quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O nome da Rosa

vejo em meu retrato memória 
o seu rosto debruçado na janela 
eu te encontrei na Lapa 
e você do Sul estava mais a vontade 
do que eu no meio de toda gente 
você me chamou para um bairro da Barra 
e dizia que era uma barra chegar ali 
eu concordava com um sorriso 
toda confusão que a gente soava 
para mim aquilo era um labirinto 
você dentro da literatura carioca 
então eu entrei no apartamento 
e você entrou calada na varanda 
eu não conhecia mais ninguém 
então quis recitar um poema sobre livraria 
e eu vejo o seus olhos sem noite 
eu olho para a Lua e fico sem palavras 
você me diz para voltar 
mas ir a onde se eu vim a ti 
a gente se despediu em Botafogo 
eu até hoje não entendi 
mas acho que você também não 

parece que eu encontrei algo

gostaria de me lembrar de você
até que perdesse a memória
diria parece que perdi algo 
vocês não gostariam de ser 
tão românticos
vocês consideram 
a doença dos loucos 
e fazem versos que até diriam 
que são duros 
que são rudes 
os punhos como as palavras 
ou melhor como a rigidez dos versos 
eu também não gostaria de ser assim 
mas eu não tenho vergonha, disso não
de assumir o romantismo 
de ser assim, disso não 
porque depois que você 
aceita a chaga  
você se culpa mais desculpada 
você exibe o amor como um poema 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

fama e pó

compreendo os poetas que ficaram
dez anos ou mais sem escrever um verso,
a força da palavra entortada na ponta da linguagem inacessada,
a língua umedecida como lenços de limpar lágrimas
e a bunda dos inocentes 
e os dedos paralíticos
a gente vai se tornando exigente,
tento descrever com mais elegância
o gesto de virar a esquina
e comprar o pão da tarde amarelada,
essa cor se tornou rotina desde que
descobri meus olhos cansados,
os olhos vidrados no panorama da cidade
cristalina, os roncos e a neblina das garotas descoladas,
botafogo eu esqueci de retornar
sem parar na cadeira mais quente
o desgaste da memória ressequida, 
parece que eu vivi para contar a ninguém
até a mim mesma visto me calando
eu gentilmente choro por descuido 
e elaboro a próxima desculpa,
o deslize seguinte e as frustrações apaziguadas
os músicos eu compreendo, seus destiladores ácidos,
seus desejos suicidas de fama e pó,
o sucesso em construir o legado overdose,
over, game, brincar com os dedos
como os poetas em tempos de revolução,
dentro deles toda hora
e a torcida fantasmagórica, os romances
breves como os 5min de fama e pico
os poemas duram mais do que uma vida

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

rascunhos
as memórias
elaboradas

as marcas
nos polegares
o indizível

sempre
essa boca
incalada

o rosto
viradovidrado?

degusta
a fumaça

os dias 
horários
e os entregadores

somos
as pessoas
escolhidasencolhidas?

esse lençol
mais
friocalafrio?

eu vejo
mais
perguntas

elaboro
respostas

nunca
serão
satisfeitas

terça-feira, 19 de novembro de 2019

aluguel de ternos

recebi sms (mensagem 
de celular, eu não compreendo
essas siglas cibernéticas)
dizendo oba 
esse mês é do seu aniversário 
vem gastar conosco 
vem ser mais feliz comprando 
se a felicidade está à venda 
eu fecho os olhos e espero 
que o sorriso apareça assim
de graça, eu estou de graça 
e há momentos em que eu 
simplesmente sumo ou desejo 
André me enviou um e-mail 
dizendo que a minha poesia 
era de dar parabéns, 
ele não sabe que esse é 
o mês do meu aniversário
disse que eu buscava me esconder 
mas que a neblina não ofuscava 
o brilho dos poemas sem medo 
se ele soubesse quão medonho 
é esse meu destino poeta
eu me deixo ler como bem queira 
há quem tenha dito que essa hesitação 
só reafirma a sensibilidade 
que eu pareço atravessar o labirinto 
enquanto eu sorrio eu vibro 
assim como se batessem palmas 
diante de um bolo e as velas acesas 
como se fosse o enterro 
em que eu fosse o banquete 

burlesca

não há quem mais me chame 
para tomar um café 
eu me isolei do mundo 
mas o que é o mundo 
o que a solidão 
se não 
quando o assobio 
me acorda 
para dormir mais tarde 

domingo, 17 de novembro de 2019

Pedintes

Li em uma epígrafe o Paulo Britto
dizendo de um colega poeta 
que suas poesias não eram pedantes 
Li os versos de Marcella
ela dizia que os poemas e os 
bibliotecários guardavam os aromas 
E que o som da poesia devia ser  
o timbre que fazia ao se recitar 
Eu acho bonito quando a poesia me toca 
de um jeito devoroso e inventa palavras 
Gosto quando leio os poetas que leem
poetas que leem poemas 
Quando eu recito a poesia parece 
que a poesia me recita 
Eu cedo meu corpo poema à poesia 
a poesia cede sua matéria a mim 

a palo seco

se perguntar 
por onde andei
com entusiasmo 
beirando o desespero 
e talvez 
o despreparo:
estou bem 

por virtude da palavra 
se eu a repetir 
- digo das palavras 
os ventos dirão 
ser primavera tocada 

meu corpo reage
e me sinto dolorosa também 
me dói também 
e quando me colocam à prova 
sem que eu aprove 
quando me olham 
e me reprovam 
quando me deixam insossa 

eu to no meio da night 
as luzes eu só vejo brilho 
as sombras eu só vejo silêncio 
e tocada em meu peito 
uma eletrônica 
não disse adeus sem me mover 

queria ter aprendido 
mais de biologia 
eu ficava escrevendo poemas 
e lia romances 
enquanto me falavam 
dos órgãos vitais 
eu me sentia morna 
e achava que o corpo 
era mais 
do que aqueles lugares 
que encostamos 

é meu bem eu acho 
que o tempo 
nos foi cordial 
e os astros 
as ervas 
e as preces 
e mais um pouco
de tudo que nos foi feito 

entro nas livrarias
eu encosto nos livros 
e me arrepio
é físico 
eu não sei me despedir 
mas eu abro a boca 
em menção honrosa 
eu me encosto nos lugares 
e descubro porque vim 
ou que meu lugar só existe 
quando eu encosto 
e penso em ir embora 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

IV

no tengo palabras sin sentido 

nosotros y las flores 

los azules de las calles 

nuestros corazones y canciones 

la primavera está caliente 

tus invernales ojos 

mi romance


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

dentro da redoma o sufoco dos poemas

confesso que fantasiei 
ilusões, ilusórias, 
iluministas 
quem foram aqueles 
que diziam das luzes? 
acho que o tempo ficou fechado 
é nesse túnel em que se descobre 
entrei no labirinto! 
e se eu transbordo pelo muro, 
rasgo a cerca, 
eu entro em outra hipnose, 
ilustrada, muro de floresta, 
dente brilhando, 
ao sorrir a noite 
onde somente o poema 
faria sentido? 
orgasmo
misto 
descubro, fantasiada, 
ideia de amor ou fascínio 
eu busco motivos 
e olhos 
dizem palavras 
que a boca diria, 
ao contrário, 
nos olhos repentinamente, 
um fogo incendiário 
nas palavras 
a ideia 
a redoma 
eu me escorei 
no poema 
como quem 
só a solidão 
das palavras, 
como quem arde 
diante dos olhos 

à morno, fluído e mansidez

tenho gratidão pelo poema do rio 
que me faz correr pela cidade 
com os olhos e as palmas afobadas 
busco quem me olhe com o carinho 
que percorro as baladas 
mas nessa solidão espero somente
que eu me olhe mais branda 
que eu me queime mais lenta 
assim não exijo companhia 
a não ser o amor próprio 

o homem só e o duplo

esqueçamos os poemas esgarços 
pelo tempo e a elasticidade da palavra 
que estejamos escuros na brevidade 
encenando os arquivos empilheirados 
da luz e do esquecimento estacionado 
esquivamos das asas brisadas 
os poemas são remorços 
que os rios cubram as terras ressequidas 
e que este retorno seja etério 
nem que seja na memória 

domingo, 10 de novembro de 2019

até mais eu digo enquanto estamos por cá

compreendo meu amor a vida
é mesmo um moinho 
mas se olho de cima o mundo 
me parece mais lúcido 
de uma lucidez muito estranha 
que me soa emburrada 
e que me faz embasbacar

são tantas emoções 
e eu prefiro vivê-las sem envolvimento
mesmo que estivesse comprometida 
mas me lembro estar metida 
numa encrenca da pesada 
uma barra nublada 
acho que ninguém brindaria 
menos gole e mais vida
naquele romance

pode ser que me engane eu falo 
pelo rosto da gente na rua 
de uma experiência volúpia 
eu mantive os olhos fechados 
e aguardava imóvel 
quase tive medo de ir embora
o clima fica frio 
e o que a gente disse 
não disse nada

dessa nudez das sensações 
e essa feição descomprometida 
são frações e mistérios 
acordar pra onde iremos 
e nem sei mas eu gosto de vocês 
gosto dessa profana argumentação 
e o jeito de mostrar que estamos bem

gosto muito dessa música 
e os dedos agentes 
parece uma carta 
parece que tudo foi enviado 
mas eu não sei até quando 
disso eu não sei mesmo

mas é que eu fui até onde deu 
depois não deu mais 
eu ainda fui e voltei 
não sei pra quê
ou seja onde 
mas estamos aí 
ou melhor 
ainda estou aqui 

sábado, 2 de novembro de 2019

tinha todas as respostas 
ou parte delas 
mas elas me fugiram 
agora eu só tenho o poema 
e essa vontade de acender a vida 
esse desejo de existência
eu que me apeguei ao mundo 
tenho apenas os poemas 

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

um poema como pó de dinamite, 
pedra de porcelanato, 
ladrilhos raros, lantejoulas de aço, 
punhos malemolentes, 
uma pegada e uma voltinha, 
um poema como eu te rendo, 
gosta como eu me chamo? 
um poema como teu chamado 
em meu nome teu poema chamativo, 
tão forte quanto o próprio 
o poema, o poema, o poema, 
como um mantra, sagrado, 
pela voz de tudo que existisse, 

fora de lugar nenhum

o princípio não fora o começo 
mas decidira que assim seria 
que deveríamos estabelecer 
que deveríamos findar 
eu disse simbora 
assim como quem tranca a porta 
determinada a não voltar 
e nem tão cedo voltaria 
mas que em algum momento 
nem que fosse pelo vidro 
retornaria àquele encontro 
era a certeza das voltas à chave 
era bonito o jeito de ir embora 
e decidira que algum lugar 
seria tão cômodo como voltar 
ou simplesmente ficar 
não sabíamos como chegamos ali 
era por isso que fora melhor dizer 
que tudo isso fora o fim