quarta-feira, 27 de março de 2019

se curvo os meus lábios
acordo o silêncio
esperado pela manhã
da quarta-feira de pó
espero que me deixe dormir
solitária coberta de cinzas
é que acredito no retorno
essa lei do espírito
que nos faz recomeçar
esperando pela manhã
da quarta-feira de pé

quarta-feira, 20 de março de 2019

era esse o poema que devia te escrever,

esqueço completamente do próximo poema

entro mais uma vez
no beco dos livros
olho capa por capa
viro a página
encontro poemas
e me interesso pelo teu olhar
vidrado atrás da bancada
me importo com os livros
manuseio carinhosa
acho um jeito de colocar
uma nova pilha
e te encontro
com a voz ressoante
ao meu lado
nesse instante percebo o poema
declamado em valor de loja

segunda-feira, 18 de março de 2019

Devo te escrever uma música
ouvi falar que gostasse de poema 
de canto atravessado pela boca 

pela manhã sinto-nos
expostos em lápide 
bem detrás das madeiras na janela 
no portal da tua cama 

eu vi o sol raiar pelas frestas 
de algum lugar entre nós 
e as rachaduras do colchão 

devo ter esquecido 
que a solidez levaria para casa 
os bêbados e os sonâmbulos 
enquanto lembrava de acordar 

ainda sinto um cheiro indiscreto
por mais que não lembre teu gosto 
me pergunto qual teu nome? 

mas vejo derramar licor dos olhos
que crispam de alegoria? 
como se a madrugada 
tivesse espantado a quinta da rua 
e o sol deitado a repousar 

devo te ouvir o ronco e criar melodia 
Antes que cesse teu sono 
e decidas acordar 

sábado, 16 de março de 2019

não sei por onde terminar

não sei por onde começo
perco a visão dos olhos
através das lentes
que me olham
imagino quantos livros
ainda vou ler?
a quanto tempo
não notava que na foto
o olho tremia
e eu olhava pra algo
pensava algo
e os olhos não focam
iguais as lentes
acharam que era
um parafuso
a menos
não tinha controle
e que seria por demais difícil
ver o mundo
enfiavam pelos ouvidos verdades
nunca acharam que eu veria
perco a visão dos olhos
imagino quantas vezes
ainda verei os seus?

quarta-feira, 13 de março de 2019

águas passadas

se fosse chamar de mágoa
aquele sentir
seria mais profano e ultrapassado
não gostaria de brincar com as palavras
não com você
resolvo ir a outro assunto
na intenção de que não perceba
de que talvez tenha ficado demais
adormeço devagar no entanto a noite
estremecendo lá fora
aqui dentro você senta e toma café
como se nada tivesse acontecido
eu poderia dizer que não
mas antes de amanhecer
você aparece à porta
e diz que alguém fechou
gosto muito de você
e tenho aprendido muita coisa
espero que você também
é isso que acho que espero
além de nada
espero Godot e fumo um cigarro
não parei ainda
mas o tempo...


sábado, 9 de março de 2019

Frutos colhidos da poesia

aguarde este instante de luxúria
os pulsos da matéria aorta
o ajuste do relógio se premedito tua chegada
eu te inventei João?
vê da janela o Sol e o reflexo do passarinho
são os olhinhos
o calor mirante
devo ter criado teus braços em posição de cruz
o cheiro de gás e o anúncio de mais uma explosão
peço que me escove o rosto encolhido com tuas unhas amarelas
por espanto repouso o peito à janela
aguardo não apenas milagres mas ver teu rosto seco a toda partida
e o hiato dos nomes empalhados na fortuna do tempo
e a primavera pedindo reconciliação
leio teu poema nos gestos
sinto o calor da estação enquanto aguardo e queimo
chamo de febre o amor calado
chamo de amor o mundo no qual nos encontramos
e tua boca aberta repousada em um sonho
somos frutos colhidos da poesia 

sexta-feira, 1 de março de 2019

despedaçada

um poema de despedida
ou uma pós festinha
da night eu sozinha
dormi a tarde toda
mulheres como eu
pisam nas palavras
como em torres de pisa
no soluço
ou no som da meia noite e vinte
tem chuva que molha dentro
e tem aquele vácuo
dos embalados no gelo
tem também muita gin tonica
na caverna os homens
dançam até virar
insisto em dizer abobrinhas
tomates e beringela refogada
crueldade free
porque o homem fez demais
a gente se despede
como se fosse pedir perdão
mas eu não meu caro
eu prefiro fazer um poema