café e dores

café e dores

sábado, 28 de março de 2015

Dois resignados:

há humanidade em mim?
será saudade o nome desse lamento? 
os olhos são maresia ou sobra de poesia? 
há uma paz tão grande e passageira
dançando com as nossas palavras.

perdemos tantos sonhos pelas ruas.
temos pisado em tantas pedras nuas. 
eu perco o vão das sete e há em nós uma dor fingida
matando poetas. 
amargando o café da manhã 
de quem nem dormiu. 

toda lamúria tem um fim.
carnaval só termina em Janeiro.
no fim da rua é teu coração que me indica a direção.
temos saída? 

todo mundo está cansado no ultimo vagão
e eu que ainda nem dormi
te possuo aqui. 
também chamo isso de resignação, João.

quarta-feira, 25 de março de 2015

O que seríamos se fôssemos?

o que seríamos se além de poesia, fôssemos também cores padrões e bandas alternativas? é falta de amor aquilo que me faz enviar diálogos embriagados de cerveja barata. não suma antes de sermos o que nunca seremos pois há um filtro dos sonhos te declamando uma madrugada que vibra com o cheiro impregnado nas pontas dos meus cabelos. é cheiro de fumaça, de saudade, de despedida. é disso que falo quando te escrevo fingindo exaltar o caos da cidade que me engole todo o santo dia

e de santidade só o seu nome surrado que sustenta milhões de fracassos...
o que seríamos se fôssemos?

haja analgésico para esse tornado de versos deixando pedaços avessos do que são as coisas cruas assim como as minhas feridas virando manchete de blog. o que seríamos se voltar para casa fosse a única opção e as baratas estivessem extintas? se os olhos recitassem o remorso por serem tão miúdos eu me lamentaria por ter tudo a dizer enquanto finjo que existo

em mim nós existimos 

sábado, 21 de março de 2015

notas sobre um desespero cotidiano

nesse verão de manhãs rosadas eu procuro nuvens que salvem a seca anunciada nos jornais e temo a tempestade nos olhos de passageiros de ônibus sem bancos para sentar. os bancos só abrem depois que o asfalto está quente demais para andar descalça e na calçada sonha alguém que dormiu olhando para a lua em seu estado minguante. o estado todo está a mínguas de parar de acordo com o horário de brasília. todo o rio de janeiro só quer saber do fevereiro feito de cinzas. o rio esquece que eu gosto de postes poetizados e de muros artísticos, minha poesia é tão marginal quanto a avenida e esses tais pedaços urbanos estampando crônicas. não haverá umidade no outono, a cidade sangra até na televisão, a cidade pensa que a censura é bonita, as prostitutas são ainda mais lindas. não quero usar devidamente a língua. a poesia é tão minúscula quanto eu aos 20 e há um pedido de socorro nas ruas a cada frase não dita ao meio-dia. tudo isso é tão cotidiano que até rima

segunda-feira, 16 de março de 2015

Capuleto

hoje não venho te falar sobre o amor raivoso que me morde
nem dos braços estirados. os calos nas solas dos pés. 
se a poesia me permite eu vim lançá-la
em suas pupilas sensíveis pairadas
no horizonte explosivo de azul
somos todas essas estantes cheias de histórias
e livros de poeira

meu coração não é o protagonista dessa poesia
eu sou a vida dos meus pais
e a velhice me assusta
a morte seca de um arbusto. 
uma mão como um mapa me guiando com cautela.

não te falo agora de dramas sensacionalistas 
dos erros de português e corretores automáticos 
mesmo só falando a língua dos deuses narcisistas 
que pintam essas palavras de vermelho 

eu lanço em seus braços o peso de morrer sozinho
sem musas de sonetos 
ou Julieta de um Shakespeare louco
pois o ônibus passou do ponto logo quando
eu já nem penso mais em te esperar

sexta-feira, 13 de março de 2015

assassinando seu nome na sexta-feira 13

existo distraída entre o mundo dos loucos
e das histórias com vilões vestidos de lobos
vê as cartas postas na descarga?
sou eu descartando o romantismo 

fumando um maço de angústia
assisto a minha pele esbranquiçar
como se por acaso temesse morrer
e grito que não temo a morte
mas quando a neblina cobre o céu os meus olhos
gentilmente choram

cantigas e bilhetes me comovem tanto quanto mirar nessa montanha segurando 
Cristo nas costas
quanto mais eu fujo
mais fico
e ficar eu não quero mais

existe dor e flor nas rimas espalhadas nos cantos da boca
escorrendo dentro da privada
molhando as pernas
abrindo espaço
dentro de um coração estático

domingo, 8 de março de 2015

Você existe naquilo que crio antes de dor-mir

você vai borrar a minha blusa nova de batom escuro e rasgar cartas antes de escrevê-las porque sempre irá desistir de me dizer adeus com essa letra ilegível por medo de aparentemente isso ser um grito de socorro. irá molhar um pedaço colossal do meu travesseiro enquanto narra as próprias tristezas diárias e infinitas, assim como os seus olhos de maresia tão salinos quanto o céu do seu verão tardio

essa voz piedosa me assustará quando abrir a porta nua de repente querendo se suicidar na minha frente como se eu fosse o seu especta-dor. eu nunca fecho a porta mas aprendi a trancar a alma pra não te procurar por aí em avenidas marginais porque assim eu também me perderia. seriamos dois perdidos sem volta e eu sou quem te salva, lembra? é por isso que te espero sim sempre que a noite brilha sob os prédios pálidos, te ressalto em meus versos e rezo pela sua calma mesmo que no coração de alguém maior do que eu

você vai morder o meu pescoço só pra deixar uma constelação promíscua, criará em mim um personagem intocável de amor e prometo que nunca serei tão devoto a algo quanto aos seus devaneios. vou te assistir acender o baseado sentada contando fatos baseados em livros canônicos pois não há como escapar da parte em que eu me apaixono pelos seus pés ou essa sua posição quase-erótica. é parte da minha proposta te aceitar em todas as poesias como se realmente você existisse. como se de repente você fosse acordar daqui a quatro horas para vomitar no banheiro, tomar o meu café e sair sem profanar um adeus
sem chorar
não chore agora, poetisa

sexta-feira, 6 de março de 2015

o rio de janeiro é cercado por lágrimas e rios

11:55, hora do almoço no bar do arnaldo e da conversa sobre a mulher que passou sorrindo torto depois de um psiu, talvez ela seja solteira ou só esteja cansada de ser assediada em plena luz de um horário de verão. estamos todos cansados até de pedir perdão e os bueiros entupiram de tanta sujeira que essa cidade guarda. na rua do ouvidor só se ouvem os gemidos secretos vindo de portas compridas e eu lembro dos romances brasileiros e tento ver beleza em toda dor ouvida em plena luz fervente do dia. se o Rio de Janeiro continua lindo eu não sei dizer na poesia, mas quando ando pela orla da praia de Ipanema, desejo morrer ali no calçadão milimetricamente desenhado de tão ínfima que existo. os cariocas sambam só na própria reputação, e há nos arcos da lapa um Deus dos desajustados comprando promoções de caipirinhas de kiwi com morango. é preciso coragem e verdinha e uma música alta nos ouvidos para virar a esquina. o enterro é no domingo e todos somos Jesus Cristo quando na segunda ressuscitamos para a rotina de vagões lotados de olhares e bolsos vazios. ninguém mais troca olhares na cidade, mas tem que me olhe torto. todo mundo paga o preço por tentar mostrar que ainda está vivo. sim, o Rio de Janeiro continua lindo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

mar ou amaré?

quarta-feira de um dia quase cinza
as folhas nasceram em árvores nuas 
os amores renasceram virgens
há fila em todo lugar 
bancos e boates
e eu que só ando com botas apertadas
sinto que há espaço pra voltar à pé 

sem nada em mãos
só mais um aperto na garganta
como se as palavras quisessem me estrangular 
ou talvez seja só essa sina de ser uma escritora suicida 
manipulando o meu silêncio 

não dá para sair de saia 
nem esquecer amores platônicos 
como quem deixa o isqueiro em casa 

eu moro perto de todas as praias do rio
e não sei mergulhar 
a não ser em seus olhos 
de outra cidade 
isso é o que chamam de amar