café e dores

café e dores

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Um vendaval para meu romance

Ele tocou na minha melancolia como se fosse pianista e fez dessa carcaça uma melodia teatral. O vendaval que se aproxima deixa o céu da cor dos cabelos dele, petulantes e lisos que exalam cheiro de sabonete azul e me hipnotizam a ponto de agonizar. Vi seus versos em um caderno de epifanias e me imaginei sendo uma das suas personagens, mulheres de Júpiter que carregam galáxias nas órbitas e jardins holandeses no cabelo. Meus lábios estão ressecados pelo sol da manhã e as flores mortas sangram, o olhar tão perdido quanto um estrangeiro sequestrado procura o dele, poeta virgem de romances. Ele é tão egocêntrico que perdeu a própria face para um espelho de bolso, vendeu a alma por vaidade e interpreta Dorian Gray no quarto de mogno em noites abafadas. Está tocando um rock dos anos cinquenta na vitrola e os livros na estante gritam, mas desaprendi a ler outra coisa que não fossem seus epitáfios com mulheres que não tem meu nome, que nunca gostarão tanto das pintas que desenham uma lua no seu pescoço, ou da forma desajeitada como ele balança o corpo dizendo dançar. O dia não está tão bom assim, não é domingo mas também não é sexta, quero escrevê-lo mas não sou poetisa, preciso visitá-lo mas não sei onde ele mora além da morada que existe dentro de mim. Não tenho nada, só um livro comido por traças na mochila de pano, nem posso levá-lo daqui porque o barco afundou junto a alguns devaneios tímidos, tive que aprender a nadar. Ele encarnou um clássico e na literatura eu repeti de ano, o vendaval chegou e vai levar consigo meu romancista enquanto escrevo essas palavras amadoras. Preciso ir a outra livraria pois os meus discos já pararam de tocar e a melancolia voltou em uma onda crespa.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Ônibus laranja

Meus pulmões estão enfastiados de nuvens e o céu perfeitamente limpo, a marca de cigarro mais barata já satisfaz. Hoje a lua está cheia, estou igual a ela, mudarei de fase e quem sabe esvazio ou fico incompleta. Não toco mais os mesmos discos empilhados, pego outra linha de ônibus e larguei a dieta milagrosa por uns quilos que deformam ligeiramente as curvas longas do corpo. As roupas de lycra já não me servem, não caibo mais na rotina suficiente para fazer uma mulher feliz, fumo outro cigarro para aproximar a morte. Aproximo-a junto a alguns temores de infância que me acompanharam, tem um homem escondido no armário que não quer sair pois tem medo dos meus pesadelos, a boneca de algodão ganha vida mas não quer ser a minha companheira de chá pois eles estão sempre muito amargos. Sinto saudade de sair correndo enquanto quase perdia o ônibus laranja, ele era quente e mesquinho, nas costas as cadeiras guardavam frases que me arrancavam sorrisos ágeis, aqueles corações mal calculados tinham a sorte de estarem intactos pelo fato de não serem reais. Eu tenho um coração real e ele queria estar pintado naquele ônibus que eu não pego mais pois eu mudei a direção, abandonei aquela rua aquecida de folhas secas e não preciso mais correr. Estou obesa de nostalgias e a cada dia ensolarado que passa me despeço de uma parte do que fui. Queria voltar a ser aquela criança dos lábios falantes, frouxa e com os pulmões virgens porque crescer só aumentou minha fobia.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Colorir minha pele em tons do seu sorriso

O vento que uiva rebelde
geme o seu nome
pelas frestas da janela de ladrilhos
para buscar suas
digitais

Entra e arrepia os pelos finos
que nasceram tênues
da perna depilada
e acalanta minha alma
que tem cheiro
de café

As pupilas de esmeralda
reagem tímidas ao sol,
os cílios dançam balé
numa bossa nova
que está velha como seu pijama

Rezo para nosso amor durar
outras primaveras,
que você cure nossa ferida
com essa saliva
de analgésico

Enquanto estica os lábios num sorriso
amanhecido e prematuro,
colore minha vida
antes de a-cor-dar

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma cartinha insana sobre sal e tempestade

Escrevo essa carta sem nenhuma tristeza, guarde-a pois será a última. Saio dessa estória com moedas de amargura nos bolsos da alma, uma maré de azar na conta do meu destino, um dissabor na ponta da língua que tem gosto de mágoa. Espero com toda a violência que você me esqueça tão rápido quanto esquece de acordar quando tem compromissos de manhã, que ao abrir esses olhos carnavalescos seu cérebro de ostra lembre de colocar alimento para o cachorro pois eu não vou mais estar lá preparando para os três aquela comida ensossa. Eu acho que Poseidon me entende, com aqueles olhos enormes envoltos por anéis de pelo escuro ele te segue pelos cantos azuis da casa e finge ser irracional para encobrir teus segredos, com medo de decepcionar o dono ele não late, não corre ou morde as pernas dos móveis cheios de cupins, apenas aspira deitado o carinho que nunca chega. Ele espera a tempestade chegar para ter um motivo de correr até sua cama durante a madrugada e se contenta com uma migalha de calor do homem que ama. Eu que fazia a tempestade, mas era como seu cachorro, com medo de correr para fora dessa casa cheia de mofo enquanto você ia jogar o lixo fora. Ou será que eu era o lixo? Certamente fui ambos, até decidir comprar um vestido que sufoca meus soluços, com um decote escancarado para meus seios demonstrarem a força que tiro desse peito de azedume e a visitação estará aberta para homens que não tenham a mesma inicial que seu nome. Homens que usarem outro perfume, que tiverem um sotaque menos viado e as calças mais largas. Você vai tentar apagar meu número da memória mas vai me ligar depois de ter trepado em pé com a vizinha e eu vou ter jogado o celular na parede, em uma parede branca e não azul-fracasso como a sua. Você deve estar rindo das palavras sujas que estão aqui escritas, procurando o número daquela vizinha enquanto molha a carta de vodka e eu estarei distante desse seu mundo chulo e obsoleto. Não me procure nos lugares que frequento, mudei de cidade, fui morar no coração de outro, lá ele fala minha língua e colocará sal na minha vida.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Poesia de um não apaixonado

Rabisco gaivotas no seu umbigo
que de tão raso faz
um voo miserável onde não
me leva para ver as estrelas

Encontro-as perdidas no gosto
da sua boca de maçã
que se abre para recitar
sonetos envenenados de adeus

Meu amor é mais tolo
que poesia escrita por
quem nunca amou,
você

Fujo desesperado dessa gangorra
fictícia que entro quando estou
entupido de ti até
nas veias que não se ligam
ao coração

Esse amor é mais absurdo
que um conto de Kafka
Shakespeare não
amou mais do que eu

Trague esse cigarro
que te mata incendiada,
só não esqueça de me trazer
também para apagar
seu fogo

Verá que meus leigos versos
pintados na parede crua são seus
mas seu amor é míope e eu não
vou esperar que compre o
óculos da estação