café e dores

café e dores

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

notas sobre contas a pagar

esse medo me persegue
e bate à porta seja qual for a hora
pedindo um sossego ao lado da cama
o medo fisga o pulmão e me tira da rua
revira os olhos como se por indignação
faz calor demais no verão do Rio
superlotado e (vazio)
é quase uma inundação
o pavor do medo
e um anseio inflamado dentro do peito
quase encostando na grade de proteção
não ultrapasse o limite
e as normas de conveniência
juros são mais altos com amor

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Enlaço

Meu corpo fica inerte em seus braços
Assim retorcido
Embaralhado como se fosse laço
Ou acaso essa rima toda pra você

Quieto exclama por entrelinhas
Colchetes em sua cama
Um gosto de vinho no sangue
O clímax se transformando em tragédia
Ânsia de morrer estirada no arco de seus braços

Pintas no topo do ombro
Pistas expostas pelo corredor
Manchas brotaram
Não pise em meu corpo calçado

Há uma ferida debaixo do osso
Visitas trazem lembranças em sacolas
Meu corpo imobilizado
Quero morrer em seu abraço

domingo, 20 de dezembro de 2015

as ondas seguem o fluxo da corrente sanguínea

enquanto a tempestade de sábado
vence a seca contida em seus olhos
contemplo meu perfil rígido
no espelho grande da varanda
e não me reconheço
sim, contudo, o mesmo rosto de antes
mas essa fala estancada
tão exposta
é frágil demais pra nós

laços dados em cadarços roídos
chuva tímida antes das três
analisei as dívidas
e cobramos demais dessa ternura
que nos acoberta à noite

pensei em te enviar uma correspondência
os correios saíram da greve
o coração faz manifesto
mas há quem cale os segundos

enquanto o deserto habitar sua face
a tempestade é formada por areia
os castelos permanecerão ruídos na praia
a onda é quase mansa
só o protesto é sem antídoto
pra ressaca de um verso cardíaco

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

minha especialidade é o silêncio

mortos deixam muitas coisas pra trás
essa avenida desfila dor
o trânsito do peito acelera cedendo
é um incêndio tão frio
quase não me sinto no rio
buscando um diagnóstico pro desvio
que propusesse quaisquer outro destino

vidro fumê
pastelaria falida do japonês de boné
vê se me encontra
voluntários da pátria é grande demais

todo rio de janeiro aguarda carnaval
mas desde ontem que penso e relembro
e acho que sei lá

eu não escrevo só pra você
nem pra mim
isso
é como afundar
assim
bem fundo
lá dentro
pro-
cura

domingo, 13 de dezembro de 2015

Ausência

Esse purgatório escuro me envolvendo com fome, como uma película de vidro protegendo meu corpo e tomando meu líquido, inundando de preto toda superfície macia. Chegando mais próximo, é possível naufragar nessa ausência de cor que sei de cor. É preciso medo pra não se atordoar no devaneio de um mergulho sem resquício de volta nessa colossal escuridão que se assemelha à possibilidade de infinito. De súbito me engole, rasga as cartas brancas e zomba da ferida avermelhada na ponta do coração. Me cega de ternura, ofusca em tons de fúria a despedida, e me retém inerte nas sombras de uma noite que não finda. Oferece as trevas como escudo enquanto se aboleta na luz que trás o amor prematuro presente no resquício de batom esquecido nos lábios, lúgubre, me apresenta a morte como uma dádiva. Esse tom hostil é onde quero repousar, e chega mais perto, mais um passo, o sol esqueceu de nós. Seus olhos. Seus olhos são todo o universo a sóis me consumindo. A claridade não atinge nossos corpos enquanto você me nota. 

Seus olhos?  Presença de dor.


Fragmentos selecionados
1. MAUPASSANT – Bola de sebo – Páginas 11, 12, 14, 15, 32
2. MELVILLE – Bartleby – Páginas 9, 17, 18, 19, 21, 26, 36
3. KAFKA – Na colônia penal – Páginas 56, 70
4. BECKETT – Primeiro Amor – Páginas 5, 6, 10, 11, 16
5. GOETHE – Os sofrimentos do jovem Werther – Página 29

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

sobretudo

eu dançaria em cima de seus pés
mas os meus passos atrasam a hora
vão em caminho difuso
a música não cessa
meu peito se manifesta
mesmo se a festa anular

eu cantaria sobre um passado obscuro
os amantes e sanguessugas
todo absurdo num só parágrafo
mas desconheço sua cor predileta
e o nome da poesia

toda prisão contida em cápsulas
um raio de sol aquecendo seu queixo
acho que perdi os dias
e já estou de férias
a música não cessa
subo em seus pés (mas eu sei dançar)

domingo, 6 de dezembro de 2015

ensaio sobre o movimento

quando você dança em cima do meu peito
eu sinto como um calafrio um zumbido
de cada trovão que colide lá fora
e aqui dentro é quase um moinho
tão veloz que juro parece vulcão  
mas não tenho medo dos anúncios
do comércio abrindo mais cedo
se pontes são insuficientes
porque acho que ninguém me alcança
nem a morte
nem o medo e o amar
esse é mais um motivo do ritmo
e mais uma rima um desvio
decorei os passos
batuque cansado disritmado
inventaram palavras ausentes
enquanto o vento cantava com frio
mais um motivo
só mais um porquê
nem a morte chega
mas quem se importa?
a chuva afogou os planos
há motivo pra danos enquanto danço
e o coração dispara
morte lenta
uma bala:
é doce o balanço do mar