café e dores

café e dores

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Quentura

sem pressa
o barulho da manhã
desnorteou tempo que tinha
pra pensar no poema

é que brilhou tão firme
que parecia ter nascido
aurora boreal no sul
do corpo
como se fogo
fizesse por dentro faísca
cinza e ventania

tenho pressa não
hoje passou segunda, terça
vento verão
veloz insolação

ô dias se vão
vê, tristeza
faz estrago
de um vulcão

domingo, 16 de outubro de 2016

atualmente
bate
nostalgia de
voar

desencanto luz do azul
pássarinho
lar e coração
fervoroso
sol de verão

asfalto fogo
pés
são teus pecados
reluzentes

re fujo
só a cor ainda brilha
e o peito
batida

homens sós no canto do quarto
e no peito há uma planície de decretos
no meio fio da gilete você me encara
como uma cena de filme pornô
enquanto se ouve o gozo da terra num sopro
na falha entre dois olhos se debatendo

assim como asa de borboleta
assim eu fico meio atordoada
se faz mover meus dedos com rapidez
no desamparo da borda
de uma carta ainda não escrita

não é que tenha desistido das cartas
sabendo da inquietude das palavras
e do escasso consolo do seu semblante

é que você existe como uma silhueta
em recordações banais
nos instantes de blackout
você é um homem sol sem brilho
e o calor não faz tão mal não me aquece
não me esquenta

a solidão te veste bem

sábado, 8 de outubro de 2016

te mandarei todo o meu amor todo dia numa carta selada com um beijo

1. há de reconhecer palavras
costuradas
sigilo de uma mudez que
nos pertence por necessidade
há de descrever
ao lembrar da memória falha
o ato de reler
lembranças inexistentes
e desistirá
não por motivo de fraqueza
asco comum
de uma ira irreversível
é por mera delicadeza
esse assombro
a firmeza dos ombros
fardo de um silêncio incansável
2. em um movimento leve
os lábios
esses involuntários
hão de falecer em diálogo

domingo, 2 de outubro de 2016

Escrever

               “Essa solidão, para abordá-la, é preciso atravessar a noite”

Feito silenciamento, sinto as palavras embargarem a escrita. Se escreve apesar do desespero, e aliando-se a isso. Estar livre, selvagem e úmida, urgir e sangrar a carne e a tinta, remoer e glutinar um corpo descartando o medo, há pavor, nunca se está realmente só.

A casca descasca as paredes da casa, o corpo, um corpo rígido, violento, o território extenso entregue à página. Firme, seguro e infindo, tecido e cal, rotina e nada. Nada foi escrito que não se possa dizer, é nesse atravessamento de muralhas que o escrevente permanece inquilino de uma muda solidão.

Impossibilidade de travessia, trânsito dos silêncios em arquivos indisponíveis, o relógio sempre acima do tempo de reclusão, inumerados sistemas submetidos à mercadoria dos afetos – amanhece quando a escrita acaba. E morre o diálogo. Morte à fala cortada antes do verso. Duras declara que tudo escreve. Tudo
diz.
              “Sou a banalidade. O triunfo da banalidade”

*título: ensaio de Marguerite Duras