terça-feira, 25 de junho de 2019

em si mesmo

semelhante a imagem
prescrita no papel
de gesto lapidado
a poesia excitante
infinita enroscada
em si mesma

de fora insistia
na imagem turva
do poeta invisível e duplo
de dentro insistia
na imagem da infância
percorrida através da memória

relevo rebuscado
delicadeza brutal
marcas discretas
mãos de um ourives
a reunir palavras preciosamente

seu perfil irretocável
retrato de uma obra grandiosa
era preciso reviver as vertigens
uma idade de pedra transmutada

semelhante a imagem
de um mito irrevogável
o poeta é grande
e o poema seu contorno

domingo, 23 de junho de 2019

vontade de viver o poema
em marcella, hellen ou laís
ou das poetas desse país
os mares são palavras
líquidas em seus olhos
os choros eu também chorava
e dizia sou poeta
e dizia poesia
é uma grande luxuria
a poesia no mundo
e tão única
que caberia em um
só poema

sexta-feira, 21 de junho de 2019

me chama pelo seu nome

você me chamava pelo nome
quente como uma brasa perdida no vento

em meus dedos eu buscava vestígios
de um tempo em que o Navio era fantasma

seríamos invisíveis se não fossemos a nós
nossos arquivos engolidos pelo fogo

você me chamava pelo nome
quando os olhos leram que se consumia

nós somos heróis de uma memória
arquivada pelas cinzas do esquecimento

vontade de viver o poema
em marcella, hellen ou laís
ou das poetas desse país
os mares são palavras
líquidas em seus olhos
os choros eu também chorava
e dizia sou poeta
e dizia poesia
é uma grande luxuria
a poesia no mundo
e tão única
que caberia em um
só poema

despedida

leio talvez nosso último poema
alguma pergunta soaria de teus olhos
eu ficaria sem palavras
e diria sobre o último poema
tu não diria que é para ti
eu não diria da despedida
sem recitar o poema
vou à fora fumar um cigarro
te chamo com o balanço das pernas
e nós ficaríamos juntos sem palavras
nosso poema em silêncio
e o cenário em cinzas
eu te diria para ir embora
antes de partir primeiro

me encontro com receio
desse rastro abismal
deixado na sutura do rosto
assim se me reviro
e conto as horas
e não te encontro
dizendo de algo sobre você
ou buscando algo em nós
há quem chame de saudade
eu prefiro chamar seu nome

segunda-feira, 17 de junho de 2019

esperava
por você
como quem
espera
uma data
precisa
no calendário
assim de um jeito
euforia
a calma
de quem
suavemente
aguarda
uma boa notícia
depois de uma noite
longa degustação
e deito a cama
em seus braços
como quem
sorri flash
do tempo
anunciando cartazes
lançamento de um amor
ainda não descrito
te espero
com os olhos
rasteira
pronta
para mais beijos
do que os abraços
das notícias trágicas
no centro da estação
te esperava
antes mesmo
de saber
esperar

domingo, 16 de junho de 2019

eu quero a sorte de publicar teus manuscritos

Encontro

As caixas
empilhadas
no canto
do arquivo
O cheiro
café requentado
e biscoito salgado
e papel amarelado
tocavam meu fígado
alguma parte
de nós
se revirava
O que buscávamos?
Nos fazíamos
silêncio absoluto
Nos olhávamos curiosos
de tamanha grandeza
da curiosidade
Os olhos sim
imensurável
encontro
buscávamos
alguma coisa
quando achei te encontrar

Correnteza

Agora tudo era uma espécie de desespero e banho de rio por àguas que cairão por terra. Meu desejo de olhar a paisagem permanece intocável pela inocência de pescar os peixes através de varas imensuráveis. Era tudo uma questão de águas passadas e ânsia prematura.

Risco

Incendiei as assinaturas
risco feroz
pretendo revirar o passado 
com apenas os dedos.
Risquei no papel alheio 
a imagem de um herói esquecido 
pelo próprio ego.
Era a parte invisível 
deixava revelar por puro desejo 
de um romance impossível.
O tempo é a marca justa dos atos.

O Eu e o Duplo

O Eu? E o Duplo?

A memória irredutível 
resistindo ao desgaste 
à tinta e o suor 
atravessando o tempo invisível
por meus dedos?

Eu serei o outro ou a sombra?

Percorro os próprios passos ao Ir a ti.

Recorro ao passado 
amanhã dormimos.

lençóis engelhados envergadura
do sorriso, nós filhos dos Deuses,
predestinados à imortalidade.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Museu de Grandes Novidades

começou com um beijo lambido no rosto, o rosto contraído de riso, o cômico, a gente descendo a rua e o litro, mais uma vez eu te buscava onde? o que então? todas as histórias contariam do nosso gesto à janela, eu te chamando pra abrir o vinho e a calça, chupando teu peito laico. gosto desse beijo, me beija inteira antes de dormir, logo sei que sonharemos com essa noite no instante que a memória se fizer concreta através de nossos corpos documentais. eu te narraria o poema do Cosme Novo, da roupa que você trocou pela gola mais longa, de um beijo amanhã, e quem sabe? quem sabe a gente se esbarre na subida.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

o amor é uma fome indefinida

saibamos que o amor
nos tem feito bocas
a imagem de uma longa espera
e que o amanhã
acorde quente dentro da cama
que os abraços têm se esperado
tão fervidos quanto chá
e as gentes se importando
com o horário da lotação
dentro do beiço
meu parceiro
toca pra frente!
assim dizia quem dizia adeus
é tão bonita essa nossa gente acreditada
e um beijo de bolo caseiro
saibamos que o amor
nos tem feito devorar 

sábado, 8 de junho de 2019

cria

aprendi a rezar
ao clamarem
o pecado
era o que eu não fazia
agachei no arroz
e me tiraram do altar
ainda pequena
por puro receio
do milagre
uma pecadora
sem pecados
aprendi a inverter
os papéis
esvaziados
por ânsia derramava
meus pecados
desfazia os penteados
por me sentir presa
ao mundo inteiro
de pudor e caridade
engolia o amargo
as mãos unidas
espremiam os limões
rezava por crer
o amor de dentro
endereçada
de tão poderosa força
julguei ser bem maior
do que eu do que eu sentia

sombra das interpretações

você me disse para entrar primeiro
embargada e platônica
dizendo da preciosidade
do poema
do mestrado
de mim com cuidado
aproveite a vida é um intercâmbio
a gente brincando de labirinto
com as palavras na mesa da praça
Mandela me mandou sentar
e reunir as aves
você uma flor de cabelo solto
arquivada geometria das luzes
tem jeito como me olha cuidado
o amor é uma Chamma

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ô

você me exige um poema
e eu acho graça disso tudo
não pelo fato de ser engraçado
mas porque você merece um escárnio
ouviu dizer dessas cantigas?
eu vou criar um enredo disso
dessa vontade exibicionista
de ser a verdade do mundo
de ser alegoria
e no carnaval seguinte
terá motivos abre alas
disso eu acho graça
arquivei o poema

Foed

atravessei os arquivos e os arquivos me atravessaram. não sei dizer o que atravessou primeiro mas fazia parte de uma travessia o percurso que traçava. aliás já estivera traçado. por mais que parecesse um risco, decerto porque estive delimitada ao processo criativo da própria arte, daquela arte que ousava chamar de arquivo ou uma envergadura no tempo, ao olhá-lo ele me olhava completamente plácido. era porque olhava feito um corpo contraído dono do tempo e pelo gesto da palavra. a palavra transcorria ilegível palavras que supus palavras, mas no íntimo eu poderia dizer de uma obra imprevisível mesmo que denominada obra. fragmentado. meu ofício era o fragmento, eu fragmento. eu e ele, meu artista. minha arte. meu egoísmo de poesia através do poema.

Língua e Cognição

Venha assistir
Aqui está o sol
Que queima a luz
No pé do portão
Da solidão do Sertão

Vem vamos abrir
A porta do seu coração
De onde vem o sol
Que queima a luz                                 
No pé do portão                                     
Da solidão do Sertão                             

Segura a minha mão
O sol está esquentando
Logo chega o verão
Arrastando a multidão
Que queima a luz                                                                       
No pé do portão
Da solidão do Sertão

Levanta vem comigo
Não tem tristeza nesse tempo não
Aqui está a sorrir
A flor mais quente do Baião
Com a porta do coração
A luz do sol ao calor da mão
No pé do portão
Da solidão do Sertão