café e dores

café e dores

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

gato pintado

o gato vira a mesa
desfaz o penteado
elegante,
pisoteia meus pulmões
quebra os vidros
o sofá não é o mesmo
parece que saiu de um furacão
a casa sem mistérios
é do gato intrometido
surgem ferimentos no braço
nas mãos
toda confusão
tão bonito
um miado confundido
com rugido de leão

domingo, 21 de fevereiro de 2016

uma garrafa navegando perdida dentro de mim

retornei aos vícios e quase muda
prescrevo minha sentença
calor do sol no rosto sem proteção
cada paixão em câmera lenta
mas há um espaço que não se ocupa
dentro do peito no meio da rua
tocando a rima com a leveza dos dedos
e compondo uma oração
pois é preciso crer em alguma coisa
seja em alegoria
ou na arte na beleza
pra convocar a salvação
é necessário muita poesia
sol no rosto sem proteção
e os vícios
vícios

absolvição

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

insolação

desbotando deitada à cama
revivo o sol em seus olhos
bem perdido
como se fosse um ponteiro
de um relógio atrasado
e todos os pesadelos regressam
mesmo que o sono não entre
por intermédio das pálpebras
no meio de nós unidos entrelinhas

o pequeno calor acaricia meu peito nu
mas o verão me esgota tanto
a ponto de gingar os joelhos
em plena praça pública
só de serventia pro pleonasmo vicioso

essa estrela de fogo
digita sob minha pele ociosa
cada confissão enfurnada
dentro
de um corpo maleável
e todos os pesadelos são prelúdios
mesmo que a noite durma
sob nossas carcaças
não havendo antídoto pra vigília
da lua enquadrada acima da cidade

incolor e despida
revelo traumatismos
através da linguagem
tão sucinta que outro não notaria
esse escarçel implícito
tão acolhido
pelo sol entardecido
dentro do seu globo ocular

um planeta inteiro encolhido
e um sorriso refletido
meu busto umidamente descalço
exausto de não repousar
mas o sonho intacto
enrolado em nosso suor
estagna o tempo em fuga
e a madrugada que não tarda

todo verão contido em sóis

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

o carnaval em pleno peito

parada
no trânsito
na gávea
esse pensamento suado
meu peito é o verão
em pleno carnaval
você me fala de amor
dos blocos
e serpentinas no cabelo

essa rima impura
álcool descendo pelas ruas
caçando um pé descalço
todo caos entrelaçado na multidão
enquanto você me fala de amor
como se todo mundo ouvisse
e fosse ficar calado
por causa dessa inauguração

no trânsito
na gávea
essa conversa afiada
todas as pontes engarrafadas
que me conduzem à sua calmaria
você me falaria
dos confetes arremeçados
das vezes que passei do ponto
e não me assustaria
o pensamento estagnado
o bloco anunciando
essa última
parada

o amor estacionou

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

cotidiano

o céu empoeirado
e o tempo exigindo nomes
endereços
acordos
não selam lábios
mas acordar é silencioso

ruas estreitas
esquivos olhares equívocos
é só mais um pássaro
no asfalto
esfolado no peito
pedindo perdão

buzinas
e faróis
seios macios
pele ardendo no sol
e um pouco de amor
nas bochechas

um tanto de rancor
no barulho do motor
e um coração mecânico
acionado em horário de pico

transitando
as palavras apontam
como se fosse um semáforo
uma faixa de pedestres
indicando o caminho
sem tráfego
o trânsito
só de nuvens

e histeria

tem dias que a gente morre calado