sábado, 26 de setembro de 2020

núpcias

imagino que me olha enquanto o beijo dura 
a estética do lacrado que fura 
os olhos sem brecha,

largo como a manhã de uma festa 
ao me beijar me olha avisto 
meu corpo o cenário as núpcias 

vestida de relâmpagos,
assinalo o juramento 
porque me imagino nesse estado

e te juro meu caro,  
ainda que o caixão se feche 
não haverá beijo nosso que a morte encerre 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

os outros

analiso a beirada dos livros a fim de ver 
até onde eu cheguei

sonhei com o morcego-homem 
ele finge que ri

o outro está ainda em travessia 
os cadernos são rosas 

as mulheres com as suas analogias 
posam a cada 2 minutos 

grãos de areia na sola 
beijo frio de cerveja choca 

você me entrega os números 
num guardanapo fino

mas eu não me recordo 
como posso saber o seu nome?  

ainda tem o outro que se veste de carteiro
me manda áudio com a voz de um motor 

eu me aproximo outra 
esse meu outro passado 

ainda estou atravessada 
faz parte do meu linguajar 

diz que vai me amar como Adão 
ainda outros virão 

domingo, 20 de setembro de 2020

sábado, 19 de setembro de 2020

ele lambe o meu rosto 
aqui de baixo ele me parece maior 
ele me lambe sem calma
sem pressa 
tudo poderia ruir 
cair
mas ele continuaria 
sob o meu rosto
eu me reviro 
ele continua a me lamber o pescoço
ele não me deixa dormir
ele não descansa me tendo ao lado
tão fundo ele alcança com a língua
o meu nariz 
é tão macio o seu gesto sob mim
eu sou tão sedosa depois dele 
e sem ele eu não teria o mesmo rosto
ele dos olhos aquarelados 
continua a molhar o meu rosto
eu o afasto para ver a nossa reação 
quando abro os olhos ele está dormindo 
ao meu lado com a boca úmida 
o meu coração empoçado 
as minhas mãos escorridas 
eu poderia dizer que depois dele 
eu sou mais água, fonte 
mais gosto saliva sede
saciada, eu sou a boca que não para 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

não terá fé nenhum dom 
que me arranque dessa labareda
eu assisto o café na mesa
molho o biscoito
discuto sobre os filósofos
que ainda não começaram a sofrer 
esse mínimo tecido no inverno
as rosas de enfeite 
o gole de amor que você assiste
enquanto deita sem rancor 
é de pérola a boca daqueles
que se fecham dentro do poema 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

os poemas pararam no boteco
riram do escárnio
saíram sem pagar
na rua dos Cataventos
despiram com os olhos as pregas
das mulheres e suas saias nos joelhos 
era amanhecer
os poemas partiram para os arcos
trilharam sob os bondes 
passam rápido 
e quando se avista o fim da linha
os poemas nasceram 
1.0

chego à praia, coisa frenezi, uma tontura de chegar, subversa, digo, inteira imensa, de súbito De espuma grama e sal Bem que arranco uma âncora e nos pés uma corrente de corais me avança, bem certo que de espanto afundo de boca aberta. Gosto de gostar um gosto azul do céu do dia da praia, quando finca a cicatriz na cama da pele, faz sol que tem gosto de verão na boca Escancarada, quando a gente avança A distância fica maior, mas tem vezes que o gosto da terra é de um Açaí Maduro, e a infância um destino. 

sinto não ter chegado além do sentimento, e me sento indescritível por que Não poder tocar as palavras O mar amortecido, o que é que diga sinto muito. volto à imagem da praia ressecada, molhado a pele Em grãos macios, nuvem erguida embarcações, mais distante do que eu, o corpo. 

guardo no bolso o jornal aguado, e as letras uma fotografia 

o mar e as pedras, Duas bocas, os beijos aos berros de espuma e uma alegria me confunde com ? procuro palavras. sinônimo de tristeza é esmorecimento, e por não me sentir triste Acho que o sinônimo do meu sentimento não tem nome. mas decidi dar nome à praia e digo imagine Se a gente fosse dar nome a tudo o que encontra, Achei curioso que tivesse decidido dar um nome à praia e soube que era vontade de denominar o que eu sentia, e achando lugar nesse nome, acharia meu lugar no mundo Mania achar que no mundo eu tenha nome e mas não ache lugar  
2.0

que susto foi quando te perdi, e sei que quando digo que perco Falo da tua parcela tua fratura imagina praia Grão a Grão e tu o grão de metade da praia, então faz parte a gente se sentir partido, sentindo deserto em frente ao mar É que seu corpo foi lançado Então estou me perguntando E você? eu sinto lá no fundo 

as vezes costumo contar, fazer as contas perder as contas mesmo que, voltando à infância, tenha sido dispersa quanto aos números, mas eu conto os dias Quando vi numa notícia números maiores do que calcular nos dedos, vi os números dois mais dois ser dois dois, mas é que somando achei que dois números juntos fosse outra coisa, e tem dessas coisas que vão além dos números

4.0

(...)

5.0

sabe quando se descobre um cheiro novo, e sente mais do que dá nome, é feito assim que era a praia até que quis dar nome Os irmãos. praia seca, guela fluída Lembro de afogar de boca aberta, dizendo de um sentimento arenoso, desse estou móvel. quando o céu escorre faz tremor de acontecer no clima da terra uma depressão, mas sentir a firmeza da onda dá certeza, gosto de açaí na boca do céu criança. faz um tempo que não vou à praia, mas guardo na Bagagem espuma, e quando o som toca os dedos shhhhh

é que tinha cinco anos quando isso aconteceu E agora? pergunto é que me sinto perdida também. mas a praia de encontro e dava nomes e foi assim que soube Sentia um Sentir procurando palavras

TOMAR NO CU

pensar a poesia o meu sair comum
de si 
ou 
de mim?
essas palavras são muito oblíquas 
o eu confuso meu, É por acaso 
a gente? 
"encontrar o lugar" de onde 
você tirou esse? 
foi q eu esqueci o
o isqueiro
lembrei dos teus olho Largados na pracinha
e depois eu fui
tomei naquele lugar 

mas todo vinho é barato
se pensar no tanto de pé que me pisou
- é mais ardido com amor - 
dizia a placa 
EU NÃO QUERO IR 
usei muito
sem ter que dizer que to indo 
fazer meu drama pedir pra você...... 
sabe que não vou mais nada 
além de 

os cães uivam quando estão tristes

o segundo sol não chegou

a terra é tão redonda que você olha 

para mim como quem nunca 

tivesse voltado 

o chão se abriu dentro das lavas 

os elefantes não esquecem suas crias

morrem chorando

a fêmea come a cabeça do macho

as pontes caíram durante a corrida

ciclistas na orla

ondas destroem o vilarejo

e uma menina procura o seu gato

o gato está dentro de um bueiro 

descobriram uma fonte de vida 

no inferno de Vênus 

e na sua beleza a Terra

domingo, 13 de setembro de 2020

hora ou outra você viria como quem deseja me dizer querida

não vejo você a tanto tempo que não lembro seu rosto 

eu simplesmente não respondo de primeira e nem de segunda

hoje ainda é domingo e então talvez na terça já tenha algo para dizer

por enquanto paro para escrever, beber a cerveja e acender o cigarro

é muito pensar que terei algo como resposta 

uma das questões é que depois de tanto, e olha que nem falo só de tempo

eu me sinto bem em não lembrar que você existe 

mas como eu disse uma hora ou outra você viria como quem deseja 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

ondeavam acossadas nove estrelas
na pedra fincadas, acridez 
embebida sua ereta se inclina 
sob a minha guelra esperneada, 
sou o puro óleo dos peixes 
sabíamos pouquíssimo do nada 

ouço pelo buraco o roçar nádegas
tumultuadas, me coço a noite toda
vontade de te contar a minha ambição,
pensei que do colchão nós poderíamos
nadar até a primeira barca
sem nos soltarmos 
atracadas 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

esse título é provisório e mais uma vez eu não termino

João, eu falei dos corpos
do quanto os nossos são estranhezas
e o quanto nos desconheceremos 
dos espelhos sustos em banheiros pútridos 
e o cheiro de dentro dos dentes 
da pasta branca, de arder na cama
e eu mal citei as dores porque você sabe 

Sabe, quando eu me dei por mim 
eu me peguei rindo zombando fazendo graça
era uma hora que não sabia se dava tempo
se por acaso poderia voltar e sempre 
mas sempre me pergunto para onde 

E eu acho que eu não me dei por mim 
não completamente
foi um daqueles surtos vertigens
quando a palavra voadora da boca 
a gente não consegue se segurar 
a gente foge normalmente 

As mãos foram desenhadas 
para fazer carinho em você 
e eu acho que eu estou precisando disso
de ficar um pouco na sua
porque eu estou cansada, sim 
vê se me pinta 
e eu nem sei ainda se é hora de dizer 
se é tempo para fugir 
mas não tenho para onde 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

o corpo-vertigem da palavra-poética 

em si as palavras me saem sem forma

dizer 
te adoro 
sem deslizar 
no fundo das coisas 
retorcidas 

algo me escapou, 
mas olha a poesia  
soando mais simples alcançar 
assim a palavra 

algo do imprevisto 
fez gesto dentro do corpo
e eu fiz tremer o gesto 
feito se por espanto
arranhasse o mundo, 

revelar a delicadeza 
ainda no berço crescida,

você já viu a traça quando encontra a luz? 

e há quem diga sem temer 
que as cascas estão à venda 
que a faca é feita de corte 
que o corpo é estado 

você já viu o silêncio? 

quando os olhos carne viva  
a manhã em frente 
o verso se retorce 
inocupado 

ainda somos os mesmos ausentes 
que ousam sentir 
o pavor da linguagem 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

desumanização

fachadas, comum era ver o que existia 

do bangalô pendurado nas grades


imagens semelhantes, e ali ou na calçada 

seguinte qualquer que fosse o destino era capaz 


que o nome de flores miúdas na pedra soluçassem. Sol

acima dos


quarenta, sempre pintado. o céu está me


engolindo. afundo em sua boca.



6:54

se a natureza não me parecesse 
tão maciça
a essa hora do dia, 
poderia soar menos empolgada 
pelo fim do poema, 

essas frases tão frágeis 

poderia escrever para me sentir 
menos sentida, 
há um ouriço nos meus rins, 

parece também que uma caixa de alfinetes
está apontada para o lado esquerdo 
da cabeça
e a máquina 
as mãos, 
têm costurado as feridas do cérebro 

não sei o que tenho passado
pouco me importa agora
mas eu poderia sonhar 
eu poderia 
cair

à altura segura para descansar de uma vez 

poderia passar um infinito 
de carneiros
muito fofos
em cima do meu corpo

ainda a carne moída 
o almoço seria servido
e sobraria para o jantar 
o velório
será 
que meus olhos lembrariam
de fechar 
será que eu consigo
ainda dormir 

domingo, 6 de setembro de 2020

dê-me tempo  
sem a piedade de agora,  
assisto ao que vi nas cartas 
o que te reserva 

me dá um trago 
preciso me arrepender ainda, 
e não sei o que é 
ou nem preciso 
de mais nada ainda 

dá um tempo 
antes que me desfaça, 
até do disfarce entre nós 
aquele rosto plácido 
de quem nunca chorou 
parece finalmente 
que a minha hora chegou 
meus caros, Que hora é essa?  
verdadeiramente não vos posso dizer, 

pois não a sei, 
é uma hora imprecisa 
para mim ainda, 
no entanto, 
a sinto com a certeza 
nunca calculada 

portanto, meus caros
é a hora também da minha despedida, 
dessa fina certeza 
que me abate, 

e falo assim 
sem mais nem menos 
por temer não ter mais tempo 
para essas trivialidades, 

por hora, é um luxo 
poder dizer que escolho me despedir, 
mesmo sabendo 
que não sei 
O que será de mim agora? 

você secou a minha coragem 
de escrever uns versinhos 
despretenciosos, 

disse que eu era muito precipitada
e eu duvido que tenha visto 
o precipício 
com esses mesmos olhos meus, 

e me falou conselhos 
para me ver feliz,
mas você realmente acha 
que eu quero essa felicidade medíocre? 

não guardei mágoas, Cadillac 
o que eu tenho no centro 
da minha língua 
no meio desse calor e dessa falta de ar  

é o combustível que usei para te cremar 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

a solidão

não sei se ela retorna 
quando enxerga 
os meus olhos mais espertos, 

se ouve o coração na hora incerta 
dos dias marcados 
se se repete quando vê o rastro  
da minha alegria pouca, 

mas frequentemente segura 
pela mão me arrasta, 
me faz ter culpa e me ama com ciúmes 

por raiva do meu desejo surdo 
a solidão cospe ao meu ouvido farpas
 
há uma distancia tão funda que me faz ceder e alcançá-la, 
 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

o que sentir senão 
a previsão das amarguras

a boca na boca no pátio do mundo 
desocupo o nosso lugar

as crianças se foram 
para um local mais seguro, 

já passou da hora de você me dizer 
o que pretende depois de me dizer 
 
já viu uma lacraia regredir 
quando põe os pés no piso do banheiro? 

sequei até a sala dessa lama, 
o corpo pegajoso

é de extrema dureza 
essa relação injusta, 

a boca cheia de uns 
e o pátio vazio de outros 

longe da violência 
das suas palavras 

não me dizem nada,
e ainda pergunto

para onde fomos 
além de nos voltarmos contra nós?