café e dores

café e dores

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Não nos vemos se não saímos de nós

Embora espécime 
Fogosa, atentava quanto 
Aos ruidosos arcos Iris 
Que surgiam de súbito 
Espelhados pelo reflexo 
Dos vidros expostos

Frajola dormia íntegro 
Parcela das manhãs, 
Tardes, e quando descia o sol 
Escalava quaisquer lugar 

Gostava de revirar gavetas
Chispava em espanto 
Do que se revelava, 
Ocultado por debaixo 
De globos solares 

Tinha certeza do apego 
A nos amargar olhares, 
Rasgava os tecidos 
Deitava sob a cama 
Na ausência dos corpos 

Livre e foguento 
Aos momentos de euforia 
Amava os cantos. 
Os buracos se enfiava feito cão. 
Mas era delicado, 
Se sabia da manha 
E reluzia muito. 

Ao fervor das pedras
Felino despojado,   
No inferno se dizia dos cheiros, 
Foi então que desvendei 
O maravilhoso cheiro
Na pele da nuca, 
Todas as flores na pele

Gostávamos de atravessar
O caminho mais longo 
Atentas às clareiras dos raios 
Os reflexos intensificados 
Por passagem lânguida 
Dos tons vertidos 
Pela manhã ensolarada 
Doíam diante 
Das banalidades 

Mediante às horas líquidas 
Frajola descobria
A ilha desconhecida 
No fundo 
De onde 
Não se pode chegar 
É preciso sair de si 

*título trecho O conto da ilha desconhecida, j. Saramago 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

você tem o jeito
das coisas plenas
deixadas pra admirar
quando o suor
escorre da cara
por favor
não me fale
que estou falando
de amor
novamente
deixada na cama
o conforto
e vícios pra lidar
é só por precaução
narrar aos que
sentem as veias
a gritar
um pouco do
seu gosto
de coisa leveza
além da confusão
dos plenários
e o incêndio na Candelária
os jornais censuraram
seu modo to be
agora só a figura
de sua estúpida calma
desgosto constante
a nos aglutinar
quando retorna à casa
é um modo de alma
descalça da rua
toda em agonia
a cantar

"roubaram o véu
das manhãs"

[sinto agora
os ventos da estação
repensada na pele
transvestida de gestos
entregue aos atos
lentos e silenciosos
das fantasias criadas
em coro de sonhar
deitar e esquecer
me inflama
ânsia tardia
do inverno lá fora
destoado das cores
a deslumbrar]

conduzido por águas transtornadas o ato de afogar

há um deserto
imensificado
de mágoa
em nossos corpos
desnutridos
das cores que
irradiam
dos dias nas peles
é sobre os comas
das palavras irreguladas
por chegar
e aconchegar
o corpo na ilusão
da leveza
das conduções
assim feito rio
as correntes
nas palmas 
vertidas de contusão
vestido de esperança
os beijos
os bailes
nossos corpos
amenos 
há um deserto
surtado
de instruções
no entanto
o movimento
recorte
à vida
a pulsar
por mares intransitáveis
é possível
deitar e trancar 
os olhos
deleitados
pela seca
impelida
de transbordar 
é que há um deserto
irreconhecível
instigante
nos conduzindo
a naufragar 

domingo, 18 de junho de 2017

eu que não saí de casa a bater porta e suprimi gritos engavetados atenta ao bafo do mundo pedindo que calasse a boca a qualquer gesto de afeto; vacilante quanto à sombra de antepassados desconhecidos, assino por causas de transtornos inexplicáveis dados às autoridades, essas que atrelam a mim responsabilidade por um mundo assombroso, entretanto ignoro-as em meu tribunal. carrego na face um susto profundo e assopro antes de levar à boca e mais outras besteiras que se ouve sem saber o porquê a gente aprende a resignar quando é hora de pisarem no seu crânio pedindo que sorria. luz lá na frente do buraco que você tá metida até início da próxima vida, depreciante ir além, mas veja se é possível permanecer impávida diante do poder dos solos, das águas, dessa potência de voz enterrada. as flores! perfume de lágrima, tão despida de armadura é então gentil relevo, veludo meigo as veias rubras, posso falecer esparramada entre o sedoso amor das pétalas e a sentença dos espinhos 

é preciso muito mais do que sumir. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

sal

estou triste
queria estar te recitando
os poemas de amizade
que li nos cadernos
e decorei
mesmo falhando
disposta a demonstrar
que o pensamento
te incide

suas mãos
distanciadas
ocultam as linhas
do destino
a nós costuradas

li nos poemas de Drummond
sobre a solidão
dos números
e das cores
Van Gogh sorriu
dizendo adeus

você desfalecia
não apenas na sombra
dos galhos
ou da ressaca
do outono no mar

seu pelo
em harmonia
arrepiando
as vezes no tom
dos músicos
velozes em seus dedos
no percurso
da estação

o vento da paisagem
entre tantos sinais
devagar a face
despida do amanhã
restaurada pelo
porta retrato

as vezes no ardor
da noite introvertida
só você de perfil
nas memórias
coberta de flores

estou triste
pois só recordar
o semblante
atravessado pela poesia
me faz querer chorar

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Tenho coisas importantes a falar mas antes disso já viu o tamanho da lua sob os corpos desatentos? É que o seu cheiro de erva daninha e o medo tudo envolvido no céu da noite fria. Todo Rio gargalhando da gente e as bocas desatadas, o barco lá no cais e a gente pisando tudo como um chão de amarelinha. Todos transando e os corpos estirados, ao falar das cores as transfigurações os invernos aproximados, talvez não tenhamos falado do futuro sendo onipresente o que se vê a essa hora na escuridão. Então se sente, bota um disco alto e vamos torrar o finzinho da memória que nos sobra, é que o amanhã nem se vê. Não tô conseguindo falar sobre o presentimento no centro das atenções desmotivadas por um frio que tá mais dentro do que fora, mas é que você tá inclusa, lá no fundo, pode escutar? 

Vamos recomeçar 

terça-feira, 13 de junho de 2017

Relicário

eu vejo como o mundo

te agride 

ladeira abaixo

dos instantes

insistentes em fazer

choro do que te toca 

é que o sol te ama

a lua e eu aqui miúda

te amando 

com a força veloz 

dos moinhos 

e das asas da libélula 


sei dos seus esboços 

mas pouco se sabe

da solidão 

te impregnando 

só essa sombra

queimada de fotografias

o muro de pedra

som dos seus pés 

indo rumo a nada

que nos constitua 

como um par 


e lamento que não 

possa enxergar

toda poesia 

que me faz te dizer 

como é lindo 

saber seus planos

deleitada sob o retrato

afundado pela manhã 

das horas não dormidas 

assim feita de aço

e lágrima seu peito

tão delicado 

seu sorriso

apagado na areia 

das estações 


sem que saiba 

decorei seu abismo

todos os destinos 

e seguiria contigo

mesmo que as palavras

além de nós

desfilem inibidas 

a busca de conforto

em lábio selado

assim deliro 

por seu gosto

como se preferisse

sua fonte inteira  

às águas do planeta 

ou todos os espaços

só coubessem

no buraco

que você se enfiou

e no qual me lancei

pra tentar te abraçar 

e dizer que tudo

basta calma

pra alma 

descansar 


posso te ajudar

a enfrentar o afeto

dos planetas em órbita 

as vagas impressões 

o desconforto do verão 

ao seu lado

enfim te transpassar 

além dos 

limites do corpo

repousar sua febre

no meu ardor

te ver passar 

mal sabe você 

o bem que faz 

te amar 


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Os dias feito nuvens
E uvas sem caroço
Flores mortas
Em tumulto

Morrer é como atingir
O hino das massas
Das gargantas
O coro do povo
Em demasiado amor

A eternidade
Assim pronunciada
Não atingiria o oco
Dos caixotes de madeira

As vagas não reduzidas
Lamento breve embriaguez
Brotariam de flores ao redor
Das cabeças

Morrer é
Um arrepio
Sutil
De alegria e dor

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Retratos: p1 

tenho vontade de 
receber uma mensagem 
ou carta
qualquer memória 
mesmo que o mar
longínquo submergisse 
das paredes 
acima da prataria 
de cima abismo
arrepia o braço
a coxa e o buraco
do anus 
gostávamos de rodear
os fogos
e os diálogos
atravessavam os matos 
cresciam os nus 
a correr disparados
de pés escorregadios 
a seca surgia 
no incêndio das matas 
os bichos voavam
velozes com asas esplêndidas 
o entorno esverdeando 
sufoco dos pulmões
calejados pela ordem
natural dos campos 
descobriram uma ilha
que já existia 
descobriram
o espaço
os contornos o corpo
nada entorno
só paredes secura
o estoque de lembrança
diluída pelo
branco solidão 

esperava uma notícia
distante os barcos
ameaçavam os rasgos
bandeiras e vitórias
escassas 
a terra viva
o rosto devasto 
as paredes mais paredes
vim do útero de uma guerreira

atravessamos fronteiras
das almas seguintes 
correndo por árvores 
o mesmo pau exposto na sala
em rijo
secando a mata queima
os retratos 
deviam enviar
alguma imagem
esverdeada
uma mente esquecida
no centro
das paredes 

desbravadas terras 
anunciadas feito virgens 
as matas cresciam e pêlos 
por entre as pernas
feito pantanal 
em tempos de festa
as cores no céu 
no oco dos olhos
os desbravadores
atentos ao abrir 
dos vãos
empunhavam as facas
e bandeiradas 
documentos ilegíveis 
às mãos  

receberia batida na porta 
do endereço 
esquecido
ninguém viria 
eu não estaria aqui
mas é então verdade
que existo

aguardando
poderia descontar
no tempo
enumerações intermináveis 
posso dialogar 
com a hora que passa
a todo leve grosso
aceno do peito
dolorido feito pluma 
pairava no centro
das paredes sequíssimas 

pairando no rio 
a água agita. agora sinto o corpo.
me toque. 
existe um rumo
que não pertence 
ao fim 
enfim um envio 
agora a carta dentro da palma 
arregalo e leio
em tom solícito 
uma mensagem do mar
atravessando as paredes
quebrado meu corpo
sangue
a gente foge! 

só figurinhas 
aquarelas desfiguradas 
cantiga sobre a memória
tão doce voz
canta a caixinha
entrar nas paredes
é tão ventania na tranca
afiadas as facas

acordo para um sonho
as memórias
retornando 
prefiro dormir. existo. 
estou presa nas paredes
úmidas 
todo corpo quente. queimo
feito papéis
todos foram torrados 
tudo que tinha
não sei porque vim 

Retratos: p2 

podemos percorrer
além das paredes

todas as memórias 

tudo entorno 
pacatas árvores 
plumagens ondulantes 
ríamos das lendas
de um povo apagado
não aqui dentro
do corpo
é que dentro do quarto
não alcançaremos 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

horizonte é pouco então



há um breve tempo


até chegar


ao patamar


mais alto


De tudo


que fomos


à busca


(encontrei Jesus


mas teus olhos


distanciados


pela elevada


solidão


proporcionada


por fins


e inícios


permanece vazio






poderíamos amiga


atravessar eternidade


embargada


poesia


na outra margem


do Rio






há espaço


aqui dentro


ocultado


há tão pouco tempo


que invento


modo de questionar


tu


muda


comigo


de lugar?





saudade


do tempo


a vagar


ao nosso lado


surgíamos


despidas da memória


do suor na goela


subitamente


de amor e


medo






sabíamos do aguardo


Em reflexo


sobre o que surgia


pelo receio


de colidir


atadas as mãos


se fôssemos


rezar


por amor


(Jesus


é um sentimento


criado


em vãos

domingo, 4 de junho de 2017

documentos são ilegítimos diante do que sentimos

nesse instante tive vontade
de agarrar o caderno
e te escrever um poema
falando das coisas bonitas,
daquelas no aguardo
a fim do sorrir
mais frouxo,
se por ventura acredita
nessa paixão,
no escuro,
receio de morte revelada
[em breve]
que te guardei
junto a recortes de instantâneas
felicidades incandescidas,
cuida desse zelo

[miro no lápis seu corpo
humilde]
e nos imagino unificadas
dadas aos sacrifícios da pele
rogando por semanas breves,
discursos afoitos,
e os vícios, alívio de quem sente

e sinto tanto por não oferecer
a seu prazer
consolo aos olhos
[todo dia]
estando tão nublado,
e vejo sua face mais uma vez
distorcida pela névoa
[me nega]
assim largo as folhas
e intento acompanhá-la

o girar dos dedos
com candura
é breve o
que teria a dizer
pra não saturar sua rotina
e a posse do destino
evocado pela esperança
remota de que
meu bem
rasgue os papéis
[o amor é vivo]

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Vou te contar sobre como em sonho, um guri franzino sorriu sem os dentes, a fim de nos aproximar, fez-se dois passos discretos. A explosão acendeu na aurora, a observação passou do horário enquanto pensava em descrever a borboleta azul. Sempre achei as borboletas muito livres mas as azuis vem do céu num pouso leve destinadas ao paraíso. Nos olhamos um olhar descrito nas passagens que eterno diria existir fogo fome do buraco imensurável. Tocamos borboletas azuladas, todas azuis, reverberavam as vozes das asas azuis. O céu parecia existir mais próximo. Tudo poderia dormir diante daquele azul fobia. Dormitei mais uma vez em sonho, no colo do menino sorriso. 

domingo, 21 de maio de 2017

atravessar fronteiras até teus lábios


quando teu fogo 
acende as ruas 
dos leões 
as cores 
parece aquarela, 
monumento antiquado, 
mas quando o rio destoa
é pelo teu nome 
que o trânsito 
permite alcance 
entre municípios 

quando arrasta 
os dedos a roçar 
o chinelo no asfalto 
é feito pisada 
no corpo rijo
o sentido a querer 
assumir teu colo
em solidão 

quando a luz 
transtornada corta 
o discurso ensandecido 
é que se revela a paz 
retratada no
sorriso calma 

queria socorrer 
teu corpo inteiro, 
indiscreta, 
egoísta por amar 
teus planos, 
beijar teus defeitos 
assim como 
desejo insaciável 
descobrir teus muros 


quinta-feira, 18 de maio de 2017

À busca

Devia provar
gosto de choro
macio
caído
lânguido
simples ao tocar na artéria,
Essa estagnação diria ser discrição
ausência de estímulo

Talvez deva suturar as marcas pisadas
antes de partir à trilha,
Horário de saída,
Basta creia não passar desapercebida
tão pouco pela brisa insólita a desistir das banalizações

E que infira
fúria
boca
e voz à fora
enquanto há
e no embalo surgir
vontade de transitar
que seja
Foi o paladar da noite entrando
e a saída prescrita finais
Nós sabíamos dos históricos de homens partidos, 
enfim as cores

Me fala da proteção abaixo do céu 
e inventa abismos por onde enfiar transtornos
E estamos, bem o sabe, 
quem dera chegar aos contornos 

Cientes de abalos inevitáveis,
revisitaríamos cobertores que só tocam a superfície 
mais firme do espírito, 
nós existimos tanto chega a duvida.

Deixa os argumentos pra quando a fala estiver segura, 
daqui não ouço teu sorriso, 
revivo a fim de nos encontrar

Temo desencontrar seu fôlego, 
as fases do seu sono, 
mas permaneceremos instantes 
enquanto o dia pacato anunciar os rostos contorcidos

domingo, 14 de maio de 2017

banais p. 1

hoje não li
nem ouvi um disco 
transei 
saí

no entanto sento 
no canto da cama
pra escrever poesia
como discreto desvio
das rotinas intermináveis 

apontando sutilezas
ao lado de fora
como quem
sabe o samba 
pernas imóveis 
nem troquei a calcinha 
ajeitei o jantar
de fome indefinida

hoje sentada
a escrever o que 
a boca é incapaz
de traduzir
as palavras inteiras
acessíveis de fugir 

então escrevo
pra aliviar
desassossego 
do silêncio paralisia 

se fico sentada
olhando pro nada
sou capaz de sumir

registro 
aqui 
hoje o dia
foi tão rápido
mal o vi 

domingo, 7 de maio de 2017

paraíso

delicado é olhar seu rosto 
poderia descrever
a singularidade arcaica
Que te compõe
só com um toque
sutil da memória.

se é frio ou queimo
no suposto instinto
de correr nua arregaçada
te olhando como nunca pude
temerosa por devida selvageria
que te chama aos berros
em silêncio rigoroso,
diria ser loucura.

as vértebras das costas
no aguardo que o tempo voe
me convidam pra deitar seu corpo,
esqueço que existimos.

assim revivo e somos
nós deitadas uma cama cumprida,
as roupas fora do corpo secando.

Assim o tempo vaga
e assim o sossego
acompanha alvorecer
de um sorriso no meio da noite
Bem ali no centro da minha
insônia você sorrindo.

o fim se fundindo, lembro de
alcançar seu joelho com carinho,
foi o tempo, alguma culpa
a gente carrega, a vida,
tem uma espécie
de angústia que agarra
o corpo
navalha nas mãos.

parece que você nasceu de uma erva.

terça-feira, 2 de maio de 2017

parte da liberdade é abrir os braços e segurar o corpo inteiro

sobrevoando displicentes
mãos são passarinhos
se fosse ninho a redoma
de amor e cristal
berraria sobre a pureza
estreita de governar teu rumo

decolar em praia desolada
por amor tão livre
tudo transparente
as águas batendo nos pés
o som que viria do movimento
que os corpos reproduzem
em êxtase no verão

logo o resgate levaria
os corpos afobados
navegando em mar aberto
tão imensidão a paz
dos piratas a nos roubar
as vergonhas todas

em mergulho resistiríamos
ressaca dos Monstros noturnos
Salgado choro dos botos
tragédias dos Deuses marítimos

transitaríamos na onda
restante da areia abraçando
os corpos afogados
as palmas soando
tamanha paz
que ecoa

sábado, 29 de abril de 2017

Vambora

ainda não é chegada fim das nossas vidas mas sinto o corpo socado na estrada muita passagem muita cor antes da manhã surgir como envio do além, lá distante até de espaço, forma, é bem no lugar que a gente devia ir pés nus, corpo untado, nunca assistiríamos tanta paz e esperança de nos alimentar dessa sede que é sumir em conjunto sem rastro, pegada, o que for de pista que nos ache em pleno ato de amor. se for pra ir que seja agora antes que você descubra que mal se sabe onde o que interessa é só ir embora não esperar o sol surgir. é que se amanhece a gente deixa pra dormir esquece de sair às vezes é bom fugir.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

brisa

já sentiu
cheiro 
da tarde brotando?

tranco do motor 
estagnado o céu 
flash
cardume lânguido 
dos pássaros 
ao longe 
uma florinha fincada 
no asfalto
suja de lama 
no vão do salto

as vezes a gente expressa 
e não diz é que desacredita,
se palavra toda solta 
fosse revolução

no mais,
o cachorrinho caminha 
sorriso língua nervosa
o chão é perigoso 
as quedas, 
só olhar pra frente, 
tem gente, 
e me olha como se fosse bicho, 
o cão

A gente nem olha, 
desvia, 
sente, sente mas vê, 
falta sentido

ah é que bate uma nostalgia 
imagem de infância 
segurar nuvem 
na mão, 
e devagar roupa bate 
no corpo, 
de tão forte que é vento 
gostoso vindo depressa

sabor de deserto na boca
olhos e água mais sal do Brasil,
desacredita, 
tem cheiro pra todo lado 
vindo de fora!

não quero falar 
como se a gente fosse tudo 
mas tudo não passa 
de um pouco da gente, 
e segue cabisbaixo
as durezas do chão 

reluz no ponto 
mais indecente 
lá da frente, 
aponta
cheiro de fim.

É lá que a estrela 
tá gemendo de gosto da noite, 
muda a estação, 
olha pra cá 
gingado as flores 
brotando 
muita arte das cores, 
quanta pintura!

acho que o céu 
piscou pra mim

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Aos pés do altar

Tomai, deleita desse corpo
Santo fruto de formas
Transforma no ato
Deforma

Bebei até engasgo
Pasmo enfia o gozo
Boca à fora
No grito

Agrido teu sopro
Em susto me visto
Tornado zumbido
Pé do ouvido

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quase não tenho você em mim

Ainda fumo aos fins de semana e falo sacanagens em voz alta sem tremer os puritanos. Você permanece na minha lista de chamadas perdidas. Eu perdi a nitidez que existia em meus olhos de indecisão e lembro de seus lábios ainda úmidos de saciar vontades que nunca serão minhas. Não te quero nesse precipício que insisto em exibir e se te coloco em minhas poesias é pra amenizar a queda de tantas primaveras hostis. Não peço carona em seu peito vadio porque a viagem é longa demais e essa rua não tem saída, sabe. São muros e concretos tão frios que hoje o inverno me dá boa noite antes de amanhecer seus olhos calados novamente. O cheiro da outra te trará saudade de casa mas não tem como voltar porque você cresceu demais. Ao longe ainda ouço os pássaros que fotografei pra te mostrar uma manhã sonâmbula e sem querer ensinei a partir apenas com o remorso no bolso por não ter feito morada em mim. Há um pedaço do céu que eu te doei e agora o café grita no fogão implorando para não doer tão cedo assim.

(2015)

Guardo nessa carta saudade e um pouco do sal desse meu mar

Os músicos da sua cidade herdaram o seu sotaque e as pontas das estrelas apontam pra nós, você ao norte e eu desnorteada. Quantas borboletas repousaram a metamorfose em seus cabelos? Você pode morrer agora antes de ler essa carta e isso seria a morte da minha literatura, de meu coração arcaico e de tantos planos ainda não pensados. Acho que chove em alguma parte da cidade e você cresceu cedo demais para um homem com medo. Eu tenho tantos segredos e medos. Esse avião pousa às 21h em Santos Dumond no horário de Brasília. Vê se me guia.

Aceitar o seu amor seria confessar a mim que te amo mais do que devo. O que tento dizer não se põe em grade ou linha. Eu ouço o zumbido das teclas sendo disparadas como balas invisíveis contra mim. Ouço meu sangue fluindo por veias que rezam para serem cortadas, e os relevos do corpo gemendo por você aqui me olhando enquanto te escrevo. As luzes dessa cidade estão tão cansadas. E agora eu não quero falar seu nome. (serei escrava de seu nome). Daqui a sua luz quase não chega então eu tento te imaginar no meu escuro, sendo sugado e se aquecendo porque a tempestade não tarda a chegar. Eu sinto os pingos metralharem os ombros e se preciso de alguém agora penso em seu nome. Apertado. Miúdo.

É muito triste os olhos do motoqueiro no vagão das quatro? É muito triste aqui. Eu quase não vejo brilho, sabe? E se choro agora é porque ouço os trovões de toda seca desses meus tão íntimos 40 graus. Semi-aberta, digo que eu não sei onde esconder que durmo tranquila sabendo que existe você quando acordo... Eu falo é dessas neuroses que podem te assustar a qualquer instante, me avise o motivo de ir embora quando a música acaba. Olhar seus olhos e tomar a pureza ainda verde, no entanto só os vejo tão vermelhos a me desnortear quando admitir que sou sua. Eu nunca fui nem minha, entende? Você consegue sentir o que escrevo sem nem admitir? Eu não consigo ver o arco íris, estrela cadente ou pecados impossíveis. E vendo meu corpo por salvação. Seja da praga, do amor, dessa carne que torra os meus neurônios bons. Só a ressaca de você basta para que consiga escrever livro de uma página.. Meus pais estão brigando na sala e eu perdida no quarto reparando a solidão que me ponho submetida. As vezes acho que foi escolha ser do meu jeito, e ardo um pouco menos quando me aceito. Então eu tenho motivo pra chorar sim e não falar de amor até morrer dele. Eu não gosto de falar, entende? Eu gosto de ouvir um solo que me faça querer morrer enquanto escrevo. Gosto de ler suas reclamações às seis da manhã. Você é o meu café. Tudo isso faz muito sentido. Você consegue sentir?


(2015)

Acabou chorare

Há baianos antigos gemendo um choro brasileiro e nesse aeroporto o preço do pão de queijo é mais caro do que em Minas. Sou virgem de amores, repito. Isso é Rio de Janeiro. Toda essa gente comemora fevereiro com um sorriso que só aparece nos carnavais. Tem beijo com gosto de Skol e à noite as moças de família perdem o pudor nas mãos de algum malandro fantasiado. Não tem bagagem hoje. Não tem roupa limpa pra amanhã. Tem essa vontade de morrer enquanto o bloco passa. Eu quero esse calor da loira dizendo que amanhã vai amanhecer bonito pois tudo passa e que hoje estamos solteiros. Tem gente pulando nessa festa da carne e há quem condene o erotismo em tudo o que escrevo. À noite o calor não termina e nem a folia esfria.

Há muitas despedidas nesse aeroporto cujo preço do pão de queijo é quase tão caro quanto o amor.

*Escrito no aeroporto do Rio numa segunda de carnaval enquanto escutava Acabou chorare de Novos Baianos em fevereiro de 2015
seja o meu João ou o seu
quem morre ou mata não somos nós 
é o amor que se escalda escurecendo.
é de paz que estampo as paredes mas o caos encarde até os pulmões.
quebrar promessas ou ferir multidões eu não preciso.
amor é isso, a poesia ganhando título. 

são tantos títulos e muitas preces mas sem saber o porquê da escassez de seus olhos.
é água isso que você chama de lágrima? 
quantas garoas em becos do rio... 
não escrever sobre isso é suicídio

o mar já secou

os vizinhos gritam depois das três da manhã e o interfone toca:
é o sono que não vem

(2015)

amem

deixando a poesia
no mundo
como um susto
hino de misericórdia
carta extraviada
pelo destino
pois a minha identidade
é anônima

a cor do esmalte
desbotou enquanto roía
o tempo líquido
e as palavras distraídas
se transformaram
oração

amem
amem

deixo os rabiscos
no armário
pois só creio
no descanso
almejado
desde a primeira
falta de rima
no planeta de homens evoluídos

não há mais chances
de viver em olhos rasos
mas se a maré sobe
o dilúvio
cai
arrastando
discurso sobre
a seca no coração
de quem naufraga
no planeta terra

somos compostos por água
e despedida
quando a ferida exposta
gera matéria prima
então exponho ao sol
pouco de rima
para suprir sede
que a poesia
desconhecida
tem de se afogar
no amar

amém

(2015)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

sento a escrever suave 

tive tempo de buscar 

palavras inventivadas 

assim nos encaro impotente 

diante do manejo de sentidos


logo pela manhã pão quente 

com manteiga fria, 

cigarro oco pra abafar jejum, 

surgem as palavras dormidas 


passei por um sonho longo 

de personagens ausentes 

em memórias mais remotas 

antes de acordar 


o sol bem mansinho

essa mulher na rua escrevendo 

um livro, ao chão, 

seu corpo inscrito

desses olhos aflitos, passagem


o vento muito brando 

peço desculpa por insistir 

tanto quanto ao destino 

por não saber sequer 

há volta se irmos?