café e dores

café e dores

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Desenhando por do sol

Foi preciso poesia pra ficar inerte
de um vazio que parece fome,
e foi bastante até cansar poeta

Precisou de flores pra fazer perfume
em uma cidade cor-de-prata,
pouco rica

Com páprica e torta de maçã o que era amargo
virou beija-flor, sedento e eufórico
docinho, para suportar um pôr-do-sol sem chorar
(pois o choro vinha salgado)

E com arte moldou-se um abraço calejado
se desenhando e dançando por entre dedos
com bolhas de tantas tentativas incansáveis de reinventar amor
(o amor existe porém não dura mais que horas)

Quem não vive arte desiste
sobrevivendo de esmola

(2013)


(2017)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

sonâmbulos

Oh se estamos tão cansados
(no intervalo das programações)
a vida vai arrastando
de trás pra dentro
enfiando tudo
de uma só vez
pra ver se nos cabe

E assim
como por acaso
o sol surge
timidamente nítido
o suor acompanha
o punho
e o rosto côncavo
inclina-se pra fora

Então os mares
em revolta
vingam as ressacas
os bondes passam
a nuvem treme
quase esquecemos da morte

Mas estamos cansados
e o corpo cobra
as contas cobram
os telefonemas
as transmissões,
mas é isso
a gente
tenta tanto
e sente muito
novamente

No entanto,
costumamos brindar
o fim do dia
de alguma forma
o corpo paira
os olhos indicam escuridão

As notícias notam
a gente distraído
fora as outras vozes
tomando posse
de uma manifestação
tudo entorno decrescendo
das falências institucionais

Ainda falaram
sobre a banalidade
do poema
no mundo
como quem decerto
despreza o mundo

Ah se estamos
tão cansados
mas o dia quase
como um sonho (acorda)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

um tanto de prosa e sintonia

diz que escrevo
diferente
quando falo da ânsia
da gente
de tudo bem devagar
vamos conversando
sobre os músicos
e a baderna
instalada nos televisores
e na vida remota
da gente
discutimos
sobre a nova canção
que ainda não foi
pro disco
nem pro papel
mas soa
assim como se
já tivesse ritmo
rimos um pouco
e depois
nos calamos
como se o sorriso
bastasse pelas palavras
acordamos
e por mais
um dia
a gente se fala
como se as novidades
surgissem dos instantes
de vida
a nos desligar
da rotina
diz que tudo vai
se acertar
e que não devemos
os erros descartar
eu afirmo
sou o erro 
e sorrimos novamente
como se bastasse
de palavras
nosso samba
é de segunda
até segunda-feira
mas o fim da semana
chega
a gente
se acaba
fumo mais um cigarro
e trago poesia
voltamos pra cama
de literal rotina
à pedido dos pés
e rodamos
os corpos
no sentido marginal
digo que sou diferente
e que a vida é
feito a gente
um pouco de tudo
um tanto banal

quem sabe seja só

acho que estou fugindo
talvez seja de mim
todas as cores
entre tantas horas 
impossível denominar 
a natureza é muito maior
talvez esteja falando de mim
as cores em tudo
é porque não há espaço
e os horários lotados
talvez seja hora de partir
e refiro a mim
acho que perdi a conta
das vezes que perdi
talvez seja apenas melhor
dormir e acordar no sonho
e não querer voltar
não estar aqui dentro
quem sabe de mim
e de nós
as cores diriam adeus
mas quem sabe pra quem
quem sabe o que
nós aguarda
como se tivesse
acordado de um sonho
dentro das cores
lá no fundo
talvez seja eu 

domingo, 3 de dezembro de 2017

ainda falta acontecer

fomos tão breves
e corriqueiros
supus sejamos
Instantes

dizíamos adeus
onipresente de força
que diria fraqueza
se nós
por acaso desatar

supus tanta fé
no encontro
que o banal desvio
acenando os beijos
e os anúncios da porta
nós aliados

pra onde iríamos
se corresse o tempo
à caminho do contato
percorreria a língua
os becos e ecos?

por quais destinos
nos falta buscar
para enfim a porta aberta
a fechadura entrar
e pedir pra ficar
antes da gente desandar

e se encontrar perdido
em público desvio
a voz destinaria?

fomos tão encontro 
que resistia o tempo
destino do silêncio
a imprecisão das horas?

fomos tanto
que esquecemos
ainda nós falta ser



sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Aurora

antes que se transformasse


as cores do céu


e entornasse sobre nós


o aspecto da beleza introvertida


abri os olhos


sob o mar agitado


e rezei ao Deus


que molhava


os olhos


os pés


e inundava naquele instante


todo meu percurso






pedi ao Deus a construção


da cidade falida


dos sonhos fantasmas


as estórias demolidas


que desfalecem no tempo


das revoluções


ouvi um uivo


que tomei por ser


um recado inesperado


em plena areia macia






atentei os ouvidos ao mar


o canto ressoava


adorável de uma Deusa


distante e diante dos


olhos marejados


pedi ao céu


Me leve!


e a Deusa infinita


arrastando suas asas


de ondas


me lavou


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O dia socando entrada como se tivesse noite saída

Acompanhei alguns apocalipses no início do fim desses dias de manhã entregues às cores da tarde a noite acordando o dia dormido. 

pensei fluir mais devagar enquanto tragava em meio ao ponto, parada, mal sabia da espera continua. 

Me falaram das regras e normas como quem chupa tamarindo, e fui segura ao embarcar, não, nunca fui estacionada. 

outro dia duvidei do giro solar e pensei na força do sorriso, impossível não imaginar a onda em retorno. Batendo. 

Hoje senti falta de uma coisa lá perdida e parecia o corpo ter sido espancado e vi as cores do céu umas oito vezes e vi tão roxo que senti perdão. 

Era uma cor de consolo bonita, tão bom sentir o céu abafando o suor de choro. 


Acostumei a caminhar pelos caminhos transtornos. 

Fernanda

nada ficou no lugar 
além da figura 
do seu rosto
que me era desconhecida 
devido ao semblante 
de sombra e vida 
do apego que criei pra nós 

nada além da lembrança 
de evocar tua voz 
nos instantes de silêncio 
e ecoar teu distante 
pedido de calma 

amei a ti como quem descobre
um desejo jovem 
e feroz capaz 
de atravessar o
mar Mediterrâneo 
com os braços em desejo
do teu corpo manso 

e gostaria de dizer 
que do nada 
sobra tudo 
que podíamos ser 
porque não éramos 

e se fossemos 
seria tão prescrito 
que é preciso 
além de acreditar 
ter força para enfrentar 

tudo que somos 
tudo que fomos
e o que seremos  
até continuar sendo 

o que sempre será 

continuantes

cansada de proclamar teu nome
por mim anunciado desde cedo,
e de tantas provas,
o crime arquivado em suspense
suprime meu gosto pelo roteiro
de um amor declarado.

simplesmente desisto
de ostentar motivos para as palavras
harmonizadas à teu corpo
deslizando no manto calafrio
de exorbitante teimosia.

é que de tanto declamar
e os olhos buscarem um destino,
desando três passos,
como se descobrisse um iceberg
em pleno Rio.

no dia em que fui te encontrar
nas horas distraídas,
desinibida descontraída
exatamente pronta para dar
declarações despidas
encontrei a vaga ocupada
dentro do seu olhar.

cansada demais para avançar
deixo de continuar.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

miudezas

não por ti, a quem amei demasiado,
não por mim que resta no mundo
feito pólvora destilada no cano da faca.
quando velejo na infância do sorriso perdido
entre a cidade grande e as miudezas,
sinto a força da gravidade instantânea
de lágrima diamante e histórias pasmadas
o muro desfalecido,
o pulso arrebentado,
é por vagar que a estação parou.
nada é tão supremo feito o mar
entrando na borda da boca suprimida
os pés crescidos no deck prestes a saltar.
sigo a contar baixo os dramas,
impossível não rogar
pela paz desordeira entrando no rosto.
não é por nós que recordo as placas,
a cidade é gigantesca,
os discos atrasados e o novo
discutido no plenário, deixado pra depois.
é por acreditar que amanhã
as ovelhas abrem os olhos no pasto
mesmo de medo,
as crianças correm liberdade,
para onde?
não é por eternizar teu suspiro
na praça Mandela,
o rosto antiga verdade revelada
na boca estagnada
arraiá dos males entendidos.
não por ti, que amo desmedida,
é puro reflexo da vida estendida.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Corte a próxima cena

Cortei as lágrimas
uma por uma
como se fossem pétalas os cílios,
cortei a pele
e descobri um sangue aguado,
sem cor.

Cortei as esperanças aliadas aos pulsos
Cortei o fio que atava a sanidade
Segue a inspiração em meio à lama vermelha.

Passei batom dor que o sangue desconhecido já não tinha,
Fui mulher por mais um dia
Não me reconheço porém
meu nome não saiu no jornal,
só mais uma erguendo a dor como troféu no final;

O chão sujo de sangue pálido transgressor
O meu drama foi escrito em restrito
Morrerei sem dar avisos

Cena 2 (corta)
09 de junho de 2014


Não conte os segredos meus segredos ao mar

54. Uma "mensagem na garrafa", escreva para a pessoa que vai encontrar a carta

30 de julho de 2014
Não sei a razão exata para estar escrevendo essa carta numa folha bordada por mancha de café. A máquina de escrever sem tinta, a lua crescente desceu o morro e se escondeu atrás do prédio mais caro à vista. Minha letra é ilegível, combina com a personalidade, diria. Se não estivesse pronta para expor aqui algumas palavras entaladas na garganta, não descobriria minha solidão. Não quero nada contigo, não quero que se compadeça e me procure. Eu só preciso me salvar essa noite. Não quero passar de hoje, então escrevo essa carta porque assim esqueço - ou finjo - que minha vida afundou. 

Sim, ME CONTRADIZ, sei a razão de te escrever. Eu estou te usando. Não deixe de ler só porque os seus olhos já estão cansados, o dia foi exaustivo, o mar levou essa garrafa longe demais. Por que eu? Deve se perguntar isso - Faço todos os dias.

Vamos, repartir minha solidão. Deite no escuro e sinta o cheiro dessa carta molhada pelo choro corrente. Lamba essa carta e imagine que o choro é o mar que embarcou essa carta até suas mãos. Mãos calejadas por amores navegados? Queria ser salva essa noite. Eu só queria enfiar a minha tristeza nessa garrafa, como farei com a minha carta. Seria muito pedir para você queimar depois de ler? 

Peço licença aos Paulistas (isso é um caso pessoal)

Ele me chama de poetisa
E ri das minhas prosas
Faz graça do meu sotaque
Muito mais do que carioca

E reclama dos meu cabelos
Que se enroscam
Em suas costas

Mostra à todos meus defeitos
Mas quando vou embora
Me pega de jeito
E implora

Eu que sou carioca
Com meu jeito de poetisa
Ironizo a ginga desse rapaz

Que deu o coração
Mas se faz de durão
Pois sabe que o próprio sotaque
É de paulista

Sem rima
Sem poetisa

6 de julho de 2014

Teu desde 27 de julho de 2014

Descobri o meu cansaço
nos olhos dela
ausentes de cor.

Compreendi que a aceito
mesmo sabendo
que a qualquer hora
vai abrir a porta
com a roupa mais justa
até no inverno
e me ouvir chorar atrás da porta.

Meu coração
vai ficar mais apertado
do que o corpo dela
contra o vestido
de couro sintético.

Ela vai socar
minha felicidade
enquanto
sai pela porta.

E ela me chama de amor
porque não sabe o meu nome
mas se for embora
rogo sem adeus
me chame
pelo codinome: Teu

Das tragadas do cigarro os lábios em aviso
"Não se iluda amor, tudo que sou não é nem meu"

20 de julho de 2014

Quase 4:00 horas da manhã
E o carteiro não chegou
Com minhas cartas extraviadas
Acho que algum dia vão notar que gosto de cartas
Vão saber que eu gosto mesmo é de você

Alguma parte me falta
Será o fígado baleado por cachaça
O meu dinheiro é pouco, minha fé é muita
E você assim do outro lado da montanha
Me ganha como fosse debaixo da cama

Fantasmas ao lado do travesseiro
Eu não tenho mais medos
Só essa ausência me causa
Estou debilitada: você me falta

Mar morto

24 de agosto de 2014

Estou me transformando em maresia
Porque seus olhos são esse mares que se transformam em poesia
Vai-e-vem me arrebentando e sabe-se lá,
Que sabe um dia eu enjoe de você

Por que insisto em te lembrar nas noites de insônia?
Como um fantasma que me consome em lágrimas
E gritos
E mitos de que você seja só um sonho
Mas sei tão nítido que eu ainda nem dormi...

Prezo pelo seu descanso nos ombros de uma onda mansa
Que te carregue ao precipício
... Esse mar é o meu suicídio por te amar ...

Rodovia 666

07-09-14

Suspirar a solidão dessa noite morna me faz querer escrever
não apenas sobre esse vazio indiscreto, sobre nós
sobre você e as bermudas que não negam sua idade mental
ou seus cigarros viciosos - eu sou aquele que mais intoxica

Você me intriga assim tão camuflado entre duas cidades soberbas
cada viela que te entrega não nega a sua falta de pudor
e seus modos exaustos de me pedir amor

Assim me pinta em seu corpo como faixa de pista
só para não me perder de vista e, enfim, sair da linha
em meio ao caos da rodovida engarrafada
prestes a morrer na contra mãos - de mãos dadas
e se alucina quando me olha pelo retrovisor
revisando os lados para ver o encontro do amor

Mapa astral

06-10-14

Decorei seus feitiços mas os seus modos de agir....
Ah, esse seu mapa astral me desmonta em versos
Em plena véspera de nossa vigésima despedida 

Pontinha do cigarro com gosto de canela afogada
E cada vez que te acendi à noite dopada
Fiz com as mãos trementes e o coração inchado
De tanto se afogar em seus lábios
Grandes Misantrópicos Rudes Genuínos

Esse seu medo de perder o último ônibus
E essa folia que te vicia
Me arrepiam pois o que eu devia temer
É esse coração salgado que te alucina

Talvez a cereja seja o bendito fruto do seu pecado
Esses lábios me lambuzam com bala de cereja e gosto de cerveja
E esse cheiro está no moletom do passageiro ao meu lado

Ah que inferno preciso trocar de lugar, de cidade ou te conquistar de verdade

Eu consigo caracterizar seus lábios melhor do que a minha própria face
Eu sei que você vai rir da minha monotonia de te escrever todo dia
Eu corri a calçada inteira do Rio de Janeiro só para as lágrimas morrerem no mar
Com a chegada do verão o meu amor vem afobado
É que parei com os cigarros 
Te escrevo agora porque antes era passado

Quarto andar

16-11-14

Tem uma traça ao lado da cama recebendo o calor artificial do abajur, implorando amor sem se mover, posso ouvir seus gemidos a me puir os sonhos.

Tem um homem me ligando, querendo um encontro, mas como posso ajudá-lo se o que mais estou é perdida?

Na arte dissimulada posta em minha parede tento decifrar o sorriso plagiado de Mona lisa, ou o Infinito Particular de Yayoi que tanto me alucina.

Conto aos cantos o meu desencontro quanto às cores bregas dos edifícios. Quanta discrição. Quanto silêncio no elevador.

Já basta de esconder nossa dor. 

construir a minha obra de vida em sua pele

(27-12-2014)


ele tem essa pele que mais parece

um quadro pintado por alguma cor próxima ao dourado


quando encosto meu pincel

ele me chama de artista


e talvez perceba o quanto estremeço

ao esbarrar na solidão que é a sua obra prima


eu escrevo quase como um grito

que esse atrito entre nós causa toda poesia

ainda não escrita em qualquer livro vendido em livraria


ele tem receio de me melar com toda a tinta negra

que compõem seus esboços e fantasias




ele ouve o som do mar


e eu posso ouvir daqui

as ondas do meu pintar escorrendo

por essa tela de cores líricas

31/12/2014

penso agora que se você visse meus versos, 
talvez gostasse de toda essa minha falta de lucidez. 

sentiria a vaidade te queimar as bochechas 
e daí desfilaria seu cheiro de suor fresco pela minha rua.


toda rua entraria em carnaval em pleno janeiro.
todo bloco ia te chamar de solidão.

mas o chamo por qualquer vocativo que te alcance
pelo menos em meus lábios pintados de reticências...

eu nunca termino frases completas sem parecer
abduzida pelos roubos dos planos de normalidade.

essa vontade de não te esquecer explode em mim
você é dessas bombas silenciosas deixando traços de terrorismo por aí.

Um lugar ao sol

Mãos enormes. O papel me encarava de cara pálida a condenar tanto espanto, o estrangeirismo da largura da minha palma. Eu tinha um conto inteiro para escrever, desativar o despertador, ração do cachorro, que agora me encara também, como quem diz, mas ele não diz porque é cachorro e tem quatro patas. Eu possuía mãos finas, tanta leveza, ágeis, eram como conchas que, bem unidas, levadas ao ouvido, também transmitiam a calmaria do mar, o silêncio do amar amedrontado. O cão ainda me olha e agora eu acho que é questão de carinho, a folha tem medo das cócegas. Eu temo tanto que é necessário escrever, ou falar com alguém mais próximo que não seja a porra de um animal calado, me masturbar. Ainda não me masturbei, não tinha pensado nisso, sequer pensei em pegar na estante mais alta a lista que fiz das formas líricas de suicídios. Agora possuía o dobro de dedos e não me satisfazia. A solidão nunca tinha tocado tão fundo como se a ponta de uma lapiseira 0.7 fincada dentro de mim quisesse ferir e carimbar o atestado do fracasso de uma escritora manca. Não sei se manco é nome para mãos ou pés, mas eu pensei em Aleijadinho e sei que no Rio de Janeiro a arte é segregada, se eu não quiser fritar na praia tenho que escolher um lugar ao sol. Ainda possuo mãos, mas não sei usá-las, elas estão mortas? Vocês morreram e agora putrificam tragicamente num espetáculo de mau gosto? Eu me perguntava. Eu me desconhecia. Eu não quero me tocar, esse pedaço anônimo pairado bem em frente aos meus olhos, isso não sou eu, esse corpo não é meu, o latido, o cheiro de mijo grudado no taco quente exposto ao sol iluminando um cantinho abandonado do apartamento. Naquele ambiente, tudo esquecido, lembrava que até eu não sabia de mim. Não possuía identidade naquela manhã, mas quem fui? O que fiz? E o meu nome? Não assinei papéis, me desconhecia, nunca me toquei. "Vivemos no subúrbio dos medos", não era um sonho, mas chamo de pesadelo, despertador ainda ativo, meu medo. Mãos estrangeiras acenderam em mim o resquício de crença em um Deus vingativo, que desejava a minha ruína, meu perdão. Ajoelhei no espaço abençoado pela luz, mãos espalmadas repousaram ao chão, o cachorro deitou em cima, um lugar ao sol; um lugar, o sol e a minha devoção.

Entrada Franca

Eu dançaria com o seu nome
se a poesia me permitisse te tirar do papel
E vigiaria o céu de hoje
pois alguma estrela cadente
há de me trazer notícia de sua chegada
Deitei na proa da barca me afoguei e esperei
a noite inteira pois 
haja chuva ou choro
a maresia me diria o dia
e eu colocaria em você o motivo
da minha febre de vida e de morte 

Mesmo que isso te assuste
Mesmo se você temesse encarar
os meus olhos na manhã de segunda

Temos previsão de chuva! 
E os tempos verbais dizem que a tempestade
não depende do tempo que perdemos criando discurso coesos
mas sim de seus olhos indefinidos e úmidos
Quase implorando pela paz que não existe nas palavras
ou no amor desregulado que te ofereço sem diagnóstico 

E eu usei seu nome tantas vezes 
Mas não deixo de escrever que você existe sim
e grita aqui dentro e chora e tem maresia todo fim de tarde
e fim de semana eu passo na sua casa pra provar
que já não paro de pensar que nem sei onde deixei o isqueiro
Então procuro o fogo pela cidade tentando criar um título
digno pro poema em sufoco...

Eu só não esqueceria o seu nome 
Eu dançaria com o seu nome
se não houvesse tanto silêncio
em sua voz muda
no papel calando os passos imprecisos 

São tantos pecados e há um crime no ato
do encontro dos seus lábios
com o medo de tudo não dito
Eu sinto o cheiro do seu instinto
suando clamando resolução
enquanto o único medo que possuía
era de que eu deixasse a sua pele marcada
Tem vinho dentro da bolsa
E um bilhete pro cinema perto de casa 

A entrada em mim você tem de graça  

sábado, 14 de outubro de 2017

Infância

É noite no clarão ácido da porta entre-aberta,
no percurso, um abismo que calculávamos
ser o desvio através do armário secreto.
O infinito sabíamos mais perto, a morte
rodava feito ciclo dos planetas nas mãos,
nos revestímos de álcool e nuvens,
mas ao norte os montes pareciam afiados
aos pés e roupas fidalgas.

Nus e antiquados, assistíamos à serenata
acreditando na força que o amor
depositava sob o fundo dos olhos turvos,
prometíamos não chorar, mas o suor descia
as mangas caíam, o cheiro era de vida verde
e fazia tempo que os caules frágeis
resistiam à força da paisagem.

Ainda somos aqueles moleques do parque
arriando a calça e cagando no tronco
com medo apenas das formigas de bunda grande.
Era bonito sair e a porta entre-fechada
arrombava o coração da garotada
as bolas, as pipas, os jogos
despistavam a violência dos corpos
crescidos e esquálidos.

Bem desse lado da atmosfera a cidade
parece alagada por terra maciça
O céu nos dando bom-dia.
É noite mas a plácida aurora
a enfiar-se pelo espaço da porta
nos recorda, chegou a hora de entrar
na brusca viagem indistinta
Sonhar os dias que nos tragam
nossa indomável infância perdida.

Luz

Da boca salivava  
o sabor da noite deleitosa 

Do céu pichado 
aqui de baixo
As lentes eram longas 
projeções da neblina 
do dia - que 
pulverizava cor 
em nossos corpos assados

era bom tropeçar 
nos ramos 
e descobrir 
as fendas naturais 
do tempo

As folhas brigavam por entre 
os sons da ventania só 
de primavera solta 
Era bom desfrutar 
da sombra antiga 
esquecida 
no canto do parque azul 
Era bom estar no azul 

As coisas possuíam um 
cheiro agradável 
quase doce 
enquanto os beijos 
estalavam secos
na bochecha 
na hora da partida 

Era bom poder falar de amor 
com tamanha liberdade, 
sorrir até doer 
alguma coisa 
lá dentro 
da barriga gemendo 

A gente cria um destino 
melhor pra desconhecer 
os perigos,
E agora encontra uivar 
a noite toda escura e acesa

Vejo uma onda 
aqui de baixo 
o céu parecer afundar, 
as longas horas dormidas

Parece que o sonho é 
uma fantasia 
imperdível, 
não morre, 
esquecendo de acordar 

Parece algum roteiro 
Prescrito nos signos 
que as estrelas 
indicam com as mãos 
Alguma coisa 
há de ser 
tão doce 

quanto o brilho da noite 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lá Luna

Olhemos à distância
A confusão dos cosmos
E ao véu la Luna
Revestida de estrelas
Vastidão
Dos esplendores
Cavalheiros e Pôneis
Armados de constelações
Ao redor das esferas
Tuas órbitas
Ao mar caminhar
Dá-se luz
À tua sombra
Destino

sábado, 30 de setembro de 2017

Desculpas

Desculpe pela confusão
Dos bares que não 
consegui sair 
As tormentas alagando
Os mortos 
Vim de uma cidade sem lei
Mas o estado mete o dedo
E a ferida coça
Feito doença alastrada 
Desculpa pelo desencontro
Depois da hora marcada 
Dos goles esquecidos 
Pelo seu nome 
Estranho aspecto de 
Natureza devastada 
Desculpa por insistir
Na culpa que jamais tivemos
Mas assumo 
Que o erro acompanha 
Mais do que passado 
Desculpa pela brutalidade 
Do tempo 
Anunciando que temos
Tão pouco
Que é preciso correr atrás 
Não só da desculpa 
Mas de nosso contato 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ao fim de partida

pegue o trem azul
na plataforma do último sonho
alcance
em vastidão
os cogumelos
e canelas e cravos

formule as palavras
enunciadas por convulsão
da boca solene
em delírio imóvel
entre hinos sonâmbulos
à medida que teu corpo
deita
esgotado
escorrendo pelos trilhos

confessaria fugir no véu
encoberto da noite satírica
no drama crepuscular
em ventania do
vestido acetinado

sem destinos apuros
o corpo desliza
nas vagas imprecisões
entretanto
pegue o trem azul
mais longe
mais distante
mais alto que puder
saltar

e quando alcancar
lembre do sonho
todo azul

atropele as estradas
as vias asfaltadas
feche os olhos
embora assustada
e grite
o terminal dos sonhos
ainda não alçou

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Depressão


Meu corpo em transe. Meu corpo inerte. Planos de fuga a algum lugar desconhecido de culpa. Sentindo culpa por sentir. Sentindo a mim muito pouco. Estado de modo inquieta. Os cães ladram sem saber o porquê dos soluços no quarto, decorado com minha bagagem. Retorno de bolso oco. Como aqui dentro do corpo é imensurável. Dispo as feridas escondidas abrindo espaços, me ocupo. Me refiro a uma dormência me deito e reviro. Não durmo direito. Outra vez o mesmo buraco. Não caibo. Na superfície o ar espreme meus pulmões de carvão. Meu corpo sente tanto por tudo isso. E eu sinto muito novamente. 

"A depressão comeu meus livros empilhados em ordem alfabética, os romances em drama brasileiro, as novelas infinitas, meus contos engavetados em folhas de caderno. Devorou os frascos de perfume que soam vazios, os rótulos de cosmético sem validade, as raras vezes que senti ódio. Comeu minha paz dizendo solidão, condenou o medo que sentia sob acusação de pena, desgostou do meu gosto de gostar." 

A solidez me abraçava em angústia, no peito uma armadura incapaz de proteger dos danos irreversíveis dessa conformidade pegajosa. O corpo obedecia à depressão intitulando que a pequenez em mim não só era tamanho, não me sinto capaz de enfrentar um mundo maior. Me encaro no espelho do corredor e desconheço pra onde. Estou? Talvez de medo, talvez de fúria, quem sabe o que se deu pra sair daqui. Em mim é muito vasto. Ensaio a próxima fuga. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Anti-horário

Quis te revelar em versos 

as preces conjugadas 

no fim de partida 

enquanto observaríamos 

o calor reluzente 

das letras 

Maiúsculas 


Repousar teu dorso insensato 

no centro dos seios 

e rogar por um destino 

que ajude o riso 

contínuo 

o fluxo elementar 

dos riachos verdinhos 


Se o mundo acabasse 

em melodia 

faria versos 

toda a vida 

e reencarnaria 

em teu nome 


Teu gesto urbano 

desmedido e insujeitável 

Transpirando

insolúvel 

fomos confundidos 

com os contornos

Das horas 

domingo, 10 de setembro de 2017

Passarinhos


Houve tempo 

das manhãs

Raiar cedo 

e olhos acesos


As batidas 

e o silêncio impreciso 

Tua casa 

aqui dentro 

Quentura dos 

teus cobertores 


O café dizia 

do acordar

Que descanso

Requentado 

em pleno domingo


Você ouviria 

as histórias antigas

De um tempo 

amarelado

O sol lá fora 

em convite

Como é bom 

sua rua liberdade 

Meu adeus 


Ainda há tempo

Pra discutir 

sobre o suor 

E o destino 

do apego 

Quanto ao receio 

Passageiros

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Escrevendo, 
Entrei em contato 
com a ausência de palavras 
no manejo breve e secundário 
das falas ininterruptas 

Em repouso,
a brasa do sol 
em meio ao céu riscado 
Desde o sutil sorriso 
da nuvem carregada, 
permanecemos calados 

Mesmo diante dos sons estrangeiros 

Contudo surgia enfim 
o sinto muito 
a guiar os olhos afligidos 
e as mãos desnorteadas 
Enfim o pôr do sol mudo 

Em anúncio, 
a boca colada ao silêncio 
declamando desvios 
a fim de nos assistir discutir 
sobre a discrição 
do amor sigiloso 

Assim ouvimos o mundo 
em ronco grave 
quanto ao despertar 
das ilusões possíveis 
dados ao ruído das auroras 

Escrevendo,
Lido com a falta de jeito 
em admitir que falamos 
qualquer língua 
que soe disponível 
aos ouvidos 
atentos de pérolas e sopro 

Cochichava silêncio 
a um mundo incapaz de ouvir 
o surrar das dores caladas 
e dormentes, descobriríamos
se soubéssemos -
que o mesmo mundo 
não escuta em voz baixa 

Escrevendo,
Escutei minha voz, que falta 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Gostaria de ver como soam em teus lábios contidos palavras de amor a um mundo menos violento

Pois é impossível ignorar a leveza das rosas murchando no inverno de lágrima e riso solto

À cor dos olhos intranquilos no vagão incinerado na avenida atlântica

Talvez você saiba o sabor dos tons da madrugada passiva na orla das intenções marítimas

Mas sem preparo ao mergulho teus braços buscam areia das horas que deslizam nas noites da praia deserta

E morre afobado quando em solidão o peito arfa feito maratona do mar em revolta

Enquanto a boca espumada entrega o sal das correntes vindo de um Portugal insosso

Transitaria nas palavras de amor embarcada nos sentidos que flutuam sonhos ancorados no castelo de memórias

E sem motivos de volta a maré em homicídio entre corpos estirados e balas de canhão o coração blindado

As multidões em brasa e a distante praia gostaria de te ver declamar que o amor está em tempo de guerra continue antes de afogar continue a nadar

domingo, 20 de agosto de 2017

Dedicatória

Guardei o verso mínimo 

Pra dizer das coisas

Que não diríamos se as palavras

Fossem amenas 

Pois quero te oferecer 

Uma rima breve 

Antes do riso e dos olhos

Que condenam versos poucos 

Tanta intenção 

Que sei lá 

Discernir e voar 

Até seus lábios aturdidos

Descobrirem o tom 

Da minha voz 

Ao inverso 

O silêncio desmedido 

sábado, 19 de agosto de 2017

Contornar a saudade do que ficou

Novamente a estrada vai se refazendo é possível pensar em coisas boas feito as nuvens de açúcar, os beijos de côco, sorve-te o dia inteiro de calor

A gente assoando o nariz desse caos orgânico, enquanto navegar na web é um pouco de privacidade às avessas, pegar o bonde andando, correr de salto no escuro em pedra portuguesa. 

As vezes acho que colonizaram até o tom das ruas, de viela em vão. 

Tem dias que a gente se sente como quem partiu e não quer voltar mas se a estrada é ampla e caminho em segurança, por que insistir em retornar? 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Canteiros

Vieram perguntar se não gosto de vida num dia quente tão morno que respondi sim mesmo não conseguindo sorrir eu acho que aquela pergunta me invadiu mais do que o brilho do sol

Dobrei as mangas da roupa de dias e não pude recuar com palavras nem os passos estava sentada e ergui a voz meu deus como eu queria correr entre as framboesas num mato verdíssimo 

Mas é que o brilhos dos olhos e das manhãs das maçãs tudo bem se chorar de vontade 

Tudo bem se não estiver 


http://youtu.be/yxWbSk7yGO0

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Gestos e amarras

Andei por perceber 
que meu amor te incomoda 
Demasiado e ébrio

E se vago na rua a te encontrar
Reprova os passos
feito vãos 
Quaisquer noite 
que não vos pertença 

Notei teu sorriso em sombra 
e tive pavor das intenções 
que mal faziam parte 
do meu repertório 
Assim domesticando os modos 
à parte confortável a nós 

Porém em mim tu fervia 
feito um bule assobiando "nós somos 
feitos de aço" 

Andei por perceber 
Que pertenço primeiro a mim 
Demasiada e ébria 

E os passos 
Assim soltos 
Desfaziam os laços 
Me sinto alegre por sair 

Me sentindo livre por vagar 
Se te encontro 
É provável que não seja na rua  
mas na lembrança 

Ainda existe uma faísca 
que chama "existe algo
que condiz com as cruezas 
de se amar"