café e dores

café e dores

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Recito poesia de graça

Estou quase lúcida
E nua
Mas isso não importa
Esses traços
São arquivos autobiográficos
A lupa que tira o embaraço dos olhos
É de armação exagerada
Enquanto nasce uma espinha interna no nariz
Descubro a cicatriz na rua
Nessa curva
Que os dedos percorrem
À velocidade baixa
Uma manchete de jornal
Sua dor embrulhada
Esfregando a ferida
Um litro de cerveja gelada e
O dinheiro da passagem
Até seu coração

domingo, 27 de setembro de 2015

Tatuagem

você dizia que morrer de amor é mais bonito
enquanto a cerveja nos levava pro banheiro
com a mesma frequência
que eu via seus olhos adocicados atropelarem
as palavras que suavam em minha boca 
sua cor é de um mel antiquíssimo 
a Primavera nos faz tirar as roupas com mais facilidade

tocava um jazz nos fundos daquele bar de número ímpar 
você dançava os dedos sob meus braços
e cada vestígio de sorriso 
eu anotava 
a sua música me faz gingar as pernas
como se tremesse de espanto

eu recitava paranoias
engolia sem engasgar 
o recado escrito na mesa do bar 
o pólen sugado de meus traços 
a Primavera que acorda os pássaros em seu peito tatuado 

domingo, 20 de setembro de 2015

Nua

Lá estava eu, de braços cruzados, segurando firme o coração que por um triz batia à sua porta; de botas cansadas e lendo o welcome to hell no tapete trivial e ainda úmido da chuva na sua entrada. A tempestade fazia folia, a mochila havia engolido o isqueiro laranja e recordo com remorso do cigarro que pedia fogo encolhido entre os dedos que trepidavam em ritmo submisso. Há recordações ainda da miserável nicotina querendo me ajudar a morrer de forma mais lírica do que em frente a uma porta encardida e quiçá mais rígida do que o seu pau em minha boca que pechincha um bocado de absolvição. Seu pau em minha mão. Seu pau tão em mim e essa porta maciça fodendo a minha entrada. Welcome to hell você diria mesmo sabendo que sou monolíngue e do meu espírito pagão. Seu pau em minha mão. Você me ofereceria o sofá-cama e o dilúvio que mataria a minha sede não se encontra em copo d'água. Nós saberíamos. O meu coração preso entre os braços era quem mais sabia, mas sabe-se lá se a água em festa na rua não serviria pra lavar minhas mãos.
Lá estava eu, nua, na rua, aguardando absolvição.

sábado, 12 de setembro de 2015

meio acerto

eu esperei a chuva anunciada às 19h
pra tocar a nossa música na rua toda molhada
e te ver entre as bainhas das calças encharcadas
sorrindo com os olhos meio fechados meio me olhando
meio falando que o caos é tão bonito
assim de perto
mesmo que grudado à minha boca

tocamos o céu
eu ainda esperava a gota d'água
o vômito do bueiro e os ratos enfileirados
as cores embaralhadas dos guardas-chuva
o barulho da rua gritando a nossa música
empilhava as bitucas no cinzeiro
meu cabelo ainda transando em seu travesseiro
e os seus olhos
assim meio exatos meio claros
tocam o tumulto que há em mim

sábado, 5 de setembro de 2015

Isso seria uma carta se o endereço do destinatário existisse

I
se é que posso ser sincero 
eu não te quero em minha cama quando o sol anunciar 
que somos um erro à luz do dia
não quero viver em seus poemas que só falam 
sobre um amor incompatível com o meu tipo sanguíneo
se é que posso te dizer a verdade:
somos uma mentira

até os seus olhos não existem quando fecho os meus 
nos segundos que te perco em um infinito passional 
composto por cílios, pele e distância entre dois corpos

II
se é que posso ser sincera de verdade
eu e você não existe
nem há realidade no instante em que te escrevo
pois apenas possuindo olhos imaginários
não é possível notar
que enclausuro versos em lacunas sutis do seu olhar 
enquanto o meu cadáver inquieto aguarda a eternidade

leio a sentença de morte em seus lábios escorregadios 
declamando o lirismo inexistente nas ruas da cidade 
só com o intuito de afogar cinzas e um pouco de rima no lençol azul piscina

a verdade é que a gente não existe
mas há livros que falam sobre o romance escrito 
em nossas trocas de olhares
os seus olhos
são o próprio infinito
mas eles não possuem vida
fora dessa poesia

III
você é vazio
quando não está em mim