café e dores

café e dores

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Soneto do esquecido

No museu o quadro de palha enfeita a borboleta
dançam as águas rebeldes no fundo branco
torce uma gota de lágrima o vento sortudo
a natureza assovia um choro mudo

Tempestade enfeita o céu escuro
lanças ocas cortam abismo
fazem o seu espetáculo um piscar de nuvens
traçando batalhas inúteis

Um pequeno intruso abre o azul
já muito maltratado luta contra si
um homem velho está ali

Morre as ondas numa correnteza de dar nó
morre o homem 
num quadro esquecido do brechó 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Arco-íris de tinta

Pintei os cabelos de verde-água, essa cor-de-vida combina com as plantas que ele insistia em me trazer furtadas de um jardim qualquer, eu sempre me fazia rir daquele sorriso ordinário, ele calculava meus atos e disso fazia sua peça pessoal. O leque de cabelos pintados só não são maiores do que as vezes em que me peguei perdida no escuro daqueles olhos calculistas, tão pretos quanto o céu sem lua daquele domingo em que me prometeu amor bandido. No verão passado foi a vez do loiro, ele sufocou a minha sina com os lábios enfervecidos, dançamos sobre as margaridas amarelas e nem por uma noite eu consegui dormir sem suspirar de agonia sabendo que aquilo um dia virar-se-ia lembrança de um livro amarelado. Roxo-beterraba, vermelho-sangue, azul-borboleta, são tantas cores com codinomes bonitos que estão enterradas em fotos polaroides que estremeço quando penso em procurá-las.

Minha casa está encardida de uma cor que se chama amor, mas ele foi procurar o arco-íris nos olhos da menina-flor e deixou em minhas mãos aquarela que não tem mais vida. Eu pinto meu cabelo para tirar da cabeça a cor daqueles olhos malignos de tão, tão pretos e trago agora um cigarro para pincelar o cinza-morto da nossa estória que só durou algumas estações, morreu na primavera como uma planta que cai, da cor desse meu cabelo desbotado verde-solidão.

sábado, 12 de outubro de 2013

Procura-se

Cheguei ao ponto crucial de uma existência penosa, faz sol de arder os olhos e estar doente a pouco tempo não faz descaso às minhas conclusões. Descobri que sou uma pessoa covarde, sempre soube mas é cômodo mascarar com mentiras uma face tão vazia, fraca e medíocre, não somente porque deixo de desfrutar coisas boas por razões fúteis que na verdade nem existem ou porque sou um capacho de prazeres alheios, mas sim por tudo que já vivi tão angustiosamente, por admitir que em todas as passagens da minha vida fui covarde e efêmera, tentando moldar uma essência que dói, mas sou ferida, uma doente crônica de tristeza passageira, que não se acaba com remédios de farmácia, fica e desola uma personagem velha de quadrinhos preto e branco. Deixei passar tantas coisas que não percebi que passei também, eu passei e não há como voltar no tempo para me buscar, entrei em um abismo de covardia que assusta a quem vê de perto, e eu me consolo com pedaços atormentados de existência, tentando tirar do oco uma ideologia forjada, uma coragem nojenta que não me convence. Não é apenas um desabafo corriqueiro de diário essas palavras duras que escrevo, isso é confissão de uma vida inteira, coisa séria que sufoca a quem vive, onde os planos são matéria podre que se deterioram na gaveta abandonados como um amante que deixa a prostituta após tê-la prometido casamento. Eu me formei no conformismo de um futuro errado, deixei de sonhar e não há morte pior do que não ter sonhos. Sou um cadáver infértil que chora e não ama, vivendo de restos sem crenças ou armas, implorando sem voz para ser achada onde um dia eu desapareci.