café e dores

café e dores

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

E a Sanidade pede licença poética

Transava com a poesia todo dia
até parir rimas tímidas,
e às vezes saía amor aos pedaços e tinta
trancava no peito almofadado algumas tristezas,
costurava e bordava os medos na parede do quarto pálido
Às vezes inventava amores urbanos, no ônibus
no Jardim Botânico ou sentada no banco de praças pichadas
e se frustava por ter uma vida de crônicas surradas
e só dançava sem música
porque inventava os próprios passos
por isso ia por caminhos equivocados
até perceber que não há retorno
era uma colecionadora de transtornos,
olheiras, livros e cartas

Às vezes ela dormia temendo acordar
Às vezes ela teme continuar vivendo,
e rouca, quase totalmente louca
diz aos outros ser poetisa
só para tornar bonita
essa mania de
transformar
tudo em
poesia

domingo, 26 de outubro de 2014

Misticismo XIX

O bar do Pires está mais caro do que a birosca da esquina, o preço para esquecer amores corrompidos subiu desde que a corrupção tomou conta dessa baderna politicamente incorreta. O guri do sorriso malandro me ligou quatro vezes desde que sumi dentro dessa cratera aflorada em mim, o toque me faz valsar sobre a vontade de me dar, mas logo lembro que me sobrou tão pouco.

Então recolho cada vestígio do que me pertence e tento perambular pelas ruas sem demonstrar o choro porque sou um livro não lido, uma bíblia satânica, a lágrima escorrendo através de olhos dramáticos. A melancolia está costurada em minha blusa de malha, e talvez também na expressão exausta da face.
O bar não vende bebida alcoólica às menores dores.
O banheiro do botequim está mais limpo do que o meu passado, acho que os amores me fizeram suja e bruta e se sou bruxa é culpa do coração sangue-suga que sugou as minhas chances de ser uma mulher devota a algum Deus que silencie os pecados. Esse mal que me acompanha me faz entrar em bares e me faz beber poções mágicas capazes de esquecer você, doce pretérito imperfeito.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Bicho de vinte cabeças

Eu nunca grito quando o bicho estranho aparece em meu quarto
mas agora sinto cheiro de tristeza
se aboletando em cima da cama barulhenta
e me empurrando
só para me ver chorar,
mas eu não choro desde o inverno quando descobri
que as minhas mãos sempre estão muito frias
e que já não pego o mesmo ônibus que o carteiro
Mosquitos me deixaram marcas e as marcas
do meu coração agora coçam
a dieta planejada não funciona depois da larica sentimental
eu tenho fome de amores exagerados
mas tenho medo de amar
mais do que do bicho que agora me observa
Estou com sintomas agudos de amigdalite e melancolia
então vou vomitando assim
essas palavras
inflamadas
O horário de verão furtou uma hora do sono que só aparece pela manhã,
jovens precisam de um rumo e não de números,
supérfluos números e suas incógnitas mais complexas do que eu...
Preciso voltar para casa mais cedo do que pretendia
Preciso chorar agora porque minhas mãos estão novamente frias
Meu quarto está fedendo a morte, a vinte anos que não vivo,
acho que regularmente tenho alimentado o bicho.

domingo, 19 de outubro de 2014

segunda

Você escolheu
os meus olhos nus
para pairar seu foco
e descansou na tristeza
que eu não pude esconder por muito tempo.
Escolhi o banco 
verde cor esperança 
falecida em tantas praças 
de nossa cidade carioca.
Perguntou meu signo e
descobrimos ascendências tênues,
talvez
creia que nosso romance se perpetue
por culpa dos astros.
Você permite que eu te toque
mesmo sem música tocar?
Nesses cachos cor de árvore noviça
eu pretendo me embolar
em cada nó
sol
não me deixe
Só.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Psicanálise

Irene sorri, Irene sofre, lambe suas lascas, deixa marcas. Irene come os próprios filhos, as tripas, a alma. Irene sobrevive, chove, acalma. Calma, Irene.
Irene não descansa porque precisa suprir o desejo de viver. Irene não vive.
Morre, mata.  Um, dois... Francisco é três. Cadê o coração de Irene? Ela se pergunta enquanto se machuca. Suicida.
Suga prazer da boca de alguém que nunca saberá o nome, esquece o próprio.
Quem eu sou? Se descobre na cama. Nada. Se afoga, Irene?

Acho que você precisa de um psicanalista...

Quebra-cabeças

Falta só um pedacinho para a Lua ficar cheia e eu uivar esse romance nunca acontecido entre nós três. O mar já não passa por meus pés estranhos, é tudo culpa dessa ressaca eterna de porres forçados e engolidos pela ânsia de fugir de mim. E eu fujo de ti porque não quero corrompê-lo com a minha descrença. Eu vou sugar teu sangue às onze, e vou te escrever na eternidade de um pálido papel barato.

Só te prometo isso: Sugá-lo com meus lábios antropólogos,
famintos por essa sua febre de almejar-me.
Você se encolhe, e pede para ser usurpado com esses olhos quebradiços. Eu vou me afastando impávida de sua abstinência porque não posso te quebrar, você não é essa onda que agora veio molhar-me até os joelhos, eu sou a rocha.  Você não suportaria manobrar um corpo suicida e eu não sei te levar à estrada torta porque me apaixonei pela sua carência, não me siga até o precipício, não me ame em noites de Lua Nova...

É só se jogar de cabeça que eu garanto, você afoga

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Se está cansada de amar eu te ofereço o meu coração

Falou-me dos caras, dos malditos caras com grana, dos artistas, pintores e poetas. Não ouvi pois me imaginei acordando mais cedo só para não perder a chance de te ver tomar um café melado sem esse rímel borrado, assisti-la a me perguntar qual roupa realça o tom de pele, reclamar do calor do dia, do trânsito e de dor nas costas. Imaginei você fumando deitada em cima do meu peito contando sobre seus amores fracassados, dos problemas emocionais e rindo da minha solidão. Não parava de falar do amor de um jeito tão rude que me feri porque eu te amei ali mais do que todos os caras que já te provaram, amei um amor intocável e ainda puro.
Disse que era poetisa e que venderia mais do que mil livros para poder comprar uma cobertura em frente ao Cristo Redentor só para não chorar sozinha. Por Deus! Eu desaguaria pelos olhos todo o rio Nilo, o Mar Morto ou a Baía de Guanabara só pra te acompanhar por algumas noites, por todo outono... Reclamou do cansaço, das traições, esquecimentos, disse que desistiria e não passaria daquela noite.
Seus versos devem ser tristes...
Seus olhos já não aguentam mais, dê um tempo a seu coração, Poetisa.
Os amantes te esqueceram mas saiba que te amo todos os dias no mesmo horário e espero urgentemente me esbarrar com seu corpo miúdo de novo só para dizer que você pode repousar em mim.

domingo, 12 de outubro de 2014

Em frente aos correios, cep 22261-005

Sua obsessão secreta.

eu
contabilizei
seus
passos
(logo eu que sou de letras e repeti em exatas)
guardei o cheiro do suor que escorria por sua face anêmica,
esse suor cansado morreu na gola de malha do uniforme amarelo
e evaporou tão rápido que fui capaz de notar a temperatura acima dos quarenta

essa bermuda te deixa com cara de vinte
mas a barba ligeiramente avermelhada te deixa na faixa dos trinta
esses olhos cadavéricos me penetram com indiferença
me olham com descrença

há cinco pintas espalhadas pelo seu pescoço
imitando um céu pálido com constelações raras e salgadas
como deve ser bom o sabor de seu beijo mentiroso...
e esse barulho que você reproduz com as mãos ao roçar a alça da bolsa
essas cartas que você resguarda nas mãos aveludadas são todas minhas
são poesias e desabafos e ameaças
seu sorriso é tímido
seus cílios são alongados
e as veias brilham no sol nômade sob seus braços
vou colocar seu sobrenome
junto ao meu
numa lápide
não se assuste, carteiro
eu morro de amor e descaso

Caos

coloquei a música mais triste do repertório só para ver se esse tédio passava, troquei a roupa do corpo para uma coisa mais leve pois estou me sentindo pesada a ponto de não querer erguer a xícara de café à boca para me esquentar desse frio íntimo. arrumei algumas dores passadas, coloquei pontos finais onde a reta seguia, soquei a porta da cozinha,
hoje
a noite
está
tão
vazia

a melancolia espalhada ao chão do corredor me recorda que penar virou rotina, a tristeza está em cada quadro dessa estante empoeirada pelos cantos da varanda.
o canto da vitrola pausou.
hoje eu não consegui dormir porque aqui está tão bagunçado...
e não me refiro à casa...

sábado, 11 de outubro de 2014

VXX - Dívida

A chuva devia ter caído antes das lágrimas
ambas se embolariam teatralmente e vejo só quem mente a própria dor...
O preço do cigarro aumentou, morrer custa caro
Você realmente faz falta no banco mais iluminado do bosque
e essas folhas ressaltam esse aroma de descaso
Veja só o meu fracasso a assinar papéis e sentenças não lidas
As provas do mês acabaram
Eu não estudei

Você devia ter comprado uma bota nova
e, quem sabe, limpado a boca do resto de torta
maldita torta que te faz ficar ainda mais doce...

Minhas palavras não mereciam estar tão ressecadas
as folhas esqueceram de cair das árvores
as coisas deviam ser mais fáceis
você deveria ser meu
e me deve...

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Anúncio do fim de meu mundo

Apesar de você me assegurar de que o mundo não acabaria em dezembro 2012, eu sabia que esse era um dos meus menores medos. Não me importaria de ver o mundo inteiro em cinzas, o vapor maldito se aproximando, prédios desmoronando e os Maias praguejando os humanos desacreditados se eu estivesse contigo em uma cama pequena de hotel depois de ter transado a semana inteira só com pausas para o café expresso e alguns cigarros light. Amado, estou de dieta porque o peso de carregar a vida me cansou, desgostei dos doces, só a tua boca com cheiro de uísque nacional me faz pecar na gula.

Enquanto você ria das minhas superstições, lia calmamente o jornal do dia anterior, passava os olhos afim de engolir notícias que acrescentassem na inteligência que o deixa mais galante, esbelto, feiticeiro. Eu, temerosa, só volto para a cama depois de pisar três vezes no chão com tapete, mas você me furta antes de fazer o ritual e transa com minha sorte.
Hoje eu quebrei um espelho enquanto pensava em você saindo da porta encharcado de um perfume que atrai mulheres mais seguras do que eu, e se acha que tenho medo de sete anos de azar é porque não lê nos meus olhos cheios de notícias inéditas que o meu maior temor é perder você.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Lua de sangue

A Lua está sangrando antes da meia-noite. A Lua decidiu me inspirar e parece que sangra pelos pulsos apavorada. Devorei todas as migalhas do meu coração e usurpei planos que nunca serão meus só para achar algum conforto em terra impura. O chão está seco, faltam meses para o carnaval começar e eu não vou concluir a minha teoria de literatura. Maldita festa da carne.
O batom avermelhado passou do prazo de validade, as pupilas se dilatam quando enxergo a mitologia  em cada ser pagão dessa cidade de prédios modernistas e me pergunto porque ainda não fugi para debaixo da ponte,
ou pra
cima
do
muro
onde poderia virar pichação ácida assinada por algum marginal que dorme
sem teto.

Mar-ginal: indivíduo que tem o privilégio de afogar-se
na imensidão do céu antes de dormir.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Trago seu amor em três dias

Sua face de linhas exóticas me apavora
temo querer navegar em suas formas tímidas de me conquistar
temo ansiar desvendar seus sorrisos despretensiosos
mas sua sanidade não compactua com a minha loucura
nessa cidade de postes com cabos emaranhados eu me sinto só
então reflito sobre a longitude dos hospícios
a frequência dos homicídios
e nos assassinatos passionais que estampam o jornal florido de sangue

Eu li sua mão suada mesmo tendo tantos livros à mão
a minha descendência cigana não engana meu gosto por astrologia
ou destinos predestinados a apenas um amor
você sabe das minhas esquisitices e me julga vulgar
mas se destrói quando quase despe meu corpo com o olhar

Você sabe que eu não posso te amar mais do que três dias
e eu não trago nada de volta
só esse cigarro embalado por meus lábios
é tragado
até morrer queimado

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Eu assisti a mil filmes de terror sozinha

Hoje ainda é quarta-feira e eu ainda não amei ninguém
Não li os textos da graduação e nem os oitenta livros dos quais eu pretendia antes do início desse verão que me queima a vontade de sair com uma saia curtíssima
Quase chorei ao lembrar de minha tristeza, mas eu esqueci de chorar quando lembrei de escrever e de levar o lixo pra fora e fechar a porta e as feridas
Eu tenho deixado a vida passar...
Tenho renunciado
Desistido
Sumido
Onde enfiei a porra do sonho de me tornar poetiza?
Malditos escritos que me pluralizam e me definham nessa cama dura
Preciso comprar uma mochila
Ver o amor atravessar a esquina e me acenar

Preciso pegar meu exame de sangue - a quase um mês - e tomar o remédio que controla a menstruação que me faz sangrar por quatro dias. Meus braços cicatrizaram muito rápido. Acho que desaprendi a fazer a raiz quadrada e de como era feliz quando a família estava superficialmente unida. Acho que preciso ligar para as minhas irmãs só para alertá-las do meu amor silencioso, quente, choroso, mas finjo que esqueci o número delas... Talvez sejam elas que se esqueceram de mim.
Eu bebo vinho tinto, comecei a roer as unhas aos dezessete e a velha miopia só tende a aumentar até eu ficar cega e impossibilitada de ver o amor passar

Eu só não esqueço que está dolorosamente difícil continuar a viver...