quarta-feira, 25 de outubro de 2017

miudezas

não por ti, a quem amei demasiado,
não por mim que resta no mundo
feito pólvora destilada no cano da faca.
quando velejo na infância do sorriso perdido
entre a cidade grande e as miudezas,
sinto a força da gravidade instantânea
de lágrima diamante e histórias pasmadas
o muro desfalecido,
o pulso arrebentado,
é por vagar que a estação parou.
nada é tão supremo feito o mar
entrando na borda da boca suprimida
os pés crescidos no deck prestes a saltar.
sigo a contar baixo os dramas,
impossível não rogar
pela paz desordeira entrando no rosto.
não é por nós que recordo as placas,
a cidade é gigantesca,
os discos atrasados e o novo
discutido no plenário, deixado pra depois.
é por acreditar que amanhã
as ovelhas abrem os olhos no pasto
mesmo de medo,
as crianças correm liberdade,
para onde?
não é por eternizar teu suspiro
na praça Mandela,
o rosto antiga verdade revelada
na boca estagnada
arraiá dos males entendidos.
não por ti, que amo desmedida,
é puro reflexo da vida estendida.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Corte a próxima cena

Cortei as lágrimas
uma por uma
como se fossem pétalas os cílios,
cortei a pele
e descobri um sangue aguado,
sem cor.

Cortei as esperanças aliadas aos pulsos
Cortei o fio que atava a sanidade
Segue a inspiração em meio à lama vermelha.

Passei batom dor que o sangue desconhecido já não tinha,
Fui mulher por mais um dia
Não me reconheço porém
meu nome não saiu no jornal,
só mais uma erguendo a dor como troféu no final;

O chão sujo de sangue pálido transgressor
O meu drama foi escrito em restrito
Morrerei sem dar avisos

Cena 2 (corta)
09 de junho de 2014


Não conte os segredos meus segredos ao mar

54. Uma "mensagem na garrafa", escreva para a pessoa que vai encontrar a carta

30 de julho de 2014
Não sei a razão exata para estar escrevendo essa carta numa folha bordada por mancha de café. A máquina de escrever sem tinta, a lua crescente desceu o morro e se escondeu atrás do prédio mais caro à vista. Minha letra é ilegível, combina com a personalidade, diria. Se não estivesse pronta para expor aqui algumas palavras entaladas na garganta, não descobriria minha solidão. Não quero nada contigo, não quero que se compadeça e me procure. Eu só preciso me salvar essa noite. Não quero passar de hoje, então escrevo essa carta porque assim esqueço - ou finjo - que minha vida afundou. 

Sim, ME CONTRADIZ, sei a razão de te escrever. Eu estou te usando. Não deixe de ler só porque os seus olhos já estão cansados, o dia foi exaustivo, o mar levou essa garrafa longe demais. Por que eu? Deve se perguntar isso - Faço todos os dias.

Vamos, repartir minha solidão. Deite no escuro e sinta o cheiro dessa carta molhada pelo choro corrente. Lamba essa carta e imagine que o choro é o mar que embarcou essa carta até suas mãos. Mãos calejadas por amores navegados? Queria ser salva essa noite. Eu só queria enfiar a minha tristeza nessa garrafa, como farei com a minha carta. Seria muito pedir para você queimar depois de ler? 

Peço licença aos Paulistas (isso é um caso pessoal)

Ele me chama de poetisa
E ri das minhas prosas
Faz graça do meu sotaque
Muito mais do que carioca

E reclama dos meu cabelos
Que se enroscam
Em suas costas

Mostra à todos meus defeitos
Mas quando vou embora
Me pega de jeito
E implora

Eu que sou carioca
Com meu jeito de poetisa
Ironizo a ginga desse rapaz

Que deu o coração
Mas se faz de durão
Pois sabe que o próprio sotaque
É de paulista

Sem rima
Sem poetisa

6 de julho de 2014

Teu desde 27 de julho de 2014

Descobri o meu cansaço
nos olhos dela
ausentes de cor.

Compreendi que a aceito
mesmo sabendo
que a qualquer hora
vai abrir a porta
com a roupa mais justa
até no inverno
e me ouvir chorar atrás da porta.

Meu coração
vai ficar mais apertado
do que o corpo dela
contra o vestido
de couro sintético.

Ela vai socar
minha felicidade
enquanto
sai pela porta.

E ela me chama de amor
porque não sabe o meu nome
mas se for embora
rogo sem adeus
me chame
pelo codinome: Teu

Das tragadas do cigarro os lábios em aviso
"Não se iluda amor, tudo que sou não é nem meu"

20 de julho de 2014

Quase 4:00 horas da manhã
E o carteiro não chegou
Com minhas cartas extraviadas
Acho que algum dia vão notar que gosto de cartas
Vão saber que eu gosto mesmo é de você

Alguma parte me falta
Será o fígado baleado por cachaça
O meu dinheiro é pouco, minha fé é muita
E você assim do outro lado da montanha
Me ganha como fosse ao lado da cama

Mar morto

24 de agosto de 2014

Estou me transformando em maresia
Porque seus olhos são esse mares que se transformam em poesia
Vai-e-vem me arrebentando e sabe-se lá,
Que sabe um dia eu enjoe de você

Por que insisto em te lembrar nas noites de insônia?
Como um fantasma que me consome em lágrimas
E gritos
E mitos de que você seja só um sonho
Mas sei tão nítido que eu ainda nem dormi...

Prezo pelo seu descanso nos ombros de uma onda mansa
Que te carregue ao precipício
... Esse mar é o meu suicídio por te amar ...

Rodovia 666

07-09-14

Suspirar a solidão dessa noite morna me faz querer escrever
não apenas sobre esse vazio indiscreto, sobre nós
sobre você e as bermudas que não negam sua idade mental
ou seus cigarros viciosos - eu sou aquele que mais intoxica

Você me intriga assim tão camuflado entre duas cidades soberbas
cada viela que te entrega não nega a sua falta de pudor
e seus modos exaustos de me pedir amor

Assim me pinta em seu corpo como faixa de pista
só para não me perder de vista e, enfim, sair da linha
em meio ao caos da rodovida engarrafada
prestes a morrer na contra mãos - de mãos dadas
e se alucina quando me olha pelo retrovisor
revisando os lados para ver o encontro do amor

Mapa astral

06-10-14

Decorei seus feitiços mas os seus modos de agir....
Ah, esse seu mapa astral me desmonta em versos
Em plena véspera de nossa vigésima despedida 

Pontinha do cigarro com gosto de canela afogada
E cada vez que te acendi à noite dopada
Fiz com as mãos trementes e o coração inchado
De tanto se afogar em seus lábios
Grandes Misantrópicos Rudes Genuínos

Esse seu medo de perder o último ônibus
E essa folia que te vicia
Me arrepiam pois o que eu devia temer
É esse coração salgado que te alucina

Talvez a cereja seja o bendito fruto do seu pecado
Esses lábios me lambuzam com bala de cereja e gosto de cerveja
E esse cheiro está no moletom do passageiro ao meu lado

Ah que inferno preciso trocar de lugar, de cidade ou te conquistar de verdade

Eu consigo caracterizar seus lábios melhor do que a minha própria face
Eu sei que você vai rir da minha monotonia de te escrever todo dia
Eu corri a calçada inteira do Rio de Janeiro só para as lágrimas morrerem no mar
Com a chegada do verão o meu amor vem afobado
É que parei com os cigarros 
Te escrevo agora porque antes era passado

Quarto andar

16-11-14

Tem uma traça ao lado da cama recebendo o calor artificial do abajur, implorando amor sem se mover, posso ouvir seus gemidos a me puir os sonhos.

Tem um homem me ligando, querendo um encontro, mas como posso ajudá-lo se o que mais estou é perdida?

Na arte dissimulada posta em minha parede tento decifrar o sorriso plagiado de Mona lisa, ou o Infinito Particular de Yayoi que tanto me alucina.

Conto aos cantos o meu desencontro quanto às cores bregas dos edifícios. Quanta discrição. Quanto silêncio no elevador.

Já basta de esconder nossa dor. 

construir a minha obra de vida em sua pele

(27-12-2014)


ele tem essa pele que mais parece

um quadro pintado por alguma cor próxima ao dourado


quando encosto meu pincel

ele me chama de artista


e talvez perceba o quanto estremeço

ao esbarrar na solidão que é a sua obra prima


eu escrevo quase como um grito

que esse atrito entre nós causa toda poesia

ainda não escrita em qualquer livro vendido em livraria


ele tem receio de me melar com toda a tinta negra

que compõem seus esboços e fantasias




ele ouve o som do mar


e eu posso ouvir daqui

as ondas do meu pintar escorrendo

por essa tela de cores líricas

31/12/2014

penso agora que se você visse meus versos, 
talvez gostasse de toda essa minha falta de lucidez. 

sentiria a vaidade te queimar as bochechas 
e daí desfilaria seu cheiro de suor fresco pela minha rua.

toda rua entraria em carnaval em pleno janeiro.
todo bloco ia te chamar de solidão.

mas chamo por qualquer vocativo que te alcance 
pelo menos em lábios pintados por reticências...

nunca termino frases completas 

essa vontade de não te esquecer explode em mim
você é dessas bombas silenciosas deixando traços de terrorismo por aqui. 

Um lugar ao sol

Mãos enormes. O papel me encarava de cara pálida a condenar tanto espanto, o estrangeirismo da largura da minha palma. Eu tinha um conto inteiro para escrever, desativar o despertador, ração do cachorro, que agora me encara também, como quem diz, mas ele não diz porque é cachorro e tem quatro patas. Eu possuía mãos finas, tanta leveza, ágeis, eram como conchas que, bem unidas, levadas ao ouvido, também transmitiam a calmaria do mar, o silêncio do amar amedrontado. O cão ainda me olha e agora eu acho que é questão de carinho, a folha tem medo das cócegas. Eu temo tanto que é necessário escrever, ou falar com alguém mais próximo que não seja a porra de um animal calado, me masturbar. Ainda não me masturbei, não tinha pensado nisso, sequer pensei em pegar na estante mais alta a lista que fiz das formas líricas de suicídios. Agora possuía o dobro de dedos e não me satisfazia. A solidão nunca tinha tocado tão fundo como se a ponta de uma lapiseira 0.7 fincada dentro de mim quisesse ferir e carimbar o atestado do fracasso de uma escritora manca. Não sei se manco é nome para mãos ou pés, mas eu pensei em Aleijadinho e sei que no Rio de Janeiro a arte é segregada, se eu não quiser fritar na praia tenho que escolher um lugar ao sol. Ainda possuo mãos, mas não sei usá-las, elas estão mortas? Vocês morreram e agora putrificam tragicamente num espetáculo de mau gosto? Eu me perguntava. Eu me desconhecia. Eu não quero me tocar, esse pedaço anônimo pairado bem em frente aos meus olhos, isso não sou eu, esse corpo não é meu, o latido, o cheiro de mijo grudado no taco quente exposto ao sol iluminando um cantinho abandonado do apartamento. Naquele ambiente, tudo esquecido, lembrava que até eu não sabia de mim. Não possuía identidade naquela manhã, mas quem fui? O que fiz? E o meu nome? Não assinei papéis, me desconhecia, nunca me toquei. "Vivemos no subúrbio dos medos", não era um sonho, mas chamo de pesadelo, despertador ainda ativo, meu medo. Mãos estrangeiras acenderam em mim o resquício de crença em um Deus vingativo, que desejava a minha ruína, meu perdão. Ajoelhei no espaço abençoado pela luz, mãos espalmadas repousaram ao chão, o cachorro deitou em cima, um lugar ao sol; um lugar, o sol e a minha devoção.

Entrada Franca

Entrada Franca

eu dançaria com o seu nome
se a poesia me permitisse te tirar do papel
e vigiaria o céu de hoje
pois alguma estrela cadente
há de me trazer notícia de sua chegada

deitei na proa da barca me afoguei e esperei
a noite inteira pois 
haja chuva ou choro
a maresia me diria o dia
e eu colocaria em você o motivo
da minha febre de vida e de morte 

mesmo que isso te assuste
mesmo se você temesse encarar
os meus olhos na manhã de segunda

temos previsão de chuva! 
e os tempos verbais dizem que a tempestade
não depende do tempo que perdemos criando discurso coesos

mas sim de seus olhos indefinidos e úmidos
quase implorando pela paz que não existe nas palavras
ou no amor desregulado que te ofereço sem diagnóstico 

e eu usei seu nome tantas vezes 
mas não deixo de escrever que você existe sim
e grita aqui dentro e chora e tem maresia todo fim de tarde

e fim de semana eu passo na sua casa pra provar
que já não paro de pensar que nem sei onde deixei o isqueiro
então procuro o fogo pela cidade tentando criar um título
digno pro poema em sufoco 

eu só não esqueceria o seu nome 
eu dançaria com o seu nome

são tantos pecados e há um crime no ato
do encontro dos seus lábios com o medo de tudo não diz 

tem vinho dentro da bolsa e bilhetes pro cinema perto de casa 

a entrada em mim você tem de graça  

sábado, 14 de outubro de 2017

Infância

É noite no clarão ácido da porta entre-aberta,
no percurso, um abismo que calculávamos
ser o desvio através do armário secreto.
O infinito sabíamos mais perto, a morte
rodava feito ciclo dos planetas nas mãos,
nos revestímos de álcool e nuvens,
mas ao norte os montes pareciam afiados
aos pés e roupas fidalgas.

Nus e antiquados, assistíamos à serenata
acreditando na força que o amor
depositava sob o fundo dos olhos turvos,
prometíamos não chorar, mas o suor descia
as mangas caíam, o cheiro era de vida verde
e fazia tempo que os caules frágeis
resistiam à força da paisagem.

Ainda somos aqueles moleques do parque
arriando a calça e cagando no tronco
com medo apenas das formigas de bunda grande.
Era bonito sair e a porta entre-fechada
arrombava o coração da garotada
as bolas, as pipas, os jogos
despistavam a violência dos corpos
crescidos e esquálidos.

Bem desse lado da atmosfera a cidade
parece alagada por terra maciça
O céu nos dando bom-dia.
É noite mas a plácida aurora
a enfiar-se pelo espaço da porta
nos recorda, chegou a hora de entrar
na brusca viagem indistinta
Sonhar os dias que nos tragam
nossa indomável infância perdida.

Luz

Da boca salivava  
o sabor da noite deleitosa 

Do céu pichado 
aqui de baixo
As lentes eram longas 
projeções da neblina 
do dia - que 
pulverizava cor 
em nossos corpos assados

era bom tropeçar 
nos ramos 
e descobrir 
as fendas naturais 
do tempo

As folhas brigavam por entre 
os sons da ventania só 
de primavera solta 
Era bom desfrutar 
da sombra antiga 
esquecida 
no canto do parque azul 
Era bom estar no azul 

As coisas possuíam um 
cheiro agradável 
quase doce 
enquanto os beijos 
estalavam secos
na bochecha 
na hora da partida 

Era bom poder falar de amor 
com tamanha liberdade, 
sorrir até doer 
alguma coisa 
lá dentro 
da barriga gemendo 

A gente cria um destino 
melhor pra desconhecer 
os perigos,
E agora encontra uivar 
a noite toda escura e acesa

Vejo uma onda 
aqui de baixo 
o céu parecer afundar, 
as longas horas dormidas

Parece que o sonho é 
uma fantasia 
imperdível, 
não morre, 
esquecendo de acordar 

Parece algum roteiro 
Prescrito nos signos 
que as estrelas 
indicam com as mãos 
Alguma coisa 
há de ser 
tão doce 

quanto o brilho da noite 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lá Luna

Olhemos à distância
A confusão dos cosmos
E ao véu la Luna
Revestida de estrelas
Vastidão
Dos esplendores
Cavalheiros e Pôneis
Armados de constelações
Ao redor das esferas
Tuas órbitas
Ao mar caminhar
Dá-se luz
À tua sombra
Destino