café e dores

café e dores

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Gula

Seu pentelho em minha boca
Vagando autônomo 
Virando espinha na garganta e prato principal 
No jornal há notícias sobre a cura da sua escoliose charmosa 
paradoxal ao peso que carrega nas costas 
de tanta poesia mal comida
Indigesta
Aguardando uma fresta

Bolo de festa e um chá de boldo pra atenuar o gosto de vida
escorrendo pelo queixo gerando um sorriso de gozo quase ingênuo
(Porém duvidoso)

As letras flácidas na sopa
e no seu torso um dicionário de sentidos 
foi traduzido pela língua não padrão
Seus olhos quentes como o inferno
Prontos pra assar as minhas maçãs do rosto 
deixando um gosto de desgosto 
na rima que te faço muda

A poesia foi engolida ateando fogo no verso 
trazido na ponta da língua 
Assim requentado
Tem um pentelho no meu prato

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Copacabana

Hoje é inverno no bairro.

São dez e dez da manhã e a quentura imprópria da estação que invade o espaço entre as venezianas antigas é quase o pretexto pra não te dar um toque sem que haja um contexto. Um toque que seja. Um toque que te invada a bermuda esgarçada por minha causa. Seu número não tenho mais. Um toque que te arrombe a casa. Os ossos. Seus pés intranquilos. Você calçava os chinelos e se arrastava pelo calçadão fervente como os seus olhos. Não falarei sobre seus olhos e nem do inferno. O bairro é preguiçoso e enferruja dentro dos porquês elaborados com a saudade que você me fez traduzir enquanto tomava uma gelada na Siqueira Campos. Aquela rua te traduz também. Exausta. Um cubículo. Prédios enfermos e um porteiro banguela que insistia em me sorrir quando voltava encharcada do choro salgado. Do suor que te impregnava o pescoço quando retornava das longas caminhadas no calçadão dançante do seu bairro hospedeiro. Eu não sei nadar. Eu não contei os minutos de apneia dentro das suas calças. É abafado. É rígido. O bairro é impróprio também. Siqueira Campos eu nem sei quem foi mas hoje é saudade. Hoje é inverno na cidade e o inferno perto do caos de sua íris é mais denso do que a estação em frente à sua janela. O metrô da Siqueira é sempre muito azul. Não vou falar sobre os seus olhos. Talvez sobre o gozo ainda em meu passado. Dos passos contados até a Barata Ribeiro pra mais um cigarro e uma gelada não é tão gelada assim depois de conhecer a Siqueira Campos. O barulho do vagão em despedida. O cheiro velho da saudade de um bairro insosso e invernal.

domingo, 16 de agosto de 2015

Morri sete vezes
Mesmo não sendo bicho
No colo de João

Topei com o céu no dia 13
Transei com os dedos no jantar
E deixei que a poesia escorresse
Pela mão espalmada

Aceitei a morte calma
Transformei a cidade sem alma em
um borrão com a caneta preta esferográfica

Tracei um hemisfério
Transa em cada verso
Narrando o inverso de estar
segura no colo mudo de João

Ninguém falou sobre as mortes
intermináveis do coração de
uma mulher
Ninguém falou do coração
Ninguém falou
João
Ninguém

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Aguardo

saudade
sambou
no meu peito
como se fosse tiroteio
no Humaitá
quase engoliu minha voz
meu seio em luto
as cópias das chaves e o barulho
de pés no tumulto

bateu
uma onda
de saudade
e dizem que está perdido
na cidade
o sonho
a fome
aquela vontade de apertar
os passos
aferrolhar as portas
queimar a ponta no jantar

saudade escorreu pelo
rosto pálido
viscosa
e grudou no cabelo
me arranhou as costas
assinando as poesias ágeis como bala perdida
achada
esquecida

a saudade ganhou sentido
foi traduzida
tragada
mantida na boca
no verso e na ardência da ferida acompanhando
os batuques do samba no bairro
Humaitá

quando você vai embora?