café e dores

café e dores

domingo, 21 de maio de 2017

atravessar fronteiras até teus lábios


quando teu fogo 
acende as ruas 
dos leões 
as cores 
parece aquarela, 
monumento antiquado, 
mas quando o rio destoa
é pelo teu nome 
que o trânsito 
permite alcance 
entre municípios 

quando arrasta 
os dedos a roçar 
o chinelo no asfalto 
é feito pisada 
no corpo rijo
o sentido a querer 
assumir teu colo
em solidão 

quando a luz 
transtornada corta 
o discurso ensandecido 
é que se revela a paz 
retratada no
sorriso calma 

queria socorrer 
teu corpo inteiro, 
indiscreta, 
egoísta por amar 
teus planos, 
beijar teus defeitos 
assim como 
desejo insaciável 
descobrir teus muros 


quinta-feira, 18 de maio de 2017

À busca

Devia provar gosto de choro macio caído lânguido simples ao tocar na artéria, Essa estagnação diria ser discrição ausência de estímulo 


Talvez deva suturar as marcas pisadas antes de partir à trilha, Horário de saída, Basta creia não passar desapercebida tão pouco pela brisa insólita a desistir das banalizações


E que infira fúria boca e voz à fora enquanto há e no embalo surgir vontade de transitar que seja 



Foi o paladar da noite entrando e a saída prescrita finais 

Nós sabíamos dos históricos de homens partidos, enfim as cores


Me fala da proteção abaixo do céu e inventa abismos por onde enfiar transtornos 

E estamos, bem o sabe, quem dera chegar aos contornos 

Cientes de abalos inevitáveis, revisitaríamos cobertores que só tocam a superfície mais firme do espírito, nós existimos tanto chega a duvida. 

Deixa os argumentos pra quando a fala estiver segura, a saúde cura, não ouço teu sorriso, revivo a fim de nos encontrar 


Temo desencontrar seu fôlego, as fases do seu sono, mas permaneceremos instantes enquanto o dia pacato anunciar os rostos contorcidos 


domingo, 14 de maio de 2017

banais p. 1

hoje não li

nem ouvi um disco 

transei 

saí


no entanto sento 

no canto da cama

pra escrever poesia

como discreto desvio

das rotinas intermináveis 


apontando sutilezas

ao lado de fora

como quem

sabe o samba 

pernas imóveis 

nem troquei a calcinha 

ajeitei o jantar

de fome indefinida


poesia 

infinda 


hoje sentada

a escrever o que 

a boca é incapaz

de traduzir

as palavras inteiras

acessíveis de fugir 


então escrevo

pra aliviar

desassossego 

do silêncio paralisia 


se fico sentada

olhando pro nada

sou capaz de sumir


registro 

aqui 

hoje o dia

foi tão rápido

mal o vi 




domingo, 7 de maio de 2017

paraíso

delicado é olhar seu rosto 
poderia descrever  
singularidade arcaica 
Que te compõe 
só com um toque 
sutil da memória. 

se é frio ou queimo 
no suposto instinto 
de correr nua arregaçada 
te olhando como nunca pude
temerosa por devida selvageria 
que te chama aos berros 
em silêncio rigoroso,
diria ser loucura. 

as vértebras das costas 
no aguardo que o tempo voe 
me convidam pra deitar seu corpo, 
esqueço que existimos. 

assim revivo e somos
nós deitadas uma cama cumprida,
as roupas fora do corpo secando. 

Assim o tempo vaga 
e assim o sossego 
acompanha alvorecer 
de um sorriso no meio da noite
Bem ali no centro da minha 
insônia você sorrindo. 

o fim se fundindo, lembro de 
alcançar seu joelho com carinho, 
foi o tempo, alguma culpa 
a gente carrega, a vida, 
tem uma espécie 
de angústia que agarra 
o corpo 
navalha nas mãos. 

parece que você nasceu de uma erva. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

parte da liberdade é abrir os braços e segurar o corpo inteiro

sobrevoando displicentes 
mãos são passarinhos 
se fosse ninho a redoma 
de amor e cristal
berraria sobre a pureza 
estreita de governar teu rumo 

decolar em praia desolada
por amor tão livre 
tudo transparente 
as águas batendo nos pés 
o som que viria do movimento
que os corpos reproduzem
em êxtase no verão 

logo o resgate levaria 
os corpos afobados 
navegando em mar aberto
tão imensidão a paz 
dos piratas a nos roubar
as vergonhas todas 

em mergulho resistiríamos 
ressaca dos Monstros noturnos
Salgado choro dos botos 
tragédias dos Deuses marítimos 

transitaríamos na onda
restante da areia abraçando 
os corpos afogados 
as palmas soando
tamanha paz 
que ecoa 

sábado, 29 de abril de 2017

Vambora

ainda não é chegada fim das nossas vidas mas sinto o corpo socado na estrada muita passagem muita cor antes da manhã surgir como envio do além, lá distante até de espaço, forma, é bem no lugar que a gente devia ir pés nus, corpo untado, nunca assistiríamos tanta paz e esperança de nos alimentar dessa sede que é sumir em conjunto sem rastro, pegada, o que for de pista que nos ache em pleno ato de amor. se for pra ir que seja agora antes que você descubra que mal se sabe onde o que interessa é só ir embora não esperar o sol surgir. é que se amanhece a gente deixa pra dormir esquece de sair às vezes é bom fugir.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

brisa

ja sentiu
cheiro 
da tarde brotando?

tranco do motor 
estagnado o céu 
num só flash 
cardume lânguido 
dos pássaros 
ao longe 
uma florinha fincada 
no asfalto
suja de lama 
no vão do salto

as vezes a gente expressa 
e não diz é que desacredita,
se palavra toda solta 
fosse ao menos revolução

no mais,
o cachorrinho caminha 
sorriso língua nervosa
o chão é perigoso 
as quedas, 
só olhar pra frente, 
tem gente, 
e me olha como se fosse bicho, 
o cão

A gente nem olha, 
desvia, 
sente sente mas vê, 
falta sentido

ah é que bate uma nostalgia 
imagem de infância 
segurar nuvem 
na mão, 
e devagar a roupa bate 
no corpo, 
de tão forte que é o vento 
gostoso vindo depressa

sabor de deserto na boca
olhos e água mais sal do Brasil,
desacredita, 
tem cheiro pra todo lado 
vindo de fora!

não quero falar 
como se a gente fosse tudo 
mas tudo não passa 
de um pouco da gente, 
e segue cabisbaixo
as durezas do chão, 
pedregulho

reluz no ponto 
mais indecente 
lá da frente, 
aponta
cheiro de fim.

É lá que a estrela 
tá gemendo de gosto da noite, 
muda a estação, 
mal olha pra cá 
gingado as flores 
brotando 
muita arte das cores, 
quanta pintura!

acho que o céu 
piscou pra mim

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Aos pés do altar

Tomai, deleita desse corpo
Santo fruto de formas
Transforma no ato
Deforma

Bebei até engasgo
Pasmo enfia o gozo
Boca à fora
No grito

Agrido teu sopro
Em susto me visto
Tornado zumbido
Pé do ouvido

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quase não tenho você em mim

Ainda fumo aos fins de semana e falo sacanagens em voz alta sem tremer os puritanos. Você permanece na minha lista de chamadas perdidas. Eu perdi a nitidez que existia em meus olhos de indecisão e lembro de seus lábios ainda úmidos de saciar vontades que nunca serão minhas. Não te quero nesse precipício que insisto em exibir e se te coloco em minhas poesias é pra amenizar a queda de tantas primaveras hostis. Não peço carona em seu peito vadio porque a viagem é longa demais e essa rua não tem saída, sabe. São muros e concretos tão frios que hoje o inverno me dá boa noite antes de amanhecer seus olhos calados novamente. O cheiro da outra te trará saudade de casa mas não tem como voltar porque você cresceu demais. Ao longe ainda ouço os pássaros que fotografei pra te mostrar uma manhã sonâmbula e sem querer ensinei a partir apenas com o remorso no bolso por não ter feito morada em mim. Há um pedaço do céu que eu te doei e agora o café grita no fogão implorando para não doer tão cedo assim.

(2015)

Guardo nessa carta saudade e um pouco do sal desse meu mar

Os músicos da sua cidade herdaram o seu sotaque e as pontas das estrelas apontam pra nós, você ao norte e eu desnorteada. Quantas borboletas repousaram a metamorfose em seus cabelos? Você pode morrer agora antes de ler essa carta e isso seria a morte da minha literatura, de meu coração arcaico e de tantos planos ainda não pensados. Acho que chove em alguma parte da cidade e você cresceu cedo demais para um homem com medo. Eu tenho tantos segredos e medos. Esse avião pousa às 21h em Santos Dumond no horário de Brasília. Vê se me guia.

Aceitar o seu amor seria confessar a mim que te amo mais do que devo. O que tento dizer não se põe em grade ou linha. Eu ouço o zumbido das teclas sendo disparadas como balas invisíveis contra mim. Ouço meu sangue fluindo por veias que rezam para serem cortadas, e os relevos do corpo gemendo por você aqui me olhando enquanto te escrevo. As luzes dessa cidade estão tão cansadas. E agora eu não quero falar seu nome. (serei escrava de seu nome). Daqui a sua luz quase não chega então eu tento te imaginar no meu escuro, sendo sugado e se aquecendo porque a tempestade não tarda a chegar. Eu sinto os pingos metralharem os ombros e se preciso de alguém agora penso em seu nome. Apertado. Miúdo.

É muito triste os olhos do motoqueiro no vagão das quatro? É muito triste aqui. Eu quase não vejo brilho, sabe? E se choro agora é porque ouço os trovões de toda seca desses meus tão íntimos 40 graus. Semi-aberta, digo que eu não sei onde esconder que durmo tranquila sabendo que existe você quando acordo... Eu falo é dessas neuroses que podem te assustar a qualquer instante, me avise o motivo de ir embora quando a música acaba. Olhar seus olhos e tomar a pureza ainda verde, no entanto só os vejo tão vermelhos a me desnortear quando admitir que sou sua. Eu nunca fui nem minha, entende? Você consegue sentir o que escrevo sem nem admitir? Eu não consigo ver o arco íris, estrela cadente ou pecados impossíveis. E vendo meu corpo por salvação. Seja da praga, do amor, dessa carne que torra os meus neurônios bons. Só a ressaca de você basta para que consiga escrever livro de uma página.. Meus pais estão brigando na sala e eu perdida no quarto reparando a solidão que me ponho submetida. As vezes acho que foi escolha ser do meu jeito, e ardo um pouco menos quando me aceito. Então eu tenho motivo pra chorar sim e não falar de amor até morrer dele. Eu não gosto de falar, entende? Eu gosto de ouvir um solo que me faça querer morrer enquanto escrevo. Gosto de ler suas reclamações às seis da manhã. Você é o meu café. Tudo isso faz muito sentido. Você consegue sentir?


(2015)

Acabou chorare

Há baianos antigos gemendo um choro brasileiro e nesse aeroporto o preço do pão de queijo é mais caro do que em Minas. Sou virgem de amores, repito. Isso é Rio de Janeiro. Toda essa gente comemora fevereiro com um sorriso que só aparece nos carnavais. Tem beijo com gosto de Skol e à noite as moças de família perdem o pudor nas mãos de algum malandro fantasiado. Não tem bagagem hoje. Não tem roupa limpa pra amanhã. Tem essa vontade de morrer enquanto o bloco passa. Eu quero esse calor da loira dizendo que amanhã vai amanhecer bonito pois tudo passa e que hoje estamos solteiros. Tem gente pulando nessa festa da carne e há quem condene o erotismo em tudo o que escrevo. À noite o calor não termina e nem a folia esfria.

Há muitas despedidas nesse aeroporto cujo preço do pão de queijo é quase tão caro quanto o amor.

*Escrito no aeroporto do Rio numa segunda de carnaval enquanto escutava Acabou chorare de Novos Baianos em fevereiro de 2015
seja o meu João ou o seu
quem morre ou mata não somos nós 
é o amor que se escalda escurecendo.
é de paz que estampo as paredes mas o caos encarde até os pulmões.
quebrar promessas ou ferir multidões eu não preciso.
amor é isso, a poesia ganhando título. 

são tantos títulos e muitas preces mas sem saber o porquê da escassez de seus olhos.
é água isso que você chama de lágrima? 
quantas garoas em becos do rio... 
não escrever sobre isso é suicídio

o mar já secou

os vizinhos gritam depois das três da manhã e o interfone toca:
é o sono que não vem

(2015)

amem

deixando a poesia no mundo como se fosse aquele susto hino de misericórdia ou uma carta extraviada do destino pois a minha identidade é anônima


a cor do esmalte desbotou enquanto roía o tempo líquido e as palavras distraídas se transformaram em oração


amem amem


deixo os rabiscos no armário pois só creio no descanso que almejo desde a primeira falta de rima no planeta de homens evoluídos

não há mais chances de viver em olhos rasos mas se a maré sobe o dilúvio cai arrastando discurso sobre a seca no coração de quem naufraga no planeta terra

somos compostos por água, poesia e despedida quando a ferida exposta gera matéria prima então exponho ao sol um pouco de rima mofada para suprir a sede que a poesia desconhecida tem de se afogar de pavor no amor

amém

(2015)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

sento a escrever suave 

tive tempo de buscar 

palavras inventivadas 

assim nos encaro impotente 

diante do manejo de sentidos


logo pela manhã pão quente 

com manteiga fria, 

cigarro oco pra abafar jejum, 

surgem as palavras dormidas 


passei por um sonho longo 

de personagens ausentes 

em memórias mais remotas 

antes de acordar 


o sol bem mansinho

essa mulher na rua escrevendo 

um livro, ao chão, 

seu corpo inscrito

desses olhos aflitos, passagem


o vento muito brando 

peço desculpa por insistir 

tanto quanto ao destino 

por não saber sequer 

há volta se irmos? 


sexta-feira, 7 de abril de 2017

te falo baixinho em segredo

poderia falar

sobre coisas pontuais

sem temer te afastar 

quando universo 

só nos sobrasse 

contando sobreviver 


te lembraria do cheiro

daquela noite antiga

tom da sua língua 

miúda 

te falaria tudo censurado

pela falta de jeito

em confessar o zelo

que tenho pelo riso 


quando surge então seu rosto

é por qualquer instante 

o afeto 

que me ataca

das vísceras 

à expressão 

de modo evito 

pra não revidar 

tamanha intervenção 


apontaria pedaços

deixados por mim a você 

na cidade grande 

demais pra nós 

tanto a dizer 

que é preciso calar 


pra ver me escuta 

baixinha 

todo gostar 

só compartilhar 


ao morrer as flores dão frutos

definho

murcho e a flor

prostrada na sacada da sala 

explícita ao sol

tão longo

o dia demora a cair

o céu denso

tal peso fundo

cansativo é dizer

andar os pés amarrados

o chão movediço

traça na parede

em particular 

tanta palavra

o jeito como ginga os braços

largar o mundo afora 

lá dentro muda 

bonito de tão morto 

não tem pressa

as cores as massas

caminhando pra onde

foi-nos em vão

resta um tanto 

mal se vê 


domingo, 2 de abril de 2017

aponta pra fé e rema

sem condição ou tempo no relógio de pulso, vivia o poema fadado ao desbotamento 


as unhas pintadas, o barulho da hora rente ao ouvido como se falasse das histórias de paixão às pressas


onde aceitar espaço sem rota 

precisa


é bem no instante que inspira ar mais denso e se admite chegamos tarde depois do horário da janta 

o poema faminto, todo momento 


as passagens sem volta, quem diria o ponteiro indica caminho 


seguimos 


título: https://m.youtube.com/watch?v=fJrRKL166_c

sábado, 25 de março de 2017

amanhã

seja delicada comigo 

por todas as vezes

que sair do sistema

em desarranjo te dobrar 

as horas do relógio

por longos dias

nem se contam ainda hoje


só vá breve enquanto os barcos

abarcam os destinos

mais distantes que estejam 

horizonte

é pouco então 

mas é preciso carinho

só até o dia acabar 

e assim renasce

tão pequeno

doce sol 


sexta-feira, 24 de março de 2017

florescer

se te aparento desatenta quando cruza os braços e desvia o caminho dos olhos indignada é por mero devaneio desse sentimento que me é dificultoso nomear

por falar nisso é que não digo mas soletro seu nome em segredo de modo organizado abro as portas sem facilidade mas se te prevejo na sombra dos vãos é ali que arrombo até as passagens do abismo pra te assistir

assim como uma miragem no calor do deserto do corpo te descubro incisiva e vasta. pondero o quanto isso me penetra e destranco o anseio pávido pra te receber inteira, instauro as digitais dos dedos úmidos em mim como quem instantaneamente derrete de medo do abandono

reviso sem exceção as curvas embora prefira aquelas dos traços que desenha sem compromisso de assustar sábia da força que proporciona e me mantém, esse amor comprimido

é disso que temo quando o tempo fecha e você dá sumiço assim feito sol triste sem contorno. é quando te parece que em pleno desastre simplesmente mudo enquanto que no absurdo lá fundo, em mim te inscrevo


quinta-feira, 16 de março de 2017

mari

no momento preciso 

da escrita 

me é difícil 

a tarefa de te escrever 


é que diante de palavras

as memórias

surgem como fotografias

esparsas nessa fundura

Incansável 


esboço de perfil 

tragos recontados 

correio das lembranças 

o alcance impossível 

do poema incompletude


olhar distraído 

gesto

mero desvio de rota

bate à porta 

chegar ao coração


o poema vive

no espaço destinado

aos versos mudos 

em repouso no tempo

da prosa 


confuso 

desprende 

o sentido das horas

e revive nossa história 


te escrever 

é reviver 

e viver

é simples morrer de -

Mãe

Tarde e quente dentro do período que nasce em plena janela de cada espaço que reservei pra você, lentamente, nos poemas de afeto. O maço vermelho achei na boca da cachorra pequena do lar, que carrega também seus cuidado pelos cantos mutáveis da casa. Trago pra você ver o relevo de gratidão que não se expressa por palavras, é por isso que talvez me calo, e a noite prestes a desabar. A batida na porta, seu peito alvoroçado pela passagem das horas, seu jeito de falar como quem ama todas as vezes de uma vez só. Na cama de casal seu corpo vívido macio embrulhado, no topo das mãos além de rugas apontam também direções que sequer segui mas governam os passos. Desabafo do vento lá fora sem rumo a nos seguir. Eu te penso em tudo. Você em mim eu saindo de ti pela porta. Você e eu na praia que vento bom te sentir tranquila debaixo da barraca sentada me deixa molhar teus pés. Te penso em terminar esse poema sem ferir o choro que desagua como fonte de milagre mãe. Te penso no correr do tempo que bate mais forte do que onda brava, e o relógio na parede - as nossas falam. Seu teto, meu chão, o tecido que te costura, abençoadas são tuas mãos.  

sinto os dias,
tanto em particular as palavras,
evacuarem por tudo, 
do outro ângulo ali entre dedos, 
quem sabe o andar tenha sido atingido 
visto que vago é mais sem saber 
o porquê de irmos

como, não se ousa questionar 
onde ou quando, 
a gente escolheu parar? 
aceito todo argumento, 
e limito meu som, 
assim vou minando aspectos singulares 
que soariam afrontas à comunicação

dois corpos e essa 
distância conhecida 
por mínimos fins trágicos 
será que sequer fomos livres?

é possível enredo, 
entretanto retorno às palavras, 
em transtorno e indolores, 
despindo a narração intocada 
até por quem constrói essa estória

pois bem somos nós vividos 
de mormaço e um quarto de medo, 
sequer livres do discurso rente, 
por descarte involuntário, 
nus de fantasias

fomos todos que desistimos 
somos
e cada vez
se desconhece
onde veio 
não sabe se vai 
é parte do medo 
é quase sempre 
fim

assim vão
os dias
e você

por aqui? 

segunda-feira, 13 de março de 2017

signo

penso que seria simples dialogar contigo de modo legível 
a fim de que nossas línguas cruzassem

mas no entanto as bocas são involuntárias e dificilmente cederiam 
ao ego dessa comunicação passageira

afinal o romantismo perdeu vez desde as publicações na coluna jornalística 
sobre a criação de um modelo prático de amar tranquilo

mal se sabe ficamos tarde por onde deixasse nós ali 
feito estátuas sangue quente e suor um gelo

medo dos sentimentos sem destino e a gente ficava mesmo tendo por onde ir 
o problema não foi isso

é só

questão

de sentido

sábado, 11 de março de 2017

Acompanhante

A morte aceita 

Tuas maiores desculpas 

Esquece teu nome 

Espera pelo banho insiste 

O sono retorna tão forte

Tua morte aguarda 

Os olhos acendem 

Os fumos aliados 

Marcas de perfume em frascos

Barriga cheia de amido 

As pontes ligando 

Esperaram as ligações

Aqui não 

Ninguém além 

Dessa estrada indisponível 

Bar amanhecido 

Espera última gota 

Acende as luzes também 

Isso te leva a algum lugar 

Longe de tudo 

Esquece teu nome  

Aluga um quarto maior

Sumir com o corpo 

Dentro do copo 

Enterrar as mágoas 

Vida vaga a morte acompanha 

Aceita tuas desfeitas

Malas feitas 


Pode fechar 

Lá fora

A morte te leva na porta espera

segunda-feira, 6 de março de 2017

fui à busca do título adequado mas me fugiram as palavras

o que tu for dizer de nós

é o que desconheço

perante a ideia da geração

deste romance solitário

aguardando que abra os olhos

visto sol e flor lá fora

é que temo tempestades

de silêncio inoportuno

enquanto indaga o tempo

que ainda temos pra sofrer

por esse amor imprescindível

há tanta força

irradiada dos abraços

vindo frágeis despedidas 

supondo devida facilidade

contrações ágeis 

nos aguardam lá fora também

basta gesto demasiado

de bocas em atrito

parir primeiro indício:


amor gerado

quinta-feira, 2 de março de 2017

fotosequência

inconsolável manejo 

enquanto inscritas memórias

pressão 

sob botão 

quando há pulso 

inconsolável contramão 


enfoque revestido 

socando as palavras 

dentro de fotos impávidas 

revelações impróprias 

ânsia por via rápida 


olhar sucinto 

sequência

embora

por desistir de mirar

basta virar a câmera

e a cena retorna 


quarta-feira, 1 de março de 2017

Se estiver firme podemos continuar

É possível falar do medo 

até que mudemos a estação dos sonhos

O trânsito, neblinas 

chegam mesmo através do verão 

insistente em oscilar

Viemos tão despreparados 

antes de sorrir veio o choro

sem ver a gente acolhe as mãos

Firme promessas surgem igual suor 

em manifesto indevido 

silêncio absoluto

Os lábios esquecem função dos beijos 

e permanece pasmo verso que recita carta de adoração

É possível até provar o presente 

se te falar de ilusão 


É tanta dureza...

Seguremos as mãos

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Welcome to the hell

A Estamos frente à paisagem
Os pássaros alheios
Ao som de nosso passado
Flutuam desgovernados
Na ilusão de um amor suave
Que não nos pertence
A estação anuncia o suor
Causado por um frio contínuo
Muita luz e azul
E as trevas chamaremos poesia
Ali do alto o coração sufoco
Mas ao olhar pra cima
Pinturas no seu quarto
Mansidão de teus braços
Desconhecida textura
E portanto na falta de abrigo
Descubro um lugar elevado
Soletro devagar teu nome
Em delírio na boca
Meu suspense infantil
Propenso à recortes do vento
Ao sul teu corpo
Verão teu rosto


Fera Ferida

dotado das sutilezas 

tédio disforme 

fugindo da jaula

assim bichinha manhosa 

as garras faíscas 

o retorno de ontem 

feito presente 

urge brilhantíssimo 

rogo incenso de lótus

as flores no alçapão 

carregam hoje tarde que faz

tanta pureza morta 

trocar marcha 

ondas soníferas 

contração instantânea 

rogar benção tardia 

por vias

flor fincada 

recortes da sanidade

fera encarcerada


Título: música da Maria Bethânia 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Descuido

Devia ter desistido da poesia

No primeiro frio mudo 

A ponto de trancar o casaco

Acima do rosto bem firme

Cega as margens do que sigo


Assim as conduções

Turno rápido optariam 

Folhas enterradas no solo

Acimentado a estação floriam


Todavia contei com a sorte

Por vias estreitas - 

Sorria 


Devia ter desistido

Desde primeiro - 

Desvio 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ressaca

Espanto notar semblante ameno aos ruídos da praia mansa longe, logo mapeio os pensamentos enquanto desloca o corpo na área destinada a nos perdermos de vez, e como sem volta de maré agressiva, divindades enviam uma correspondência do outro lado da Oceania mais próxima, estrelas sucumbem e nos engole um buraco forte sem motivo; então agarro sua desconfiança do avesso, e se houve sentido, afogo e nos salvo da corrente mais grossa: Afinal amar requer distúrbios na fala. Adapto os modos de abordar severo destino aliada a tanta suavidade, a gravidade revela cores presas de um sintoma universal; escuto trovejar e como prova da maré distante retorno à prosa falha titubeando no que nos sobra, nos falta. Revido olhar perdido quando a pretenção é buscar seu corpo que no entanto flutua na água e isso me soa proteção tardia, vejo Lua na proa encostada e as implosões de um céu metódico anunciar o fim de fantasias áridas. O choro seco, pele e ausência de palavras, pura, áspera, socorro intensa calmaria. Apelo pros sintomas anormais, surgindo brevemente olhar distinto descubro modo de manter corpo unido: agito. Amar é. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Contar uma história pra gente dormir

Se te contam os dias,
Horas arrastadas com urgência,
Sopro do instante 
Contagem regressiva 

Conta com a morte somente
Deposita no crédito da vida 
Pós suplício o resto de alívio 
Nos ombros de um destino 
Não previsto, 
Daqueles gigantes 

E acredita como se fosse um sonho 
Se deita de novo pra dormir, 
Agarra a cintura tipo
Aquela música repetindo

Gasta a última gota de suor do corpo 
Dança pra não chorar e,
Segura,
Não, você não está só aceita 
Vê se acredita na possibilidade

Só assim então se aconchega 
Quando as luzes
Apagarem
A gente deita 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

transferidos manuais instrutivos: voa

Supondo consorte instante
Suprido no peito contido
Resguarda primária suplente
No quanto tem gente surgente 

Suponho alguma palavra 
Quem sabe argumento provável
Sugiro passo translático
Suporte de vóz oprimido 

No passo controle constante
Se houve total circunstante
No outro bocal sopro inteiro 

Pra dar ursupal verdadeiro
Das outras frangalhas soantes
Um tanto oral desordeiro 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Cicatrizes sem rastros trafegam pelo interior do corpo cedido



Peguei pra ler textos curtos


De poetas desconhecidos


Recordei nostalgia


Não cabia no meu repertório


Mas amargo sentir a costura


Ainda crua pele explícita


Ali punida


Nada meu existia


Contudo desgosto nocivo


Sabia o pertencer unânime


Memórias retalhos


Estancam o sangue


Transitar por escrita


Resgatando carne 


Esquecida


Exibida consistia 


Ferida


Ali eu existia