favor dois pães na chapa e um café pingado para matar a fome, porém, e a fome da alma desnutrida? Quem fartaria minha alma vazia? O padeiro não parecia disposto a isso depois de ter vendido tantos sonhos. Comprei então uma garrafa de água para sobreviver ao verão do rio. E ainda requebro os quadris ao atravessar a rua porque sei que o motorista do ônibus 538 sempre me olha, mas eu preciso é recitar aos caras o anúncio de que estou quebrada. Sou a bolsa de valores, o mensalão, a conta de luz atrasada. A chave caiu dentro do poço enquanto no elevador apertava o quarto andar, o vizinho deu o número dele caso eu precise de ajuda.

Será que ele possui cola para um coração aos pedaços?

sábado, 1 de novembro de 2014

Estou suando lembranças que nunca existiram

Eu vou sair de cara limpa só para ver se você acredita nas linhas escritas do meu rosto que te condenam por um amor cansado
Essas marcas na face expressam seus verões torturantes
Você é todas essas folhas que se renovam mais verdes depois da seca
O chão empoçado de desordem, abafado,
Por isso que te lembro enquanto evaporo no ônibus indo à faculdade

E tento te amar um pouco menos quando sinto atração por algum barbudo de olhos obscuros. Meu coração é noturno. Não consigo parar. A primavera quer morrer junto aos frutos maduros que caem antes de eu te devorar.
Mona lisa não tem mais mistérios, você consegue me enxergar através dessas lentes escuras de armação Ray-Ban fora de moda?
Já olhou no jornal que até no horoscópio o seu destino é navegar em minha maré? Quero te conservar em meus lábios místicos
Mas por enquanto apenas te enjaulo nessas poesias culpando-te por ser esse sol que escorre agora apagando meu sorriso

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

E a Sanidade pede licença poética

Transava com a poesia todo dia
até parir rimas tímidas,
e às vezes saía amor aos pedaços e tinta
trancava no peito almofadado algumas tristezas,
costurava e bordava os medos na parede do quarto
Às vezes inventava amores urbanos, no ônibus
no Jardim Botânico ou sentada no banco de praças pichadas
e se frustava por ter uma vida de crônicas surradas
e só dançava sem música
porque inventava os próprios passos
por isso ia por caminhos equivocados
até perceber que não há retorno
era colecionadora de transtornos,
olheiras, livros e cartas

Às vezes ela dormia temendo acordar
Às vezes ela teme continuar vivendo,
e rouca, quase totalmente louca
diz aos outros ser poetisa
só para tornar bonita
essa mania de
transformar
tudo em
poesia

domingo, 26 de outubro de 2014

Misticismo XIX

O bar do Pires está mais caro do que a birosca da esquina, o preço para esquecer amores corrompidos subiu desde que a corrupção tomou conta dessa baderna politicamente incorreta. O guri do sorriso malandro me ligou quatro vezes desde que sumi dentro dessa cratera aflorada em mim, o toque me faz valsar sobre a vontade de me dar, mas logo lembro que me sobrou tão pouco.

Então recolho cada vestígio do que me pertence e tento perambular pelas ruas sem demonstrar o choro porque sou um livro não lido, uma bíblia satânica, a lágrima escorrendo através de olhos dramáticos. A melancolia está costurada em minha blusa de malha, e talvez também na expressão exausta da face.
O bar não vende bebida alcoólica às menores dores.
O banheiro do botequim está mais limpo do que o meu passado, acho que os amores me fizeram suja e bruta e se sou bruxa é culpa do coração sangue-suga que sugou as minhas chances de ser uma mulher devota a algum Deus que silencie os pecados. Esse mal que me acompanha me faz entrar em bares e me faz beber poções mágicas capazes de esquecer você, doce pretérito imperfeito.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Bicho de vinte cabeças

Eu nunca grito quando o bicho estranho aparece em meu quarto
mas agora sinto cheiro de tristeza
se aboletando em cima da cama barulhenta
e me empurrando
só para me ver chorar,
mas eu não choro desde o inverno quando descobri
que as minhas mãos sempre estão muito frias
e que já não pego o mesmo ônibus que o carteiro
Mosquitos me deixaram marcas e as marcas
do meu coração agora coçam
a dieta planejada não funciona depois da larica sentimental
eu tenho fome de amores exagerados
mas tenho medo de amar
mais do que do bicho que agora me observa
Estou com sintomas agudos de amigdalite e melancolia
então vou vomitando assim
essas palavras
inflamadas
O horário de verão furtou uma hora do sono que só aparece pela manhã,
jovens precisam de rumo e não de números,
supérfluas incógnitas complexas...
Preciso voltar para casa mais cedo do que pretendia
Preciso chorar agora porque minhas mãos estão novamente frias
Meu quarto está fedendo a morte, a vinte anos que não vivo,
acho que regularmente tenho alimentado o bicho.

domingo, 19 de outubro de 2014

segunda

Você escolheu
os meus olhos nus
para pairar seu foco
e descansou na tristeza
que eu não pude esconder por muito tempo.
Escolhi o banco 
verde cor esperança 
falecida em tantas praças 
de nossa cidade carioca.
Perguntou meu signo e
descobrimos ascendências tênues,
talvez
creia que nosso romance se perpetue
por culpa dos astros.
Você permite que eu te toque
mesmo sem música tocar?
Nesses cachos cor de árvore noviça
eu pretendo me embolar
em cada nó
sol
não me deixe
Só.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Psicanálise

Irene sorri, Irene sofre, lambe suas lascas, deixa marcas. Irene come os próprios filhos, as tripas, a alma. Irene sobrevive, chove, acalma. Calma, Irene. Irene não descansa porque precisa suprir o desejo de viver. Irene não vive. Morre, mata. Um, dois... Francisco é três. Cadê o coração de Irene? Ela se pergunta enquanto suicida.
Suga prazer da boca de quem não saberá o nome, esquece o próprio.
Quem eu sou? Se descobre na cama. Nada. Se afoga, Irene?

Acho que você precisa de um psicanalista...

Quebra-cabeças

Falta só um pedacinho para a Lua ficar cheia e eu uivar esse romance nunca acontecido entre nós três. O mar já não passa por meus pés estranhos, é tudo culpa dessa ressaca eterna de porres forçados e engolidos pela ânsia de fugir de mim. E eu fujo de ti porque não quero corrompê-lo com a minha descrença. Eu vou sugar teu sangue às onze, e vou te escrever na eternidade de um pálido papel barato.

Só te prometo isso: Sugá-lo com meus lábios antropólogos,
famintos por essa sua febre de almejar-me.
Você se encolhe, e pede para ser usurpado com esses olhos quebradiços. Eu vou me afastando impávida de sua abstinência porque não posso te quebrar, você não é essa onda que agora veio molhar-me até os joelhos, eu sou a rocha.  Você não suportaria manobrar um corpo suicida e eu não sei te levar à estrada torta porque me apaixonei pela sua carência, não me siga até o precipício, não me ame em noites de Lua Nova...

É só se jogar de cabeça que eu garanto, você afoga

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Se está cansada de amar eu te ofereço o meu coração

Falou-me dos caras, dos malditos caras com grana, dos artistas, pintores e poetas. Não ouvi pois me imaginei acordando mais cedo só para não perder a chance de te ver tomar um café melado sem esse rímel borrado, assisti-la a me perguntar qual roupa realça o tom de pele, reclamar do calor do dia, do trânsito e de dor nas costas. Imaginei você fumando deitada em cima do meu peito contando sobre seus amores fracassados, dos problemas emocionais e rindo da minha solidão. Não parava de falar do amor de um jeito tão rude que me feri porque eu te amei ali mais do que todos os caras que já te provaram, amei um amor intocável e ainda puro.
Disse que era poetisa e que venderia mais do que mil livros para poder comprar uma cobertura em frente ao Cristo Redentor só para não chorar sozinha. Por Deus! Eu desaguaria pelos olhos todo o rio Nilo, o Mar Morto ou a Baía de Guanabara só pra te acompanhar por algumas noites, por todo outono... Reclamou do cansaço, das traições, esquecimentos, disse que desistiria e não passaria daquela noite.
Seus versos devem ser tristes...
Seus olhos já não aguentam mais, dê um tempo a seu coração, Poetisa.
Os amantes te esqueceram mas saiba que te amo todos os dias no mesmo horário e espero urgentemente me esbarrar com seu corpo miúdo de novo só para dizer que você pode repousar em mim.

domingo, 12 de outubro de 2014

Em frente aos correios, cep 22261-005

Sua obsessão secreta.

eu
contabilizei
seus
passos
(logo eu que sou de letras e repeti em exatas)
guardei o cheiro do suor que escorria por sua face anêmica,
esse suor cansado morreu na gola de malha do uniforme amarelo
e evaporou tão rápido que fui capaz de notar a temperatura acima dos quarenta

essa bermuda te deixa com cara de vinte
mas a barba ligeiramente avermelhada te deixa na faixa dos trinta
esses olhos cadavéricos me penetram com indiferença
me olham com descrença

há cinco pintas espalhadas pelo seu pescoço
imitando um céu pálido com constelações raras e salgadas
como deve ser bom o sabor de seu beijo mentiroso...
e esse barulho que você reproduz com as mãos ao roçar a alça da bolsa
essas cartas que você resguarda nas mãos aveludadas são todas minhas
são poesias e desabafos e ameaças
seu sorriso é tímido
seus cílios são alongados
e as veias brilham no sol nômade sob seus braços
vou colocar seu sobrenome
junto ao meu
numa lápide
não se assuste, carteiro
eu morro de amor e descaso

Caos

coloquei a música mais triste do repertório só para ver se esse tédio passava, troquei a roupa do corpo para uma coisa mais leve pois estou me sentindo pesada a ponto de não querer erguer a xícara de café à boca para me esquentar desse frio íntimo. arrumei algumas dores passadas, coloquei pontos finais onde a reta seguia, soquei a porta da cozinha,
hoje
a noite
está
tão
vazia

a melancolia espalhada ao chão do corredor me recorda que penar virou rotina, a tristeza está em cada quadro dessa estante empoeirada pelos cantos da varanda.
o canto da vitrola pausou.
hoje eu não consegui dormir porque aqui está tão bagunçado...
e não me refiro à casa...

sábado, 11 de outubro de 2014

VXX - Dívida

A chuva devia ter caído antes das lágrimas
ambas se embolariam teatralmente e vejo só quem mente a própria dor...
O preço do cigarro aumentou, morrer custa caro
Você realmente faz falta no banco mais iluminado do bosque
e essas folhas ressaltam esse aroma de descaso
Veja só o meu fracasso a assinar papéis e sentenças não lidas
As provas do mês acabaram
Eu não estudei

Você devia ter comprado uma bota nova
e, quem sabe, limpado a boca do resto de torta
maldita torta que te faz ficar ainda mais doce...

Minhas palavras não mereciam estar tão ressecadas
as folhas esqueceram de cair das árvores
as coisas deviam ser mais fáceis
você deveria ser meu
e me deve...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Anúncio do fim de meu mundo

Apesar de você me assegurar de que o mundo não acabaria em dezembro 2012, eu sabia que esse era um dos meus menores medos. Não me importaria de ver o mundo inteiro em cinzas, o vapor maldito se aproximando, prédios desmoronando e os Maias praguejando os humanos desacreditados se eu estivesse contigo em uma cama pequena de hotel depois de ter transado a semana inteira só com pausas para o café expresso e alguns cigarros light. Amado, estou de dieta porque o peso de carregar a vida me cansou, desgostei dos doces, só a tua boca com cheiro de uísque nacional me faz pecar na gula.

Enquanto você ria das minhas superstições, lia calmamente o jornal do dia anterior, passava os olhos afim de engolir notícias que acrescentassem na inteligência que o deixa mais galante, esbelto, feiticeiro. Eu, temerosa, só volto para a cama depois de pisar três vezes no chão com tapete, mas você me furta antes de fazer o ritual e transa com minha sorte.
Hoje eu quebrei um espelho enquanto pensava em você saindo da porta encharcado de um perfume que atrai mulheres mais seguras do que eu, e se acha que tenho medo de sete anos de azar é porque não lê nos meus olhos cheios de notícias inéditas que o meu maior temor é perder você.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Lua de sangue

A Lua está sangrando antes da meia-noite. A Lua decidiu me inspirar e parece que sangra pelos pulsos apavorada. Devorei todas as migalhas do meu coração e usurpei planos que nunca serão meus só para achar algum conforto em terra impura. O chão está seco, faltam meses para o carnaval começar e eu não vou concluir a minha teoria de literatura. Maldita festa da carne.
O batom avermelhado passou do prazo de validade, as pupilas se dilatam quando enxergo a mitologia  em cada ser pagão dessa cidade de prédios modernistas e me pergunto porque ainda não fugi para debaixo da ponte,
ou pra
cima
do
muro
onde poderia virar pichação ácida assinada por algum marginal que dorme
sem teto.

Mar-ginal: indivíduo que tem o privilégio de afogar-se
na imensidão do céu antes de dormir.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Trago seu amor em três dias

Sua face de linhas exóticas me apavora
temo querer navegar em suas formas tímidas de me conquistar
temo ansiar desvendar seus sorrisos despretensiosos
mas sua sanidade não compactua com a minha loucura
nessa cidade de postes com cabos emaranhados eu me sinto só
então reflito sobre a longitude dos hospícios
a frequência dos homicídios
e nos assassinatos passionais que estampam o jornal florido de sangue

Eu li sua mão suada mesmo tendo tantos livros à mão
a minha descendência cigana não engana meu gosto por astrologia
ou destinos predestinados a apenas um amor
você sabe das minhas esquisitices e me julga vulgar
mas se destrói quando quase despe meu corpo com o olhar

Você sabe que eu não posso te amar mais do que três dias
e eu não trago nada de volta
só esse cigarro embalado por meus lábios
é tragado
até morrer queimado

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Eu assisti a mil filmes de terror sozinha

Hoje ainda é quarta-feira e eu ainda não amei ninguém
Não li os textos da graduação e nem os oitenta livros
os quais pretendia antes do início desse verão que me queima a vontade
de sair com uma saia curtíssima
Quase chorei ao lembrar de minha tristeza,
mas esqueci de chorar quando lembrei de escrever
e de levar o lixo pra fora e fechar a porta e as feridas
Eu tenho deixado a vida passar...
Tenho renunciado
Desistido
Onde enfiei a porra do sonho de me tornar poetisa?
Malditos escritos que me pluralizam e me definham nessa cama dura
Preciso comprar uma mochila
Ver o amor atravessar a esquina e me acenar

Preciso pegar meu exame de sangue - a quase um mês - e tomar o remédio que controla a menstruação que me faz sangrar por quatro dias. Meus braços cicatrizaram muito rápido. Acho que desaprendi a fazer a raiz quadrada e de como era feliz quando a família estava superficialmente unida. Acho que preciso ligar para as minhas irmãs só para alertá-las do meu amor silencioso, quente, choroso, mas finjo que esqueci o número delas... Talvez sejam elas que se esqueceram de mim.
Eu bebo vinho tinto, comecei a roer as unhas aos dezessete e a velha miopia só tende a aumentar até eu ficar cega e impossibilitada de ver o amor passar

Eu só não esqueço que está dolorosamente difícil continuar a viver...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Arrisco-me para ver se te risco dos meus pensamentos

Não cabe a mim alertá-lo que andar de bicicleta na contramão assim tão rápido é perigoso porque os riscos de me machucar ao observar seu rosto banhar-se por um sol laranja é maior do que o seu provável acidente. Corro todos os riscos de ralar o coração, plebeu, e não tem remédio pra isso. Não tem remédio que me cure desse sofrimento que é te ver tragar outras mulheres com os olhos.
Eu só queria te avisar que eu já não gosto tanto assim de você.
Sei que vai rir se eu disser que arranquei do mural as poesias que levavam o seu nome, ''tá vendo aquele pôr-do-sol? ele sai de cena porque se curva para você iluminar sozinha" e me dizia com a voz mais doce do que as balas que eu constantemente levo na boca. Levo seu sabor também, levo para onde vou só para não ter a desculpa de te ligar e marcar outro encontro no cinema do centro

Não gosto mais tanto assim de você, mas se viesse agora eu te engoliria não só com beijos, mas com minha alma faminta de romances. Eu arranhei seu nome dos meus poemas como fiz com o seu pescoço carente, eu gosto do estrago que você faz em mim, não de você.

domingo, 28 de setembro de 2014

Rua da saudade

Botei o pé na estrada e meus longos cabelos cantaram com o vento alguma sinfonia ainda não patenteada, chorei a madrugada inteira só para acordar desse jeito, leve, sem água ou mágoa no corpo. Esqueci a bituca acesa naquele cinzeiro imundo que repousam o seu pó, meu passado e algumas cartas monografadas pelo amor que ainda habita em mim de parasita, lavei o corpo do medo de partir só com seu nome no bolso - e você não vale nada
E eu fui e vou por essas avenidas tão curvas de silêncio só para analisar a bagunça que se instalou entre o nosso sujeito composto, estou em constante contramão colidindo em barreiras e me ferindo invisível a olhos de quem não vê poesia.
Qual o meu destino? É a utopia que me leva a ventos dessa antiga primavera

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Homicídio

Repouse seus ombros cálidos em meu colo nu
como se não temesse o destino,
finja que será eterno enquanto sussurra que me ama
e clama que eu seja sua

Você notou a grandeza da Lua?
nada é mais doloroso,
esse futuro solitário que escrevi pra mim
não há papel para você
além daqueles rasgados que repousam no aterro sanitário

Noite escura, eufemismo e pleonasmo
nada vicia mais do que você e sua sina
saiba que eu sou assassina
matei outra vez o amor

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Tão doce que te adoeceria

Eu vi a cor dos seus olhos submissos dilatarem ao toque da minha volúpia, senti a sua neblina me cegar por seis horas, até nos perdermos em algum rumo que insiste em nos se-parar. O que é certo ou errado? Você me desnorteia sem a resposta na ponta da língua, e me lambe com a dúvida o pescoço eriçado, me descaminha e faz eu me sentir ainda mais perdida. Sou de fases e carrego a Lua como ascendente, mas você não me admite distante e rompe as sete ou dez cidades pelos céus da quase-primavera em um voo noturno. Sonha comigo, eu sonho conosco, e penso se não é pesadelo, porque meu sangue cigano anuncia que só seremos eternos em minhas prosas. Você pode me transformar em música se quiser tocar a alma, só não furte a minha calma com alguma melodia plagiada. Eu quero ser única, e sei que você vai provar todas as bocas da cidade só para buscar o doce que roubou da minha, porém, o destino não quer que você sofra com diabetes ou falta de crenças 
Eu já te disse que sou uma doença... 

Garoa

Verte do céu uma chuva miúda para me alertar que a dor se encolhe
Os vestidos são moles e os corações também
Por isso que a moça submissa reza a missa todo dia
Se for ferida que seja por santidade sem nome, não por homem
Enquanto caminho pelas esquinas alagadas
Lembro das noites e madrugadas as quais me fiz de santa
Eu queria e exijo a liberdade e veja só a felicidade atravessando a rua
Acenando e me alertando que a chuva parou
Mas preciso continuar...

sábado, 20 de setembro de 2014

Essa solidão só o verão cura

Eu,
dona de um nome e uma face que traem
e condenam o que serei ao cárcere do que sou,
quase poetisa e inteiramente dependente
da escrita
que por vezes me limita
e viro um risco: abismo

Eu, torta e volúvel
comparada às linhas de um diário
que suportam o peso cotidiano
do escritor
possuído pelo temor de viver
amadoramente o veterano amor

E por falar de amor
eu me declaro isenta de culpa
se amar é uma constante luta
é só olhar as marcas de espadas cravadas
nas laterais
do meu sorriso
no brilho já extinto
e no olhos tão perdidos no fosco dilema pessoal

Pertenço ao vazio sideral
e nada é mais infeliz
do que ouvir a tempestade gritar por piedade
em todo bairro da saudade
enquanto escrevo
a solidão
me ferindo suave

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Minha sanidade me leva à loucura

A noite uiva um apelo à Lua partida por amores naufragados na imensidão.
Os planetas somem junto às estrelas mais tímidas, o meu cigarro apagou antes do último trago. Não trago nada além de poesias desconhecidas. Vou morrer sem ninguém saber e quero apodrecer nas mãos de alguma autópsia minuciosa: isso é caso de prosa
O amor não é pra mim, ele é dos outros e só dos loucos. Eu tô lúcida a ponto de recitar o meu epígrafo plagiando Poe, Kafka e outros depressivos. Ah, sabe-se lá se a vida dá a volta e me transforma em uma verdadeira poetisa...
Por enquanto eu só escrevo a solidão que me escraviza
O frio ressecou o paraíso, só nos resta essa fresta infernal de vida.

sábado, 13 de setembro de 2014

Lobisomem

Se a Lua crescer mais do que os meus sentimentos, 
você vira lobisomem e me consome 
na caça furiosa do amor tão germinado 
por suas melodias à meia-noite
A noite partiu-se ao meio depois de tantas partidas
as quais me partem e só a sua metade tão 
incompleta pode me fazer discreta 
ou então seleta visto que apodreço de paixão 

Se você prometer me ensinar sobre mitologia 
e outra língua estrangeira 
eu te derramo a poesia
só para recitar com a língua na pele, 
te escreverei com a saliva
Nesse ritmo tão lento você vai descobrir,
eu sou seu parasita, 
quem vai diagnosticar qual a minha patologia? 
Espelhos já não me refletem tão bem 
quanto seus olhos carnívoros 

Você vai descobrir as minhas terras 
e invadir o território, 
me colonizar e explorar 
sem receios vai me mudar os modos, 
impor limites e me pagar barato
Vou me rebelar, te ouvir esmurrar a mobília 
e vai me chamar de ingrata 
eu só me rendo, te prendo 
e cá pra nós, eu te entendo...
Entendo como se na noite em que nos achamos 
tivesse te enfiado em mim eterno 

Vai doer 
você vai contar aos outros 
tão alto da dor 
vão te achar louco 
o seu sangue doce incansavelmente quente 
esquentaria as minhas faces sombrias
mas você tem anemia, 

Se a Lua crescer demais você me come do jeito de homem 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Flores de cemitério

Estou chorando um pouco de alma no escuro, minha dor se abre fúnebre como flor sem sol. Gira-sol, pois não aguento mais ficar parada na cama que deixa meus pés para fora no frio. Fumei um maço de cigarros para ajudar o destino com a morte, essa tristeza é quase elegante à noite quando borro os olhos com maquiagem e pinto os lábios com batom de sangue com o pretexto de silenciá-los, mas não me calo, grito aos copos o meu desespero e soluço no fim da rodada. Eu marco a lateral dos copos e os corpos com o sangue ficcional da minha boca. Estou alcoólatra de ideologias que não me levam a nada, e estou exausta de ler tantas teorias que não serão aceitas, filosofias mal feitas. Tenho vergonha de transar com essa poesia todo dia, então me consolo com alguns beijos ao meio-dia da prosa tímida exposta na melodia do sol queimando as minhas costas.
Você teme amar uma mulher morta?
Fumei pedaços do meu coração para ver se doía.

domingo, 7 de setembro de 2014

Transforme em rio a minha rima, Poetisa

Na minha rima eu vou rimar seus olhos
Porque seus olhos...
Ah, que olhos...

Vou te deixar translúcida só para te colorir
com os meus dedos curiosos
a descrever e descobrir cada espaço
de seu labirinto amedronto

E tão delicados são seus olhos...

Vê então as malas prontas e o coração vazio?
Vamos correr nesse frio de inverno
só para espalhar no ar essa gripe de amor
que nos deixará de cama
por eternas madrugadas e dias em chamas

Seus olhos queimaram a rotina que existia lá fora
e aqui dentro você chora
só para amargar a juventude não vivida

Assim você alaga a minha vida...

Chora, chora, Poetisa...
Seus olhos já fazem parte da minha rima

Coração não quer mais bater

Esperando por...
Um pedaço de vida qualquer
Que me liberte desse sufoco que é levantar e ter que encarar a própria ausência

Esperando pelo pedaço de afago nos olhos de quem eu não conheço
pelo gesto de amor no elevador, corredor ou no escritório
espero por flores simplórias dadas pelo moço do ônibus
que só me olha de lado e me suspira,
mas se sorrio, paralisa e me ignora
porque não acredita na chance de me ter na hora
pois passou da hora - já são quase seis

Aguardando...
Sempre olhando o abismo colossal arrebentar meu coração
tão desacreditado coração
que não bate mais
de tanto que apanhou


sábado, 6 de setembro de 2014

Escrevendo sobre a saudade

Faz um frio de quase nevar, mas não reclamaria da neve - leva a cor da sua pele
Eu só reclamo das olheiras, desses discos tristes, do par único de sapatos ao lado
Reclamo do incenso apagado porque você levou o cigarro e o isqueiro
Nesse frio de inverno no Rio de Janeiro, o cristo quase se encolhe
As moças viram santas com seus casacos, botas e lenços da moda
Eu estaria escrevendo a minha tese, pintando as unhas de preto fosco, lavando a maquiagem de outros carnavais do rosto. Não quero mais ficar na janela à espera da primavera só para poder te ver passar. Preciso te rimar agora, na sala, no quarto
ou na varanda onde pintaríamos tantos quadros no céu de agosto
A saudade ocupou o seu lugar na cama, no guarda-roupas e nas poesias
Você teme o fato de eu já não estar mais sozinha?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Você se identifica?

Ela tem aquela voz sem sotaque que derrete as minhas chances de negá-la amor. Aqueles lábios rudes não precisam se abrir para que eu decifre que ela tem sede de amar de forma degenerada. Eu não tenho preço, me dou sem que mova as pestanas, sem que ouse me discar o número. Quando me perco ao tentar decifrá-la, enxergo a minha fraqueza, o meu voto de devoção àqueles olhos apáticos. Leio todos os dias os versos que a salvam da morte, os apelos que faz aos céus e me desconjuro por não fazê-la feliz como tanto necessita. Não sei a causa daquela tristeza que a persegue, mas eu fugiria com ela para o Texas pois renunciaria o meu futuro só para observá-la sorrir pairada tranquila em minha fixação. Um temporal decidiu molhar o corpo leigo dela aproveitando cada pedaço de pele camuflada por creme de pera que hidratam pelos que não me acariciam, recitando com os pingos a poesia enraizada em sua face. Não compreendo sua letra, mas sei que escreve sobre dor quando a vejo curvada sobre o pequeno caderno azul no banco invadido pelo sol de todo dia, sei porque encena a cada estrofe o sofrimento, interpreta a rainha do meu tormento com suspiros sem fim.

Ela não é minha, mas quando me enxerga a consumi-la assim de longe, me pega o amor que custa tão caro em outras praças por aí. Leio toda manhã as poesias que não levam o meu nome e que nunca me terão como inspiração, não serei perpetuado nas palavras que ela usa como um amuleto, acho que ela é composta por medos...

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

401

Se me procurar ainda estarei no mesmo bairro cinza
com os vizinhos a protestarem o meu sumiço, os pés descalços
conta da luz atrasada e o violão desafinado
prestes a compor uma canção sobre partidas
para disfarçar o coração partido

Bebendo vinhos sem safra que me abrasam as paredes da alma
incendiando fotos e cartas profanas
sustando e molestando sonhos riscados da lista
me desfazendo da gramática e da poesia
como quem se despe de uma roupa que não lhe cabe

Eu não sei mais as cifras para poder tocar
e nem os rituais que me salvariam dessa maré de azar
não sei o que estou fazendo da vida
mas tenho certeza que não é isso que eu pretendia

Se por alguma razão você vier saber como eu estou
vai perceber aterrorizado que tudo desandou
eu me achava mais inteira
mas sem ninguém ao lado
fico perdida na fronteira 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O azul é da cor do inferno

Vejo através de lentes três vezes maiores do que os meus olhos exaustos a cor do seu azul se diluir ao toque do meu abismo. Assim nessa dança de cores a ausência de paz reina e só eu ilumino com a minha esperança de salvação. Se for bonito, quero estar sonhando agora enquanto te vejo através de um horizonte perpendicular, se desligando dos meus sintomas, respirando o ar saudável de amores estampados nos jornais. Assisto Tarantino e me divirto com o sangue a escorrer como esse sorvete sobre os meus dedos, e lembro de você escapando pelo ralo do banheiro depois de me esfregar pelos azulejos azuis... Efêmero azul...
Sussurro em seus ouvidos a minha frustração por não te fazer ficar, por te deixar solúvel mesmo sabendo que a tempestade viria ao amanhecer junto àquele azul depressivo... E, você sabe, me desculpa, a minha cor não está na aquarela.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Desvarios de madrugadas insônias

Há um bicho que me dá medo quase tocando a parede
Ele não tem olhos e nem sabe falar
Mas fica pairado enquanto escrevo
Se por acaso eu não acordar
Procure atrás da porta
Debaixo da cama
Na gaveta da cômoda
Ele quer sugar a minha alma
Ele roubou a minha calma

Tem luzes piscando no quarto
Do outro lado da janela toca Mozart no rádio
Agonizando os meus pesadelos
Não ouço passos porque ele tem medo
De ser visto
Mas eu o vejo

Ele tem a face mais horrorosa que já vi
E não tem coração
As luzes estão ficando fracas
Sinto um peso esmagar as minhas lágrimas
Silêncio
Por que isso não acaba?

Tem um degenerado borrado de ódio
Se alimentando do meu desnorteio
Ele dorme sob os livros
Observando o crescer do desespero

Ele sabe que tenho medo
E se descobrir que não gosto da vida
Estou sem saída
Trancaram a porta
Eles acham que nasci morta

*Tornam-se frequentes as vezes em que me deparo com essas imagens no quarto, é tão real que quase posso tocar. 

domingo, 24 de agosto de 2014

Impression, Soleil Levant

Você me faz lembrar daqueles contos os quais eu te incluía sem nem saber seu nome, seus pseudônimos eram dos planetas esquecidos por astrólogos lúcidos. Esses seus contornos são mais complexos do que o meu pincel pode suportar, fui te pintar e só fiz poesia. Não te espero na janela, nem te ligo de números interurbanos porque você se assustaria com a minha psicopatia. Eu fui rejeitada nos exames psicológicos, meu bem, você sabe que eu não sei amar por pedaços, mas te confesso que não quero ser inteiramente sua. Sou da Lua pregada no céu a brilhar meu corpo nu que te canta uma canção de dor... Sou a dor exposta em ateliês fechados, no tumulto urbano e no chuvisco guardado em seus olhos maquiados por essas olheiras boêmias.

Hoje eu preciso dos seus lábios me profanando, dos hematomas e do álcool mais sórdido pois amanhã eu não vou te querer nem se estiver pintado em algum quadro impressionista de Monet.

*O título é o nome de um dos quadros mais famosos de Monet 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Helena

Helena bebeu todas as minhas lágrimas e se embriagou de amor próprio
Marcou os livros com as digitais suadas e de fotografias lotou o meu quarto
Ela gritava o amor de plástico que não se pode reciclar
Pois ela sujou a minha vida
Helena rasgou o meu passado com um simples beijo engoli(dor)
- acho que continuo dentro daquela boca com sabor de fruta -
Ela me usa, abusa e transfigura
Eu não tinha esse rosto tão amedrontado...

Helena,
Que dor, helena!
Como dói recordar aquele sorriso místico de cartomante
Junto a olhos faceiros de luneta para mirar a minha sina maldita
Desvendando meu destino nas cartas de um tarot
E logo eu que não sei rimar o amor
Estou aqui escrevendo na poesia essa dor...

Epílogo

Às vezes acho que ele possui mil personalidades
Todas me possuem em frequências equívocas
Doei-me a esse amor em ruínas
E o pouco que me sobra eu alimento a sede
Que vem da fonte daqueles lábios traiçoeiros

Sou suspeita a renegar o meu destino platônico
Mas não precisa ser vidente para prever a catástrofe
Que é estar naufragada nos terríveis olhos dele
Nas digitais
Hei de me erguer algum dia das cinzas
Quando o amor nos queimar a despedida

Edifico a esperança de sair sobrevivente
Mas moldo com as palavras vacilantes o meu epitáfio
Pois temo morrer sem dar voz a nós
Temo herdar em outra encarnação o silêncio desse amor medonho

Roubará as minhas dádivas
Furtará as lembranças que já nem sei se existem
Com o intuito de que eu vire discípula do seu passado
Às vezes acho que sou refém desse amor hediondo
Às vezes tenho certeza

sábado, 16 de agosto de 2014

Só não repare na bagunça que eu deixar em sua vida

Meus saltos vão tocar o réquiem da nossa incansável despedida no calçadão bordado de Copacabana e cada estrela que quiser dormir em seus cabelos negros por pura diversão, saberá um pouco do abismo que meus dedos constantemente enfrentam a te afagar. Não é Godard que vai traduzir o nosso amor em tela plana, e Caetano não te deixa tão manhoso quanto as minhas ameaças de jogar tudo para debaixo do sofá bambo da sala. Você quer o meu amor a varejo e eu sou o maço inteiro, o bordel vai te lembrar que nós mulheres somos puras e carnais e veja nossos carnavais intrínsecos… Eu sou gerúndio até no espasmo, na contração da íris e no indo… Sempre passando com roupas que não me tapam a alma. Ouvi a garoa que vertia dos seus olhos cismados na rádio do bar mais próximo ao meu festival, e sei que você me recriminaria por exibir sua vulnerabilidade assim em prosa, mas eu te convidei ao samba só para tirar esse seu sotaque de não me querer exposta.

Eu vou te melar com a minha cidade tão perigosa, vou te violentar os planos só até o sol desabrochar atrás de algum prédio de vinte e cinco andares, assim eu te colocarei no ritmo carioca para ver se você entende que meu coração é bossa nova, só pertence às madrugadas tocadas na viola…

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Estaria voando em sua boca se possuísse asas

Quem sabe agora eu não te escreva a poesia da qual prometi
pois o seu cigarro me queima os dedos
junto a essa barba que esqueceu de crescer
e apenas brinca a infância na sua pele exaustivamente dourada

Você me segue aos becos e bancas em que me meto
só para rastrear os medos
e me salvar até fazer o coração chorar
porque caio em suas armadilhas

Na praia a maré carrega as histórias que não viveremos
e leva para ilhas desertas
até se misturarem com a areia singela
para enfim solidificarem nossos nomes lá pela primavera

Se você ajeita seus lábios miúdos desse modo suicida
é porque sabe da minha tristeza contagiosa
e o meu sangue impuro carioca
mas não se nega a querer me beijar

Moreno, eu gosto é de amar...
meu fetiche por amor é mais infinito do que o mar
os números, as galáxias e o céu da sua boca
(que ainda não provei pois não sei voar)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Coração urbano

No tumulto entre a estação de trem
e o meu coração
ouço os passos a baterem forte
no compasso da canção

sobre cansaço ou fracassos
isso não vem ao caso
se o caso for de amor

Vou cruzar espaços que me afastam do ópio
só para esbarrar no homem invisível
que se veste da solidão
e mexe com meu - já tão citado - coração

Vou escorrer por esses rios esquecidos
só pra te seguir com o olhar
Despirei o seu perfume amadeirado
com um rebolado
eu vou te deixar usado

Sobre esses amores platônicos
Vou me perdendo
em cada esquina que sou deixada
porque os olhos já não são os mesmos

Reparei na solidão
sou mais uma amando uns ou outros
nessa minha multidão

Eu não quero acordar e sentir que já passei por aqui

Cadê a escrita que existia em mim? Meu corpo em brasas diz que continuar é preciso e o estímulo daquela tarde melindrosa me impulsionou a sorrir. Sorrir com os lábios de serpente, desacreditada e sem veneno. A garrafa de vinho me contou histórias profanadas a cinco ventos, sei dos segredos da noite que se aproxima sem permissão pra entrar nessa casa de poeira esquecida. Eu estou cansada de diálogos fúteis à beira da cama, dos olhares nas ruas que não se esbarram para contar um bom dia. Preciso de um motivo pra pegar meu corpo e soltar no ônibus lotado de passageiros, de pessoas que passam, não quero estar de passagem novamente. Quero entrar na vida de alguém, daquele rapaz que se esconde atrás da barba que espeta minha curiosidade. Eu preciso de um motivo para escrever qualquer merda que me liberte dessa escrita porca. O boteco está me esperando, o seu Tião não virou engenheiro, o trocador do ônibus não quer mais tocar na dor de quem precisa acordar tão cedo. O que sobrou de você, Armando? Cadê seu sonho de ser roteirista? Onde foi parar a padaria que vendia doces no valor de um real? Pintaram o amor de cinza, venderam o circo e construíram um prédio em cima. E eu, eu continuo a repetir as palavras porque a rotina sugou a minha criatividade, esmagou as minhas chances de virar poetisa. Comi todo o doce de leite que estava na geladeira e chorei as mágoas pensando que a lágrima derreteria o açúcar para que a glicose saísse das minhas veias, a adrenalina me faz beber o vinho que agora já se emudeceu. A rua está muito violenta para eu sair de saia curta ou com a ferida exposta, a chuva está chegando e o sono também, só quem não chega é o motivo que eu preciso para acordar amanhã sem chorar (...)

domingo, 10 de agosto de 2014

XXI

Sonhei com a poesia que eu acabei não recitando
pois você não se interessa por poesias
e todas essas coisas ultra-românticas que te rimam;
tem medo de todo esse devaneio que é te colocar em prosa
porque decorou que nas palavras eu te idealizo, você não gosta
e sabe da minha moléstia que é te reinventar a cada madrugada chuvosa
No sonho eu te borrei com as palavras perdidas entre os lábios
mas se me beija eu deixo em sua boca um pouco de conversa
só porque na nossa estória eu não tenho pressa
Perdida entre as ruas que não me levam a seu destino
conto aos grafites a dureza daqueles que não te conhecem
pois quem ainda não te viu sem essa fantasia
não penetra na verdadeira poesia;
ela está em sua realidade tardia...
Eu toquei suas mentiras, seus segredos e me vi cavada nos medos
porque o amor é tão medonho e enfadonho e tristonho
que rimo as palavras só para te escrever mais bonito do que no sonho

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Arrisca e me risca em seu corpo

Cuida bem do meu excesso de paranoia
dos quatro mil sóis que acharei enterrados em seu cabelos
das metáforas que forem criadas só para eu te fazer único
não só em meu coração
mas também nas minhas poesias

Cuide das minhas e suas futuras rimas!
porque só sei fazer versos repetitivos nessa vida,
porque escrevo com meu sangue, a língua, as tripas
cuida da minha falta de tamanho não só por ser pequena
o mundo é grande - me engole
Devore-me você com essa boca tão misteriosa
só não me cuspa, me degusta...
faça dos meus restos a sua ideologia, sua culpa

Se você compreender as minhas entrelinhas
e se propor a caçar comigo as estrelas no céu-da-boca
eu dedicarei a Lua escondida em minhas costelas(ções)
só para te assistir dormir em cima dela

E, se você quiser cuidar da minha confusão,
eu te darei um amor de poesia e fantasia sem refrão
Transformarei meu exagero em seu codinome
trocarei os vícios pelo suor ignorado que te consome

Eu te darei aquele amor eterno ainda não cumprido
Só preciso que você (ou alguém) se arrisque a me amar
pois sei decorado que vocês temem a minha doença...
Minha doença é só o amor... ninguém se arrisca...

*manual de instruções do que eu preciso

Por que ainda escrevo sobre o carteiro!?

Contei os passos que ele daria até a padaria e voltaria só para vê-lo outra vez. Não quis olhá-lo nos olhos para dizer o trauma que ele me deixou de amores platônicos e ruivos ou carteiros, só precisava saber se meu coração ordinário bateria algum solo descompassado

Um dois três, cinco... Sete... Ah, perdi as contas
Ele me sorriu tão calculista que penso se não treinou antes no espelho embaçado do banheiro sem tinta, se não fez isso com outra gurias... Balançou a cabeça quase tímido, com a delicadeza do bater das asas de um tristonho passarinho
Agora ele deve achar que sou psicopata pois eu não sabia fingir que estava esperando o sinal fechar a quase vinte minutos. Exatamente dezoito minutos, oitenta e sete passos... acho que perdi as contas, lúcidos dirão que perdi algo mais sério do que isso...

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Sinopse

escritores como eu morrem sozinhos em apartamentos escuros com o coração aceso. se te assusta falar sobre a solidão é porque você não viu a minha parede, as olheiras que viraram tatuagens, a minha imagem esquecida no porão.
escritores como eu sabem que não existe nada mais sólido do que as palavras
o café sem açúcar retrata a minha escrita, minha biografia 
se essa vida te parece um erro é porque ainda tem
coração sem medo
E sem medidas
porque transbordar é poesia 

domingo, 3 de agosto de 2014

Usurpando nosso caso de poesia

Assusto-me com toda essa poesia que usurpo de você,
das recordações ínfimas e do aroma que me pego a sentir distraída
a fúria da nossa rotina embrutece o seu sorriso
mas se continua comigo eu broto a felicidade que te faz de abrigo

Dar-te-ei o que quiser
pois tiro de suas páginas o que lubrifica os meus versos
só peço que me ensine a te amar mais devagar
já que tenho pressa de possuí-lo até enquanto sonho
e sonho por nós! pelo nunca...
para tê-lo presente não só na realidade que me machuca

Você sabe dos meus arranhões
e dos abismos que se estendem entre nós
mas se me evoca com seus dedos: a poesia acontece
da forma mais lírica
até que o sol paire em nossos peitos estufados de dor
e o calor nos lembre que tudo isso
só pode ser caso de amor

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Deixa que eu durma em seu leito triste?

O vento que geme carente no meu quarto anêmico sabe dos segredos das nuvens. Navego nas estrelas a solidão das constelações, o céu sem cores à noite anuncia a própria depressão.
Por que não notaram que o céu está tão triste?
Será que não ouviram o choro que desaguou noite passada em minha sacada?
Se está cansado de ser tão só, te ofereço a minha companhia. Ofereço-te a minha insônia, o meu cansaço e alguns tragos do cigarro barato. Não se ofenda se amor eu não te trago, o amor se esgotou mais cedo do que eu preciso acordar amanhã. Não irei dormir! Hoje você me tem aqui, sentada sobre a minha vontade de sumir
Sumir daqui pra morar contigo, dormir eternamente enquanto não chega domingo...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Fases incontáveis de uma loucura

Assino impávida em todas as cartas amassadas minha insanidade
com letras que você julga ilegíveis mas são códigos
para adentrar na minha gruta de obsessões e falácias
tão ricas de lirimos e carentes de realismo

Vão dizer que minha paranóia é culpa dos signos
desde um parto prematuro levo no sangue e na matéria
o escorpião a me envenenar a sorte, a tontear os homens
que se apoderam de lascívia ao saber que tenho esse zodíaco quente
mas desconhecem o meu ascendente

Aceito as minhas lástimas com gosto de vinho tinto nos lábios
só para fazer jus a toda astrologia que corre pelas veias
e artérias que me bombeiam forte o coração malicioso
que toca um ritmo vicioso

Sou esse verso sem romantismo que você lê estampado nos postes
e por meus viadutos passaram ilusões tão rudes
que me vesti de mulher madura
só para enfrentar violentamente a rua
enquanto grito forçando os pulmões doentes que não sou sua

Eu sou da Lua que é sujeita a frases intermináveis
de fases incontáveis
e amores incansáveis

Vê como isso soa tão dolorosamente poético?

Meu chá é de hortelã

Há manchas de batom, chá e caneta por todos os lados. Há pedaços de papéis e amor voando pelos ares com esse vento de inverno desnorteado. Escrever-te me arrepia mais do que sair de casa semi-nua no meio fio da rua, mas não quero me recusar a dar-te um nome. Por acaso você já reparou nas coisas lindas que os homens me dizem?
Nós não daríamos certo porque você não leu as minhas prosas, os meus anúncios, as cartas que deixei abandonadas no quintal da sua casa. Nunca seriamos porque eu preciso de um amor que me cante no domingo e me leia nos dias chatos e escreva poesias comigo no feriado. Preciso de um romance que asfixie o meu sujeito porque estou cansada de estar tão exposta, você não nota?
Não se dá conta que choveu e necessito que você se molhe para esclarecer que minha tempestade não foi em vão? Quero ver sua doença escorrer pelo meu rosto recitando um amor paranóico. A tempestade já cessou.
Você não nota que preciso compor músicas sobre uma obsessão?
Assim tão morno até meu chá é mais interessante...
Assim tão sóbrio você não merece um nome próprio

segunda-feira, 28 de julho de 2014

XIX

Nascida dos retalhos de uma noite mal dormida
do coito errante de um amor desnaturado
fruto de um equívoco
Mas veio certa, íntegra
com sede de viver até gastar a fonte dos riachos
até cansar a sola dos pés de caminhos sem trilha
Perdendo-se e
descobrindo novas regras mentais
debruçando o corpo em chamas na sacada da alma
para inalar a mais pura liberdade conquistada
Da própria solidão ela se possuía
mas no fim da noite não pertencia a nada - nem a si mesma
Deleitando-se de camas e espaços vazios
aproximando-se ligeira do íntimo e vulgar
colocando o coração em um altar particular
pois amor não poderia faltar


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Escrevo em devoção ao seu nome

Vejo que carece de meu colo amante
Como quem necessita de ar para satisfazer os pulmões
Ou de morfina para aliviar o martírio
Seus olhos impávidos denunciam o amor que me venera

Nasce a aurora com o grito de morte
Se misturando ao porre noturno que tomei em seu nome
Minha boca entrega o cigarro que traguei por ti
Na busca do seu fim em meu enredo

O cárcere perpetuará seus sinônimos em minha pele
E não precisa ser sábio para desvendar a sua prisão
Não em meus versos crus
Mas em meu peito mórbido

Julga-me culpada de toda a nossa incompreensão
E se maldiz por amar até meus sórdidos defeitos
Beija-me as lágrimas que dóceis estampam a face
Indagando aos ventos o meu padecer

Se eu insinuasse que os olhos não falam você me amaria em silêncio?
Já não posso contar as primaveras com as folhas da margarida
Porque murchar no final da tarde revelaria
Que eu bem-te-quero
Mesmo depois que passar a ressaca de poesia

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Acho que te perdi sem possuí-lo

Você vai fumar aquele cigarro preto com gosto suave de menta e lembrará do meu rosto envolvo por nevoas e sorrisos fáceis. Eu vou lembrar de seus modos educados de me seduzir, da sua barba me alisando um carinho que necessito agora e do sabor da sua boca mentolada. A verdade é que você se envolveu demais nas minhas prosas e se teme uma paixão fora de órbita, não deveria me chamar pra sua casa. Quando fecho as pálpebras consigo pintar aquela vista da praia de Botafogo, me cantando e soprando e recitando prosas a partir de cores serenas. Ah, se embarco no seu corpo você já sabe que vira música e te liberto, te expiro a validade. Quero te cansar com a minha insanidade, esses seus olhos pesados me captam real demais. Sei que duvida da minha saudade, mas se olhar no encosto da sua janela, verá que minhas cinzas ainda estão por ali. Você vai querer me amar quando lembrar dos monstros que achamos nas paredes, das filosofias baratas e de como nos encaixamos bem
Você vai lembrar que eu sou dispersa e que te perdi cedo demais...

terça-feira, 22 de julho de 2014

No domingo meus olhos borraram e o céu também

Os olhos dela borraram o meu domingo

As nuvens cinzentas anunciavam a tristeza do céu, logo choraria. A fumaça do trem me apagava nos finais de semana, observava os passageiros desinteressados, fazia sempre uma prece para que alguém notasse a minha solidão e se identificasse em meio àquele contexto fantasmagórico só para eu não chegar na parada final sem abrir a boca. Comprei um saco de bala por um real porque esse é outro pretexto para adoçar o fim do dia já com gosto de pólvora e cimento. Explodi na fila do banco, da padaria, na passarela do Flamengo, podia sentir o cheiro de bala na roupa. Seus olhos entre tantos eram rubros e cavernosos, devoravam as palavras do pequeno livro envelhecido que estava confinado amavelmente em suas mãos no formato de concha

Os olhos dela enfim tocaram os meus tão cotidianos, mas ela partiu mais rápida do que o trem. Seus olhos borraram o meu domingo, chorei o dia inteiro com o céu. Só fez sol na segunda, vez ou outra nubla na terceira.

sábado, 19 de julho de 2014

Serei completamente sua se fizer de mim seu lar

Embora banhada pelo suor de seu desejo
moldo esse receio de não ser completamente sua
seria tolice duvidar da minha entrega
mas quando você me aperta
eu sinto que me nega o amor
não o amor que está nos livros
o amor que almejo é puramente
a certeza de nossa eternidade

Escrevo sobre os seus adjetivos singulares
desobedecendo as regras de concordância
pois somos irregulares
inexatos e morro de medo disso
desse abismo que nos cavará à incerteza

Decorei as suas formas de franzir a alma
recolhendo-se pra eu não descobrir
os seus segredos
sussurrei enquanto adormecia
que serei somente sua
estava nua
só para te arrepiar minha verdade crua

Deitado assim sob minha cama
você disperso me inflama
me rogo a acreditar na plenitude
da paz encontrada em seu colo
e imploro calada
faça de mim sua morada
da mesma forma que se debruça em meu desespero
e dorme sufocando os nossos medos

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Meu corpo é um esconderijo

58. Descreva uma pessoa que você vê todos os dias 

Toda vez que acordo me debato com ela
me afogando de volta para os sonhos
porque ter que viver
é o que chamamos de pesadelo
e isso não nos desce pela goela

Nossa batalha matinal só acaba
depois que troco a roupa da alma,
aquela gasta pelo dia a dia
Que me pesa no corpo

O coração dela é tão negro quanto a própria íris.
Ela encara o abismo íntimo, os rasgos no passado,
e chora como veio ao mundo: sem querer

Nua ela dança e me convida, me paralisa e equaliza.
Como ela é bonita! Não falo da beleza que seca como uva,
refiro-me à essência que a canoniza

Todo dia ela me encanta com a mortandade
das folhas do outono eterno
refletido pelas suas poesias
que me desenham

Toda noite solitária ela me mostra a Lua
e me canta uma canção de dor
Quando olho no espelho
quase não acredito que a vejo
Curando as próprias feridas 
Ela está em mim 
escondida

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Sou tua pintura mais borrada

Teu cheiro tá em mim, estrangeiro. Consegue navegar no meu relevo se eu te pedir pra afundar em mim? Suas digitais borraram a minha pele de lilás, o meu corpo é o teu quadro, teu pincel. Você me olha de um jeito absurdo de quem me devora em pensamentos e não me importo em doar o prazer que tanto exalo. Meu suor carioca vai salgar a tua boca de saudade, não só de lágrimas vive um homem solitário

deixa que eu te faça cansar com a melodia do meu ritmo,
deixa o verão queimar a sua cama,
você aceita mais um beijo,
um cigarro?

Teu sabor me saciou durante dias, sei que por detrás dessa barba lisa você guarda segredos de outras mulheres mais saudáveis. Estrangeiro, nenhuma vai te escrever como eu te escrevo porque você entrou em mim naquela noite de estrelas tímidas tão fundo que só gozar dessa aventura sozinha seria total desespero. Deixe que eu te trace nessas linhas porque teu destino é mais incerto do que o meu caos particular, volte pro Rio quando a vontade de fazer arte em mim te sufocar

terça-feira, 15 de julho de 2014

Coração ateu

Se observar atentamente os olhos tropicais dela, verá que são feitos de gelo mas que se aquecem da mais firme brasa ao tocarem a sua presença. Derrete-se em estações frívolas por ti! Logo essa mulher que é cobiçada por mil homens mais valentes do que você!

Se tocar no íntimo dela sentirá o oceano revolto, a tempestade, as intrigas pessoais e os monólogos depressivos. Nos braços não só tatuou cortes, veja além dessa tristeza, sinta cada molécula que te implora pra ser amada. Ame-a com a mesma intensidade que você teme morrer ainda na virtude que a juventude o oferta, deseje essa mulher que te devora em silêncio! Evoque o seu coração ateu porque é demoníaco observar esse tormento que você se prega.
Seu medo vai te trucidar cedo demais...
Seu coração te levará ao inferno em terra...

sábado, 12 de julho de 2014

Temo que ele leia essa poesia

Temo que ele volte no meio da madrugada
Não porque a rua marginalizaria seu corpo desleixado
Mas porque temo que durma em mim
Durante mais outras noites cruciantes

Temo seus músculos contraindo-me junto à saudade
Esfolando o meu orgulho
Despedaçando o amor que auto construí

Já não entendo porque te(a)mo idolatrar ainda mais aqueles olhos
Acastanhados e simplórios
Envoltos por uma magia sórdida
Que o deixa com olheiras absurdas

Não me encaixo no meu medo surrupiado
De ouvir os discos antiquados no volume máximo
De reler os livros de Drummond
E cismar que cada personagem carrega o nome dele

Sou composta por batons borrados e temores que me escravizam
Ora, se me borrei foi porque sua boca não me acerta
Não mais suporto a espera
E confesso por intermédio de rimas incrédulas:

Eu diria sim
Sem temer nosso mais do que esperado fim

Os gringos e as moças cariocas não pagam o teu preço

Há todo um mistério nesse céu mestiço de cores que estampam os seus colares. Copacabana está lotada de gringos loucos pelas tais brasileiras de sorrisos fáceis e molejo doce na ponta dos pés e samba e bocas carnudas. Começou o inverno mas não cai uma gota sequer de água porque os santos sabem da fama que nós temos de tropicais, dá pra ilustrar os raios de sol nos cabelos das moças com seus copos de chopp na mão e o cigarro slim na outra. Sobe o cheiro de hortelã que vem da fumaça importada, da bala, da vontade de beijar um cara que tenha barba.
Em plena temperatura de 43 graus você ta lá debruçado sobre suas artes, trançando sob uma pedra dócil a corda, fazendo um novo colar. Disse com uma voz instigante que âmbar me curaria com um papo quase intelectual  'Ela absorverá a energia negativa, é indicado para pessoas com tendências suicidas ou auto-destrutivas.' Acho que lá no fundo você sabe que nada disso pode me curar, mas bem que sorriu de boca aberta quando eu disse que a tal pedra era inspirada nos seus olhos. 
Não para de chegar gringo falando sacanagem em línguas divertidas e vejo você aumentar o preço porque ninguém te dá valor. Os seus cabelos estão sujos, as suas roupas já rasgaram, a sua fala ninguém mais entende, hippie. Vem se jogar no mar comigo para gente se desfazer um pouco dessa tal energia negativa, me banhe com as suas pedras que choram o preço dessa nossa ilusão por vivermos tão só. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Marcha fúnebre XX

Poucos são aqueles que de teus lábios provarão o verdadeiro sabor da saudade. Poucas línguas traduzirão teu nome com o relevo da saliva. Chopin já tocou na minha dor, mas você lambeu, mordeu, sarou. Angustia-me saber que tudo aquilo que escrevo sobre ti irá ao pó comigo, não cabe a mim guardar os escritos que te enaltecem, mas é doloroso mostrar a minha devoção. Se os outros souberem de tuas curas irão pestanejar aos teus pés afinados. Eu sou a tua doença mais incurável, nua, intacta.

Se descobrem os teus encantos
eles vão querer te curar
desse mal que se
chama
amor.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Renascer seu inverno em minha poesia

Eu morri trezentas vezes em seus tons hostis de mármore
Recompus-me fêmea em sua ferida
E como fina casca me fiz de morada
Para pertencer puramente à sua pele usada

Falando de saudades a poesia se corrompe
Vira tatuagem
Se gruda à alma como parasita
Furtando migalhas de reminiscências

É só relembrar que seus olhos de Plutão
Levaram-me à astros
Para reviver que morei em ti outra realidade

Será que seu caos já destroçou a minha raça?
Já não pertenço ao meu sangue
Ao meu destino
Este universo planeja contra nós

Ontem o escasso inverno flagrado de seu peito
Camuflou a geada que me condensa
Derreto em suas camadas
Muito mais do que amadas por minha primavera

Você me disse manso que eu seria o seu fim
E se padeço no instante do agora
É porque ainda morro sozinha
Enquanto vejo-te fortificar no nascer da aurora

Transformei-te em poesia ou a poesia te transforma?
Espero rasgar seu coração
Para te colar nos meus suspiros ínfimos
E metamorfosear o nosso quase-amor em canto lírico

domingo, 6 de julho de 2014

Se te vivo nas palavras é porque te quero eterno

Mato você todos os dias com cada olhar que lanço sobre algum homem que tenha a barba mais cheia do que a sua. Mato você todos os dias para te ter insignificante dentro de mim, mato ate carregar um cadáver no peito. Estou sorrindo aos estranhos no meio da rua em plena luz do sol. Veja só com quem estou tendo um encontro, olhe o bar que dancei. Não volto para casa hoje.

Meu discurso está incoerente? Voltei a escrever todos os dias, sei como isso te incomoda porque me faz ser mais interessante. Não estou escrevendo sobre você, as minhas poesias falam sobre sexo e os signos. Acredito nos signos porque só eles conversam comigo. Acho que ao escrever acabo me conversando. Eu me com.verso.

Gosto dos pontos finais em demasia, isso tem algo haver com você. Conosco.

Gosto de dar espaço entre as frases porque é disso que preciso. Respirar mansa o equilíbrio que você me roubou. Consegue perceber o quanto isso é doentio? Estou te matando em mim enquanto te vivo eterno nas palavras.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Você guarda um universo inteiro no olhar

Seus cabelos só não são tão rubros quanto as laterais de sua face porque o verão desse nosso Rio de Janeiro castiga com um sol que te queima febril. Se eu não soubesse de sua natureza lasciva eu arriscaria um palpite de que sua palidez é falta de amar, mas sei tão profundo que seu peito já está ativo feito um vulcão e não é por mim que sou pequena brasa.
Marco as horas em que os ponteiros decidem o nosso encontro, o momento em que me perco e você não me acha porque já perdeu sonhos demais. Sou apenas mais uma ilusão batendo à sua porta sem maçanetas. Você permanece fechado enquanto eu me abro nessas prosas enfadonhas.
Conheço o seu cansaço pelos olhos tão pesarosos. Como não consigo esquecer esses olhos envoltos por cosmos, constelações, corpos celestes? Como pode um olhar conter o infinito e ser tão vazio ao me olhar te amar assim... tão de graça...
Não se assuste, meu bem. O meu amor não vai te ferir enquanto houver galáxias que traduzam o quanto a gravidade pesa sobre os meus ombros. Não posso mais correr atrás de você. Não posso mais te oferecer o meu mundo porque você pertence a algo bem maior: à perpétua infinitude de seu globo ocular.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Fiz esse último verso

fiz de mim tão pouca
tão pesada, dolorida
fiz de mim passagem
e acabei passando sem querer
fiz do meu corpo porta de entrada
de quem não tinha intenção de ficar
e acabei indo com cada pessoa que levava
vastos pedaços de mim
padeço pela eternidade do presente a falta do que sou
na busca incessante de ser o que te agrada

fiz de mim poesia e morri no último verso

domingo, 29 de junho de 2014

Sobre perdas e amassos

Oh, minha pequena, naquela noite de eclipse sentimental eu pude perceber que tinha te perdido. Perdi para um rapaz de ombros esguios, cabelos cor de bronze, que possuía uma fala mansa de quem sabe enfeitiçar mulheres mal amadas. Pequena, entendi que a havia perdido quando vi os versos que ele fez para você, o sacana sabia escrever malditas palavras boas
que até eu me encantaria! Não, eu não sou de elogiar quem fode a minha vida, mas eu não tinha chances naquela luta inútil cuja recompensa
era a sua paixão atrapalhada de menina, seus beijos amadores.
Espero com toda a veracidade da minha alma já corrompida que ele não te satisfaça a plenos punhos ágeis da forma como eu sempre fiz, e que no decorrer dos amassos fracos você deseje inconscientemente os meus dedos por debaixo da saia
e me ligue às quatro e quinze da madrugada. Eu vou fingir indiferença mas estarei às quatro e meia no portão barulhento da casa dos seus pais só para mostrá-la que eu tive razão, amanhecerá e antes do ultimo suspiro eu vou partir para ver o sol queimar o meu ego colossal,
acenderei um cigarro desfigurado e o jogarei pelo boieiro antes de tragá-lo por inteiro pois vou lembrar que você estará se contorcendo no sofá querendo um pouco mais da minha boca vaidosa.

Esperarei pela sua fraqueza que é maior do que a minha de não poder te amar amanhã quando eu também perder o tesão.