sexta-feira, 30 de outubro de 2020

não posso dizer que te amo sem tremer 
que a rua se tornou pequena depois 
de conhecê-la, a minha cabeça é povoada
de rosas roxas e eu tentei tirá-la
do buraco, mas como poderia alcancá-la 
se estive no fundo das vontades 
se as rosas são as cores das minhas
arestas, e eu colhi o fruto do passado 
não vi mais o seu rosto na margem
apesar de que eu tenha me apegado
às memórias, sinto falta do bafo do dia
espelhado em seu colar antigo 
não posso dizer que não sei amar sem temer 

domingo, 25 de outubro de 2020

não tem parado de chover 

há um pouco de nós no reflexo 
dos postes no fluxo desbotado 

desse peso entrecortado
que nos leva para casa úmidos 

há tempos não vejo o sol
e não o sinto

tem vezes que acho que a minha poesia
está encharcada e não quer sair 

então eu me deito e ouço
a chuva contando: 

há tempos não sei o que é ir embora 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

desterrado

em meu coração: 
dois terrenos
conjugados

de longe 
se nota 
o lado vadio

num piscar 
se avista 
a distância, 

ainda há um lugar 
seguro lá dentro 

não costumo deslocá-lo:
se chama 
desterro 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

mel

do corpo o que mais usei foi a língua
não esqueço de lembrar-
à ti, recuo 
deleite 
a lucidez do gesto 
estilo, paisagem  
o que mais galguei foi o sensível 
corpo encaixado 
à fineza da boca 

domingo, 18 de outubro de 2020

Em memória

a corrosão dos olhos dela invadiram 
o meu papel no mundo, adorá-la 
e esquecê-la, assim vivo em equilibrio
imperfeito; 

assim como diriam os leitores 
de mãos, as linhas não mentem

mas adorá-la eu conseguia no simples gesto
de pensar, mas esquecê-la, para isso era
preciso agir; 

eu me enganava se pensava
em pensar em esquecê-la, duas, três 
ou mais vezes 

tinha de usar a minha cabeça 
para outra função e assim
chegar a algum resultado semelhante

satisfeita eu só seria se tivesse de lembrar 
de não esquecer de adorá-la, 

desse modo
eu não precisaria pensar 
em outra coisa: 

ela e os seus olhos corroídos
mais nítidos soam (na minha memória) 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

falarei daquilo o que ficou, das horas dormidas

no alpendre da pedra afiada, o filete coagulado

de sangue ou batom, da cor expressiva que nos

atormenta respiro réstia do rosto, 

a sombra de um amor que mal se comoveu,

agora o que nos resta é falar daquilo o que ficou,

das horas sem sono, pedra macia, do gosto

de ferro do vermelho, da falta de gesto,

calma dissimulada no sufoco, do corpo 

que além de amar pouco viveu

terça-feira, 13 de outubro de 2020

úmida

logo o sol se esqueceu do céu
nós nos secamos
eu canto para você acordar
te seguro pelas pernas

pela escadaria seu cheiro evapora 
você esqueceu que dorme 
com a respiração de quem 
curte meu tom, está tarde 

você se esquece de mim
mas eu ainda canto
sob o seu olhar seco a minha voz 

domingo, 11 de outubro de 2020

Nua

Lá estava eu, de braços cruzados, segurando firme o coração que por um triz batia à sua porta; de botas cansadas e lendo o welcome to hell no tapete trivial e ainda úmido da chuva na sua entrada. Há recordações ainda da miserável nicotina querendo me ajudar a morrer de forma mais lírica do que em frente a uma porta encardida e quiçá mais rígida do que o seu pau em minha boca que pechincha um bocado de absolvição. Seu pau em minha mão. Seu pau tão em mim e essa porta maciça fodendo a minha entrada. Welcome to hell você diria mesmo sabendo que sou monolíngue e do meu espírito pagão. Seu pau em minha mão. Você me ofereceria o sofá-cama e o dilúvio que mataria a minha sede não se encontra em copo d'água. Nós saberíamos. O meu coração preso entre os braços era quem mais sabia, mas sabe-se lá se a água em festa na rua não serviria pra lavar minhas mãos.

Lá estava eu, nua, na rua, aguardando absolvição

tão raro quanto uma língua 

que eu não conheça 

sonhei que enfrentava um vampiro

de dentes macios

no sul de alguma casa

que entrei pelo teto

ninguém me conhecia

mas isso não é raro

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

passarinhos

desenho pássaros, 
gosto de inventar cores 
nas asas deles, eles são pequeninos 
e cabem no meu traço
mas eu nunca observei um pássaro
de muito perto,
eu os via de longe
e preferiria assim, 
só a miragem do seu voo
a paisagem do meu pouso 
na asa de um passarinho livre
beijando o vento e cortando
os meus versinhos, 
desenho passarinhos
porque nunca desisti de crescer 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

imóvel

me contento com o rabisco 
que fiz do seu rosto grudado 
ao cós da parede, 

tem o rosto virado às mariposas
ouvidos colados 
não faço ruídos, 

mas o seu coração é o mais curioso
está protegido por uma rachadura 
que não desmacha 
quando esfrego a unha, 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

leões

antes de completar trinta 
os poetas fecharam a boca 
foi um grande susto para a cena
ao invés de malditos 
preferiram que fossem chamados de gênios
há um grande perigo em guardar os leões 
eles não cabem em gavetas
ou em cômodos abafados
há um grande risco em domar os leões
nunca se sabe quando a fera está sentida 

as minhas digitais foram queimadas

a cidade parece 
céu estrelado
no chão 

arranha-óculos 
com a poeira
sem olhos 

a cidade parece gigante 
visto do meu corpo

ovo no asfalto frito 
vejo além do cinza 
o sangue meio-fio entre a fumaça 
a sua boca 

não me volto às paredes
entro nelas como quem a placenta
decide usar o martelo 

sou da cidade RG
risco grave  
contra regras 

a cidade é para mim
o que nunca morei