café e dores

café e dores

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Busca

Deito atônita a aspirar tua tradução simultânea
Dedos profanando a gramática normativa
Dentro do padrão desgastado de roupa íntima
Como uma poetisa que desfila a caligrafia
Hei de desbravar teu corpo infinito

- À espera de um resquício no tom áspero da preguiça
Embargando o ritmo da língua evocado pelo trânsito das horas -

Tu retomaria meu gosto de ontem
Só com a fome debaixo do lençol macio
Tu seria meu acorde
O verso ébrio de um outono gasto
Como uma missão de morte e vida
Hei de desvendar tuas rimas

domingo, 17 de abril de 2016

à prosa

ouvi falar do riso solto mudo
e sobre as rodas de conversa que proseavam
sobre os amores, e olhe só se há amor aqui na mesa
pude ouvir o vento também
correndo chorando de dor de pressa
como se eu existisse à mercê do incompreensível
que bruto brota dentro dessa tripa maior
assim sem palavra bonita pros órgãos espremidos
porque é tudo merda essa vida esse ar
como se fosse preciso
ah, já nem sei dialogar
transcrever um boato forjado
no campo do analítico
já ouvi falar do riso quando no ouvido:

gemido

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Zoom

Novamente dentro de mim. Não vejo nada. Só eu, e me vejo assim, complexa, sem medo, introvertida, salobra. O calor é meu, o choro, suor, cílio, desce e cai em cima da lã do vestido. Água evapora, tristeza não. Tristeza é feita de outro elemento, então a gente tem que aturar até no sol, nos dias de mormaço e de bafo no rosto. É como diz gente pra lá e pra cá que amor é coisa pra gente dura, mas é cada uma que aparece assim como se fosse luz numa tela escura num quarto trancado quando aferrolho os olhos só com medo de ver. Volto, afirmo, existe medo. Talvez não esse que se vê, mas daqueles que só sente e esconde onde o coração esqueça. Memória é questão de perspectiva mesmo nunca tendo alcançado a minha; sei que é fácil falar, escrever, tentar criar prosa poética - sobreviver. Ponto e vírgula. Sobreviver não é. Quero ver rimar com a vida. Quero ver.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Há um instinto de fuga agindo sob meus dedos

Esfumaçando órgãos franzinos
Arquitetando ruínas
Ferindo o semblante entorpecido
Esse instinto me intitula carcereira
De uma fome que me consome

[Não existo]

Transita viscosa através da pele
Como dói o poema!
Coagulado no deslize pela garganta
Embargando o que nem sei dizer
Porque é belo e lúdico
Nunca ousei tocar
Porque é esdrúxulo e sublime
Mesmo que o céu casto persista mudo
Na neblina trancafiada dos olhos
Meu corpo é arquitetura dos versos
E dormita em plácido horror
À espera de um instante em harmonia

[Só encontro ao me perder na poesia]