quarta-feira, 29 de julho de 2020

perdido

se eu te pego 
pago pra ver 

se eu te vejo 
pego você 

se tu me vê 
você me paga 

se é de graça 
eu cobro o dobro

se for a graça 
eu vejo toda 

mas só se tu quiser 
se você querer 

eu também 
se eu sou só 

o querer bem 
é por você 

meu bem querer 
a rima eu faço 

quase sem querer 
querendo é pra te ver 
entrar na minha 

então eu me perco 
os teus cabelos 
perdidos 
em meu travesseiro 

eu atravesso o verso inteiro
só pra te ver meu bem é só você 
só pra te ter só pra você me querer 

Elliott Smith

ouço mais uma canção que vai falar de amor
também da fama, de acordar com duas 
facadas no peito, sobre as drogas
inclusive sobre a vida

já faz tempo que não sumo
mas é por dentro

tem vezes que eu preferiria ser aquele broto
dentro de um capim-limão
fresca e adubada, 
o chão nunca me pareceu tão macio 

deve ser por isso que quando Bartleby 
disse que preferiria não
o homem que nunca olhou o muro
ou por fora da janela se viu abismado 

sejamos o que sois

quando anoitece não preciso ser mais nada 
nem mesmo agradar a ti 
não preciso de escadas 
ou parapeitos, 
nem mesmo aquele sorriso
por debaixo da máscara 
que nos dias mais sórdidos desejo 
não precisamos ir muito longe 
apenas deite um pouco
a viagem tem sido longa 
os dias são cumpridos 
mas as noites são nossas
não precisamos ser mais nada 
a partir dessa noite 
amanhã estaremos no sono das manhãs 
não precisamos de mais nada 
além do que somos 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

existe algo no poema que a gente deixou
de dizer, 
há no amor algo que a gente não sentiu
e que esquecemos de contar 

ainda restou mais do que 
esperávamos 
mais ainda 
do que o limite 
entre o que imaginávamos 
e nós 

o resquício da palavra ainda fresca

as viagens de laputa

vivo apoteóticos sobre o absurdo
por me entreter com os pavilhões diminutos, 
as ilhas remotas do grotesco
onde eu debato com as mãos flechadas
o roteiro da tipografia dos entretantos 

foi na meninice que eu saltei da razão, 
por entre os meus fantoches quis a malha
despir-me dos amuletos sólidos, 
a minha solidão pequena era bastarda  
a minha envergadura me fez mais franca 

o que faltou para o grande truque? 
melhor seria questionar os seguros, 
quanto a mim permaneci no abarrotado 
das bocas infelizes, queira me esquecer 
antes do astro aportar nesse covil

nessas horas permaneço ausente
mas ainda é muito cedo para a juventude 
eis que em alguma face, ainda que partida 
haverá o brilho descontado no silêncio
renascido do obsoleto gesto dessalgado 

Jonathan em sua biografia está morto e louco
que loucura é se banhar o lugar dos deuses 
nessa enfadonha garrafa de gin do portal 
eu ainda descobriria a região dos que amam
mas ainda é muito tarde para a velhice 






sábado, 25 de julho de 2020

Julho

você é como aquele palhaço preso
na parede solta que diz quem me fará rir? 

busquei em seus braços os picos
as aves em seus braços
o pouso da minha cabeça enxaquecada

e de tanto que o platinado do seu topete 
me fez abrir os olhos
de tanto refletir me dói te ver 

mas me sinto atraída pelas suas penas
bordado de pássaros perdidos 
ainda cavo o buraco pelo qual entraria 
(de cabeça) 

você é triste como a coca sem gás 
que se atirou pela janela 
no final de julho 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

rudimentar

tenha calma você não será esquecido, 
por mais esquisito que pareça
te escrever depois de tantas idas 

é permanente te amar nesse estado
ilícita, dormente, de versos moles 
sem a pretenção de reter seu retorno, 
mas ainda prezo que volte

não somente ao te investir em versos
mas no terremoto do toque do eco
quando passo as mãos em seus sentidos

parte do dom de apontar o inferno 
dizer que o frio não existe, 
que é tudo coisa dos olhos

os mesmos olhares de adjetivos 
indefinidos que você se refere na gama 
indiscreta dos poemas arquivados, 
dóceis meninos de mãos inquietas, 
as crias que você deixou pelos bairros
hoje navegam no rio da infância

a cidade nunca foi tão desproporcional 
desde quando algum de nós partiu
algo em mim 
sempre há algo 
                         indo  
me pedindo para ir
entretanto há algo em ti
                         vamos 
eu continuo sem saber quem voltaria

a realidade é que se estende entre o nós 
além de estradas a distância imaginada 
entre o cão e o gato

ou a figura de um romance que só
poderia dar certo se comendo
ou co-existindo 

tem dessas coisas paranóicas 
os românticos contemporâneos 
que se espelham nos livros,
e eu sei que você caminha sob os seus
por dentro da poeira, do seu relógio
sempre atrasado crente que haverá
tempo pra o amor, mas não esse 

o nosso você reservou apenas 
para dizer que amou daquela vez 
como se fosse a última 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

meu pequeno Cadillac enferrujado
o seu retorno em Saturno virá mais cedo
quando o mundo disser que nós da terra
estamos perdoados

eu disse que não viria antes de amargar
mas há quem veja o filme pelas lentes da câmera
há quem mova os pés dentro de uma camisa

e você, meu pequeno Cadillac enferrujado
fez tanto por si mesmo
e ao mesmo tempo nada
ao mesmo tempo em que você se afoga
a superfície se pretende mais rasa

você, e eu e o mundo
numa dança acasalada
em que os planetas diriam
ser o perfeito trânsito vulgar
a sua delicadeza devastadora me come pelos lados
eu me entendo no instante em que te revido com versos
você acha graça do meu tamanho no mundo
e eu vejo a sua boca fazer gestos obscenos 
como quem reza o pecado, como quem rói o prato
e eu ainda não comecei a te amar pela terceira vez 
mas ainda há quem diga que o amor é uma vontade dissimulada
se for por nós eu estaria além do verso te revirando a cama 
se for por mim eu estaria te amando de novo  
se eu reviro os olhos 
quando digo 
te amo
é porque não é 
tão simples
te amar
de olhos parados
de corpo fechado
te amar 
simplesmente 
sem me revirar 

domingo, 19 de julho de 2020

à F. Passoni - que não leia este e outros meus poemas

eu te amei no tempo das descobertas, 
eu te amava sem rosto, sem nos tocarmos
mas sentia de teus olhos o lançar
chamas debaixo das minhas pernas; 

foi a era da treva quando eu te amei 
esse amor do qual falo é uma espécie
de coturno e saia justa; 

e eu que sempre prendia o choro 
foi depois de ti - esqueci de não chorar 
e que eu decidi a desconfiar 
do que dizia o olhar
os seus, os olhos, omitiam as intenções 
sempre tão secos; 

eu te amava embrutecida pela pouca idade
aprendendo a amar errado, pois foi por ti
que aprendi a mentir meus erros 
eu aprendi a negar meus desenganos
eu até aprendi que sofrer era parte;

eu aprendi de uma vez a te amar e outras 
coisas mais, mas chega de mágoa - 
eu resolvi te escrever por lembrança
por reviver esse amar verde 
foi a era do trevo também; 

esse amar que surgia vermelhinho 
em tua boca, de sotaque interior 
das minhas vontades mais escondidas
foi ao te amar que descobri amar 
o corpo oculto das mulheres; 

foi ao te amar que descobri cores novas 
uma delas se chama Passoni 

espelhada

olho o espelho de perfil no quarto 
estou quebrada, 
não acredito na sorte 
nunca a tive, 
essas dores as tenho sentido
nunca foram novas, mas são 
a única novidade da minha vida, 
ainda tenho vontade de sair, 
mas não teria coragem, 
não tenho cara para vender por aí 
ou no seu quartinho de hotel,
não tenho grana, 
não tenho disposição para gemer, 
mal tenho dentes depois do siso 
acende o cigarro, 
para comer mal tenho estômago, 
mas tenho dores, 
mas não vou distribuí-las, 
se quiser deite ao meu lado na rede 
eu posso te contar sobre o início
você poderia ficar 
você pode se entreter no caminho
você poderia ter lido 
ou para mim ou para se distrair 
antes que eu me esqueça 
depois da dor estancar 
antes que eu veja 
o rosto no espelho estilhaçado 

sábado, 18 de julho de 2020

me agarre com as suas unhas 
não como quem procura uma pérola
no centro dos meus famigerados 
corais pontudos, tesos 
ou como quem com as mãos em concha 
prende numa toca o rato de olhos vermelhos

me agarre com as suas unhas
sim como quem anula as leis da matéria
e simplifica a dimensão de um átomo
em labareda rondando o espaço
ou como quem com fome beija o laço
e se permite a singeleza de um artesão 

me ame e agarre assim feito quem
uva por uva prepara um cálice 
e fermenta o pão
e passa o café na calcinha 
e alivia a dor do tendão
ame como quem espera a hora da minha partida 
como quem agarra o instante da minha chegada 

quinta-feira, 16 de julho de 2020

outra vida

queria ser uma grande capivara gigante
quarando na tarde
assim como uma Deusa 
na grama capinada pelos grilos, 
pelos demais em todas as frestas, 
toda festa sob a cortina dos dias amenos, 
todos os dias afiando os meus cotovelos, 
as dores primárias, meu senso de respeito
pelos carrapatos

ah se eu tivesse um cigarro para dar 
a esse pombo e ainda ter mais um para
fumar, mas o que me restou foi 
essa paisagem, a cabeça e a vontade 
de reencarnar no corpo de um escorpião 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

água fria

o coração da noite tocou o meu rosto 

revi os vídeos, você me parece  

descontraído, mais caloroso  

do que quando me tocou nos dias  

em que dizia de paixão como quem 

toma uma dose de jambu  

tomo a ducha de chuveiro pelando  

você quase derreteu no meu banheiro 

me dizia do banho gelado   

dos baldes debaixo da cadeira 

você tinha medo de que eu sujasse  

a sua cama, mas você viu o que fez comigo? 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

naufrágil

o tempo de ir embora já se foi 
agora eu vejo você redimir os outros 
a vela enferrujada do seu barquinho lilás 
entrando e saindo com a pressa de quem 
não tem nada e ainda assim puxa o cigarro
detrás dos ouvidos parando no meio 
entre a boca você inda reclama dos juros
o amor em suas mãos parece um bicho
que cheira a comida e volta pra casa 
quando bem quer você o deixa dormir
e ainda se diz amado e ainda se vê no reservado
com a mesma bulimia e o suor encorpado
o seu terno macio o seu roupão seco
senão a ilha a casa que nunca existiu 
aquele lugar no qual nos reencontraríamos 

sábado, 11 de julho de 2020

não é árduo dizer te amo
você abana o rabo com a força 
de um moinho abandonado na ilha 
- vamos pegue minha
mão está escuro nessa caverna
remeto ao muro nos 
separando da vida 
ou da vista de nós mesmos 
dependurados 
ficam as cócegas 
ainda posso sorrir sem alegria 
mesmo com a máscara grudada à face
mesmo enquanto digo te amar 
sem a intenção de que se acendam as luzes 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

(...)

quando me dei conta 
de que não é assim 
o começo do poema 

foi quando eu 
já estava nele, 
tive pressa para deitar 
mas tive tempo
de te abençoar 

da rua só posso percorrer
as palavras, 
desse arder que me dá 
nas narinas, 

penso no pulmão 
eu que não
digo não, 
e nem coitado,
devo admitir

e eu que entrei no quarto 
devo chamar
assim 
as cortinas 
parecem me levar para 
dentro do armário 

do beijo que te dou 
com os olhos arregalados 
a cena 
que amor 
gostoso o mundo acabado 

não está nada bem 
é o que parece 
o mundo dizendo o meu () 

até que abrir o leque 
é mais ocultação 
do que

e eu que ousei dizer 
Não é sim mais 
uma vez 
eu não sei mas 
quero parir 
o verbo entre nós 

nunca vai ter fim \ 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

estrela

por onde for ela me enfeitiça 
despretensiosa, me queima as costas 

eu me garanto em sua passagem 
busco agarrá-la mole as mão 

por medo de que fuja do parque trôpega 
na estrada esqueça a mim 

mas não poderia deixar de assumir
o medo é meu de ir 

antes do balanço desocupar 
sem me despedir, novamente 

sem beijar a sua mão sem dor 
mas ela me segue por onde for 

me pretendendo livre 
de corpo, me balançando até cair 

sóis em desalento

vim só aqui para te ver 
teu rosto arroxeado
sem saber se está de bruços
ou debruçada sob meus olhos

vim saber se acordou ainda morna 
e te descubro a chamuscar pulmões 
a me tocar do outro lado da ponte 
daqui te vejo brilhante 
mais exposta do que uma pintura 

aqui dentro você lateja 
com a força de um caminhão na estrada
mais potente do que ontem 
e te revelo ainda dormente 
apontando no caminho o universo 

você me aparece como sempre 
com as pontas esticadas 
a boca portando uma fornalha
e me esqueço a que vim 
se não o pó das horas dos sóis 

domingo, 5 de julho de 2020

mãe, o que fazem os barcos ressequidos?  

e o pouso de uma árvore ? 

as sementinhas maduras a estação o que transforma?  
 
sei que fui muito longe, que triturei o sal das amígdalas

que muito pouco é a chegada, mas que eu ainda nos pergunto

por insegurança das respostas do mundo, pelo medo de o quê a quem pergunto

mãe, quando aportam as respostas? 

ainda durmo com o dedo à boca 

sábado, 4 de julho de 2020

escrevo a despedida antes de até logo

investiguei seus olhos 
debaixo dos panos
mesmo debaixo 
de lenços de cetim salmão
você se mostra desconfortável 
algo naquela cor me traz a calma 
não bem-vinda em sua boca

lembrei de quando me pendurei 
na sua janela recitando poemas
você previa a minha queda 
de um lugar privilegiado
vi teu olhar aguçado 
diferente de agora 
ao me ter em segurança

há no perigo das alturas 
a paisagem que você aprecia 
há algo no instante de ir embora 
que você espera de nós 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

o véu ainda sob os olhos 
quem esperasse no altar 
talvez não visse a vida daqui 
desse banco da vida 
em que as expectativas
são apenas detalhes 
o tempo era o próprio respirar 
das folhas que nascem longe da árvore 

In papéis avoados 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

guardei todo o meu apetite para o verão desse amor tardio

ao ser criança costumava curiosa 
passar a mão pelas suavidades 
das coisas espalhadas pelo mundo 

foi quando uma certa vez 
numa pracinha em Copacabana 
ao tocar a pena de um pombo 
a chupei feito quando faço 
com as palavras até enxugá-las 

depois disso cresceram três caroços 
no meu pescoço 
e eu me dei a sentir adoentar 
a euforia foi tanta nessa época 
que acostumei a dormir demais 
feito silêncio de túmulo 

e foi quando eu tive que tomar leite de peito 
na mamadeira eu tinha acabado de secar 
todo o peito da minha mãe de angústia também 

depois os tempos foram voando 
mas a pracinha continua enferrujada 
ou seria avermelhada 
pela luz do dia das tardes da infância? 
agora é mais vazia ou sem zelo sem minhas andanças 

talvez a rua esteja menos acarinhada 
agora eu só me afasto do mundo 
e sem jeito desvio dos maiores afetos

o peito da minha mãe foi ficando mais 
e mais seco cada vez e eu acho que o leite agora 
é do sabor da lágrima que eu não consegui evitar 
com a minha língua 

só o que mudou é que ao invés de chupar 
as penas dos pombos eu os confundo 
com as aves migratórias