café e dores

café e dores

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Fiz esse último verso

fiz de mim tão pouca
tão pesada, dolorida
fiz de mim passagem
e acabei passando sem querer
fiz do meu corpo porta de entrada
de quem não tinha intenção de ficar
e acabei indo com cada pessoa que levava
vastos pedaços de mim
padeço pela eternidade do presente a falta do que sou
na busca incessante de ser o que te agrada

fiz de mim poesia e morri no último verso

domingo, 29 de junho de 2014

Sobre perdas e amassos

Oh, minha pequena, naquela noite de eclipse sentimental eu pude perceber que tinha te perdido. Perdi para um rapaz de ombros esguios, cabelos cor de bronze, que possuía uma fala mansa de quem sabe enfeitiçar mulheres mal amadas. Pequena, entendi que a havia perdido quando vi os versos que ele fez para você, o sacana sabia escrever malditas palavras boas
que até eu me encantaria! Não, eu não sou de elogiar quem fode a minha vida, mas eu não tinha chances naquela luta inútil cuja recompensa
era a sua paixão atrapalhada de menina, seus beijos amadores.
Espero com toda a veracidade da minha alma já corrompida que ele não te satisfaça a plenos punhos ágeis da forma como eu sempre fiz, e que no decorrer dos amassos fracos você deseje inconscientemente os meus dedos por debaixo da saia
e me ligue às quatro e quinze da madrugada. Eu vou fingir indiferença mas estarei às quatro e meia no portão barulhento da casa dos seus pais só para mostrá-la que eu tive razão, amanhecerá e antes do ultimo suspiro eu vou partir para ver o sol queimar o meu ego colossal,
acenderei um cigarro desfigurado e o jogarei pelo boieiro antes de tragá-lo por inteiro pois vou lembrar que você estará se contorcendo no sofá querendo um pouco mais da minha boca vaidosa.

Esperarei pela sua fraqueza que é maior do que a minha de não poder te amar amanhã quando eu também perder o tesão.

sábado, 28 de junho de 2014

Dou-te a chance de partir inteiro

Desista de mim.
Desista como eu desisti e tenho desistido todos os dias
Minutos
Instantes ...

Não mire meus olhos assim com tanta candura
Deixe de sorrir ao me ver filmar o vento, as árvores, a mim.
Meus olhos estarão chorando a morte do leiteiro
O enterro de um amor fecundado por meras palavras tamanho 12

Veja bem os meus defeitos tão crônicos
E vire a próxima transversal antes de olhar para trás
Eu não tenho nada
Eu só faço histórias para não me sentir tão só.

Já navegou em águas traiçoeiras de um verão tempestuoso?
O meu amor é violento
A minha febre pela alma é insaciável
Eu não sei roubar pela metade

Desista de me procurar em cada poesia romântica
Nós sabemos que a minha rima é singular
O meu enredo é pouco harmônico
E o meu tempo é a despedida



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Tuas transversais me extraviam

Quando foi que eu me senti furtada por sua beleza egocêntrica, carnal, devassa? Já não conto as vezes em que me parei para cogitar os planos de nosso futuro oscilante. Não quero prever que nosso quintal um dia murche por tua partida, mas por segurança planto cactos pois eles aguardam, eles estão acostumados com as despedidas devido à chegada da Primavera. Eu não estou, Loira. Você fala a língua que toca a minha alma de um jeito erótico como se soubesse manipular corpos. E manipula com tal maestria que eu diria que você é bem mais do que artista. Teu corpo é um violão saudável, macio, engenhoso.
Teu corpo é um edifício de entradas, dores...
Quando foi que teu coração se tornou tão vulgar?
Hoje a Lua se escondeu atrás dos teus olhos de pedra pura cristalizados por um azul que trucida os meus versos submissos. Teus olhos, guria, são um tremendo delito. É uma violação essa tua essência deturpante, essa canela que sai de teus lábios úmidos de palavras obscenas. Deveriam te prender por ter cabelos tão dourados que grudam em meus lençóis viciados. Eu te enclausurei nessa prosa subordinada e estou acorrentada a teus poros suaves afogados por perfume de café. Já não consigo mais dormir. Não sei qual foi a primeira palavra que você me disse, mas quando declarou que me amava como quem declama a própria sentença de morte eu finalmente soube que estava perdida.
Não em alguma esquina perigosa,
Não nas tuas poesias sórdidas... Estava perdida em ti.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

toca um blues para meu coração bater outra vez

costumava ter um coração polido, suave, calado
mas resolveu caminhar pela rua sem escudos e foi tragada pelo amor por lábios tão ressequidos quanto o deserto do Piauí, depois de deturpada por esse pseudo-intragável-amor sofria de anorexia-cardíaca, pobre coração! resolveu resmungar
pediu demissão. chorou a noite inteira. pesou no peito da menina que só queria passear mais uma vez no coração do marinheiro. o mar azul igual ao céu da tarde daquele dia já gritava mais do que o coração daquela menina. pobre azul que perde para os olhos do marinheiro! ele só queria ser inteiro.
rodopiava ela no chão de palavras. torcia uma por uma até fazer versos risonhos que roubassem a tristeza por não ter mais um coração.
e o marinheiro? esse o mar levou em uma onda revolta porque o azul daqueles olhos acrescentavam a definição de todo blues: infinito.

Isso é bem mais do que um amor de verão

Gosto do seu jeito rude de tropeçar no "Eu te amo"
Por intermédio de metáforas, apertos sufocantes à luz do dia,
Da forma como nega a sua sina pelas minhas curvas,
Essas estreitas como sua segurança no nosso amor

Gosto da blusa amarrotada pela sua forma cansada de sentar
Dos seus óculos que te fazem me ver devagar,
Devora minhas digitais e sequestra meus rótulos
Rendo-me ao seu cinismo

Derreto-me ao te observar pairado ao sol da tarde,
Incansável, bruto, humilde
Vertido pelo suor que molha a surrada blusa de malha,
Que logo morre nos meus lábios enquanto gingo minha saia

Você tem sabor de lágrimas e roupa antiga
Gosto, gosto muito da sua melancolia que me faz devota
Quero cuidar da sua solidão que já é minha
Porque gosto mais de você do que da poesia

Isso é mais do que amor, Moreno cor-de-chá
Isso que queima suas bochechas não é o verão,
Sou eu

terça-feira, 24 de junho de 2014

Se eu for seu sol você deixa que te acompanhe?

Vejo você extorquindo do sol cansado um pouco de vitalidade enquanto se escora na janela sem maneiras exatas, implícita e submissa, traga o chocolate aos golinhos para fazer daquele ato poesia. Te fotografo com a lente dos meus óculos de grau, desejo te enquadrar na minha vida mas você não é de ninguém. Você é do mundo, mas o mundo te engole rápido demais e não consigo acompanhar seus compassos.
Seus passos rasgados até o próximo quarteirão levantam os rapazes do bairro.
Seus passos me afastam para o submundo da saudade. É, aquela velha saudade que você me apresentou na primeira vez em que não me ligou por mais de um mês.
Trinta e dois dias e sete horas.

Você me acorda e toda hora eu estarei pronto para te ver partir sem ressentimento nas malas. "Por pouco quase não sou minha" me dizia em pleno gozo para descer mais leve em mim. Não descia. Todas as vezes em que me encolhi em seus braços feito padre ao rezar missa foi por saber que meu pecado é te desejar além do desejo.
Acho que isso se chama amor, mas nós chamamos de desejo permanente. Não quero admitir assim tão francamente, mas quando você vai embora eu choro mais do que chorei quando nasci. Vejo você indo e lamento não ser o sol que queima esse seus cabelos lambidos por tinta preta.
Eu sou a Lua, ascendente em Câncer. Você queimou a minha paz, mulher. Acho que me transformei em um tremendo sentimental besta, culpa dessa miopia que à primeira vista me fez amar uma mulher já muito amada por si mesma.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Lapa

O perfume doce e francês sufocando meu tesão
A sandália dura tamborilando o chão de pedra
As transversais do corpo, as pálpebras dançarinas
Ah, o sorriso é um escândalo 
Tão minha, tão nossa, tão feminina 
Abre o meu apetite e a avenida 
O suor desvendando a maciez dos seios apertados 
Ela me flecha como uma lâmina com o olhar de meretriz 
Mas as bochechas ganham cor 
Ela se torna delicadamente uma donzela 
Meus dentes de vampiro querem sugar o mel dela
Ela atua em cima do meu desejo de malandro
A vodca aquece o sereno
Essa noite nos conheceremos
Cruamente 
No motel ou no chafariz 
Minha sina será tamanha que voltarei na próxima semana para perguntar:
Você vem sempre aqui? 

sábado, 21 de junho de 2014

Olhos tempestuosos

A sacada do meu apartamento alagou de tanta chuva, tanta lágrima. Deixei a porta do meu apartamento aberta na intenção de abrigar alguém dessa tempestade de solidão, as luzes do semáforo piscam o tédio da madrugada, os carros que sobraram pelo asfalto perambulam sem saber aonde ir porque o bar fechou antes das três. Um acidente aconteceu aqui na minha rua, nessa rua de pedras e mármore, o amor morreu. Passa o homem de terno azul com o chapéu todo molhado de seda, corre a moça com o vestido de chita decorado com borboletas (sortudas borboletas encharcadas que colaram nos seios, pernas e barriga dessa moça passageira).

O rapaz de barba vermelha passa cansado enquanto carrega os pingos de chumbo nos ombros e na cabeça, não reclama o dilúvio do céu
não abre o guarda-chuva, se tinha que guardá-la, que fosse em seus olhos.
Choraria amanhã.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Perdeu-se no próprio abismo

Embora espantasse a escuridão com a ponta fervente do próprio cigarro estendido entre os dedos minúsculos, ela ainda sentia o pânico do escuro dominá-la de forma rude e traiçoeira. Não era mulher de se lamentar, mas o destino a castigara com um coração tão vulgar que lhe fora entregue quando ainda nem era humana. Ela se desfazia como aquele cigarro longo, ia vertendo-se ao pó, enroscando-se ao vento, no beco da rua suja. Juntava-se ao nada e fecundava de suas palavras a sentença da derrota particular.

Desejava ser mais corajosa para enfrentar o escuro, tinha medo de fechar os olhos no parque, temia que lhe roubassem a alma. Mal sabia ela que já não possuía identidade, que se tornara incompleta por inteira. Já não se olhava no espelho pois seus grandes olhos sanguessugas eram portais para o abismo. Teve medo de si mesma. Se perdeu na própria esquina, na brecha do machucado causado por algum amor impossível. Ela é o próprio beco imundo. Constatou que nunca fora humana, era algo mais doído do que isso. O cigarro morreu sozinho e contribuiu para a sujeira da rua: seu corpo.

Lascívia

Lamentar o inferno dos seus ombros
Seria revelar-me devota?

A primavera carregou nossa divindade
A tempestade das suas pestanas
Deixou escombros no afadigado peito meu

A demência já bate às transversais
Questiono-me se seus olhos zangados
Já não decoraram os meus sintomas incuráveis
E temo nossa despedida
Como um enfermo teme a morte

Devo insistir a perguntar quando a certeza da tragédia
Já meu deu o enredo desse nosso drama?
Não sou a Julieta de Shakespeare
Mas morro pela morte do amor de quem não me ama 

Sugar as minhas forças com o relevo das suas costas
Já não é um prelúdio de meu martírio?
Meu pecado é te amar tão febrilmente
Quando só seu desejo em mim me mantém viva em ti
Como um relicário, meu andarilho

domingo, 15 de junho de 2014

Meu coração quebrou na estrada

A rodovia 510 está deserta porque nós não viajamos de mãos dadas, eu não explorei com a língua o céu da sua boca pois tive medo de me perder naquela imensidão. Quando o vento retorna e bagunça seus fios tímidos, sinto que valeu a pena nossa viagem, minha alma se arrepia porque bagunçado você me parece mais autêntico. Os cabelos retratam a sua personalidade, seu astral. Você consegue perseguir com os olhos o cheiro da noite ou só tem olhos para o meu decote? Em Laranjeiras a festa na vila toca o suicídio de Nirvana, bordei seu sorriso em meu vestido de renda para dançar a noite inteira ao som de uma risada cansada, sacana, cotidiana.

Manobrei suas intenções até a minha casa, abandonei a festa, o carro quebrou no vazio, zombei da sua covardia e o suor da minha ousadia molhou seu peito inseguro. Hoje o sábado leva o nosso codinome, não me arrependo de voltar à pé para casa.

sábado, 14 de junho de 2014

Stella

Toquei a madrugada inteira e ninguém me toca. Sou a mesma guria que muda mais do que um camaleão em ambiente hostil, mesmo tendo tão pouco a oferecer. Sinto-me ameaçada o tempo todo e os fantasmas que me importunam na hora de dormir sabem que não tenho medo do escuro.
Tenho medo disso aqui dentro que tem me ferido.
Acontece constantemente uma rebelião em meu interior mas não existe sistema, guardas. Não tem quem pare essa baderna instalada a cadeados.
Sou um pouco exagerada, viu? Não. Porque ninguém me repara tão bem.
Deu vontade de pintar as unhas, traçar a vaidade no corpo para me fazer de fortaleza.
Bateu uma ânsia de sair pelas vielas do centro da cidade, conversar com as putas loucas cheias de pó na cara para entender um pouco mais daquela dor. A dor da gente é tão nossa, tão universal.
Quero saber da dor daquela balconista que me serve café sem sorrir, do difundo que achei na rua enquanto voltava pra casa do trabalho. Não devia ter voltado, queria saber o nome dele, cantar pra ele. Acho que todo mundo deseja ser lembrado por um estranho depois de ter morrido perfurado por balas de um revólver raspado. Stella, eu sei da sua dor. Sei muito bem que você quer ser amada, meu bem, mas quem mandou você ser logo a porra de uma bebida?
Tenho os dedos dormentes e rasgados de tanto tocar violão na dor dos intocáveis. O que mais me dói não são esses machucados, o foda é que ninguém quer se ferir por mim porque o pouco nunca é suficiente. Malditos exigentes.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Trago a primavera como um cigarro

ainda tenho em mim a primavera
os sonhos
as flores viçosas e virgens
porque verão não me colheu tão bem
outono esqueceu
das minhas flores
em bosques que passam riachos doces
em meus pés carrego raízes férteis
frutíferas
cultivadas
primavera não passou
trago a primavera em meus lábios, Flor

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Quase escrevi algo que preste

Dia dos namorados e mais uma vez eu acordo quase às cinco com o estômago chorando e os olhos tão desacostumados ao sol que entra distraído pela janela trancada. Tranco as portas, a alma, as feridas porque não posso ser tocada assim tão fundo. Toque a minha superfície tão rebelde, minúscula, dolorida e faça uma valsa dos meus medos, daquelas que fazem chorar os brutos bêbados.
A realidade é que eu vivo à base de "quase". Quase amo, quase machuco, quase me dou, quase permaneço. No final você faz o pedido e a entrega não chega. Ou chega atrasada e você já desistiu de comprar.
Eu fui vendida por um preço tão barato.
Hoje é o dia dos namorados e eu acordei com a vontade de escrever sobre estar sozinha em datas especiais, que bobagem. Outra verdade é que finjo não me importar com essa solidão que tanto me enterro, mas no fim do dia o velório me faz doer devagarinho como se a tempestade entrasse pela raiz da alma. Queria correr pro boteco mais próximo e tomar uns porres de alucinação, mas vou levantar, sentir o peito foder com minha cara, com a ferida descalça vou mijar em cima de mijos esquecidos e obedecerei a minha fome. Tenho fome de viver, mas a realidade é que sou feita de quases. Eu quase sou feliz. Quase fujo daqui, mas hoje não, hoje eu permaneço.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ela pertence a outro

Sei que porventura entre todas é a mais vazia
E não pertence a outro além do sofrimento
Conservado em uma redoma
Dentro do desguarnecido peito amado

Abriga nos olhos um céu que desagua tristeza
Como eu queria poder me molhar infinito,
Morrer torrente nesse dilúvio
De sua melancolia teatral

Sofre, como sofre a minha poetisa!
Sofre pela espera de um motivo maior
Que a tire desse abismo individualista
Cavado pelo próprio egoísmo

Eu já prevejo o seu suicídio friamente calculado
E sem vestígios de pecado
Morrerá regada por versos que a possuem nua
Poetisa, teu colo amante é muito mais do que merecido

sábado, 7 de junho de 2014

Se não te falo é porque me escrevo

Resolvi escrever sobre a lua que distante me sorri de um jeito quase solitário, desse caos que se instalou na nossa gente, no meu gerúndio, nas palavras que só saem por escrito. Hoje resolvi escrever sobre a canção que tocou minha fraqueza, as rosas brutas, o amor calculado de um desajustado. Escrevo sobre nós, sobre o nunca, o vazio que se regenera e desintegra a sanidade dos lábios. Irei escrever porque já me cansou o caminho cruzado de um sorriso morto, a primavera que se foi e levou a juventude dos meus versos. Os sonetos tão inférteis repousam famintos no leito belo dos sonhos, o amanhecer já floresce para cantar o nascer da nossa rotina de cada instante, traço no lápis o suor de nossa gente e o fracasso presente em minhas prosas, mas escrevo, escrevo para me desculpar do que nunca disse...

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Gudang, uísque e amor

ah, mon petit
eu sinto muito pelo nosso fim
você tem o meu luto
sinto pela sua morte em meu casebre
no meu coração de puta
pegue o trem de ida
e não volte para a despedida
fiz esse verso
sem rima
não chore, mon petit
manchei de batom a avenida
pela sua morte
em homenagem ao meu samba azul
você tem o meu luto
mas esse corpo
ah, petit... não há lirismo
que o faça ser seu
sepulte os restos de sua orgia
da minha cama
porque nosso gerúndio
é mais escuro do que a minha roupa
eu estou de luto
você morreu tão tarde
numa tragada de gudang, uísque e amor
ah, mon petit, que morte vulgar
não volte para me pagar...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Eu me despeço dos seus olhos que me afogam

Ruivo, essa é a ultima vez que te escrevo, prometo. Última vez que bebo toda essa rebeldia regada pelo silêncio de seus lábios avermelhados pelo sol de meio dia, prometo. Hoje eu não vou te ligar, estou ocupada com os pontos, não ligo mais para sua descrença em meu amor prematuro. Seus olhos são azuis da cor do oceano mas são os meus que se afogam, de pacífico só o seu desdém, apague esse cigarro em meu (a)mar. Apague esse cigarro porque já tragou por demais as minhas forças, tenho um coração doente, fraco, usado. Beba seu café sozinho porque já cansei da insônia de esperar.

Faz sentido acordar e continuar sonhando contigo, ver seu sorriso amarelo de longe e ter que escutar o coração ligar para o hospício. Faz um frio quando imagino seus lençóis cobrindo meus pés nus, nosso corpo esquentando a tempestade ao som de The Smiths a tragédia é anunciada. Sem vírgula porque eu te restrinjo aos meus limites dramaturgos, te jogo no meu lirismo só para te ter além dos sonhos.

Estou perdida no abismo de suas olheiras. O colorido dos seus cabelos curvos cor-de-sangue já é um prelúdio ao nosso pecado, te sinto em cada avenida dessa zona sul, deste morro ao norte, coloquei-te num altar tão meu desenhado por órbitas oculares até te fazer rei de outro planeta. Eu sou míope, meu bem, mas pude ver de longe que você não seria meu. Eu sou poetisa mas meus versos não são suficientes para te fazer ser meu. Eu sou sua. Nas palavras. Nas lágrimas. Na saudade do que nunca fomos.

domingo, 1 de junho de 2014

Perpétua escultura de um delírio

Bebi suas linhas e curvas
Na sede que a boca tinha de rogar seu nome
Às paredes podres que guardam nosso segredo
À cama bagunçada como minha vida

Seus cabelos enrolados ao total desespero
Embolavam o som da sua melodia
Em retorno aos meus amassos
Seu amado corpo congruente ao meu

Vertendo o pulsar dos lábios à pele
Borrando de vinho o batom sem validade
As costas arqueadas de ternura
Dando sonoridade à infinitude de seu cosmo ocular

Se de súbito ela despertar pela falta do meu íntimo
Verá que nunca quis fazer versos
Conhecerá essa folha vulneravelmente pálida
E porventura que não sei rimar

Temerá o meu amor que ainda não existe
E os poemas que a perpetuarão como uma Deusa
Desejará morrer após tragar a manhã que se aproxima
Então implorarei que se afogue em meu choro
De escravo pseudo-apaixonado

Quando a aurora maquiar um novo dia
Eu a desejarei puramente muito mais que agora
E terei fome daquela carne crua, nua, magoável
Ao qual ontem satisfiz
E amanhã é ilusão