café e dores

café e dores

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

o verão e o verso ardem sob minha pele

quando a ladeira pede um pouco de calma
e a cor das fotografias perdem seu valor
é o pulso gemendo em silêncio
versos pingando 

a poesia vibra como um alarme
uma arma
um explosivo

o chuvisco cantarola
mesmo quando o dia amanhece neutro
e as plantas murcham
dentro de um pequeno vazo cinza
num simples relato de uma crônica malfeita

mesmo assim haja pulmão
os dedos
e peito
peito
só assim as palavras
os poetas
transam

e eu gozo com os punhos cerrados
ciente da fraqueza dos versos
enquanto o cimento da rua seca
sem que restem sinais de digitais
das folhas que despencam no verão

a poesia vibra como um alarme
uma arma
um explosivo

é nesse instante de distração
que o poema geme com delicadeza
e o último fôlego
acompanha o berro do coração
 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

hoje o temporal é um anúncio de choro em depósito no poema

previsão do tempo:
eu vou te ferir com palavras
e você vai me magoar com atitudes
o sol crescerá acima da cabeça
e as bebidas consumidas em dobro
não vão satisfazer nossa sede
mas a noite surgirá tão bela
que remediará qualquer enfermidade
ou desgosto estocado
e num sussurro levemente triste
vai nos convidar pra rua
ficarei nua
na cama no banco no papel em branco
tocando tambor com os pés no chão
soluçando de ódio
exclamando supostas loucuras
transando com o diálogo ausente
que permanece velado em nossas bocas
com gosto sutil de maresia
o sol reapareceria ainda maior
dia após dia
anunciando que a previsão
de chuva
é culpa do tempo nublado 
dos olhos
e saberíamos
que o medo da tempestade
é alegoria pro carnaval antecipado
de corações eufóricos
fugindo em marcha
transpirando
o mundo terá de assistir calado
nosso suor ensandecido
desfilando pelo corpo em fúria
enquanto a contusão implícita
mapearia o desapego
mesmo que tudo só seja um pesadelo
e as nuvens em luto não queiram chorar

domingo, 17 de janeiro de 2016

elabore um pedido

Expulso essa roupa com a língua
e rasgo com a saliva
cada tecido de pele distinta
me sentenciando

Descomponho
mesmo que seja extravagante essa nudez
a insuficiência de voz
e no domingo embriagues

Proponho um desalinho
encurto um buraco do cinto
assistindo as ondas das mãos
submergindo a frieza dos meus atos

Essa dureza das nuvens

Olha o céu antes de me amar...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

múltipla

novas maneiras de morrer
e as fórmulas não solucionam
problemas reais
toda forma de descrever
essa distração explícita
mas o jeito como as palavras
nada dizem
e se multiplicam
não alteram o sentido

é corrida essa poesia na rua
escrita com tinta
procura lugar seguro
presa no muro
discorrendo sobre a solidão
das palavras perdidas

alguns poetas pragmáticos
enterram numa folha A4
exata oração rimada
que justifique
parcela
do dia

e o trajeto do sorriso
impermeado por ausência
de sentido
segue o ritmo
sem que haja motivo
e novas
maneiras de morrer
tenham surgido

sábado, 9 de janeiro de 2016

o que você está fazendo?

46

sozinha
assistindo a noite
invadir a casa
o cão sobe no sofá
a goteira do chuveiro parece chuva
vejo a lua tão turva
parece ficção
ou obra de um Deus
que desconheço

troco de canal
a mobília da sala
roupas
e insisto no poema
tão solitário
quanto a lua
eu
e o cão

sozinha
crio diálogos
que viram página de um diário
deixo as obrigações pra amanhã
averíguo a despensa
vazia
morro no sofá
assistindo o dia
e dilemas
invadirem meu poema

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

seguinte

evitar a claridade
do óbito
apalpando a persiana
enquanto o álcool
suplica dentro da garrafa
passou da hora
de acordar
não tem roteiro
só um rodeio
de humanos
e carteiros
assaltos
semáforos
só para um pouco
na velocidade
do zoom
de meus olhos esfomeados
enquanto o cigarro
protesta dentro do cinzeiro
e as pontes
não ligam safenas
de um coração demente
a gente tem medo
antes de atravessar
no parapeito
a cidade sussura
que é hora
de saltar

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Uma fatia de paraíso na sintonia do inferno

Elaboro simplórios versos, temores anônimos examinam meu sono em horas de fragilidade e assimilo que o som dos passos são de partida. Aos pedaços decorei os sons, uns são mais firmes, outros sutis como uma brisa abafada de verão. Minha rua amanheceu vazia, toda gente que caminhava com os olhos enterrados no horizonte se dissolveram como as nuvens previstas pra hoje. Orquídeas murcharam dentro de um livreto fechado, recordei com ira da ventania que seu rosto fazia enquanto dormia agarrado ao meu corpo como um travesseiro. Quis cometer um latrocínio, roubar sua vida que ali, exposta, me pertencia, mas te assisti calada, com os lábios lacrados como se aquela cena fosse meu maior segredo. Envernizei cada instante do seu repouso em meu repertório de lembranças, e junto ao suor que grudava dois corpos miúdos, fui salgando sua boca com uma despedida. Você narraria meu desapego durante 365 dias, e encontraria um título pra esse drama atípico. Juntando os fragmentos você diria que falta peça. Talvez retorne inteira amanhã, espera.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

notar

vim.
caminho comprido e sutiã no armário.
mamilos apontando.
ponta na bolsa
e um calor impregnado na nuca mesmo nua.

vim sem armaduras.
com sede do líquido que sai de seus poros.
signos de água são perigosos. eu vim.
não deu pra quebrar o tempo de ir embora.

não deu pra cortar caminho. cabelo cresce demais.
a rua toda chamou teu nome. teu número.
eu vim antes do sol dormir. poesia. poesia.
vim o mais rápido que pude
você nem anotou.