café e dores

café e dores

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Aos pés do altar

Tomai, deleita desse corpo
Santo fruto de formas
Transforma no ato
Deforma

Bebei até engasgo
Pasmo enfia o gozo
Boca à fora
No grito

Agrido teu sopro
Em susto me visto
Tornado zumbido
Pé do ouvido

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quase não tenho você em mim

Ainda fumo aos fins de semana e falo sacanagens em voz alta sem tremer os puritanos. Você permanece na minha lista de chamadas perdidas. Eu perdi a nitidez que existia em meus olhos de indecisão e lembro de seus lábios ainda úmidos de saciar vontades que nunca serão minhas. Não te quero nesse precipício que insisto em exibir e se te coloco em minhas poesias é pra amenizar a queda de tantas primaveras hostis. Não peço carona em seu peito vadio porque a viagem é longa demais e essa rua não tem saída, sabe. São muros e concretos tão frios que hoje o inverno me dá boa noite antes de amanhecer seus olhos calados novamente. O cheiro da outra te trará saudade de casa mas não tem como voltar porque você cresceu demais. Ao longe ainda ouço os pássaros que fotografei pra te mostrar uma manhã sonâmbula e sem querer ensinei a partir apenas com o remorso no bolso por não ter feito morada em mim. Há um pedaço do céu que eu te doei e agora o café grita no fogão implorando para não doer tão cedo assim.

(2015)

Guardo nessa carta saudade e um pouco do sal desse meu mar

Os músicos da sua cidade herdaram o seu sotaque e nas estrelas as pontas apontam pra nós, você ao norte e eu desnorteada. Quantas borboletas repousaram a metamorfose em seus cabelos? Você pode morrer agora antes de ler essa carta e isso seria a morte da minha literatura, de meu coração arcaico e de tantos planos ainda não pensados. Acho que chove em alguma parte da cidade e você cresceu cedo demais para um homem com medo. Eu tenho tantos segredos mas não superam os meus medos. Esse avião pousa às 21h em Santos Dumond no horário de Brasília. Vê se me guia.

Aceitar o seu amor seria confessar a mim que te amo mais do que deveria.  O que tento te dizer não se coloca em frases, grades ou linhas. Eu ouço o zumbido das teclas sendo disparadas como balas invisíveis contra mim. Ouço meu sangue fluindo por veias que rezam para serem cortadas, e sinto os relevos do meu corpo gemendo por você aqui me olhando enquanto te escrevo. As luzes dessa cidade estão tão cansadas. E agora eu não quero falar seu nome. (serei escrava de seu nome). Daqui a sua luz quase não chega então eu tento te imaginar no meu escuro, sendo sugado e se aquecendo porque a tempestade não tarda a chegar. Eu sinto os pingos metralharem os ombros e se preciso de alguém agora eu penso em seu nome. Apertado. Miúdo.

É muito triste os olhos do motoqueiro no vagão das quatro? É muito triste aqui. Eu quase não vejo brilho, sabe? E se choro agora é porque ouço os trovões de toda seca desses meus tão íntimos 40 graus. Semi-aberta, digo que eu não sei onde esconder que durmo tranquila sabendo que existe você quando acordar. Eu falo é dessas neuroses que podem te assustar a qualquer instante, mas me avise o motivo de ir embora quando a música acabar. Olhar seus olhos e tomar a pureza ainda verde, no entanto só os vejo tão vermelhos a fim de me desnortear quando admitir que sou sua. Eu nunca fui nem minha, entende? Você consegue sentir o que sempre escrevo sem nem mesmo admitir? Eu não consigo ver o arco íris, estrela cadente ou pecados impossíveis. E vendo meu corpo por salvação. Seja da praga, do amor, dessa carne que torra os meus neurônios bons. Só a ressaca de você basta para que consiga escrever um livro de uma só página. Meus pais estão brigando na sala e eu perdida no quarto reparando na solidão que me ponho submetida. As vezes acho que eu escolhi ser desse jeito, e ardo um pouco menos quando me aceito. Então eu tenho motivo pra chorar sim e não falar de amor até morrer dele. Eu não gosto de falar, entende? Eu gosto de ouvir um solo que me faça querer morrer enquanto escrevo. Gosto de ler suas reclamações às seis da manhã. Você é o meu café. Tudo isso faz muito sentido. Você consegue sentir?


(2015)

Acabou chorare

Há baianos antigos gemendo um choro brasileiro e nesse aeroporto o preço do pão de queijo é mais caro do que em Minas. Sou virgem de amores, repito. Isso é Rio de Janeiro. Toda essa gente comemora fevereiro com um sorriso que só aparece nos carnavais. Tem beijo com gosto de Skol e à noite as moças de família perdem o pudor nas mãos de algum malandro fantasiado. Não tem bagagem hoje. Não tem roupa limpa pra amanhã. Tem essa vontade de morrer enquanto o bloco passa. Eu quero esse calor da loira dizendo que amanhã vai amanhecer bonito pois tudo passa e que hoje estamos solteiros. Tem gente pulando nessa festa da carne e há quem condene o erotismo em tudo o que escrevo. À noite o calor não termina e nem a folia esfria.

Há muitas despedidas nesse aeroporto cujo preço do pão de queijo é quase tão caro quanto o amor.

*Escrito no aeroporto do Rio numa segunda de carnaval enquanto escutava Acabou chorare de Novos Baianos em fevereiro de 2015
seja o meu João ou o seu
quem morre ou mata não somos nós 
é o amor que se escalda escurecendo.
é de paz que estampo as paredes mas o caos encarde até os pulmões.
quebrar promessas ou ferir multidões eu não preciso.
amor é isso, a poesia ganhando título. 

são tantos títulos e muitas preces mas sem saber o porquê da escassez de seus olhos.
é água isso que você chama de lágrima? 
quantas garoas em becos do rio... 
não escrever sobre isso é suicídio

o mar já secou

os vizinhos gritam depois das três da manhã e o interfone toca:
é o sono que não vem

(2015)

amem

deixando a poesia no mundo como se fosse aquele susto hino de misericórdia ou uma carta extraviada do destino pois a minha identidade é anônima


a cor do esmalte desbotou enquanto roía o tempo líquido e as palavras distraídas se transformaram em oração


amem amem


deixo os rabiscos no armário pois só creio no descanso que almejo desde a primeira falta de rima no planeta de homens evoluídos

não há mais chances de viver em olhos rasos mas se a maré sobe o dilúvio cai arrastando discurso sobre a seca no coração de quem naufraga no planeta terra

somos compostos por água, poesia e despedida quando a ferida exposta gera matéria prima então exponho ao sol um pouco de rima mofada para suprir a sede que a poesia desconhecida tem de se afogar de pavor no amor

amém

(2015)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

sento a escrever suave 

tive tempo de buscar 

palavras inventivadas 

assim nos encaro impotente 

diante do manejo de sentidos


logo pela manhã pão quente 

com manteiga fria, 

cigarro oco pra abafar jejum, 

surgem as palavras dormidas 


passei por um sonho longo 

de personagens ausentes 

em memórias mais remotas 

antes de acordar 


o sol bem mansinho

essa mulher na rua escrevendo 

um livro, ao chão, 

seu corpo inscrito

desses olhos aflitos, passagem


o vento muito brando 

peço desculpa por insistir 

tanto quanto ao destino 

por não saber sequer 

há volta se irmos? 


sexta-feira, 7 de abril de 2017

te falo baixinho em segredo

poderia falar

sobre coisas pontuais

sem temer te afastar 

quando universo 

só nos sobrasse 

contando sobreviver 


te lembraria do cheiro

daquela noite antiga

tom da sua língua 

miúda 

te falaria tudo censurado

pela falta de jeito

em confessar o zelo

que tenho pelo riso 


quando surge então seu rosto

é por qualquer instante 

o afeto 

que me ataca

das vísceras 

à expressão 

de modo evito 

pra não revidar 

tamanha intervenção 


apontaria pedaços

deixados por mim a você 

na cidade grande 

demais pra nós 

tanto a dizer 

que é preciso calar 


pra ver me escuta 

baixinha 

todo gostar 

só compartilhar 


ao morrer as flores dão frutos

definho

murcho e a flor

prostrada na sacada da sala 

explícita ao sol

tão longo

o dia demora a cair

o céu denso

tal peso fundo

cansativo é dizer

andar os pés amarrados

o chão movediço

traça na parede

em particular 

tanta palavra

o jeito como ginga os braços

largar o mundo afora 

lá dentro muda 

bonito de tão morto 

não tem pressa

as cores as massas

caminhando pra onde

foi-nos em vão

resta um tanto 

mal se vê 


domingo, 2 de abril de 2017

aponta pra fé e rema

sem condição ou tempo no relógio de pulso, vivia o poema fadado ao desbotamento 


as unhas pintadas, o barulho da hora rente ao ouvido como se falasse das histórias de paixão às pressas


onde aceitar espaço sem rota 

precisa


é bem no instante que inspira ar mais denso e se admite chegamos tarde depois do horário da janta 

o poema faminto, todo momento 


as passagens sem volta, quem diria o ponteiro indica caminho 


seguimos 


título: https://m.youtube.com/watch?v=fJrRKL166_c

sábado, 25 de março de 2017

amanhã

seja delicada comigo 

por todas as vezes

que sair do sistema

em desarranjo te dobrar 

as horas do relógio

por longos dias

nem se contam ainda hoje


só vá breve enquanto os barcos

abarcam os destinos

mais distantes que estejam 

horizonte

é pouco então 

mas é preciso carinho

só até o dia acabar 

e assim renasce

tão pequeno

doce sol 

sexta-feira, 24 de março de 2017

florescer

se te aparento desatenta quando cruza os braços e desvia o caminho dos olhos indignada é por mero devaneio desse sentimento que me é dificultoso nomear

por falar nisso é que não digo mas soletro seu nome em segredo de modo organizado abro as portas sem facilidade mas se te prevejo na sombra dos vãos é ali que arrombo até as passagens do abismo pra te assistir

assim como uma miragem no calor do deserto do corpo te descubro incisiva e vasta. pondero o quanto isso me penetra e destranco o anseio pávido pra te receber inteira, instauro as digitais dos dedos úmidos em mim como quem instantaneamente derrete de medo do abandono

reviso sem exceção as curvas embora prefira aquelas dos traços que desenha sem compromisso de assustar sábia da força que proporciona e me mantém, esse amor comprimido

é disso que temo quando o tempo fecha e você dá sumiço assim feito sol triste sem contorno. é quando te parece que em pleno desastre simplesmente mudo enquanto que no absurdo lá fundo, em mim te inscrevo

quinta-feira, 16 de março de 2017

mari

no momento preciso 

da escrita 

me é difícil 

a tarefa de te escrever 


é que diante de palavras

as memórias

surgem como fotografias

esparsas nessa fundura

Incansável 


esboço de perfil 

tragos recontados 

correio das lembranças 

o alcance impossível 

do poema incompletude


olhar distraído 

gesto

mero desvio de rota

bate à porta 

chegar ao coração


o poema vive

no espaço destinado

aos versos mudos 

em repouso no tempo

da prosa 


confuso 

desprende 

o sentido das horas

e revive nossa história 


te escrever 

é reviver 

e viver

é simples morrer de -

Mãe

Tarde e quente dentro do período que nasce em plena janela de cada espaço que reservei pra você, lentamente, nos poemas de afeto. O maço vermelho achei na boca da cachorra pequena do lar, que carrega também seus cuidado pelos cantos mutáveis da casa. Trago pra você ver o relevo de gratidão que não se expressa por palavras, é por isso que talvez me calo, e a noite prestes a desabar. A batida na porta, seu peito alvoroçado pela passagem das horas, seu jeito de falar como quem ama todas as vezes de uma vez só. Na cama de casal seu corpo vívido macio embrulhado, no topo das mãos além de rugas apontam também direções que sequer segui mas governam os passos. Desabafo do vento lá fora sem rumo a nos seguir. Eu te penso em tudo. Você em mim eu saindo de ti pela porta. Você e eu na praia que vento bom te sentir tranquila debaixo da barraca sentada me deixa molhar teus pés. Te penso em terminar esse poema sem ferir o choro que desagua como fonte de milagre mãe. Te penso no correr do tempo que bate mais forte do que onda brava, e o relógio na parede - as nossas falam. Seu teto, meu chão, o tecido que te costura, abençoadas são tuas mãos.  

sinto os dias,
tanto em particular as palavras,
evacuarem por tudo, 
do outro ângulo ali entre dedos, 
quem sabe o andar tenha sido atingido 
visto que vago é mais sem saber 
o porquê de irmos

como, não se ousa questionar 
onde ou quando, 
a gente escolheu parar? 
aceito todo argumento, 
e limito meu som, 
assim vou minando aspectos singulares 
que soariam afrontas à comunicação

dois corpos e essa 
distância conhecida 
por mínimos fins trágicos 
será que sequer fomos livres?

é possível enredo, 
entretanto retorno às palavras, 
em transtorno e indolores, 
despindo a narração intocada 
até por quem constrói essa estória

pois bem somos nós vividos 
de mormaço e um quarto de medo, 
sequer livres do discurso rente, 
por descarte involuntário, 
nus de fantasias

fomos todos que desistimos 
somos
e cada vez
se desconhece
onde veio 
não sabe se vai 
é parte do medo 
é quase sempre 
fim

assim vão
os dias
e você

por aqui? 

segunda-feira, 13 de março de 2017

signo

penso que seria simples dialogar contigo de modo legível 
a fim de que nossas línguas cruzassem

mas no entanto as bocas são involuntárias e dificilmente cederiam 
ao ego dessa comunicação passageira

afinal o romantismo perdeu vez desde as publicações na coluna jornalística 
sobre a criação de um modelo prático de amar tranquilo

mal se sabe ficamos tarde por onde deixasse nós ali 
feito estátuas sangue quente e suor um gelo

medo dos sentimentos sem destino e a gente ficava mesmo tendo por onde ir 
o problema não foi isso

é só

questão

de sentido

sábado, 11 de março de 2017

Acompanhante

A morte aceita 

Tuas maiores desculpas 

Esquece teu nome 

Espera pelo banho insiste 

O sono retorna tão forte

Tua morte aguarda 

Os olhos acendem 

Os fumos aliados 

Marcas de perfume em frascos

Barriga cheia de amido 

As pontes ligando 

Esperaram as ligações

Aqui não 

Ninguém além 

Dessa estrada indisponível 

Bar amanhecido 

Espera última gota 

Acende as luzes também 

Isso te leva a algum lugar 

Longe de tudo 

Esquece teu nome  

Aluga um quarto maior

Sumir com o corpo 

Dentro do copo 

Enterrar as mágoas 

Vida vaga a morte acompanha 

Aceita tuas desfeitas

Malas feitas 


Pode fechar 

Lá fora

A morte te leva na porta espera

segunda-feira, 6 de março de 2017

fui à busca do título adequado mas me fugiram as palavras

o que tu for dizer de nós

é o que desconheço

perante a ideia da geração

deste romance solitário

aguardando que abra os olhos

visto sol e flor lá fora

é que temo tempestades

de silêncio inoportuno

enquanto indaga o tempo

que ainda temos pra sofrer

por esse amor imprescindível

há tanta força

irradiada dos abraços

vindo frágeis despedidas 

supondo devida facilidade

contrações ágeis 

nos aguardam lá fora também

basta gesto demasiado

de bocas em atrito

parir primeiro indício:


amor gerado

quinta-feira, 2 de março de 2017

fotosequência

inconsolável manejo 

enquanto inscritas memórias

pressão 

sob botão 

quando há pulso 

inconsolável contramão 


enfoque revestido 

socando as palavras 

dentro de fotos impávidas 

revelações impróprias 

ânsia por via rápida 


olhar sucinto 

sequência

embora

por desistir de mirar

basta virar a câmera

e a cena retorna 


quarta-feira, 1 de março de 2017

Se estiver firme podemos continuar

É possível falar do medo 

até que mudemos a estação dos sonhos

O trânsito, neblinas 

chegam mesmo através do verão 

insistente em oscilar

Viemos tão despreparados 

antes de sorrir veio o choro

sem ver a gente acolhe as mãos

Firme promessas surgem igual suor 

em manifesto indevido 

silêncio absoluto

Os lábios esquecem função dos beijos 

e permanece pasmo verso que recita carta de adoração

É possível até provar o presente 

se te falar de ilusão 


É tanta dureza...

Seguremos as mãos

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Welcome to the hell

A Estamos frente à paisagem
Os pássaros alheios
Ao som de nosso passado
Flutuam desgovernados
Na ilusão de um amor suave
Que não nos pertence
A estação anuncia o suor
Causado por um frio contínuo
Muita luz e azul
E as trevas chamaremos poesia
Ali do alto o coração sufoco
Mas ao olhar pra cima
Pinturas no seu quarto
Mansidão de teus braços
Desconhecida textura
E portanto na falta de abrigo
Descubro um lugar elevado
Soletro devagar teu nome
Em delírio na boca
Meu suspense infantil
Propenso à recortes do vento
Ao sul teu corpo
Verão teu rosto


Fera Ferida

dotado das sutilezas 

tédio disforme 

fugindo da jaula

assim bichinha manhosa 

as garras faíscas 

o retorno de ontem 

feito presente 

urge brilhantíssimo 

rogo incenso de lótus

as flores no alçapão 

carregam hoje tarde que faz

tanta pureza morta 

trocar marcha 

ondas soníferas 

contração instantânea 

rogar benção tardia 

por vias

flor fincada 

recortes da sanidade

fera encarcerada


Título: música da Maria Bethânia 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Descuido

Devia ter desistido da poesia

No primeiro frio mudo 

A ponto de trancar o casaco

Acima do rosto bem firme

Cega as margens do que sigo


Assim as conduções

Turno rápido optariam 

Folhas enterradas no solo

Acimentado a estação floriam


Todavia contei com a sorte

Por vias estreitas - 

Sorria 


Devia ter desistido

Desde primeiro - 

Desvio 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ressaca

Espanto notar semblante ameno aos ruídos da praia mansa longe, logo mapeio os pensamentos enquanto desloca o corpo na área destinada a nos perdermos de vez, e como sem volta de maré agressiva, divindades enviam uma correspondência do outro lado da Oceania mais próxima, estrelas sucumbem e nos engole um buraco forte sem motivo; então agarro sua desconfiança do avesso, e se houve sentido, afogo e nos salvo da corrente mais grossa: Afinal amar requer distúrbios na fala. Adapto os modos de abordar severo destino aliada a tanta suavidade, a gravidade revela cores presas de um sintoma universal; escuto trovejar e como prova da maré distante retorno à prosa falha titubeando no que nos sobra, nos falta. Revido olhar perdido quando a pretenção é buscar seu corpo que no entanto flutua na água e isso me soa proteção tardia, vejo Lua na proa encostada e as implosões de um céu metódico anunciar o fim de fantasias áridas. O choro seco, pele e ausência de palavras, pura, áspera, socorro intensa calmaria. Apelo pros sintomas anormais, surgindo brevemente olhar distinto descubro modo de manter corpo unido: agito. Amar é. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Contar uma história pra gente dormir

Se te contam os dias,
Horas arrastadas com urgência,
Sopro do instante 
Contagem regressiva 

Conta com a morte somente
Deposita no crédito da vida 
Pós suplício o resto de alívio 
Nos ombros de um destino 
Não previsto, 
Daqueles gigantes 

E acredita como se fosse um sonho 
Se deita de novo pra dormir, 
Agarra a cintura tipo
Aquela música repetindo

Gasta a última gota de suor do corpo 
Dança pra não chorar e,
Segura,
Não, você não está só aceita 
Vê se acredita na possibilidade

Só assim então se aconchega 
Quando as luzes
Apagarem
A gente deita 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

transferidos manuais instrutivos: voa

Supondo consorte instante
Suprido no peito contido
Resguarda primária suplente
No quanto tem gente surgente 

Suponho alguma palavra 
Quem sabe argumento provável
Sugiro passo translático
Suporte de vóz oprimido 

No passo controle constante
Se houve total circunstante
No outro bocal sopro inteiro 

Pra dar ursupal verdadeiro
Das outras frangalhas soantes
Um tanto oral desordeiro 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Cicatrizes sem rastros trafegam pelo interior do corpo cedido



Peguei pra ler textos curtos


De poetas desconhecidos


Recordei nostalgia


Não cabia no meu repertório


Mas amargo sentir a costura


Ainda crua pele explícita


Ali punida


Nada meu existia


Contudo desgosto nocivo


Sabia o pertencer unânime


Memórias retalhos


Estancam o sangue


Transitar por escrita


Resgatando carne 


Esquecida


Exibida consistia 


Ferida


Ali eu existia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

crédito indisponível

agacho ao lado das caixas de papelão 
e com o canivete à mão um surto 
parece óbvio mas enquanto 
o lacre rompe 
o pescoço 
soa fácil matar as dívidas

nada novo no céu além do rumo 
ao sul de rios frágeis 
e o lirismo certo de que vocês 
também e 
eu estamos 
estado de crise
porém o que pensar depois 
alguém te vira e pergunta 
tudo bem? 
como quem sabe 
o que há? 
como quem zomba da maneira 
indefesa como conduz a vida 

os pés enfiados na merda da sala 
a calcinha limpa o xixi da buceta 
o que diria quando chegada a hora? 
eles enlouqueceram! interna hoje 
mesmo porque isso é ameaça 
à vida 
não pode matar

tem que se alimentar talvez 
limpeza espiritual cortar gastos 
e inventar codinome quem 
sabe viajar 
pra perto só 
esquecer daqui da terra 
você é impura e imprecisa 
calma o remédio pode ajudar histérica 
conta uma história alivia o ego 
estamos aqui pra escutar 

"lembra quando a gente saiu juntas pro bar da sorocaba e enquanto a cerveja descia o formato da boca crescia e quando se ouvia música era poesia dos corpos agredidos pela distância que nem a gente compreendia mas quando voltamos pra casa já sem sei como o elevador subia daí paro o corpo entende a gente e se alia as bocas quase se uniam mas chega a hora é aceitar..." 

as vezes você se trata ou então não 
tem mais trato conosco pois é só 
botando expectativa acima 
do que pode alcançar 
funciona na hora exata 

ah creditamos em você 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Foda parte 2.

Enquanto me esfregava entre os dedos, meu corpo rígido fazia folia, rangia, hesitava, até que um jato desordenado lhe sujasse os dedos por dias. "Não fode", escrevia. E me fodia enquanto não esgotasse a última gota que eu tinha. Era êxtase e pressão enquanto dávamos fim ao dia. Desfilava lisa por suas mãos escorregadiças e lábios e me mordia com afinco até que fizesse rachar as laterais do meu esqueleto. Suspira. "Me fode", eu sabia o que ela pretendia. Prensada entre dois dedos afobados, mal notava o desenho corrido; era capaz de pulsar com tamanha pornografia. 

Foda parte 1.

Das vidraças sujas da poeira urbana constante, eu observava o sol em declínio quase a se perder de vista, se desfazendo por detrás do edifício Mediterrâneo, o mais antigo do bairro. Requentei o café coado de manhã, um coque mal sucedido por causa da falta de cumprimento do cabelo embaraçado, o cálculo mental da figura íntegra do corpo dela deslizando convulsiva por entre a palma viscosa das mãos, até pousar firme entre os dedos a caneta de acrílico cor azul. Acabara o Malboro, "Não fode", um bilhete à vida no papel que me fitava em cima da mesa. Uma carta ela entenderia. É que me parece tão tarde pra censuras das palavras trancafiadas na gaveta, de roer o que resta das unhas, poupar tinta da caneta. Escreva. "Me fode", era o que eu pretendia. Escrevia. Com aquele monumento rígido enfiado por entre vácuo dos dedos, me satisfazia.

fevereiro do ano passado

pra cessar ressaca
só tua vista de longe
braços estendidos
uivando entre as nuvens 
de fevereiro
mitos carnavalescos
escada rolante
elevados
a lua sobreviveu ao Sol
ladeira íngreme até sua rua 
mesmo que os pulmões insistam
a dar sinais de morte
as voltas do pássaro 
grande 
é preferível morrer 
a perecer trancafiado 
crise do noticiário 
ontem
essa poesia 
hoje 
pisoteada
a flor e o asfalto
beijar até que a boca seque 
e o sol apague a Lua
agora 
embriagados 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

cores de um cenário natural 
alagam pedaço de retina
pintura de aquarela
que vinha dos olhos daquela 
senhora na praça vendendo todo
tipo de bala
doce minha véia 
é que explosivo a gente foge 
dos olhos do tempo cedido 
ao cansaço dela exposta 
enquanto o quadro
o céu seja qual hora
encara a gente
não tem preço agora enquanto 
as linhas cedem espaço, crianças
correndo de que? na rua 
balas cortam pedaços
as cores
vindo Norte 
sob um céu que esmaga 
os olhos velhos dela 
quando vê 
diz 
Basta ser 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

rodear

iria parecer brutal
te convocar 
através 
de poema 
como quem mal sabe 
chega hora de erguer
tombada a voz e cabeça 
pois é longo dizer
tanta coisa bonita 
tantas voltas

mas há algo que diz
do susto 
das coisas doídas
enquanto urgência 
de alegar nomes 
e contornar
volta

é que fugir faz
o vestido vira roda
cabelo e vento 
e isso é delicado por demais
pra falar se não for
volta 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

sou todas essas coisas, embora não o queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal

lânguida
escrevo a procurar

-  além de palavras
um percurso menos pesaroso
do que me é instituído
não por causa da falta seja 
sol ou pedra no feijão 
é coisa que não se acha
mesmo no fundo

local ocupado
até pra lamúria 
mas é um desconcerto 
que assim escrevo
um tanto óbvia 
como se a dor
alegoria única 
desfilando 
à perigosa insolação 
e cólera de ócio 
fosse atestado de óbito 

enrolo o corpo
em suor ou choro e
reconheço partículas 
que nos diriam
-  vá embora 
desisto de caçar
desculpas ínfimas
a fim de decepar 
essa ânsia mínima 
enquanto escrevo 
agora 
de me degolar
no fio das memórias 

título: fragmento n.30 "livro do desassossego" f. pessoa 

domingo, 29 de janeiro de 2017

devíamos dormir mais cedo

quando a noite gritasse em cores nítidas existo! e pelos morros visto que logo em ânsia na tardinha se incendia é ali que saberíamos chegou a hora só vamos beber duas por quinze e os amendoins torrados na mesa não tem fome disso só aquilo que a gente não sabe dizer que vai passando de língua em língua até que o dinheiro como alarme mande embora dos muquifos mas olhe a rua fica acesa os carros atrás de faróis não tão distantes a gente para no meio fio ou invade algum lugar oh céus que não seja meu peito mas as pernas essas vão nos buscar até que a essa hora voar é mais do que o tempo a gente esquece mas se lembra que enquanto recitar algum poema não é tão vão só quis dizer aquilo que nem dois litros tendem a soltar vai que a noite esquece de findar 

(e a gente se acaba) 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

voltas e voltas até onde vamos?

Se fosse só medo de retornar à escrita como o acesso à senha de um cofre inviolado não teria que revisar a memória a fim de encurtar essas voltas que esgotam o repertório que criei

Mas é que dentro do contexto a realidade me parece distante à medida que declino junto às palavras 

Soaria simples percorrer os quilômetros a mais à velocidade desgovernada até um encontro casual de intenções armadas e despejar através do mecanismo oral um pouco mais do me é impossível escrever porém 

É que se fosse só um simples caso até o discurso pareceria direto

Mas é sempre um outro assunto
Uma conversa que agride até quando o ponteiro atinge o ápice e depois disso é aquela história

Corro demais

domingo, 22 de janeiro de 2017

se eu te dizer que vejo tempestade em forma de lágrima

Dei pra preferir versões mínimas do que soaria indiscreto dizer a ti tão indireto 
mas é que justificativas são buscas exaustivas depois que passa da hora de agir 

e a gente vai seguindo mesmo

nem peguei sua mão ao despedir mas é que tava suando o sol às vezes faz o coração bater rapidinho 
o clima incerto é só pra aliviar medo que tenho de ser indiscreta e te assustar mas isso é tudo que não posso conter 

não ensinaram que é preciso mais do que vontade pra continuar e saber é tão bonito quando se sabe nadinha 
é nesse instante que o sorriso abre até tempo nublado e nem lembra do acúmulo das mágoas

"mas querida não seja tão rude assim com o que sente" só pega um fogo pra gente queimar seja lá o que do céu sobreviver 
senta deixa eu te contar 

fecha os olhos enquanto a chuva passa 

sábado, 21 de janeiro de 2017

se o dia 
por acaso 
levantar vermelho
coloca água 
pra mornar
o chá 
e pega o que tu gosta 

deita no sofá 
esquece o dia
o sono 
e lembra 
há motivo de sobra 
pra gente se esquentar 

descansada 
volta à cozinha 
enfia o saco
no copo apaga 
o fogo
depois o retorno 

rotina cinza 

sem nome

O corpo se desfez em fragmentos. Era isso que fazia existir a poesia escrita hoje, mas quanto ao tempo cospe os tecidos da pele que morre ao raio do sol, a mancha existia e vazia um novo corpo passar indiferente, mas os sabia sim era um pequeno pedaço de cor ali nascida. O corpo se desfaz em meus braços, o próprio corpo sim coberto de pelo e mancha. Dia seguinte. Vejo e não tenho olhos. Envergo as curvas da sobrancelha quem diria é o que passou. Foi um susto. Tremi e senti a fraqueza dos ossos em pânico as chamas, o ardor do verso oral. É como um breve sonho 

inominável.
pode parecer egoísmo
falar de mim
à essa hora 
mas é que 
falo de 
você 

então dou prioridade
a qualquer voz
que soe nítida
ao escrever
você 

qualquer parte
que vive 
e morre
aos pedaços 
e eu entro
descrevendo
você 

nem precisa ler
pode parecer
que sou eu
mas não
é
você 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

E além das coisas ínfimas dentro da bagagem 
Papel de ingresso, comida envelhecida, 
as vezes guimba do cigarro que a gente fumou sem assistir 

As vezes paro e sequer penso
É que o pensamento cai como um toró de verão 
na ânsia de te falar dessa faísca presa 

Além das luzes de outros prédios 
é possível que veja seu rosto refletido num quadro grande 
exposto na sala do vizinho 

É porque aceito seu tamanho em tudo que couber pensar 

que exista espaço pra parar... 
descansa enquanto a fumaça sobe e o motor aquece 
a chama viva 

Você sabe as vezes morrer
É pequeno


breu

Estou na escuridão
Mas você vê
Tão fundo
Que subo pra te ver
Na superfície
Só o vácuo 
Ciente
De que a luz apaga
Você pisca
E o mundo retorna
Ao eixo
Mais distante
Subo
Até o cume
Procuro
Onde está?