café e dores

café e dores

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

notas sobre contas a pagar

esse medo me persegue
e bate à porta seja qual for a hora
pedindo um sossego ao lado da cama
o medo fisga o pulmão e me tira da rua
revira os olhos como se por indignação
faz calor demais no verão do Rio
superlotado e (vazio)
é quase uma inundação
o pavor do medo
e um anseio inflamado dentro do peito
quase encostando na grade de proteção
não ultrapasse o limite
e as normas de conveniência
juros são mais altos com amor

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Enlaço

Meu corpo fica inerte em seus braços
Assim retorcido
Embaralhado como se fosse laço
Ou acaso essa rima toda pra você

Quieto exclama por entrelinhas
Colchetes em sua cama
Um gosto de vinho no sangue
O clímax se transformando em tragédia
Ânsia de morrer estirada no arco de seus braços

Pintas no topo do ombro
Pistas expostas pelo corredor
Manchas brotaram
Não pise em meu corpo calçado

Há uma ferida debaixo do osso
Visitas trazem lembranças em sacolas
Meu corpo imobilizado
Quero morrer em seu abraço

domingo, 20 de dezembro de 2015

as ondas seguem o fluxo da corrente sanguínea

enquanto a tempestade de sábado
vence a seca contida em seus olhos
contemplo meu perfil rígido
no espelho grande da varanda
e não me reconheço
sim, contudo, o mesmo rosto de antes
mas essa fala estancada
tão exposta
é frágil demais pra nós

laços dados em cadarços roídos
chuva tímida antes das três
analisei as dívidas
e cobramos demais dessa ternura
que nos acoberta à noite

pensei em te enviar uma correspondência
os correios saíram da greve
o coração faz manifesto
mas há quem cale os segundos

enquanto o deserto habitar sua face
a tempestade é formada por areia
os castelos permanecerão ruídos na praia
a onda é quase mansa
só o protesto é sem antídoto
pra ressaca de um verso cardíaco

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

minha especialidade é o silêncio

mortos deixam muitas coisas pra trás
essa avenida desfila dor
o trânsito do peito acelera cedendo
é um incêndio tão frio
quase não me sinto no rio
buscando um diagnóstico pro desvio
que propusesse quaisquer outro destino

vidro fumê
pastelaria falida do japonês de boné
vê se me encontra
voluntários da pátria é grande demais

todo rio de janeiro aguarda carnaval
mas desde ontem que penso e relembro
e acho que sei lá

eu não escrevo só pra você
nem pra mim
isso
é como afundar
assim
bem fundo
lá dentro
pro-
cura

domingo, 13 de dezembro de 2015

Ausência

Esse purgatório escuro me envolvendo com fome, como uma película de vidro protegendo meu corpo e tomando meu líquido, inundando de preto toda superfície macia. Chegando mais próximo, é possível naufragar nessa ausência de cor que sei de cor. É preciso medo pra não se atordoar no devaneio de um mergulho sem resquício de volta nessa colossal escuridão que se assemelha à possibilidade de infinito. De súbito me engole, rasga as cartas brancas e zomba da ferida avermelhada na ponta do coração. Me cega de ternura, ofusca em tons de fúria a despedida, e me retém inerte nas sombras de uma noite que não finda. Oferece as trevas como escudo enquanto se aboleta na luz que trás o amor prematuro presente no resquício de batom esquecido nos lábios, lúgubre, me apresenta a morte como uma dádiva. Esse tom hostil é onde quero repousar, e chega mais perto, mais um passo, o sol esqueceu de nós. Seus olhos. Seus olhos são todo o universo a sóis me consumindo. A claridade não atinge nossos corpos enquanto você me nota. 

Seus olhos?  Presença de dor.


Fragmentos selecionados
1. MAUPASSANT – Bola de sebo – Páginas 11, 12, 14, 15, 32
2. MELVILLE – Bartleby – Páginas 9, 17, 18, 19, 21, 26, 36
3. KAFKA – Na colônia penal – Páginas 56, 70
4. BECKETT – Primeiro Amor – Páginas 5, 6, 10, 11, 16
5. GOETHE – Os sofrimentos do jovem Werther – Página 29

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

sobretudo

eu dançaria em cima de seus pés
mas os meus passos atrasam a hora
vão em caminho difuso
a música não cessa
meu peito se manifesta
mesmo se a festa anular

eu cantaria sobre um passado obscuro
os amantes e sanguessugas
todo absurdo num só parágrafo
mas desconheço sua cor predileta
e o nome da poesia

toda prisão contida em cápsulas
um raio de sol aquecendo seu queixo
acho que perdi os dias
e já estou de férias
a música não cessa
subo em seus pés (mas eu sei dançar)

domingo, 6 de dezembro de 2015

ensaio sobre o movimento

quando você dança em cima do meu peito
eu sinto como um calafrio um zumbido
de cada trovão que colide lá fora
e aqui dentro é quase um moinho
tão veloz que juro parece vulcão  
mas não tenho medo dos anúncios
do comércio abrindo mais cedo
se pontes são insuficientes
porque acho que ninguém me alcança
nem a morte
nem o medo e o amar
esse é mais um motivo do ritmo
e mais uma rima um desvio
decorei os passos
batuque cansado disritmado
inventaram palavras ausentes
enquanto o vento cantava com frio
mais um motivo
só mais um porquê
nem a morte chega
mas quem se importa?
a chuva afogou os planos
há motivo pra danos enquanto danço
e o coração dispara
morte lenta
uma bala:
é doce o balanço do mar

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

um oco uma falha quem sabe um deslize

desperto atrasada de novo ai de mim se fosse novidade
os carros perpassam o trânsito de olhares apáticos
enfileirados vamos guinados por não-sei-o-quê
mas há sempre um sol clarinho da cor de cerveja
o fígado aguarda imediatamente sexta na segunda-feira
terça é dia de morrer no banco de trás do busão

a blusa de alcinha preta pregada no tecido do corpo suado
mãos aflitas por alguma posse que seja um cigarro
cenas correndo à quilômetros da hora de almoço
a gente tem uma fome bem no centro da barriga
parecendo um oco uma falha quem sabe um deslize
palpites ou palpitação no peito só a poesia ousa não calar

entre caos e cais repouso no próprio estrangeirismo
as calçadas tão estreitas impedem nós de mãos dadas
mas atados são tratados de uma eternidade de agora
essa ânsia terrorista de regressar ao útero do mundo incapaz
desperto ainda prematura atrasada de um parto forçado
a vida é lenta demais quando estou no banco de trás

sábado, 28 de novembro de 2015

Baby, metade disso é pra te ter inteira

150

quando deixei você ir
calçado em chinelos azuis maiores do
que os pés e com as mãos fora dos
bolsos da calça encardida
eu sabia
que era um ato masoquista
seus passos roçavam sonsos junto ao
ronco que minha barriga fazia
seja de larica ou fome de engolir sua
partida em 1 mil pedaços
queria apagar os rastros e afagar a
palma suada de suas mãos libertas
até que a despedida se perdesse no
ritmo da minha poesia
a garoa caía dos olhos da nuvem
os carros corriam
o preço do dólar subia subia
e o arrastar da sola no chão de cimento doía 
mas você sabia então fazia dessa cena
uma terapia particular
o dia te acompanhava
aquele tilintar das chaves
e o vento empurrando a porta
só você não nota
que os danos dessa partida
é que eu também
fico dividida
um dois três quatro
era assim que você me dizia
"Baby, os danos são inevitáveis"
a ferida cria casquinha depois do terceiro dia 
e o seu nome nós sabemos que
viraria melodia

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

fios

mortes nos fios de cabelo
em travesseiro de motel três estrelas
no pente de madeira largado em cima da pia
enroscado no chão de piso branco
esse cabelo suicida a precipitar no ar
portando meu DNA
e voando com o primeiro sinal de primavera
fino quebradiço de tanta pintura
carrega o toque de uma mão suavizada
como se contasse um por um meus anseios
encaracolados no fio da meada
perdido dentro da boca enquanto há beijo
crescendo demais depois dessa chuva desnorteada
fios no seu lençol de malha
fios nos ligando à raiz de um corte prático

toda eternidade no embaraço de nós


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

reparar

olha pra mim, para e repara um instante até que os olhos lembrem de piscar. dá um tempo pra me olhar assim de frente, senta e aguarda o fim da tarde que aflora em meu peito toda vez que esqueço meu corpo em sua cama. calma, te peço com fluidez sempre que o suspiro vira motivo pra uma rima de um sorriso entrecortado e ah, seu beijo é mais banhado que poça d'água acumulada nos olhos por qualquer fração de ternura, e... irei constantemente falar dos olhos desde que parei em você. é porção de disritmia, colóquio em praça pública, pudor. ouço seu coração tagarelar em tom esquizofrênico, mansa repouso na camada mais sensível de seu corpo e em silêncio denomino de templo esse lugar de descanso. descalça encardo seus lençóis, embaço copos de vidro com batom e te chamo pra guerra que é amar uma mulher sentenciada pela própria poesia revestida de óbito. as manchas de café e mordidas, seu sono em pleno fim do ano, quero estagnar esse sonho que relato com o toque da língua na ferida exposta que encontrei ao entrar em sua casa, seu mantra. os livros na estante não justificam meu amor retraído em busca de uma liberdade que é necessária pra mim, sabe? olha pra mim, as lesões nos cantos das unhas roídas e essa ansiedade, é tudo um resquício de memória, um enterro prematuro, não é por mal a nossa morte em mim toda vez que me visto de alforria e trepido madrugada entre ruas de nomes próprios. eu preciso que foque até cansar de decifrar e só lembre que é tudo bagunça assim pelos cantos jogada de mãos desarmadas com um atestado de contusões narrando contudo que é tudo uma parcela de universo, ah, não sei... repara, é o que nos move.

repara, estou sem manual, não tenho conserto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

doe-me

peço relevância por meu distúrbio de existência
carrego essa ânsia de desbravar do pacífico à calmaria da alma
o barulho dos pulmões reivindicando paz
maços diversos esquecidos na bolsa como um lembrete
cores aleatórias do céu tão vulgar que não te desenham 

e te recordo ao ouvir o cheiro do avião em busca de uma pista
mas calma que o vento vem do norte balançando as asas
rodovias foram transformadas em espaço de suicídio imediato 
os mistérios dos olhos estão embutidos na prescrição da bula

o caos nas palavras e um discurso anotado na superfície do tato  
gingo a perna quando você acende em mim a harmonia acidental 
requer calmaria lidar com transtorno de morte até quando quero ternura 
nota o desequilíbrio na inquietação do movimento da língua? 
associo o júbilo à uma ferida dolorida que coça 

eu não pertenço nem a mim e estou alheia à dor 
mas a poesia despertou berrando o seu nome em carne rígida
entrou pela fresta de vida e acendeu a dormência da rima  
peço um pouco de calma e o antídoto para um coração com paralisia 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

previsão de chuva

gosto de ouvir seu coração
quando deito na borda do peito
ontem ele batia tão forte que parecia fugir
de um temporal
e esperava pacífico entrada em mim
à frente da lareira que chamusca até as bochechas

você me pediria um copo de achocolatado
mas faço café das nuvens dos dias tediosos
e rezo pela sua estadia em abrigo seguro

não é bobagem esse quarto escuro
de teto infiltrado
minhas mãos são conchas leves
você é como essa ressaca de um sensível vendaval

seu coração pede passagem
mas nunca houve porta nem chuva forte

bate
bate
bate
bate
me diz, é onda ou tempestade?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

XX - Mariana


Hoje sonhei com sua imagem. Você dizia que é preciso ir em fuga pra ponta do cosmo e soluçava sobre a insônia, mas viver em apneia é estar incluso dentro dos seus olhos infindos de matéria prima pro universo que divaga sobre uma pequena redoma particular que é o seu corpo de maré. Há dilúvio nas aspas que você compõe, e ouso afirmar que o indizível carrega a bagagem das peculiaridades que te moldam esse ser tão singular. Você é, Mariana, a todo instante, uma fração de infinito; em um dançar de cílios, uma porção de prosa que nunca será escrita com exatidão. O discurso é falho ao narrar seu mundo, e os que estão inclusos no espaço canônico do seu peito, deleitam da mordomia de um abrigo no caos. Toda suavidade em seu rebuliço, nas curvas do seu tom, nos traços da mão envolta na caneta a compor um esboço de arte. Você é a inenarrável inquietação do horizonte a se desmontar quando as pálpebras decidem dar repouso à eternidade do instante de sua existência. 

Hoje sonhei com sua imagem, você era o amor.

sábado, 7 de novembro de 2015

querido eu

seu esqueleto dorme
e lacrimeja
chove sempre na volta
mas você respinga
no café pela manhã
seus lucros e divindades
não te assistem às 3:30h

escarra um amor mais líquido
e faz prece pra fuga
a ponta do céu também queima
e ainda assim falta o seu número

não falarei sobre os seus olhos
e nem do inferno novamente
me afoga no inexplorado peito comprimido
incendeia meus pulmões

seu estoque de contusões
e as prosas na gaveta
a chuva nos perdoando e o choro
no fim da rua cheia de poça
água acumulada
nudismo
e
tu
per di do
numa correspondência arrombada

volta pra casa?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

título provisório pro amor

o amor me tirou da cama
extraiu a armadura de sonho
e enfiou o dia goela a baixo
ardendo, suplicou um banho
o amor marca nas partes macias
expulsando dureza que achava possuir
e esse coração tem validade
mas o amor...

ah, o amor não tem hora
me atrasa e me retém mas tarda tanto
que de súbito recordo não saber amar
mesmo que o mar esteja a quinze passos
e tenha aprendido a nadar na prosa
de braços largos

o amor fez insônia
e também manchas
anoitecidas
no contorno dos olhos
aspas em discursos embargados
sob luz da lâmpada
mas amo o sol
mesmo que não saiba amar
só por querer morrer
em dia morno de céu azul

esse amor paira
no cálice do peito
e indaga sobre o ritmo da poesia
que move
mobiliza
e desvia da cama
no dia azul
o amor é manso igual milagre
e tão salgado que estou sedenta
cada vez que choro

ah, os olhos, o amor
está conservado ali
inerte e furioso
aguardando amanhã
com expectativas de tempo aberto
e tudo azul

morrer no mar
amar e cada palavra
afogada
nada
o amor doce é rio de lágrima

sábado, 31 de outubro de 2015

pra não dizer que não falei das curvas

tomando forma
se moldando em cicatriz
me tomando pelos braços
e um arrepio
é talvez frio
cobrindo as contusões
a cor dos mamilos
e se
eu falar sobre o aperto
deixo de escrever
e fico logo nua
só pra anunciar que sou sua
essa nudez
não só de roupa
e essa tela envernizada
de um tom anoitecido
me vestindo
despindo
eu sou sua
crua
miúdes
tecido e hepiderme
sua íris tom de noite
sua língua como um véu
(eu só sou sua quando estou nua)

domingo, 25 de outubro de 2015

mensageiro

o incenso de cravos
e teu templo dentro do quarto
duas voltas no quarteirão
e essas pernas
tua clavícula em demasia
mais uma quadra
o horizonte apagando a tarde
eu te acendendo
mais um maço vazio na bolsa
o farol pisca
e cada estrela
uma pista
enviando mensagem de seus olhos
como se eu não anotasse
cada gemido
e o cheiro das ruas
o tecido da sua camisa bege
roçando meu mamilo

tantos descaminhos
e se você topa seguir comigo
suponho que estejamos finalmente perdidos

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

laranjas e filosofias bagaças

tentei dormir mas ouvi 3 tiros disparados
corri pra ver se havia sangue na rua
de certo a cena me cederia 1 pesadelo digno
porém não era bala atravessada que rendia insônia
corri pra geladeira e ali quase vazia só tinha
2 laranjas descascadas
senti a metáfora roer meu estômago
os bagaços deixados pra mim possuíam suco e caroços
a tampa do vazo levantada
a tampa da pasta de dente desaparecida
um gosto de choro na garganta
é quase manhã mas narro a noite
como se fosse tudo uma instigante narrativa
e o ronco da barriga só um surto de paixão
os tiros um presságio de domingo
e as tampas sejam as famosas pedras no meio do caminho
os bancos só abrem portas às 9h
chupei minhas metades das laranjas

Drummond diria que eu corro demais

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O céu e eu de ressaca

Te busquei no contorno dos cachos de cabelo
Na imagem monocromática formada a cada vez que pisco
Você seria uma rasura
Meu rabisco de infância
Uma nuvem brusca de primavera

Hoje as ondas batem dentro do meu peito de areia
Seu nome desbota na maré
O medo de morrer afogado impede seu mergulho
Mesmo que o céu não apresente ameaças

O seu silêncio embaça a lente dos meus óculos
Vulgariza o escarcéu que te faço em prosa
Você seria uma metáfora
Meu passatempo
Mas a chuva de hoje tirou os nós dos cabelos
E você da minha cama

domingo, 18 de outubro de 2015

sábado

teu câncer no peito
a chuva que não resistiu às minhas costas
uma bossa no rádio de pilha
um tabaco na boca e teu timbre
como se fosse força esse abrigo
que carrega nas cordas
como se fosse mentira essa chuva
e o meu arrepio um miado de fome

tua rima escondida no bloco de notas
um rugido da porta parece anúncio
parece medo e motivo de garoa
os gatos de rua morrem mais de 7 vezes
e a marquise arquitetônica de teus braços
saciando a ânsia esfomeada de sábado
insistente em esfregar os textos diluídos
na folha branca de tua superfície
apaziguando a chuva

é tanto pretexto
mesmo que falte cinzeiro
céu nublado
fumaça escapando
e de súbito tu me rouba a saliva
como quem sente sede
mesmo depois de toda chuva fina
com gosto de água salgada

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cânone Ocidental

escritores malditos que me formaram
e me mostraram o céu azul
algum dia vou morrer
talvez recitando
sobre a covardia de escrever
sem pular do oitavo

andar descalça cansada de tanto
asfalto atropelando pedestres
canivetes são proibidos
o seu sorriso em 3d
enquanto os romances não renovam
seus roteiros e o puteiro na Tv
em 60 polegadas de uma tela plana
pois piranha é vendida todo dia
antes do café da manhã

enquanto no 410
você trancafia a minha mão
caçoa da caligrafia
examina o desconcerto

foram os desenganados
e demolidos
sobrevivendo da fome
de cartas estúpidas
roncando
e o meu gozo
em cima dos escritores invisíveis
melando o azul
algum dia vou morrer
porém não há motivos para alarmes
escadas de incêndio
ou seus dedos segurando
os meus

como se eu fosse a única
a narrar o pesadelo
essa miséria
vestida de luto
enquanto discutem
sobre a selfie do ano
os mais ouvidos no mudo
blues e jeans de lycra

queimaram as mulheres
numa fogueira
mas toda revolta é falta de pica
toda cor do oceano é onde
preciso morrer

até o motorista riu da falta de troco
analgésicos pra dor de existir
máquinas vão cessar
à noite
cores adormecem
quando escritores esquisitos
publicam e transitam em mim

sábado, 10 de outubro de 2015

ventanias

gosto quando tu se aproxima

como vento sedento de outubro

samba com o meu cabelo

e faz chá de maçã pra curar dor de viver

as minúcias se recolhem em teus olhos

te fazendo reparar a distração

até que desvenda um esdrúxulo motivo

que o impeça de trancar a porta

as cores do céu como pintura

a dureza dos ossos da tuas costas

essa paz desnorteada sabotando o caos

gosto da tua ventania

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

me enterraram em cova rasa

hoje vi um bêbado ser atropelado
ali em escárnio entre os entusiasmados
a farejar o clímax do dia
poderia ser eu ali arregaçado
com a fúria do sol de três horas efervescendo a ferida
a gota de álcool brotando dos olhos
e essa chuva de dias acumulada formando trânsito
e os carros
ah, os carros
as buzinas e faróis apontado pro olho
se mirar nos pássaros há uma sintonia de asas
enquanto o vento maneja cada folha dessa árvore entre o cimento
há muita beleza em parar o tempo dessa forma
à essa hora
o sol começa a esmorecer
o peito acorda do coma induzido
mas o corpo já se encontra enterrado

Eclipse

Vejo a cor sol mudar quando pousa em seu rosto, como se temesse te tocar e morrer de tão mármore e sombreado. Você reflete, esqueço o batom dos lábios como quem também não lembra dos danos e, de repente, cultivo a perversão de teu apetite despindo meu corpo flamejante. Vibro cândida por cada engano que te enfia em mim rústico, sem medir efeitos colaterais depois do último cigarro fumado pro fim da foda. Você vai embora, eu sei. Vai antes do café coar na cozinha e dos pingos de mijo insistentes que aplaudem o barulho discreto da porta.

Eu vejo o sol se esconder contigo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

rima só

paredes azuis
e teu verniz nos olhos parecendo choro
eu estendia as olheiras ao sol
e tricotava aquele tapete da entrada
as nuvens desenhavam os anúncios
que não saíam nos classificados
você vestia solidão
reverberavam os refrãos em reprise
como se a memória fosse curta
e as saias um empecilho

eu rendava meus lábios em tua nuca
o dia chamuscava dois ovos na frigideira
as paredes sempre muito azuis
e da janela assistia a comunhão de desespero
parecia choro aquele verniz
você vestia solidão tão justo
que meus braços se tornariam prisão

as aves em fuga pro sul
aquele tapete ficaria imundo
eu já previa a tempestade de agora
o azul te enclausurando
um desfecho suave e tempo nublado
você seria uma rima só

paredes
versos livres
e o verniz
nus
só lhe dão mais cor


sábado, 3 de outubro de 2015

Dioniso

As vezes
Acho que estou me rendendo
Às vozes que falam
A uma loucura
Que diz
Dói um pouquinho
Mas é só trancar os olhos
A poeira vira poesia

Então fica
Elas dizem que o mar bate
O amor é coisa de terrorista
Suicida
Então fica

Fica um pouquinho
Antes de ser chamado de louco
Por ter um caixão exposto no peito
As vezes
Acho que sucumbo
Às vozes que murmuram
Fica enlouquecido

Às vezes
Eu fico
Noutras só insisto nas cores das fachadas
De prédios residenciais
Trânsitos e balas no ponto de ônibus
O isqueiro de emergência
E cada rima
Diz
Fica um pouco enlouquecido

Dioniso me inspirou
Há vinho dentro do sangue
Sangue no seu vestido
Diz
Essa insanidade
Faz algum sentido?

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Recito poesia de graça

Estou quase lúcida
E nua
Mas isso não importa
Esses traços
São arquivos autobiográficos
A lupa que tira o embaraço dos olhos
É de armação exagerada
Enquanto nasce uma espinha interna no nariz
Descubro a cicatriz na rua
Nessa curva
Que os dedos percorrem
À velocidade baixa
Uma manchete de jornal
Sua dor embrulhada
Esfregando a ferida
Um litro de cerveja gelada e
O dinheiro da passagem
Até seu coração

domingo, 27 de setembro de 2015

Tatuagem

você dizia que morrer de amor é mais bonito
enquanto a cerveja nos levava pro banheiro
com a mesma frequência
que eu via seus olhos adocicados atropelarem
as palavras que suavam em minha boca 
sua cor é de um mel antiquíssimo 
a Primavera nos faz tirar as roupas com mais facilidade

tocava um jazz nos fundos daquele bar de número ímpar 
você dançava os dedos sob meus braços
e cada vestígio de sorriso 
eu anotava 
a sua música me faz gingar as pernas
como se tremesse de espanto

eu recitava paranoias
engolia sem engasgar 
o recado escrito na mesa do bar 
o pólen sugado de meus traços 
a Primavera que acorda os pássaros em seu peito tatuado 

domingo, 20 de setembro de 2015

Nua

Lá estava eu, de braços cruzados, segurando firme o coração que por um triz batia à sua porta; de botas cansadas e lendo o welcome to hell no tapete trivial e ainda úmido da chuva na sua entrada. A tempestade fazia folia, a mochila havia engolido o isqueiro laranja e recordo com remorso do cigarro que pedia fogo encolhido entre os dedos que trepidavam em ritmo submisso. Há recordações ainda da miserável nicotina querendo me ajudar a morrer de forma mais lírica do que em frente a uma porta encardida e quiçá mais rígida do que o seu pau em minha boca que pechincha um bocado de absolvição. Seu pau em minha mão. Seu pau tão em mim e essa porta maciça fodendo a minha entrada. Welcome to hell você diria mesmo sabendo que sou monolíngue e do meu espírito pagão. Seu pau em minha mão. Você me ofereceria o sofá-cama e o dilúvio que mataria a minha sede não se encontra em copo d'água. Nós saberíamos. O meu coração preso entre os braços era quem mais sabia, mas sabe-se lá se a água em festa na rua não serviria pra lavar minhas mãos.
Lá estava eu, nua, na rua, aguardando absolvição.

sábado, 12 de setembro de 2015

meio acerto

eu esperei a chuva anunciada às 19h
pra tocar a nossa música na rua toda molhada
e te ver entre as bainhas das calças encharcadas
sorrindo com os olhos meio fechados meio me olhando
meio falando que o caos é tão bonito
assim de perto
mesmo que grudado à minha boca

tocamos o céu
eu ainda esperava a gota d'água
o vômito do bueiro e os ratos enfileirados
as cores embaralhadas dos guardas-chuva
o barulho da rua gritando a nossa música
empilhava as bitucas no cinzeiro
meu cabelo ainda transando em seu travesseiro
e os seus olhos
assim meio exatos meio claros
tocam o tumulto que há em mim

sábado, 5 de setembro de 2015

Isso seria uma carta se o endereço do destinatário existisse

I
se é que posso ser sincero 
eu não te quero em minha cama quando o sol anunciar 
que somos um erro à luz do dia
não quero viver em seus poemas que só falam 
sobre um amor incompatível com o meu tipo sanguíneo
se é que posso te dizer a verdade:
somos uma mentira

até os seus olhos não existem quando fecho os meus 
nos segundos que te perco em um infinito passional 
composto por cílios, pele e distância entre dois corpos

II
se é que posso ser sincera de verdade
eu e você não existe
nem há realidade no instante em que te escrevo
pois apenas possuindo olhos imaginários
não é possível notar
que enclausuro versos em lacunas sutis do seu olhar 
enquanto o meu cadáver inquieto aguarda a eternidade

leio a sentença de morte em seus lábios escorregadios 
declamando o lirismo inexistente nas ruas da cidade 
só com o intuito de afogar cinzas e um pouco de rima no lençol azul piscina

a verdade é que a gente não existe
mas há livros que falam sobre o romance escrito 
em nossas trocas de olhares
os seus olhos
são o próprio infinito
mas eles não possuem vida
fora dessa poesia

III
você é vazio
quando não está em mim

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Gula

Seu pentelho em minha boca
Vagando autônomo 
Virando espinha na garganta e prato principal 
No jornal há notícias sobre a cura da sua escoliose charmosa 
paradoxal ao peso que carrega nas costas 
de tanta poesia mal comida
Indigesta
Aguardando uma fresta

Bolo de festa e um chá de boldo pra atenuar o gosto de vida
escorrendo pelo queixo gerando um sorriso de gozo quase ingênuo
(Porém duvidoso)

As letras flácidas na sopa
e no seu torso um dicionário de sentidos 
foi traduzido pela língua não padrão
Seus olhos quentes como o inferno
Prontos pra assar as minhas maçãs do rosto 
deixando um gosto de desgosto 
na rima que te faço muda

A poesia foi engolida ateando fogo no verso 
trazido na ponta da língua 
Assim requentado
Tem um pentelho no meu prato

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Copacabana

Hoje é inverno no bairro.

São dez e dez da manhã e a quentura imprópria da estação que invade o espaço entre as venezianas antigas é quase o pretexto pra não te dar um toque sem que haja um contexto. Um toque que seja. Um toque que te invada a bermuda esgarçada por minha causa. Seu número não tenho mais. Um toque que te arrombe a casa. Os ossos. Seus pés intranquilos. Você calçava os chinelos e se arrastava pelo calçadão fervente como os seus olhos. Não falarei sobre seus olhos e nem do inferno. O bairro é preguiçoso e enferruja dentro dos porquês elaborados com a saudade que você me fez traduzir enquanto tomava uma gelada na Siqueira Campos. Aquela rua te traduz também. Exausta. Um cubículo. Prédios enfermos e um porteiro banguela que insistia em me sorrir quando voltava encharcada do choro salgado. Do suor que te impregnava o pescoço quando retornava das longas caminhadas no calçadão dançante do seu bairro hospedeiro. Eu não sei nadar. Eu não contei os minutos de apneia dentro das suas calças. É abafado. É rígido. O bairro é impróprio também. Siqueira Campos eu nem sei quem foi mas hoje é saudade. Hoje é inverno na cidade e o inferno perto do caos de sua íris é mais denso do que a estação em frente à sua janela. O metrô da Siqueira é sempre muito azul. Não vou falar sobre os seus olhos. Talvez sobre o gozo ainda em meu passado. Dos passos contados até a Barata Ribeiro pra mais um cigarro e uma gelada não é tão gelada assim depois de conhecer a Siqueira Campos. O barulho do vagão em despedida. O cheiro velho da saudade de um bairro insosso e invernal.

domingo, 16 de agosto de 2015

Morri sete vezes
Mesmo não sendo bicho
No colo de João

Topei com o céu no dia 13
Transei com os dedos no jantar
E deixei que a poesia escorresse
Pela mão espalmada

Aceitei a morte calma
Transformei a cidade sem alma em
um borrão com a caneta preta esferográfica

Tracei um hemisfério
Transa em cada verso
Narrando o inverso de estar
segura no colo mudo de João

Ninguém falou sobre as mortes
intermináveis do coração de
uma mulher
Ninguém falou do coração
Ninguém falou
João
Ninguém

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Aguardo

saudade
sambou
no meu peito
como se fosse tiroteio
no Humaitá
quase engoliu minha voz
meu seio em luto
as cópias das chaves e o barulho
de pés no tumulto

bateu
uma onda
de saudade
e dizem que está perdido
na cidade
o sonho
a fome
aquela vontade de apertar
os passos
aferrolhar as portas
queimar a ponta no jantar

saudade escorreu pelo
rosto pálido
viscosa
e grudou no cabelo
me arranhou as costas
assinando as poesias ágeis como bala perdida
achada
esquecida

a saudade ganhou sentido
foi traduzida
tragada
mantida na boca
no verso e na ardência da ferida acompanhando
os batuques do samba no bairro
Humaitá

quando você vai embora?

sexta-feira, 31 de julho de 2015

você está aí?

massagear seus pés
rudes e exaustos
ouvir os poros em chamas
clamar minhas mãos
astuciosas
te rimando
subindo pelos tornozelos
ritual de dedos ágeis
senhas e passagens

decifrar os códigos em
toda digital esparramada
pela superfície árdua do corpo aflito

descobri um astro no seu umbigo
(um coração toca a campainha)

nos meus versos
eu te toquei
ultrapassando a carne
os ossos sisudos
te infiltrando e penetrando
invadindo sua casa sem número

parasitando os sonhos intranquilos de um insone
te entrando
sem receber convite
ou carta de despedida
(o número de desempregos subiu)

a fechadura sarou
fiz dos seus braços o meu violão
maciço
macio
eu te toco
toc toc
você está aqui?

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Alilás

apresento ao sol minhas lentes
de reflexo
com sensibilidade
à exposição de afeto
até aceitar que o asfalto
absolve
os corpos multados
os passos corridos sob sinais entrecortados
anunciando
que ficar parado enquanto
avançam os carros é pior do
que morrer atropelado pelo tempo

contemplo distraída as múltiplas violetas murchas 
enroladas no pescoço 
de fulana
[violentas flores]
só então entendo que lilás é poesia
quando o céu decide 
espancar
as cores líricas antes do sol
se despedir de
requentados amores

fumo
mais um cigarro
segurando a ponta do
horizonte entre dedos como se morrer
lentamente
pelo tabaco incendiado
fosse motivo pra render mais uma página no jornal 
sobre os perigos do
fumo diário

trago notícias
mais um nome que morreu na poesia
um corpo baleado
s
o
b
e
o elevador
tiro ao alvo
há um silêncio esmagador no metrô

escondo no bolso a minha sede condensada
como quem se adapta
calculadamente
ao deserto de olhos
apáticos

há versos abafados no armário
o condomínio está atrasado
uma ferida no peito do pé
nasceram flores ao chão
do bairro
[violentas flores]
espancando
a solidão onde mora
dores

terça-feira, 21 de julho de 2015

esquiva

eu estava virando a esquina
eu estava virando uma esquina mais esquiva do que os seus lábios
eu virei a esquina tão rápido que parecia estar fugindo do vento
cortando a esquina ou o meu fígado com uma garrafa de vidro
depois que eu bebi todo o dinheiro que tinha pra passagem

há tantos 
de passagem em mim 
que virar a esquina não é o perigo
eu virei a esquina sozinha
mesmo virando
a melhor parte de mim
depois da bebida

eu fico esquecida
então viro esquiva sem virar pra trás
evitando voltar ao início da esquina
onde deixei você e todo o meu dinheiro do cigarro
da próxima bebida
e da passagem volta
porque só tenho no bolso a de ida

sábado, 18 de julho de 2015

o seu nome escorre quente em minha boca


se não me levasse tão a sério
me levaria pra cama 
de quatro 
rezando pelo nosso pecado
que só existe quando escrevo com 
a língua na pele 
em carne 
ríspida 
o suicídio de um verso mal gozado

ao menos me entregaria algum 
resumo 
seja o seu número 
ou um olhar mais dócil 
do esse perdido no próprio 
tumulto
não me deixaria estendida na janela às
quatro esperando por notícias sobre 
o novo tom da sua camisa engelhada 
na gola por culpa quem sabe? 
de alguma briga 
quem sabe seja inteiramente minha

estou sugerindo soluções 
menos dramáticas
e mais sutis do que esse seu exército 
de desdém construído 
como armadura 
é que preciso ser levada a outro lugar 
menos formal 
onde possa ficar 
tão nua e sua 
quanto as letras soltas endeusadas 
em um papel inerte 
e possa sambar junto ao ritmo de 
suas
veias 
agressivas 
saltando do corpo 
até que o coração nos recorde 
que a poesia 
tem nome 
mas 
as vagas estão lotadas 
e os vagões 
enquanto nós vagamos vazios 

se não me levasse
tão a sério 
eu diria que te levo também 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Tua

A poesia lambendo o lóbulo da orelha
A poesia entre os beiços
Molhando o teclado
A poesia suja
A poesia fluída
Poesia ticket + dose dupla de vodka
Poesia transviada
Eu juro
Se não pularmos antes de
atravessar o viaduto
Muita poesia no muro
Só poesia português padrão
Só poesia tua minha é nós na garganta pra caralho
Poesia pseudo culta pós-impressionante
Poesia fajuta trocada por uma grana curta
mas
ela é
grande
Estamos distantes
Distantes e
Eu vou falar da poesia intrusa
Em tudo aquilo que protesto
Poesia manifesto
Manifestada de forma bruta
Poesia é coração de puta vadiando no carnaval do Rio de 
Janeiro é mês de ferver o corpo nas ruas em horário de verão
Poesia sol na pele a tostar
Fio dental e removedor de vazios
A poesia encheu o vaso
O vácuo
Entre duas bocas
Poesia escorrendo pelo queixo
Pingando no chão da sala 
2 quartos 
1 cozinha 
varanda de frente pro puteiro 
Mais barato do bairro
Poesia gozando da sorte
Sentença de morte, Vida e outras artes


Poesia é você

sexta-feira, 10 de julho de 2015

perca

Descobri que remetente é a cor do céu no inverno
Quando a lua fica cheia de nós e desaparece
Mas há uma avenida cheia de passageiros
Fugindo daqui dessa gente desenganada
Dessa espécie que inventa o amor mesmo que o verbo amar
Tenha sido usado tantas vezes que até tenha perdido o significado

Bares lotados e há um trocado pra mais uma dose de percas
Eu também me perdi mas quando as nuvens se chocam
O choro é coletivo na hora mais cheia do dia

A lua permanece inteira e estou perdida sim achando que o horário de Brasília
Não regula o medo do tempo
Não é de chuva que temo quando o cinza
Pinta as cores dos seus olhos de verniz

Só enfrento as horas a mais no calendário
E inalo um pouco de mim pra ver se fujo de nós na garganta
Perdi os sonhos no canto da boca e a vontade de dançar
Com o inverso no peito da caneta

Versos sobre o carteiro que fugiu dos correios
Me deixando assim entregando olhares alheios
Estamos interpretando o desespero
Achando perda em cada tampa sumida de cabeça
Não me deixa esquecer de você recitando poesia sobre suas manias...

Eu te perdi mesmo sem nunca ter nem o direito autoral ao seu nome cotidiano
É tudo isso um engano
Enquanto o rádio também inventa de chorar conosco no banho
Mas quem tem paciência pra choro quando o coro de indivíduos
Soa despercebido e a gente ouve os zumbidos do mundo
Querendo respirar um pouquinho

Minha rima está perdida dentro da tampa da caneta
No cheiro da sua camiseta indo embora antes que eu me desse conta
De que perdi a hora e as conta dos passos de volta pra casa sozinha
Eu perdi até a vontade de continuar essa poesia...

segunda-feira, 6 de julho de 2015

sarau

eu não sei se notou
mas a cidade está mais cheia
e limpa
e doida varrida
não sei se notou que te olho
quando há uma distração em sua fala
momento que me nutro de harmonia e instabilidade
que a minha boca quer morar em seu corpo como se te adorasse

o Cristo fica colorido em dias específicos
e a Lua tem aparecido antes das cinco
quando você pega a sua bicicleta
e equilibra a própria vida entre o meu coração
e o espacinho do asfalto

porque há caos
mesmo sua fala sendo tão calma
mesmo possuindo mãos quentes:

eu sei que você teme
pois te noto e anoto em mim

sábado, 27 de junho de 2015

Você gosta disso e eu com as palavras me reviro

eu te procurei pela cidade

mesmo só sabendo o seu nome e querendo morar

em cada curva do seu j

e te quis como se a lua não fosse me esquecer mais tarde

porque não tenho vista panorâmica de seus olhos mas tô paranóica sim

usando palavras pra cessar o sufoco

ufa é pouco

ter você seria o meu alívio

porque há um grande risco

de sermos reescritos por tradutores automáticos


na curva do seu sorriso

eu quis fechar parênteses pra ver se esclarecia nosso contexto inexistente

mas isso é licença poética dê-mais

no ponto eu te dei um fim

porque não tenho aspas pra voar contigo


no início da rua eu encontrei
a sua janela
não era em sua casa que eu pretendia morar

domingo, 14 de junho de 2015

nós na poesia é incompletude

estou metade
meio míope
insossa
com centímetros faltando
decorando o som que um passarinho
sem nicho produz antes dos vizinhos 
coadjuvantes na poesia
saírem
para trabalhar
acordar em tom do choro 
daquele bicho é
me aceitar ferida

quase mansa e maré
sem café de manhã
só a resignação borrando o mármore e
essa cara tão pálida 
não é mais de espanto
me aceitei metade
mas a verdade é que me falto
me sondo e busco um motivo 
sem sair do lugar pois 
o choro do passarinho 
sem ninho 
é onde habito

arritmia cardíaca
mais rápida do que as rimas
estou sim aceitando a falta de ritmo
subestimando as vírgulas submissas estendidas 
no varal da licença poética 
situada em tudo aquilo que enfio 
goela 
A dentro
e fora nada parece tão concreto
apesar de tantos prédios

eu não vim inteira!

estou tão nós
perdida em alguma rua da cidade 
sem endereço sem ponto procurando salvação 
nas placas e muros pichados de poesia
esquecida (como nós)
enrolados nos cabos de eletricidade
morrendo eletrocutados
pela cidade
porque o coração não bate
só clama que a poesia não se apague
mesmo que as paredes da cidade
não caibam tantas 
metades

estamos engolidos
procurando
abrigo sentido motivo
...o silêncio é tão grito quanto o choro daquele passarinho

sexta-feira, 12 de junho de 2015

amoras

Eu que nunca antes havia provado o gosto de amora, descobri o amor escondido dentro do caldo que saía da fruta e dos lábios e de versos vadios. Quase encontrei refletido no muro branco de cal a luz verídica do sol que vinha de uma manhã afobada pra acordar e me acender queimando um pedacinho do pé. Quase despertei mas é inútil acompanhar a passos o tempo e os novos ônibus de janelas trancadas espalhados pela cidade. Quisera uma borboleta fizesse lar na minha mão e do meu corpo houvesse língua que quisesse ler em braile um versículo obsceno. Desculpa a cena. Preferiria ser revelada como um artigo sem letras mas também não possuo números ou código que me abram as pernas antes de uns tragos de resignação. A minha pele é o caminho dos amores que deixei na rua junto aos versos em guardanapos úmidos e preferiria não lembrar do carteiro indo rumo à longe daqui levando as cartas do meu armário num ônibus com ar condicionado.
Logo as cartas sem rumo...

Eu que nunca amei
acho que encontrei na amora o amor.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

será
que 
te trago
ou trago você?
trago 
angústias
em um maço
de cigarros
e as suas cinzas
no canto
do quarto
será 
que te trago?

domingo, 31 de maio de 2015

perdendo a memória junto ao seu nome

quase esquecendo o seu sobrenome
junto aos vocativos que te identificam 
em mim e nas poesias que pouco a 
pouco vão te perdendo 
e se tornando mais urbanas
pois o caos da cidade é um bocado 
do que vi quando por descuido dei zoom 
em seus olhos de mutirão implorando por sossego

e quando há paz eu não existo

há uma ânsia de se ocultar que te 
faz crescer a barba e me perder é também 
se achar menos alheio 
porque não sou daqui e nunca fui

quase não te sinto
mas sinto muito
não por deixar que você escorra de 
mim como se fosse um motivo de choro 
mas por permitir que a poesia te escreva uma despedida 
sem que ouse citar o seu nome

mas, quem é você?

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Transe

Descobri que saudade é nome de rua, habita meu quarto e faz versos por mim.
Mesmo sabendo o caminho de casa me perco e volto pela metade quando encontro na rua cartas endereçadas a ninguém. Meu coração não é meu, nem teu, ele é um bicho solto que me faz subir ladeiras para seguir amores impossíveis. E eu que insisto em poetizar os olhos, descobri que há poesia no líquido que escorre de nós.
O corpo é feito para transar, pensei.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

azul-íris

olhos de medo e
passos sonâmbulos
há um brutal encontro de sonhadores no vagão das sete e quase não vejo mais aquela criança querendo sair de casa pra enfrentar um bicho maior do que o escondido dentro da caixa de ossos cansado na cama

eu escuto a buzina chorar por atenção e o suor dança enquanto a gente só quer morrer de amor mas somos atropelados pela compaixão inexistente no asfalto do centro da cidade
e destruídos são os sonhos dos homens de terno engomado
é tudo engolido e intragável desde o último resfriado porque o rio em maio é quase tão gelado quanto o som de um suspiro prolongado e sem rima
há sim muita desistência e penitência quando não usamos as palavras para dizer que o sufoco é oco como todas as obras que tentei escrever falando sobre os seus olhos de medo mesmo o dia estando tão azul-íris




Mudei o nome do blog, espero que se acostumem

terça-feira, 19 de maio de 2015

coração bomba

eu vi o seu olhar metralhar
cada letra dos meus discursos de não te querer
eu me arrependi de voltar pra casa
eu me arrependi de não deixar fios suicidas de cabelo em sua cama
ou uma marca ilegal da mão trêmula em sua nuca
querendo te devorar enquanto a minha boca já fazia isso

à noite eu ando em sua rua
sem saber o seu andar
ou onde andará você

querendo construir uma poesia sem essa de rimas ou amor platônico
eu quero foder contigo até que os olhos ardam com a luz do sol 
ultrapassando sua veneziana
pois não acredito que você irá deixar em mim
algo além de hematomas
e porque eu fico muda

mudo
o mundo tem medo

você também tem
mas há algo em seu olhar terrorista
que desafia e mata a poesia com rimas que eu pensei em te escrever

que me faz mexer na cadeira
subir ladeiras íngremes demais pra um pulmão fumante
há algo em você que me faz acreditar nos vilões
e se ouso dizer agora que me arrependo de ter voltado pra casa 
é porque quero morar na guerra que seus olhos me causam

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Devo chamar essa poesia de despedida?

devo chamar essa poesia de saudade?
ou são os seus olhos perdidos
na cidade que se desnortearam
me atordoando
em qualquer esquina endereçada
ao seu nome indigente
dentro de mim
corroendo qualquer chance que tive 
de escapar sem ressaca
as olheiras condenam
sua voz desconstruiu toda prudência
que botei na cama
e fiz cafuné
porque o medo sempre esteve
até nas poesias que ocultavam o seu nome 
não é sobre o amor que as canções de amor falam
é sobre o nosso cansaço
mas eu também estou suada
e há tempos não arrumo o quarto
não falam de você nos grandes clássicos
porque é só mais um
joão-
ninguém
reparou que os prédios estão muito altos
enquanto a gente se aperta
nas ruas que sobram
quase nada nos resta
mesmo te olhando distraída enquanto recita
obras de Fernando Pessoa ou a garota da rua São Clemente
eu admito que continuo escrevendo minúsculo
querendo diminuir esse escarcéu tão imenso
quanto o seu silêncio de rotina
ninguém nos sobra

só essa saudade maior do que os prédios do bairro restou
recordando que o título vem depois do poema
e você não

domingo, 3 de maio de 2015

cartas na rua

você permaneceu em mim apenas no
espaço que guardo para esquecer
insanidades platônicas
pendurado pelo pescoço cantando
blasfêmias sobre o tal amor que tanto
renega a finco sob o sol da tarde 
só seus olhos conservam-se intactos
quando olho pro infinito e te pinto em
memórias invisíveis para quem não
acredita em acasos
são tantas poesias bordadas com
o seu nome gigantesco que imagino o
amor sendo uma farsa à favor da arte
marginalizada por Deuses modernistas
só o meu desapego virou rotina
quando atravesso um quarteirão
inteiro para te perder de vista
não são as minhas palavras que te
movem mas estou sempre te dando
vida nas poesias... 
(sou turista no amor)
mas abrigo o meu coração em sua porta
para achar entrada quando
houver um descuido seu ao sair para
entregar as malditas cartas, carteiro
são tantas cartas 

e nenhuma notícia sua 

terça-feira, 28 de abril de 2015

não reclamo do temporal se você molha os meus olhos de garoa

não temo a fúria do tempo
nem as nuvens ruidosas penduradas
no céu chorando desde o verão passado
são uns 60 passos até a sua cama
e no fundo as cores das meias que usa são extravagantes demais
deixo a poesia na cômoda
e lavo os cabelos com água fervente
pois a alma precisa de um sossego
antes de adormecer com gosto de café e saudade do sol

o burburinho dos ônibus que não param em meu ponto
fazem o ritmo assíduo da poesia renascer
ter que aturar as tardes de domingo é um aviso de que não há segurança
nem em seus olhos brandos
é tudo isso que machuca
acho que a humanidade vendeu também a paz

debaixo desse viaduto do Humaitá
a luz das estrelas se atreve a ultrapassar mas posso ver o seu sorriso se escondendo
atrás de um muro de Berlim
contou as mágoas estocadas na mochila?
minha poesia está guardada na garganta e todo grito é sim desespero
pois o tempo nasce em mim apodrecendo o seu nome
sufocando a vontade de amar antes do sol me erguer da cama
às seis e meia na segunda-feira

sempre que o céu desaba você vira um pouco de tempestade
molhando
sem compostura
o meu corpo submisso
e apagando a ponta do cigarro que fumo 
pra esquecer que você se tornou insônia nos domingos de chuva

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Luzes da cidade

você me diz que o sol vai se pôr 
e eu recordo que há um oceano
tão frio e medonho 
dentro de seus braços 
me submergindo
que temo não sair com vida
consigo ver a luz da lua na parede 
do meu quarto
mas nem há lua hoje

quando os vagalumes aparecem 
a chuva molha um pedaço de mim
mas eu não choro alto 
só a tempestade cai

sonhos dormem
e temos que acordar o coração
exausto no café da manhã 

quando você se perde dentro 
da noite clamando que haja
algum culpado pela 
nossa solidão 
é quando eu existo

há licença poética em seus olhos
mas quem tem tempo pra poesia afinal?
quem repara no desassossego dessas palavras  gigantescas? 

quase todos os parágrafos reparam
nossa poesia é marginal em um mundo
ocupado por gramáticas 
e olhos calculistas 

eu vejo a luz da lua na parede 
do quarto 
mesmo sabendo que os postes 
da cidade mentem pra mim

título: música do Marcelo Camelo e nome de um sebo em Botafogo

terça-feira, 21 de abril de 2015

João é alguém

Parece que ouço Clarice cantando junto aos sussurros do bairro da saudade
Que o amor morreu antes de descer a ladeira
Ralou os joelhos
Virou a cabeça e há um coração pulsando a cinco mil quilômetros por hora
Passou da hora de te contar que não quero voltar pra casa
Eu vou bater a sua porta
Me debater em sua cama até te fazer entrar em mim

A poesia é nossa, surrada, suada, submissa e ativa
Então me faça explodir em versos antes que eu me torne repetitiva
Só falando dessa vontade homicida de te engolir...

sexta-feira, 17 de abril de 2015

sono e olheira de quinta

quando você fecha os olhos
é quando eu fico só e serena
mas a escuridão que cega o céu
me faz ter pesadelos

mesmo tendo tão pouco sono
ainda sonho conseguir descansar
não em seu ombro largo
mas em meu sossego sonâmbulo
não nos parênteses críticos de sua boca
preciso de repouso na certeza de que não existo para te adorar
não é de amor que falo quando repito seu nome às cartomantes 
mas sei que uma gigante tragédia aguarda por entrada nas minhas poesias

quando eu fecho os olhos
me recordo que perdi a identidade
a cor dos meus olhos dóceis
mas isso alivia o medo da noite e do inverno que cobre o seu corpo

o mundo acorda e eu morro
mas você não morre em mim

sexta-feira, 10 de abril de 2015

vida e morte da poesia em mim

a poesia morta em mim recita
cânones literários ainda não lidos
por medo de repousar onde
há omissão de empatia
grita sem voz mas faz desse silêncio
um hino de absolvição
refaz meus planos insalubres
e observa atenta pelos vidros embaçados dos ônibus
quem aperta os passos na dança do atraso
há caos sim, na poesia, em mim,
nas ruas dessa cidade popular

a poesia quer nome e invade todos
os parágrafos suados de meus artigos acadêmicos
há caos quando tento escrever
um resumo descritivo ou me desfazer
das malditas metáforas que sempre
dizem o que a poesia grita
a poesia morta em mim renasce
quando o sol queima os olhos míopes pela manhã
e impede língua padrão em prol da licença poética
em cada "eu te amo"
amo-te não

ela diz não aos muros pálidos de pavor
ou rancor e há uma poção de abismo
na tinta preta dessa sua caneta
os psicólogos dizem que isso tudo
é caso de rima e que já sofro
com os sintomas prescritos
é bonito, a poesia faz questão de morrer
todos os dias em meu peito
que é terreno vadio

a poesia sou eu, também

sábado, 4 de abril de 2015

se estamos perdido é porque há um caminho?

somos estranhos pedindo ajuda com os olhos quiçá
se falassem diriam que não há direção segura
não é primeiro de abril e há quem forje sorriso aqui no rio

ontem ouvi o meu dilema existencial rasgar em versos
a falta de inspiração que seca as canetas do estojo.
sem identidade ou ritual sagrado eu fujo daqui antes de ouvir a porta
me apertar contra a despedida
estamos perdidos, sim
loucamente ensopados em chuvas inesperadas de verão e parados
em pontos de ônibus passando do ponto de partir
há fome no céu chorando
há seca aos pés dos homens de fé
acredita em mim? pois há uma chama te queimando 
e vaporizando pro azul, onde não há tempestade

estamos perdidos, sim

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Onírico

sobrevivendo a partir das cápsulas de tarja preta eu tento escrever
os objetivos de vida que nunca possuí pois
só desejo mofar em cima da cama
ocupada por essa solidão
salgada. Espaçosa. Cretina.

e eu que comprei mais três livros para essa estante lotada
peço perdão à solidão
que me invade
e decepa algumas lágrimas foragidas do holocausto
vivido dentro dos olhos cor de madrugada

nas noites em que o bicho entra pela porta sanfonada
fecho a alma para não ser roubada antes de dormir
e ainda luto contra os monstros invasores dessa minha calma mas quando vejo
a cama bagunçada pela manhã penso que não estou tão sozinha

Guardo a poesia em mim

viver editando palavras é censurar a liberdade
não há pássaros saudáveis soltos pela cidade
e o Cristo está de braços abertos desde quando eu prometi publicar
as páginas de nosso romance banal nos muros de ruas silenciosas
pois renuncio a eternidade carnal

Não há felizes para sempre afinal

sábado, 28 de março de 2015

Dois resignados:

há humanidade em mim?
será saudade o nome desse lamento? 
os olhos são maresia ou sobra de poesia? 
há uma paz tão grande e passageira
dançando com as nossas palavras.

perdemos tantos sonhos pelas ruas.
temos pisado em tantas pedras nuas. 
eu perco o vão das sete e há em nós uma dor fingida
matando poetas. 
amargando o café da manhã 
de quem nem dormiu. 

toda lamúria tem um fim.
carnaval só termina em Janeiro.
no fim da rua é teu coração que me indica a direção.
temos saída? 

todo mundo está cansado no ultimo vagão
e eu que ainda nem dormi
te possuo aqui. 
também chamo isso de resignação, João.

quarta-feira, 25 de março de 2015

O que seríamos se fôssemos?

o que seríamos se além de poesia, fôssemos também cores padrões e bandas alternativas? é falta de amor aquilo que me faz enviar diálogos embriagados de cerveja barata. não suma antes de sermos o que nunca seremos pois há um filtro dos sonhos te declamando uma madrugada que vibra com o cheiro impregnado nas pontas dos meus cabelos. é cheiro de fumaça, de saudade, de despedida. é disso que falo quando te escrevo fingindo exaltar o caos da cidade que me engole todo o santo dia

e de santidade só o seu nome surrado que sustenta milhões de fracassos...
o que seríamos se fôssemos?

haja analgésico para esse tornado de versos deixando pedaços avessos do que são as coisas cruas assim como as minhas feridas virando manchete de blog. o que seríamos se voltar para casa fosse a única opção e as baratas estivessem extintas? se os olhos recitassem o remorso por serem tão miúdos eu me lamentaria por ter tudo a dizer enquanto finjo que existo

em mim nós existimos 

sábado, 21 de março de 2015

notas sobre um desespero cotidiano

nesse verão de manhãs rosadas eu procuro nuvens que salvem a seca anunciada nos jornais e temo a tempestade nos olhos de passageiros de ônibus sem bancos para sentar. os bancos só abrem depois que o asfalto está quente demais para andar descalça e na calçada sonha alguém que dormiu olhando para a lua em seu estado minguante. o estado todo está a mínguas de parar de acordo com o horário de brasília. todo o rio de janeiro só quer saber do fevereiro feito de cinzas. o rio esquece que eu gosto de postes poetizados e de muros artísticos, minha poesia é tão marginal quanto a avenida e esses tais pedaços urbanos estampando crônicas. não haverá umidade no outono, a cidade sangra até na televisão, a cidade pensa que a censura é bonita, as prostitutas são ainda mais lindas. não quero usar devidamente a língua. a poesia é tão minúscula quanto eu aos 20 e há um pedido de socorro nas ruas a cada frase não dita ao meio-dia. tudo isso é tão cotidiano que até rima

segunda-feira, 16 de março de 2015

Capuleto

hoje não venho te falar sobre o amor raivoso que me morde
nem dos braços estirados. os calos nas solas dos pés. 
se a poesia me permite eu vim lançá-la
em suas pupilas sensíveis pairadas
no horizonte explosivo de azul
somos todas essas estantes cheias de histórias
e livros de poeira

meu coração não é o protagonista dessa poesia
eu sou a vida dos meus pais
e a velhice me assusta
a morte seca de um arbusto. 
uma mão como um mapa me guiando com cautela.

não te falo agora de dramas sensacionalistas 
dos erros de português e corretores automáticos 
mesmo só falando a língua dos deuses narcisistas 
que pintam essas palavras de vermelho 

eu lanço em seus braços o peso de morrer sozinho
sem musas de sonetos 
ou Julieta de um Shakespeare louco
pois o ônibus passou do ponto logo quando
eu já nem penso mais em te esperar

sexta-feira, 13 de março de 2015

assassinando seu nome na sexta-feira 13

existo distraída entre o mundo dos loucos
e das histórias com vilões vestidos de lobos
vê as cartas postas na descarga?
sou eu descartando o romantismo 

fumando um maço de angústia
assisto a minha pele esbranquiçar
como se por acaso temesse morrer
e grito que não temo a morte
mas quando a neblina cobre o céu os meus olhos
gentilmente choram

cantigas e bilhetes me comovem tanto quanto mirar nessa montanha segurando 
Cristo nas costas
quanto mais eu fujo
mais fico
e ficar eu não quero mais

existe dor e flor nas rimas espalhadas nos cantos da boca
escorrendo dentro da privada
molhando as pernas
abrindo espaço
dentro de um coração estático

domingo, 8 de março de 2015

Você existe naquilo que crio antes de dor-mir

você vai borrar a minha blusa nova de batom escuro e rasgar cartas antes de escrevê-las porque sempre irá desistir de me dizer adeus com essa letra ilegível por medo de aparentemente isso ser um grito de socorro. irá molhar um pedaço colossal do meu travesseiro enquanto narra as próprias tristezas diárias e infinitas, assim como os seus olhos de maresia tão salinos quanto o céu do seu verão tardio

essa voz piedosa me assustará quando abrir a porta nua de repente querendo se suicidar na minha frente como se eu fosse o seu especta-dor. eu nunca fecho a porta mas aprendi a trancar a alma pra não te procurar por aí em avenidas marginais porque assim eu também me perderia. seriamos dois perdidos sem volta e eu sou quem te salva, lembra? é por isso que te espero sim sempre que a noite brilha sob os prédios pálidos, te ressalto em meus versos e rezo pela sua calma mesmo que no coração de alguém maior do que eu

você vai morder o meu pescoço só pra deixar uma constelação promíscua, criará em mim um personagem intocável de amor e prometo que nunca serei tão devoto a algo quanto aos seus devaneios. vou te assistir acender o baseado sentada contando fatos baseados em livros canônicos pois não há como escapar da parte em que eu me apaixono pelos seus pés ou essa sua posição quase-erótica. é parte da minha proposta te aceitar em todas as poesias como se realmente você existisse. como se de repente você fosse acordar daqui a quatro horas para vomitar no banheiro, tomar o meu café e sair sem profanar um adeus
sem chorar
não chore agora, poetisa

sexta-feira, 6 de março de 2015

o rio de janeiro é cercado por lágrimas e rios

11:55, hora do almoço no bar do arnaldo e da conversa sobre a mulher que passou sorrindo torto depois de um psiu, talvez ela seja solteira ou só esteja cansada de ser assediada em plena luz de um horário de verão. estamos todos cansados até de pedir perdão e os bueiros entupiram de tanta sujeira que essa cidade guarda. na rua do ouvidor só se ouvem os gemidos secretos vindo de portas compridas e eu lembro dos romances brasileiros e tento ver beleza em toda dor ouvida em plena luz fervente do dia. se o Rio de Janeiro continua lindo eu não sei dizer na poesia, mas quando ando pela orla da praia de Ipanema, desejo morrer ali no calçadão milimetricamente desenhado de tão ínfima que existo. os cariocas sambam só na própria reputação, e há nos arcos da lapa um Deus dos desajustados comprando promoções de caipirinhas de kiwi com morango. é preciso coragem e verdinha e uma música alta nos ouvidos para virar a esquina. o enterro é no domingo e todos somos Jesus Cristo quando na segunda ressuscitamos para a rotina de vagões lotados de olhares e bolsos vazios. ninguém mais troca olhares na cidade, mas tem que me olhe torto. todo mundo paga o preço por tentar mostrar que ainda está vivo. sim, o Rio de Janeiro continua lindo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

mar ou amaré?

quarta-feira de um dia quase cinza
as folhas nasceram em árvores nuas 
os amores renasceram virgens
há fila em todo lugar 
bancos e boates
e eu que só ando com botas apertadas
sinto que há espaço pra voltar à pé 

sem nada em mãos
só mais um aperto na garganta
como se as palavras quisessem me estrangular 
ou talvez seja só essa sina de ser uma escritora suicida 
manipulando o meu silêncio 

não dá para sair de saia 
nem esquecer amores platônicos 
como quem deixa o isqueiro em casa 

eu moro perto de todas as praias do rio
e não sei mergulhar 
a não ser em seus olhos 
de outra cidade 
isso é o que chamam de amar 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

meu coração também não é de carnaval

se é de amor ou resignação que se vive, eu deixo a minha poesia no mundo como uma carta de suicídio e tento escrever o que me agonia botando a culpa no sol ou no pior signo do zodíaco. ninguém vê os meus olhos tristes quando a garoa aparece de repente molhando gente com fones de ouvido tentando disfarçar o choro da rua. todo o carnaval manchou a pele da morena e os padrões estão em vômitos de banheiros aferrolhados. há descaso em semáforos e o sinal está vermelho para cada homem que quiser entrar em mim em alta velocidade. falo demais das cores e de poetas falecidos. há mistério nesse planeta de seres racionais. tento alertar sobre o amor em cada sílaba aguda, suspiro ou olhos exaustos. tem muita multidão em volta da desgraça de quem reza todos os dias antes de cada refeição. eu tento agradecer mas outra vez reclamo e penso sempre que o mundo poderia acabar enquanto durmo no leito de sonhos insones. minha carne não é de carnaval, sou escorpiana com todos os males do signo e possuo enterrado no peito uma bomba pré-histórica. nossos horários estão alinhados diferente de nós e laços.
quando é que acaba o verão?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

rasgando suas cartas e editando mágoas em relação ao mundo

suspeito de passos ágeis e de promessas desesperadas
há uma floresta entrando para a minha fantasia, ganhando nome e quase
me fazendo de filha pois eu sou tudo o que a natureza renega
bela, não como carne ou mulher, mas feito célula cancerígena consumindo
o pouco de sobrevivência que nos resta ao respirar profundo
de olhos cerrados e com o coração mais pesado do que as malas eu vou,
não como se soubesse o caminho de ida ou se há uma volta,
fazendo busca daquilo que não encontro aqui
suspeitando de lendas urbanas e poetizando o que dá ânsia de choro
pois isso sim é uma interminável viagem ao mundo das bruxas
os morcegos entram nas casas e eu saio de casa sem documentos
comprovando que estou dentro de uma identidade falsa
em cima do telhado vendo vaga-lumes pela primeira vez
ou lendo um livro cheio de mofo na sala de estar
eu penso em encontrar um nome único para a cor de seus olhos mornos
enquanto esqueço de acordar pois sempre não lembro de existir

por onde passo enxergo luzes me abduzindo para os vícios

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Moonchild

Deixo você entrar como se um raio furioso caísse sobre mim em uma chuva de verão pois amanhã não teremos medos pra contar. O que escrevo inquieta quem me chama de poeta e eu vejo as minhas fantasias no céu de 12:50 porque o azul machuca. Amanhã não teremos o porquê de chorar. Vou escalando uma fantasia absurda e progresso sob um chão em brasas para roubar um pouco da plenitude sem ser expurgada de minhas galáxias. São as pirâmides em chamas anunciando a minha saudade. Amanhã seremos crianças pela eternidade se a maré subir. Esse ritmo glacial nos abafa os ouvidos antes que estrada tenha um fim.

Me apavora que o amanhã não nos chegue.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

traduzindo os olhos de serpente

você está dentro das minhas conversas
e a sala está com cheiro de mijo seco
essa parede é calma demais para aguentar
esse furacão de sentimentos
que colo em cada pedacinho branco que me sobra
é tudo abismo e eu toco o meu coração intocável
tantas vezes que acho
se alguém tentasse conseguiria também
fazia tempo que não chorava aqui
posso ouvir o vento me pedindo para dar nome ao que sinto
cansa e dói e sei lá mas falar disso é tão dificultoso
pra mim que mal sei fazer discursos acadêmicos

o cheiro de erva entrando
e você saindo junto com essa flauta pesada
estou ficando sozinha mais uma vez e hoje ainda é carnaval na cidade
preciso da poesia de marcela e dos olhos oceânicos do rapaz das cartas
eu temo a ventania
temo o meu sentimento sem identidade
e toda a rua criminosa me chamando para mais uma noite

essa amigdalite sempre retorna
todos os sonhos com serpentes e parentes que não usam o meu sobrenome
são réplicas desse universo egoísta que criei porque não me resta nada de real
esses olhos tão passionais não passam de uma mentira sem amor
a minha pele branca é obra de arte
e eu estou esterilizando sentimentos ruins por toda a vida
por mero medo de finalmente me abraçar ao precipício

é difícil ser criança aqui
há sangue no lençol da cama
e o incenso exala o cheiro da lua que não está no céu
sinto fome de amor e bolo caseiro sem ovos
sempre assisto à minha mãe chorar na frente da televisão
e a poesia as vezes pousa em mim como uma borboleta distraída
querendo desfazer meus planos de morrer
e me ferindo o pulso direito
o poeta escreve para outra
e acha que sou só mais uma transviada
quase não resta espaço para que alguém entre por essa porta
e me arrombe
até que eu reclame de ser feliz

ainda acordarei algum dia sem medo de chorar
e vou fazer discursos sobre a independência da alma
até o ponto de enxergar o fio da calma que tanto procuro nesses nós
entrelaçados debaixo de lençóis sujos de sangue
eu só vivo romances quando escrevo
e mais uma vez ainda não te disse tudo

sábado, 14 de fevereiro de 2015

há um bicho sem nome me olhando enquanto escrevo

eu quase dei seu nome pro bicho
que mora dentro do meu quarto aceso
há tanta gente exausta aqui que o meu cansaço some
e se perde em cima da cama de colchão fino

há o desconhecido grudado nas paredes das casas
por onde entro descalça
e vejo sujeira atrás da porta
[essa cretina porta de madeira maciça
não avisa quais partidas que serão
pra sempre
mas sempre me diz pra sair]

o universo dançando com o meu corpo morto me afundando
vou ficar mais cega do que o amor
o meu corpo é sede de alguma paixão desleixada
a minha escrita não vale nem a primeira página de um livro
mas ela me salva e me salva agora do bicho sem nome

essa voz tão arrastada, tantas vírgulas poupadas, o piso do chão rachado
e a falta de tamanho
é um pouco de medo por existir tão em vão
esse disco arranhado é um eufemismo a essa hora
e tenho uma vida de sobra para jogar até amanhecer primeiro
em cima das ondas outra vez

o que digo não faz mais sentido
e a conta de luz desse mês aumentou
abre essa janela que hoje eu vou te observar
há um sol sorrindo me querendo amanhecer requentado
quase mudei de lugar
novos carteiros foram contratados no Humaitá
e ainda procuro coisas debaixo da cama
não sei o que realmente perdi

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Minhas poesias são confissões esdrúxulas

Daqui eu ouço os pingos caindo ao chão de cimento aguardando o sol anunciar o verão para extermina-lo até a próxima tempestade que devasta cidades baratas. Dançam as luzes atrás de vidros acústicos mas não sei qual é a melodia e sinto em mim uma vontade de pular mas observo o horizonte alaranjado quase que explodindo qualquer desejo de morte. Eu daria todo esse céu que estampa paisagens de papel para turistas em troca de habitar minha carcaça debaixo de sua pele corada por uma praia imprópria para mergulho. Quero nadar em você mesmo não sabendo nadar. Seu mar suportaria os meus maremotos? Desculpa se eu só consigo dizer que te amo através da poesia... Se declarei que sou livre durante algum discurso alcoólico só para fugir de sua imagem caótica de homem com medo. Eu traço o seu nome em tudo o que escrevo, pinto o nosso relevo em cima da cama de 1,60cm e não me importaria de ser traçada em cima dela por você.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Notas de uma prosa inacabada

Passo o rímel importado
de alguma empresa que contribui
para a anorexia em modelos de cera
e sinto o coração borrar 

É pouco tempo o que possuo
não sei rezar mas vejo almas
e a minha aparece
em fotografias tremidas

King Crimson estremece a cama e os cabelos
e borro de novo
o batom no verso da mão
Existem versos que não ouso escrever
Sinto vontade de foder

Há uma luz extraviada em meu olho embaçado 
o chão não foi limpo por Ana
que carrega os machucados no álbum antigo de família
e em volta do olho esquerdo

Eu choro junto com o chuveiro
digo ser poetisa
e penso na frase
que estaria escrita em minha lápide
todo final de mês

Eu tento abrir a porta mas nunca existiu porta 
porque não há entrada mas procuro a saída
Não tenho 40 centavos trocados
E as minhas pernas não correm a mais de nove meses
então o paraíso vai ter que aguardar
quem me carregue
como a Cruz de Cristo
que enfeita a imagem desnorteada do Rio
quando vou fumar Gudang na sacana

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

a solidão fez sensação de 50 graus ontem

a solidão fode comigo 

e vem como a tragada que chamusca a garganta e faz um nó dos diabos até o ponto de me obrigar a escrever palavras porque a voz é perseguida e transexual e não há silêncio quando todos fecham os olhos. o ódio do mundo esperneia e isso é bomba daquelas atômicas tão rápidas quanto um intervalo para o almoço. 
moço, a nossa conversa é hoje então ajuste a sua cama de lençóis que apaguem a minha digital cuspida em cima de teu eufemismo. a solidão desfaz a maquiagem de sábado dos olhos e me faz acreditar em bruxas e morcegos que me chupem e não há crença em mim. há uma tempestade tocando tambor no céu anunciando a maré de olhos cheios de areia. os pássaros voam pro sul e cheguei junto ao carteiro e quem vai dormir? eu crio piadas com as minhas realidades destruídas e vandalizo os meus ideais rasurados. uma mosca fala dando voltas repetidas que não é pra dormir sonhando por enquanto, até a maré baixar... 

a solidão me tira da cama de manhã e derrama o sol em cima do sofá, dança com o meu corpo e chove todo dia aqui. não há pedra tão sensível quanto a dos seus olhos de cão faminto. qual é o seu nome completo? e tudo isso é pesado demais. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

"Corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso com os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espirito impaciente para romper o molde, incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos que jamais poderiam compreendê-la. E passava a vida a dançar, a namorar e a beijar. Mas, salvo a raras exceções, na hora H sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la."

A mais linda mulher da cidade, Charles Bukowski.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O amor é mesmo um cão dos diabos

possuo no corpo três hematomas pequenos, culpa da minha anemia, e uma cicatriz miúda perto da boca que me transforma numa personagem de Bukowski em 'a mais linda mulher da cidade'. quando eu fui ao hospital costurar alguns pontos, pois a minha pele é tão sensível quanto os discos de Caetano, meu pai estava lá dizendo que ficava nervoso ao me ver triste e eu só queria gritar 'mas eu sou triste o tempo todo, pai, eu não estou chorando por causa de um corte, eu só queria ser engolida daqui antes de que eu enlouqueça aos 20.' mas eu só chorava dizendo que não doía, mas dói sim, a todo instante dói e nossa eu estou muda doendo e me doendo por nada. como vou explicar aos meus pais que eu choro por causa de machucados dentro de mim? há mais de sete anos de azar aqui. 

triste é a falta de amar no Rio de Janeiro às sete e meia da manhã