sábado, 31 de agosto de 2019

cuidado

isso não é um poema de amor,
mas falaria bonito,
e beijaria tuas cicatrizes,
iria ao sol da manhã à tarde,
e aplaudiria o sol e tu
e nós por mais uma noite
que chega mas não basta,
devagar a gente recita um poema
que não diríamos ser um poema
sobre o amor em nós,
beijaria esse amor descoberto
por quem ama,
e eu nem sei se te amo
ontem ou hoje,
mas beijaria tuas cicatrizes,
e isso eu chamo de cuidado

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

longamente

costumávamos nos alongar
as roupas saíam do varal, do armário e o corpo,
mais precisamente estávamos nus de corpo e alma
eu recitava poemas
assim como a natureza venta
e naturalmente me lembro de ir à sacada
me despedir com um beijo
esquentar a sopa e tentar dormir,
nessa hora eu contaria sobre
o sonho que tive
mas escrevo um poema
e me alongo em cima da cama

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

aquela barra que é gostar de você

lá estava eu nua na sua
pegando o bus da madruga
voce me levando pra outro bar
o seu copo cheio
a boca da garrafa entre os dedos
quantas bocas!
minha boca aguardente
e vazia de palavras
tô fodida eu dizia
mas é que o vômito saía
você não entendia
e até agora não entende
e nem eu quero que entenda
é que "gostar" é tipo enfrentar a barra
de patinete da rappi
e olha que eu gosto de patinetes

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

sonhos

desligue tudo a sua volta, deite, tente esquecer o mundo, até de você mesmo, e assim tente esquecer qualquer dor. nesse instante você sentirá um vazio absoluto. nesse estado absurdo você pode lembrar de um sonho, ou imaginá-lo, se chegar a um pesadelo, lembre-se de que você está acordado. você pode dormir e apagar. você pode escrever um poema. você pode sorrir. você pode vagar. você existe e isso é um sonho onde vivemos acordados.

o mundo acordar

nesse mundo onde colhemos jabuticabas durante a partida, ousariam os ventos apartar o tempo destilado em teu sorriso balançando entre as àrvores,
teu desejo de jogar pipa e comer feijão amassado, teus dentes carnívoros e tuas palavras feito brindequedos,
teu sorriso repousa no leito dos teus beiços acordados pro mundo,
teu gesto corroído de segredos são fáceis perto da poesia, percorro a memória exaltada pela tua fala corriqueira,
esquento um novo café pela manhã e te assisto acordar junto ao mundo, as falas se esquecem e ouço o apitar do tempo ressaltado no bafo de um longo sono, assisto o dia fazendo hora e os sonhos atentos à realidade de assistir teu ronco mais uma vez

terça-feira, 20 de agosto de 2019

eu só queria dormir

as vezes me autosaboto, suspiro, paro para ver os riscados, e subo os degraus, o número quatro é tão equilibrado, e eu nem sei o que queria dizer, mas é que sabe aquele sentimento de poesia? me disseram que eu estava mecânica, e que meus gestos eram estranhos, que eu sorria demais, e que eu chorava muito, as vezes eu me alucino, e pisco os olhos, sorrio, e pretendo deitar, olho para os lados e o mundo me parece pequeno

fim

estive pensando em fazer poesia
me disseram sobre as narrativas
eu as narrava em tom de poesia
e cantava nas horas vagas
e nas horas loucas as vezes calava
as vezes sorria
assim como sempre fazia
o gesto de sorrir soavam os poemas
que soltos no mundo
percorriam a boca
o gesto de mundo é sorrir
assim como corre aquele riacho
que a fez erguer os olhos
e sacudir o mundo
estive pensando em muitas coisas além
e eu encaro o poema

alerta

estão queimando tudo
nossos arquivos
nossos filhos, irmãos
os corpos,
estão queimando a última mata,
o primeiro museu,
a canção mais tocada
estão queimando de olhos fechados,
atados de tochas
e dedos apontados
estão tentando queimar
nosso passado,
presente
e querem queimar o futuro
estão queimando quase tudo

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

livreira

me disse que era lindo o modo como movia minha vida, e eu fui concordando, fui logo dizendo que era meu jeito de funcionar, dali ela perguntou se eu namorava, eu disse que não, e aqueles garotos? ela me perguntou, depois contou a quem assistia da história do cigarro, disse pra mim no canto que só depois de unzinho, fez um gesto disfarçado e eu sorria enquanto assinava o livro dizendo que a amava, disse que eu trouxesse os livros, que mandasse e-mail para a editora, que organizasse as prateleiras, eu continuei sorrindo e disse que enviaria, ela foi sumiu e depois foi embora, depois dos olhos cruzados mais sorrisos, ela sai e eu sorrio mais.

sábado, 10 de agosto de 2019

Romance

tenho alucinação pelos romances
parece que eu vivi todos
e ainda pronta para todos
disponível a todos
me sinto o próprio romantismo
e tudo que eu havia lido
eram ensaios do meu próprio livro

a tosse o amor e o disfarce


tantos poemas eu fiz
e ainda hei
permaneço solidão das palavras
e são tantos poemas

lá está outro poema

deito curada
os olhos continuam ver poemas
e faço mais
durmo menos

antes as horas me diziam as idades
agora o tempo da pedra
enrijece meus tornozelos

a tosse não posso mais disfarçar
ainda que pudesse
o amor nunca disse
que poderia ser simples

mas fazer poesia
assim como o amor
não poderia ser disfarçado

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

despedidas

o acordo era acordarmos o dia
e cada estrela daquela noite
piscaria viva dentro daqueles olhos
sabia que teria de ir
mas quando me dei conta
era tarde demais para ficar
e tive de ir mesmo assim
muito cedo
as vezes a gente pede para sofrer
de um jeito determinado
visto que sofrer já iríamos
as vezes a conversa se estende
e o café acaba de novo
fechamos as janelas
abrimos o apetite
vão se embora as ilusões 
entra o barulho da máquina
é apenas mais uma cama quebrada
sozinha no canto do quarto
enquanto a gente se enrola
assistindo ao filme do sonho
percebo teu sono
percorro teu rosto
melo tuas roupas
escuto tua banda
e me despeço sem rancor

domingo, 4 de agosto de 2019

desaparecido

era agora o momento
que eu mais temia
e mais rápido
do que pudera prever

eu te escrevo como quem se despede

é esse o meu modo
de tirar você da cabeça
e colocar no verso

assim eu me interesso

pelo poema
que te dizia adeus
com a delicadeza
de um fantasma

eu gostaria de propor um brinde
passei o café e esquentei a massa
tudo aqui dentro é universo
e eu refaço o currículo
especifico que te quero pela manhã
e dentro dos livros
eu compro absorventes
e remédio para dor
me preparo para o sangue
e para existir
nem sempre é preciso fazer sentido
mas a gente nunca deixa de sentir

o inverno ainda dura

declarou o amor no sopro
daqueles bons de botar pra fora
de boca em boca 
até chegar à minha
um hit do inverno
que durou menos do que o inverno

algum refrão buscava ritmo
ou a batida soava despercebida
pegou as mãos e disse adeus
sem levantar um dedo
creio que orava para não
ser mais solitário do que seríamos
se já não fossemos dormir mais cedo

esquecer o dia é mais simples
do que um amor imaginado
nosso amor soara
tão nítido quanto estrelas
em dias nublados

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

é rápido como amor escapa de nossos rostos

é rápido como o amor escapa
de nossos rostos
o jeito como você diz que prefere
se afastar
como quem diz que ganhou
na loteria
ou se prepara pra morte
eu fico sem saber o que dizer
porque eu acho que nós
encaixamos as bocas
sem precisão das despedidas
você diz que não sabe se me quer
de que modo e quando
e eu queria ter certeza
de que posso segurar sua mão
enquanto você vai ao trabalho
e eu volto a dormir
de que esse sonho de acordar
a sua sombra alardeada pelos
seus lençóis
não irá se esvair dos nossos corpos
quando acordarmos