segunda-feira, 30 de novembro de 2015

um oco uma falha quem sabe um deslize

desperto atrasada de novo ai de mim se fosse novidade
os carros perpassam o trânsito de olhares apáticos
enfileirados vamos guinados por não-sei-o-quê
mas há sempre um sol clarinho da cor de cerveja
o fígado aguarda imediatamente sexta na segunda-feira
terça é dia de morrer no banco de trás do busão

a blusa de alcinha preta pregada no tecido do corpo suado
mãos aflitas por alguma posse que seja um cigarro
cenas correndo à quilômetros da hora de almoço
a gente tem uma fome bem no centro da barriga
parecendo um oco uma falha quem sabe um deslize
palpites ou palpitação no peito só a poesia ousa não calar

entre caos e cais repouso no próprio estrangeirismo
as calçadas tão estreitas impedem nós de mãos dadas
mas atados são tratados de uma eternidade de agora
essa ânsia terrorista de regressar ao útero do mundo incapaz
desperto ainda prematura atrasada de um parto forçado
a vida é lenta demais quando estou no banco de trás

sábado, 28 de novembro de 2015

Baby, metade disso é pra te ter inteiro

quando deixei você partiu
calçado em chinelos azuis
maiores do que os pés
com as mãos fora dos
bolsos da calça fedida
eu sabia do ato masoquista

seus passos roçavam
sonsos aos roncos
minha barriga fazia
seja larica
ou fome de engolir
sua partida

queria apagar os rastros
e afagar a palma suada
de suas mãos libertas
até que a despedida
sumisse no ritmo
da minha poesia

a garoa caía
dos olhos da nuvem
os carros corriam
o preço do dólar
subia sumia

e o arrastar da sola
no chão de cimento doía 
você sabia
então fazia dessa cena
uma terapia

o dia te acompanhava
aquele tilintar das chaves
e o vento empurrando a porta
só você não nota
os danos dessa partida
é que eu também
fico partida

um dois três quatro
era assim que você me dizia
"Baby, os danos são inevitáveis"
a ferida cria casquinha
depois do quinto dia 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

fios

mortes nos fios de cabelo
em travesseiro
de motel três estrelas
no pente de madeira
largado em cima da pia
enroscado no chão de piso liso
esse cabelo suicida
a precipitar no ar
portando meu DNA
fino quebradiço de tanta pintura
perdido dentro da boca
enquanto há beijo
crescendo demais
depois dessa chuva
fios no seu lençol de malha

toda eternidade no embaraço de nós


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

reparar

olha pra mim, para e repara um instante até que os olhos lembrem de piscar. dá um tempo pra me olhar assim de frente, senta e aguarda o fim da tarde que aflora em meu peito toda vez que esqueço meu corpo em sua cama. calma, te peço com fluidez sempre que o suspiro vira motivo pra uma rima de um sorriso entrecortado e ah, seu beijo é mais banhado que poça d'água acumulada nos olhos por qualquer fração de ternura, e... irei constantemente falar dos olhos desde que parei em você. é porção de disritmia, colóquio em praça pública, pudor. ouço seu coração tagarelar em tom esquizofrênico, mansa repouso na camada mais sensível de seu corpo e em silêncio denomino de templo esse lugar de descanso. descalça encardo seus lençóis, embaço copos de vidro com batom e te chamo pra guerra que é amar uma mulher sentenciada pela própria poesia revestida de óbito. as manchas de café e mordidas, seu sono em pleno fim do ano, quero estagnar esse sonho que relato com o toque da língua na ferida exposta que encontrei ao entrar em sua casa, seu mantra. os livros na estante não justificam meu amor retraído em busca de uma liberdade que é necessária pra mim, sabe? olha pra mim, as lesões nos cantos das unhas roídas e essa ansiedade, é tudo um resquício de memória, um enterro prematuro, não é por mal a nossa morte em mim toda vez que me visto de alforria e trepido madrugada entre ruas de nomes próprios. eu preciso que foque até cansar de decifrar e só lembre que é tudo bagunça assim pelos cantos jogada de mãos desarmadas com um atestado de contusões narrando contudo que é tudo uma parcela de universo, ah, não sei... repara, é o que nos move.

repara, estou sem manual, não tenho conserto.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

previsão de chuva

gosto de ouvir seu coração
quando deito na borda do peito
ontem ele batia tão forte que parecia fugir
de um temporal
e esperava pacífico entrada em mim
à frente da lareira que chamusca até as bochechas

você me pediria um copo de achocolatado
mas faço café das nuvens dos dias tediosos
e rezo pela sua estadia em abrigo seguro

não é bobagem esse quarto escuro
de teto infiltrado
minhas mãos são conchas leves
você é como essa ressaca de um sensível vendaval

seu coração pede passagem
mas nunca houve porta nem chuva forte

bate
bate
bate
bate
me diz, é onda ou tempestade?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

XX - Mariana


Hoje sonhei com sua imagem. Você dizia que é preciso ir em fuga pra ponta do cosmo e soluçava sobre a insônia, mas viver em apneia é estar incluso dentro dos seus olhos infindos de matéria prima pro universo que divaga sobre uma pequena redoma particular que é o seu corpo de maré. Há dilúvio nas aspas que você compõe, e ouso afirmar que o indizível carrega a bagagem das peculiaridades que te moldam esse ser tão singular. Você é, Mariana, a todo instante, uma fração de infinito; em um dançar de cílios, uma porção de prosa que nunca será escrita com exatidão. O discurso é falho ao narrar seu mundo, e os que estão inclusos no espaço canônico do seu peito, deleitam da mordomia de um abrigo no caos. Toda suavidade em seu rebuliço, nas curvas do seu tom, nos traços da mão envolta na caneta a compor um esboço de arte. Você é a inenarrável inquietação do horizonte a se desmontar quando as pálpebras decidem dar repouso à eternidade do instante de sua existência. 

Hoje sonhei com sua imagem, você era o amor.

sábado, 7 de novembro de 2015

querido eu

seu esqueleto dorme
e lacrimeja
chove sempre na volta
mas você respinga
no café pela manhã
seus lucros e divindades
não te assistem às 3:30h

escarra um amor mais líquido
e faz prece pra fuga
a ponta do céu também queima
e ainda assim falta o seu número

não falarei sobre os seus olhos
e nem do inferno novamente
me afoga no inexplorado peito comprimido
incendeia meus pulmões

seu estoque de contusões
e as prosas na gaveta
a chuva nos perdoando e o choro
no fim da rua cheia de poça
água acumulada
nudismo
e
tu
per di do
numa correspondência arrombada

volta pra casa?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

o amor doce é rio de lágrima

o amor me tirou da cama
extraiu a armadura de sonho
e enfiou o dia goela a baixo
ardendo, suplicou um banho
o amor marca nas partes macias
expulsando dureza que achava possuir
e esse coração tem validade
mas o amor...

ah, o amor não tem hora
me atrasa e me retém mas tarda tanto
que de súbito recordo não saber amar
mesmo que o mar esteja a quinze passos
e tenha aprendido a nadar na prosa
de braços largos

o amor fez insônia
e também manchas
anoitecidas
no contorno dos olhos
aspas em discursos embargados
sob luz da lâmpada
mas amo o sol
só por querer amar só-lar
em dia morno de céu azul

esse amor paira
no cálice do peito
e indaga sobre o ritmo da poesia
que move
mobiliza
e desvia da cama
no dia azul
o amor é manso igual milagre
e tão salgado que estou sedenta
cada vez que choro

ah, os olhos, o amor
está conservado ali
inerte e furioso
aguardando amanhã
com expectativas de tempo aberto
e tudo azul

(...)