café e dores

café e dores

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Corte a próxima cena

Cortei as lágrimas
uma por uma
como se fossem pétalas os cílios,
cortei a pele e descobri um sangue aguado, sem cor.

Cortei as esperanças aliadas aos pulsos
Cortei o fio que atava a sanidade
Foi a inspiração em meio à lama vermelha

Passei batom da rubra cor que o sangue desconhecido já não tinha,
fui mulher por mais um dia
Não me reconheço porém
meu nome não saiu no jornal,
sou só mais uma erguendo a dor como troféu no final

Sujei o chão de sangue pálido transgressor
O meu drama foi escrito em restrito
Eu morrerei sem dar avisos

Cena 2 (corta)
09 de junho de 2014


Não conte os segredos meus segredos ao mar

54. Escreva uma "mensagem na garrafa" e escreva para a pessoa que vai encontrar a carta

30 de julho de 2014
Não sei a razão exata para estar escrevendo essa carta numa folha bordada por uma mancha de café. A máquina de escrever está sem tinta, a lua crescente desceu o morro e se escondeu atrás do prédio mais caro à vista. A minha letra é ilegível, combina com a personalidade. Se eu não estivesse pronta para expor aqui algumas palavras entaladas no começo da garganta, você não descobriria a minha solidão. Não quero nada pessoal contigo, não quero que se compadeça e me procure à cada estrofe. Eu só preciso me salvar essa noite. Não quero passar de hoje então escrevo essa carta porque assim eu esqueço - ou finjo - que a minha vida afundou. 

Sim, estou me contradizendo, sei exatamente a razão de te escrever. Eu estou te usando. Não deixe de ler só porque os seus olhos já estão cansados, o dia foi exaustivo, o mar levou essa garrafa longe demais. Por que logo eu? Deve estar se perguntando isso - coisa que faço todos os dias.

Vamos, quero repartir minha solidão, minhas amarguras. Deite no escuro e sinta o cheiro dessa carta molhada por meu choro corrente. Lamba essa carta e imagine que o meu choro é o mar que embarcou essa carta inútil até suas mãos. Seriam mãos calejadas por amores navegantes? Queria ser salva essa noite. Eu só queria enfiar a minha tristeza nessa garrafa como farei com a minha carta. Seria muito pedir para você rasgar depois de ler? 

Peço licença aos Paulistas (isso é um caso pessoal)

Ele me chama de poetiza
E ri das minhas prosas
Faz graça do meu sotaque
Muito mais do que carioca
E reclama dos meu cabelos
Que se enroscam
Em suas costas
Mostra à todos os meus defeitos
Mas quando vou embora
Me pega de jeito
E implora
Chora
E eu que sou carioca
Com meu jeito de poetiza
Ironizo a ginga desse rapaz
Que deu o coração
Mas se finge de durão
Pois sabe que o próprio sotaque
É de paulista
Sem rima
Sem poetiza

6 de julho de 2014

Teu desde 27 de julho de 2014

Descobri o meu cansaço
nos olhos dela
ausentes de cor.

Compreendi que a aceito
mesmo sabendo
que qualquer hora
vai abrir a porta
com a roupa mais justa
até no inverno
e me ouvir chorar atrás da porta.

Meu coração
vai ficar mais apertado
do que o corpo dela
contra o vestido
de couro sintético.

Ela vai socar
minha felicidade
enquanto
sai pela porta.

E ela me chama de amor
porque não sabe o meu nome
mas se for embora
imploro que volte
sem demora
e me chame
pelo codinome: Teu

Entre as tragadas do cigarro se entrega
"Não se iluda amor, tudo que sou não é nem meu"

20 de julho de 2014

Quase 4:00 horas da manhã
E o carteiro não chegou
Com minhas cartas extraviadas
Acho que algum dia vão notar que gosto de cartas
Vão saber que eu gosto mesmo é de você

Alguma parte me falta
Será o fígado baleado por cachaça
O meu dinheiro é pouco, minha fé é muita
E você assim do outro lado da montanha
Me ganha como fosse debaixo da cama

Fantasmas ao lado do travesseiro
Eu não tenho mais medos
Só essa ausência me castra
Estou debilitada e você me falta 

Mar morto

24 de agosto de 2014

Estou me transformando em maresia
Porque seus olhos são esse mares que se transformam em poesia
Vai-e-vem me arrebentando e sabe-se lá,
Que sabe um dia eu enjoe de você

Por que insisto em te lembrar nas noites de insônia?
Como um fantasma que me consome em lágrimas
E gritos
E mitos de que você seja só um sonho
Mas sei tão nítido que eu ainda nem dormi...

Prezo pelo seu descanso nos ombros de uma onda mansa
Que te carregue ao precipício
... Esse mar é o meu suicídio por te amar ...

Rodovia 666

07-09-14

Suspirar a solidão dessa noite morna me faz querer escrever
não apenas sobre esse vazio indiscreto, sobre nós
sobre você e as bermudas que não negam sua idade mental
ou seus cigarros viciosos - eu sou aquele que mais intoxica

Você me intriga assim tão camuflado entre duas cidades soberbas
cada viela que te entrega não nega a sua falta de pudor
e seus modos exaustos de me pedir amor

Assim me pinta em seu corpo como faixa de pista
só para não me perder de vista e, enfim, sair da linha
em meio ao caos da rodovida engarrafada
prestes a morrer na contra mãos - de mãos dadas
e se alucina quando me olha pelo retrovisor
revisando os lados para ver o do encontro amor

Mapa astral

06-10-14

Decorei seus feitiços mas os seus modos de agir....
Ah, esse seu mapa astral me desmonta em versos
Em plena véspera de nossa vigésima despedida 

Pontinha do cigarro com gosto de canela afogada
E cada vez que te acendi à noite dopada
Fiz com as mãos trementes e o coração inchado
De tanto se afogar em seus lábios
Grandes Misantrópicos Rudes Genuínos

Esse seu medo de perder o último ônibus
E essa folia que te vicia
Me arrepiam pois o que eu devia temer
É esse coração salgado que te alucina

Talvez a cereja seja o bendito fruto do seu pecado
Esses lábios me lambuzam com bala de cereja e gosto de cerveja
E esse cheiro está no moletom do passageiro ao meu lado

Ah que inferno preciso trocar de lugar, de cidade ou te conquistar de verdade

Eu consigo caracterizar seus lábios melhor do que a minha própria face
Eu sei que você vai rir da minha monotonia de te escrever todo dia
Eu corri a calçada inteira do Rio de Janeiro só para as lágrimas morrerem no mar
Com a chegada do verão o meu amor vem afobado
É que parei com os cigarros 
Te escrevo agora porque antes era passado

Quarto andar

16-11-14

Tem uma traça ao lado da cama recebendo o calor artificial do abajur, implorando amor sem se mover, posso ouvir seus gemidos a me puir os sonhos.

Tem um homem me ligando, querendo um encontro, mas como posso ajudá-lo se o que mais estou é perdida?

Na arte dissimulada posta em minha parede tento decifrar o sorriso plagiado de Mona lisa, ou o Infinito Particular de Yayoi que tanto me alucina.

Conto aos cantos o meu desencontro quanto às cores bregas dos edifícios. Quanta discrição. Quanto silêncio no elevador.

Já basta de esconder nossa dor. 

construir a minha obra de vida em sua pele

(27-12-2014)


ele tem essa pele que mais parece

um quadro pintado por alguma cor próxima ao dourado


quando encosto meu pincel

ele me chama de artista


e talvez perceba o quanto estremeço

ao esbarrar na solidão que é a sua obra prima


eu escrevo quase como um grito

que esse atrito entre nós causa toda poesia

ainda não escrita em qualquer livro vendido em livraria


ele tem medo de me sujar com toda a tinta negra

que compõem seus esboços e armadilhas 




ele ouve o som do mar


e eu posso ouvir daqui

as ondas do meu pintar escorrendo

por essa tela de cores líricas 

31/12/2014

penso agora que se você visse meus versos, 
talvez gostasse de toda essa minha falta de lucidez. 

sentiria a vaidade te queimar as bochechas 
e daí desfilaria seu cheiro de suor fresco pela minha rua.

toda rua entraria em carnaval em pleno janeiro.
todo bloco ia te chamar de solidão.

mas o chamo por qualquer vocativo que te alcance 
pelo menos em meus lábios pintados de reticências...

eu nunca termino frases completas sem parecer
abduzida por algum ser que me rouba os planos de normalidade.

essa vontade de não te esquecer explode em mim
você é dessas bombas silenciosas deixando traços de terrorismo por aí.

Um lugar ao sol

Mãos enormes. O papel me encarava de cara pálida a condenar tanto espanto, o estrangeirismo da largura da minha palma. Eu tinha um conto inteiro para escrever, desativar o despertador, ração do cachorro, que agora me encara também, como quem diz, mas ele não diz porque é cachorro e tem quatro patas. Eu possuía mãos finas, tanta leveza, ágeis, eram como conchas que, bem unidas, levadas ao ouvido, também transmitiam a calmaria do mar, o silêncio do amar amedrontado. O cão ainda me olha e agora eu acho que é questão de carinho, a folha tem medo das cócegas. Eu temo tanto que é necessário escrever, ou falar com alguém mais próximo que não seja a porra de um animal calado, me masturbar. Ainda não me masturbei, não tinha pensado nisso, sequer pensei em pegar na estante mais alta a lista que fiz das formas líricas de suicídios. Agora possuía o dobro de dedos e não me satisfazia. A solidão nunca tinha tocado tão fundo como se a ponta de uma lapiseira 0.7 fincada dentro de mim quisesse ferir e carimbar o atestado do fracasso de uma escritora manca. Não sei se manco é nome para mãos ou pés, mas eu pensei em Aleijadinho e sei que no Rio de Janeiro a arte é segregada, se eu não quiser fritar na praia tenho que escolher um lugar ao sol. Ainda possuo mãos, mas não sei usá-las, elas estão mortas? Vocês morreram e agora putrificam tragicamente num espetáculo de mau gosto? Eu me perguntava. Eu me desconhecia. Eu não quero me tocar, esse pedaço anônimo pairado bem em frente aos meus olhos, isso não sou eu, esse corpo não é meu, o latido, o cheiro de mijo grudado no taco quente exposto ao sol iluminando um cantinho abandonado do apartamento. Naquele ambiente, tudo esquecido, lembrava que até eu não sabia de mim. Não possuía identidade naquela manhã, mas quem fui? O que fiz? E o meu nome? Não assinei papéis, me desconhecia, nunca me toquei. "Vivemos no subúrbio dos medos", não era um sonho, mas chamo de pesadelo, despertador ainda ativo, meu medo. Mãos estrangeiras acenderam em mim o resquício de crença em um Deus vingativo, que desejava a minha ruína, meu perdão. Ajoelhei no espaço abençoado pela luz, mãos espalmadas repousaram ao chão, o cachorro deitou em cima, um lugar ao sol; um lugar, o sol e a minha devoção.

Entrada Franca

Eu dançaria com o seu nome
se a poesia me permitisse te tirar do papel
E vigiaria o céu de hoje
pois alguma estrela cadente
há de me trazer uma notícia de sua chegada
Eu me afoguei nas ondas de suas calças
e deitei na proa da barca esperando a noite inteira pois 
haja chuva ou choro a maresia me diria o dia
e eu colocaria em você a culpa
da minha febre de vida e de morte 

Mesmo que isso te assuste
Mesmo se você temesse encarar
os meus olhos na manhã de segunda

Temos previsão de chuva! 
E os tempos verbais me dizem que a tempestade
não depende do tempo que perdemos criando discurso coesos
mas sim de seus olhos indefinidos e úmidos
Quase implorando pela paz que não existe nas palavras
ou no amor desregulado que te ofereço sem diagnóstico 

E eu usei seu nome tantas vezes 
Mas não deixo de escrever que você existe sim
e grita aqui dentro e chora e tem maresia todo fim de tarde
e fim de semana eu passo na sua casa pra provar
que já não paro de pensar que nem sei onde deixei o isqueiro
Então procuro o fogo pela cidade tentando criar um título
digno pro poema em sufoco...

Eu só não esqueceria o seu nome 
Eu dançaria com o seu nome
se não houvesse tanto silêncio
em sua voz muda
no papel calando os passos imprecisos 

São tantos pecados e há um crime no ato
do encontro dos seus lábios
com o medo de tudo não dito
Eu sinto o cheiro do seu instinto
suando clamando resolução
enquanto o único medo que possuía
era de que eu deixasse a sua pele marcada
Tem vinho dentro da bolsa
E um bilhete pro cinema perto de casa 

A entrada em mim você tem de graça  

sábado, 14 de outubro de 2017

Infância

É noite no clarão ácido da porta entre-aberta,
no percurso, um abismo que calculávamos
ser o desvio através do armário secreto.
O infinito sabíamos mais perto, a morte
rodava feito ciclo dos planetas nas mãos,
nos revestímos de álcool e nuvens,
mas ao norte os montes pareciam afiados
aos pés e roupas fidalgas.

Nus e antiquados, assistíamos à serenata
acreditando na força que o amor
depositava sob o fundo dos olhos turvos,
prometíamos não chorar, mas o suor descia
as mangas caíam, o cheiro era de vida verde
e fazia tempo que os caules frágeis
resistiam à força da paisagem.

Ainda somos aqueles moleques do parque
arriando a calça e cagando no tronco
com medo apenas das formigas de bunda grande.
Era bonito sair e a porta entre-fechada
arrombava o coração da garotada
as bolas, as pipas, os jogos
despistavam a violência dos corpos
crescidos e esquálidos.

Bem desse lado da atmosfera a cidade
parece alagada por terra maciça
O céu nos dando bom-dia.
É noite mas a plácida aurora
a enfiar-se pelo espaço da porta
nos recorda, chegou a hora de entrar
na brusca viagem indistinta
Sonhar os dias que nos tragam
nossa indomável infância perdida.

Luz

Da boca salivava  
o sabor da noite deleitosa 

Do céu pichado 
aqui de baixo
As lentes eram longas 
projeções da neblina 
do dia - que 
pulverizava cor 
em nossos corpos assados

era bom tropeçar 
nos ramos 
e descobrir 
as fendas naturais 
do tempo

As folhas brigavam por entre 
os sons da ventania só 
de primavera solta 
Era bom desfrutar 
da sombra antiga 
esquecida 
no canto do parque azul 
Era bom estar no azul 

As coisas possuíam um 
cheiro agradável 
quase doce 
enquanto os beijos 
estalavam secos
na bochecha 
na hora da partida 

Era bom poder falar de amor 
com tamanha liberdade, 
sorrir até doer 
alguma coisa 
lá dentro 
da barriga gemendo 

A gente cria um destino 
melhor pra desconhecer 
os perigos,
E agora encontra uivar 
a noite toda escura e acesa

Vejo uma onda 
aqui de baixo 
o céu parecer afundar, 
as longas horas dormidas

Parece que o sonho é 
uma fantasia 
imperdível, 
não morre, 
esquecendo de acordar 

Parece algum roteiro 
Prescrito nos signos 
que as estrelas 
indicam com as mãos 
Alguma coisa 
há de ser 
tão doce 

quanto o brilho da noite 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lá Luna

Olhemos à distância
A confusão dos cosmos
E ao véu la Luna
Revestida de estrelas
Vastidão
Dos esplendores
Cavalheiros e Pôneis
Armados de constelações
Ao redor das esferas
Tuas órbitas
Ao mar caminhar
Dá-se luz
À tua sombra
Destino

sábado, 30 de setembro de 2017

Desculpas

Desculpe pela confusão
Dos bares que não 
consegui sair 
As tormentas alagando
Os mortos 
Vim de uma cidade sem lei
Mas o estado mete o dedo
E a ferida coça
Feito doença alastrada 
Desculpa pelo desencontro
Depois da hora marcada 
Dos goles esquecidos 
Pelo seu nome 
Estranho aspecto de 
Natureza devastada 
Desculpa por insistir
Na culpa que jamais tivemos
Mas assumo 
Que o erro me acompanha 
Mais do que passamos 
Desculpa pela brutalidade 
Do tempo 
Anunciando que temos
Tão pouco
Que é preciso correr atrás 
Não só da desculpa 
Mas do seus passos 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ao fim de partida

pegue o trem azul
na plataforma do último sonho
alcance
em vastidão
os cogumelos
e canelas e cravos

formule as palavras
enunciadas por convulsão
da boca solene
em delírio imóvel
entre hinos sonâmbulos
à medida que teu corpo
deita
esgotado
escorrendo pelos trilhos

confessaria fugir no véu
encoberto da noite satírica
no drama crepuscular
em ventania do
vestido acetinado

sem destinos apuros
o corpo desliza
nas vagas imprecisões
entretanto
pegue o trem azul
mais longe
mais distante
mais alto que puder
saltar

e quando alcancar
lembre do sonho
todo azul

atropele as estradas
as vias asfaltadas
feche os olhos
embora assustada
e grite
o terminal dos sonhos
ainda não alçou

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Depressão


Meu corpo em transe. Meu corpo inerte. Planos de fuga a algum lugar desconhecido de culpa. Sentindo culpa por sentir. Sentindo a mim muito pouco. Estado de modo inquieta. Os cães ladram sem saber o porquê dos soluços no quarto, decorado com minha bagagem. Retorno de bolso oco. Como aqui dentro do corpo é imensurável. Dispo as feridas escondidas abrindo espaços, me ocupo. Me refiro a uma dormência me deito e reviro. Não durmo direito. Outra vez o mesmo buraco. Não caibo. Na superfície o ar espreme meus pulmões de carvão. Meu corpo sente tanto por tudo isso. E eu sinto muito novamente. 

"A depressão comeu meus livros empilhados em ordem alfabética, os romances em drama brasileiro, as novelas infinitas, meus contos engavetados em folhas de caderno. Devorou os frascos de perfume que soam vazios, os rótulos de cosmético sem validade, as raras vezes que senti ódio. Comeu minha paz dizendo solidão, condenou o medo que sentia sob acusação de pena, desgostou do meu gosto de gostar." 

A solidez me abraçava em angústia, no peito uma armadura incapaz de proteger dos danos irreversíveis dessa conformidade pegajosa. O corpo obedecia à depressão intitulando que a pequenez em mim não só era tamanho, não me sinto capaz de enfrentar um mundo maior. Me encaro no espelho do corredor e desconheço pra onde. Estou? Talvez de medo, talvez de fúria, quem sabe o que se deu pra sair daqui. Em mim é muito vasto. Ensaio a próxima fuga. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Anti-horário

Quis te revelar em versos 

as preces conjugadas 

no fim de partida 

enquanto observaríamos 

o calor reluzente 

das letras 

Maiúsculas 


Repousar teu dorso insensato 

no centro dos seios 

e rogar por um destino 

que ajude o riso 

contínuo 

o fluxo elementar 

dos riachos verdinhos 


Se o mundo acabasse 

em melodia 

faria versos 

toda a vida 

e reencarnaria 

em teu nome 


Teu gesto urbano 

desmedido e insujeitável 

Transpirando

insolúvel 

fomos confundidos 

com os contornos

Das horas 

domingo, 10 de setembro de 2017

Passarinhos


Houve tempo 

das manhãs

Raiar cedo 

e olhos acesos


As batidas 

e o silêncio impreciso 

Tua casa 

aqui dentro 

Quentura dos 

teus cobertores 


O café dizia 

do acordar

Que descanso

Requentado 

em pleno domingo


Você ouviria 

as histórias antigas

De um tempo 

amarelado

O sol lá fora 

em convite

Como é bom 

sua rua liberdade 

Meu adeus 


Ainda há tempo

Pra discutir 

sobre o suor 

E o destino 

do apego 

Quanto ao receio 

Passageiros

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Escrevendo, 
Entrei em contato 
com a ausência de palavras 
no manejo breve e secundário 
das falas ininterruptas 

Em repouso,
a brasa do sol 
em meio ao céu riscado 
Desde o sutil sorriso 
da nuvem carregada, 
permanecemos calados 

Mesmo diante dos sons estrangeiros 

Contudo surgia enfim 
o sinto muito 
a guiar os olhos afligidos 
e as mãos desnorteadas 
Enfim o pôr do sol mudo 

Em anúncio, 
a boca colada ao silêncio 
declamando desvios 
a fim de nos assistir discutir 
sobre a discrição 
do amor sigiloso 

Assim ouvimos o mundo 
em ronco grave 
quanto ao despertar 
das ilusões possíveis 
dados ao ruído das auroras 

Escrevendo,
Lido com a falta de jeito 
em admitir que falamos 
qualquer língua 
que soe disponível 
aos ouvidos 
atentos de pérolas e sopro 

Cochichava silêncio 
a um mundo incapaz de ouvir 
o surrar das dores caladas 
e dormentes, descobriríamos
se soubéssemos -
que o mesmo mundo 
não escuta em voz baixa 

Escrevendo,
Escutei minha voz, que falta 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Gostaria de ver como soam em teus lábios contidos palavras de amor a um mundo menos violento

Pois é impossível ignorar a leveza das rosas murchando no inverno de lágrima e riso solto

À cor dos olhos intranquilos no vagão incinerado na avenida atlântica

Talvez você saiba o sabor dos tons da madrugada passiva na orla das intenções marítimas

Mas sem preparo ao mergulho teus braços buscam areia das horas que deslizam nas noites da praia deserta

E morre afobado quando em solidão o peito arfa feito maratona do mar em revolta

Enquanto a boca espumada entrega o sal das correntes vindo de um Portugal insosso

Transitaria nas palavras de amor embarcada nos sentidos que flutuam sonhos ancorados no castelo de memórias

E sem motivos de volta a maré em homicídio entre corpos estirados e balas de canhão o coração blindado

As multidões em brasa e a distante praia gostaria de te ver declamar que o amor está em tempo de guerra continue antes de afogar continue a nadar

domingo, 20 de agosto de 2017

Dedicatória

Guardei o verso mínimo 

Pra dizer das coisas

Que não diríamos se as palavras

Fossem amenas 

Pois quero te oferecer 

Uma rima breve 

Antes do riso e dos olhos

Que condenam versos poucos 

Tanta intenção 

Que sei lá 

Discernir e voar 

Até seus lábios aturdidos

Descobrirem o tom 

Da minha voz 

Ao inverso 

O silêncio desmedido 

sábado, 19 de agosto de 2017

Contornar a saudade do que ficou

Novamente a estrada vai se refazendo é possível pensar em coisas boas feito as nuvens de açúcar, os beijos de côco, sorve-te o dia inteiro de calor

A gente assoando o nariz desse caos orgânico, enquanto navegar na web é um pouco de privacidade às avessas, pegar o bonde andando, correr de salto no escuro em pedra portuguesa. 

As vezes acho que colonizaram até o tom das ruas, de viela em vão. 

Tem dias que a gente se sente como quem partiu e não quer voltar mas se a estrada é ampla e caminho em segurança, por que insistir em retornar? 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Canteiros

Vieram perguntar se não gosto de vida num dia quente tão morno que respondi sim mesmo não conseguindo sorrir eu acho que aquela pergunta me invadiu mais do que o brilho do sol

Dobrei as mangas da roupa de dias e não pude recuar com palavras nem os passos estava sentada e ergui a voz meu deus como eu queria correr entre as framboesas num mato verdíssimo 

Mas é que o brilhos dos olhos e das manhãs das maçãs tudo bem se chorar de vontade 

Tudo bem se não estiver 


http://youtu.be/yxWbSk7yGO0

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Gestos e amarras

Andei por perceber 
que meu amor te incomoda 
Demasiado e ébrio

E se vago na rua a te encontrar
Reprova os passos
feito vãos 
Quaisquer noite 
que não vos pertença 

Notei teu sorriso em sombra 
e tive pavor das intenções 
que mal faziam parte 
do meu repertório 
Assim domesticando os modos 
à parte confortável a nós 

Porém em mim tu fervia 
feito um bule assobiando "nós somos 
feitos de aço" 

Andei por perceber 
Que pertenço primeiro a mim 
Demasiada e ébria 

E os passos 
Assim soltos 
Desfaziam os laços 
Me sinto alegre por sair 

Me sentindo livre por vagar 
Se te encontro 
É provável que não seja na rua  
mas na lembrança 

Ainda existe uma faísca 
que chama "existe algo
que condiz com as cruezas 
de se amar" 

sábado, 5 de agosto de 2017

Devia te contar,
Não o vi passar 
dos inseguros passos

No que consta,
Intacto,
Esse passado. 

Dormi exausta, 
No sinal nos olhamos 
Na rua nos assistimos 

Sempre fui de reparar 
As mãos 
Mas passei direto
Quando me acenou

Não trocamos olhares, 
Embora não vi 

Hoje o dia morno 
Desfalece entorno da nuca, 
Deslizo pelas faixas 

Deixo o inverno 
Inventar desculpas
À medida que o pretexto 
Era te ver soar 

Basta 
Repassar,
Antes do dia findar,
Devia te contar 


Aguardo

Seria tolice
dizer que te escrevo
Mesmo que tente negar
o estômago revirado
Às horas distração
Às horas onde você está

E tal manhã
de nuvem cinza amarelada
surgiu feito uma florzinha
contente espalhando
calor pelo corpo
assim logo
cedinho


Uma breve pausa


pára


o coração



Quis te dizer isso
em segredo
a fim de não soar ultrapassado
revelar tamanho fogo
em público
Mas os segredos
constrangem até
as pupilas dos olhos
quando negamos
não nos ver

Mal tive tempo de decorar
teus planos
mas seria bom 
a cor do meu batom
em lábios
que pra mim
parecem flutuar
E dizer coisas infindas


As vezes acho


que você me machucaria


feito pancada de chuva



Ontem sonhei
com dentes quebrados
Não seria seguro
se dissesse
prever o futuro
(Sussurro)
Me dar conta dos juros
Das malas cheias de vento
Água toda estocada

Lá fora chovendo
Você aqui dentro

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dia após dia
Eu via a morte 
se vestindo pra mim 
como um estranho conforto 

Cotidianamente
Os raios chegavam 
aos ossos 
feito efeito de calafrio 
que me botavam dúvida 
se o frio sentido 
vinha do inverno no rio 

Fui adulando cicatrizes 
sem temer olhares indignados 
por tamanha petulância 
dos corpos livres 

Era minha sentença sentir 
e me amargava o calor 
dos panos grossos 
das saias cumpridas a encobrir 
vergonhas avermelhadas

Oculta em minhas falhas 
fui decidindo acompanhar 
o cansaço das margaridas 
felizes em suas terras úmidas 

Assim permanecia
Dia após dia 
Regando rastros
Transitando a pé entre
dias mornos 
e febris 

Suando em agonia 
por dias seguintes ao raiar 
a sensibilidade desfilando  
Em praça pública 
o caminhar das estações 

Dia após dia 
Fui lidando com a morte 
feito companhia
Depressiva
como se caminha frente fria 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Se for para morrer que seja

Se pudesse ser salva, 
Optaria por vulcão encarnado 
Em breve sonho,
Não por motivo de fraqueza 
Desgovernada,
Sinto alcance absoluto 
Por sutileza de abandono

Em restante subiria
Altares e por alívio os pulmões 
Feito discos usados, 
Me rumariam devido 
Envio de sinais restaurados 

Brinde à jornada 
Alardeada pelo suor da vista,
Assim a caminhada surtiria 
Efeito aqueles à busca,
Sem que o saiba,
Faísca 

Assim desejaria, mais um dia,
Mais quente, mais fogo
E todas as histórias,
Acima dos papéis tostados,
Vultos, alardes, Cinzas 
Brevemente engoliriam 
A cor da vida 

Assim quereria estar viva,
Lambida de chamas,
Afoita e fervente,
E deitaria solene 
em pleno ardor,
É por morrer de amor