terça-feira, 30 de junho de 2020

ilícita

depois de
te amar 
foi como se 
na minha água

   dentro da balada 
uma droga tivesse 
sido injetada 

sentir não 
poder sair 
pela porta 
da frente  
o meu coração 

   nem se o arrancasse
sentindo 
no peito 
o peso de 
cadeados 

era sua a 
minha escrita 
e pensava comigo 
como fui 
me meter 
nesse buraco 
   era o espaço que você deixou 
para que eu 
respirasse 
vi em um livro
uma parede sem porta
lá estava eu de armadilha 

faço dedicatórias 
aos abissais 

mas a espera me deu uma vantagem 
mediante aos que corriam 

posso arpirar seus suores 
o jeito como respiravam 

não me cansei de atender ao seu nome  
aqui está o meu apreço
farelo 
pão na mesa 
areia e dilúvio 
argila 

aqui está a minha travessia
boca 
aço enferrujado
envergadura 

aqui está o meu estado
Inexistir 
coração das águas vivas

aqui está a minha coluna
habitável? 
labiríntica
nuvem 
zinco 

aqui está o meu descuido
beirada 
declínio 

aqui está a minha idade
ainda no útero
me disseram que eu não poderia 
crescer 
tão rápido 

morada

ainda lembra da nossa casa
do veludo das mãos 
servidas às despedidas 
todo dia o banquete
dedos e verdades malícias 
no domingo eu te escrevia um poema 
mas a ventania acabou 
e com a minha vista 
salvei o meu amor aqui do terraço 
queria que você estivesse mais perto 
queria lembrar da nossa casa por dentro
mas é da fachada que eu me refiro 
esse pilar de um amor alugado 

sábado, 27 de junho de 2020

Tábita

as sementes saltaram 
e a tarde se anuncia em sua órbita 
--- na retina do seu semblante oblíquo ---
estava mesmo esperando algo 
que nos arrebatasse 
além de exercitar nossa lábia 
na beirada dos ponteiros 
só sei que é chuva a caminho da distância
em que não nos deparamos à pé 
e nada poderia cessar essa vontade 
de te reencontrar no bairro de nome febril 
posso te contar sobre o tarot 
quando a cigana te mirou a alma 
e viu brotos de camomila 
na calma de um tornado 
posso escrever sobre as curvas 
das alturas 
quando penso em ti 
os dedos que tocam 
as palavras 
posso dizer que depois de partir 
eu me tornei a saudade 
mas repetir, amor, é ultraje 

a casa está vazia

sente-se meu amor, a casa está vazia 
ainda durmo estirada em nossa cama 
ainda dura, ainda manchada 
mas ainda é abafado se nos beijamos 
debaixo da ducha, em apneia 
a casa agora é mausoléu insone
a mesa dos restantes abdicados 
fora devorada pelas moscas, 
a casa persiste em reviver o barulho
das gotas vertentes de nós, 
que ironia todo esse silêncio proferido! 
ainda revivo os olhos úmidos
junto à coleridade esfacelada do teto,
de uma ganância da placidez... 
cada coisa em seu lugar fora mudado 
mas ainda há na bancada o faqueiro 
a pia escangalhada e mais 
algumas novidades hitchcock 
se eu troco disco, mais uma vez 
você se despede sem levar as chaves 
mas se eu fico sentada no balanço 
enquanto te ouço espreguiçar os tons 
é possível que amanhã eu te encontre 
atrás do sofá esquentando o almoço 
é possível que você esqueça de partir 
quando lembrar que a casa é também
sua aqui dentro, meu amor. a casa está vazia 

In notas de papéis de parede 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

não estranho a beleza extraordinária
que há em meus pés
alguns podem chamar de feiura
alguns podem passar sem ver
mas quando eu me olho
são a primeira coisa que vejo 
são a última coisa que eu culpo
.
quando os pés tocam a grama
sinto o mundo não tão violento
aos meus pés o mundo
me soa tão sutil que poderia 
até gritar e diriam olha só 
a felicidade aguda, 
olha só aquela criatura besta 
e quando eu abro os olhos 
eu sinto vontade de usar os olhos 
de n'um dia de sol 
fazer chover 
e aguardar o nascer das flores 
em suas miúdas alegrias violentas 

poema de uma caderneta de saudade 
e foto de 2019 - um dia na grama da praia em que fomos conversar com deus 

nesse lugar de permanência

sábado, 20 de junho de 2020

o menino da flauta

tenho um vizinho que toca flauta 
todos os dias às 8h da manhã, 
nessas horas eu estou me preparando
para dormir, para não morrer 
- de sono o dia inteiro 
e ele não sabe mas é o meu menino 
tocando para que eu dorma 
às 8h da manhã todos os dias, 
e eu criei uma dependência 
no meu vizinho, só durmo quando
ele começa a usar a boca, os dedos, 
quando solta do corpo a candura 
que eu pretendo nos meus sonhos, 
que eu procuro em meus lençóis 

o rei quer a minha cabeça

o rei do mundo cagou na minha cabeça 
antes que puxasse os papéis 
e me pusesse a discursar, 
antes da rua vazia me esvaziar 
ainda mais, em pleno mormaço, 
quando os olhos ficam nublados
do nervosismo da minha posição 
aqui de baixo, os olhos em contato 
com o reflexo das vidraças 
da cidade vidrada em si mesma,
recolhida e distanciada, e eu 
ainda pude contar o tempo até
que chegasse aqui, nesse lugar de
permanência do rei,

 

engatinhando 
decidi que revelaria a minha glória, 
meu desprezo, meu pavor pelos reis 
agora eu decido se o que chamo 
de vencido é o meu semblante indiscreto
e abandonado no meio da cidade 
- que parou de me ignorar, - se chamo 
por vencido o rei que agora escolhe 
outro trono para cagar 

sexta-feira, 19 de junho de 2020

o porquê de lembrar do carnaval em junho

talvez deixando a falsidade ideológica 
no útero, o mundo esquisito 
nos tenha cuspido e esquecido 
de nos lubrificar, deve ser por isso 
as nossas ranhuras, e o cordão 
no pescoço, por isso precisemos 
dormir enroscados, o sangue 
que verte das nossas anemias mentais 

talvez tenhamos passado do lugar 
de abrir fissuras no asfalto com os corpos
em baile, por medo de atropelar 
também as pequenezas, os chamados  
sonhos, são nossos brincos, 
e a hora de sair do bonde antes 
de nos olharem como quem diz 
o que você está fazendo? 
antes de termos sido apresentados 

deixamos passar tanto mas 
eu sinto que por essas bandas
eu tenha te perdido no bloco, sabe? 
feito enfeite dos tempos de folia 
a gente se acaba se lembra no outro dia, 
e mesmo assim ainda festeja, 
e mesmo assim a gente sai em busca 
de outra alegria, outros trajes, 
outras fantasias mais 
talvez tenha deixado passar o carnaval 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

felizzz

andei lendo seus poemas de amor 
ou de escárnio? não sei nem se algum dia eu realmente pude decodificar alguma mensagem sua, ou pude ao menos parar em qualquer sinal e entender se era pare se fazia parte ou avance ou vá se foder, eu me fodendo é bem gostoso é bem feito, mas você tá sozinho e desacompanhado de si mesmo, e isso não é um poema de escárnio, não saberia o que você quer dizer eu realmente não quero mais fazer esforço, eu quero é ver se fico bem séria dessa cicatriz que tu deixou no teu poema, porque quando você também ri eu não sei se é deboche se é triste se é mágoa ou suicídio. se é para rimos juntos, mas eu acho que é um pouco de felicidade dissimulada, intranquila. 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

chacualhar

me leve embora me esqueça de partir,
haverá a hora da distância, 
nos repeliremos feito cascavéis no cio 
e quando for a hora do susto, espero
estar minha boca abocanhada à sua, 
não quero acordar a vizinhança 
- essa que já suspeita dos mistérios 
e nossos rabos se debatendo, - 
ainda que no elevador ela nos olhe 
como se nos desconhecêssemos, 
é assim como me sinto fora da cama, 
quando estou contigo presa no mundo, 
de olhar afiado, à espreita, mirando 
o próximo bote ou pensando na segurança
das minhas mãos, se por acaso você 
me segura, mesmo que por vontade
súbita, por também vaidade, ou 
por mero esquecimento, ou 
lembrança de que a qualquer descuido, 
elas serão apenas o fantasma da pele 
que eu deixei ao ir embora 

domingo, 14 de junho de 2020

cartas anômalas

penso que te amo por vaidade,
e por uma ponta de ternura, dessas que se vê
em câmera lenta pela causa do naufrágio de um Titanic
que te sinto o amor quando resumo versos
na ida ao banheiro, agachada em pose de nascença
e que quando o líquido viscoso que há em meus buracos
decidem socorrer a monotonia instalada em 4 cantos
é o momento de amar-te sem nome
e me sinto egoísta por não dizê-lo,
por zelar até a narrativa que faria você reconhecer
que esse poema poderia ser teu,
mas é bem verdade que sequer é meu o poema
que sequer eu sou a poeta que te entregaria uma carta 

sábado, 13 de junho de 2020

amarelinha

tiros de espinhos rosas se espreguiçando no ventre no vento que faz quando os seus cabelos decidem jogar 
a
m
a
r
é
linha 

seu rosto estendido na calma de um tornado a ternura das guerreiras o sopro das bocas furiosas teu cheiro expandido ao longo da travessia 

eu ainda pintei seus dedos nos meus hematomas coloridos por prazer e antes ainda que pudesse partir a fotografia na parede entortou com a campanhia 

vejo pela fresta o seu retorno em quaisquer gesto da natureza ou em figuras de linguagem atenta à paisagem e à escuridão iluminada 

planejo a fuga a estadia e a ânsia com a boca aberta e o peito aflito coberto confetes e coletes e balas de coco nos bolsos 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Sono de Dionísio

Imaginei o sono de Dionísio 
embalado por nossos corpos 
estalando de um prazer 
de sair de mim e entrar em ti
e você versa e tu vice versos
e tantas nuvens 
e muito chão 
além do infinito 

domingo, 7 de junho de 2020

um lugar em que pairamos

você parecia dizer sobre asas 
em um lugar de pouso, 
em que olhávamos de lado 
as flores indecentes 
despertando nossos olhos, 
bem distante o porto o poeta 
que fazia versos sóbrio
ancorado no busto da mulher fantasma 
nada seria tão insosso nesse tempo 
se nossos anseios fossem mais amenos 
ou se as mãos não cheirassem a terra 
ainda que estéreis , profanos 
ainda portamos sorrisos ao léu 

quinta-feira, 4 de junho de 2020

abandono

os braços 
esparsos zelam a crispidez 
do seu corpo espinho
a tanto tempo, amor 

a porta 
ascancarada 
pararíamos de gritar? 

e o susto, coração? 
os braços 
nessa crise da saúde
da saudade 
e do trivial sólamento 

eu sinto muito 
novamente 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Amante

Amo a ti como quem despista 
os mosquitos da sopa 
e esquento o sofá 
Amo distraído 
Amo a fragilidade do seu amor desafinado
e tantas coisas não descobertas 
o bolo de laranja em cima do fogão 
exposto 
troco as fronhas 
procuro o controle 
e não há nada mais colorido
do que o reflexo do seu corpo 
No retrovisor 
eu vejo à distancia 
a rua em seu perfume incorporado 
a longevidade do pulmão 
ao caminhar no meio-fio do meu rosto
Amo a postura dos seus caninos 
e o frescor de outros carnavais 
serpenteados nos sapatos cinzas 
Amo o que ainda nem sei amar 
mas ainda assim descubro um ângulo 



um barco que se volta à seu porto

bastou um leve gesto 
do prazer 
que o amor inspira
te escrever 
como quem beija 
uma carta 
antes de abri-la 
seu rosto 
se distrai invisível 
das multidões 
sonâmbula 
busco a ti 
oculta 
como a quem a bússula 
em mar aberto ancora
ou me despisto 
se faço festa 
com o que sobrou 
bastou o meu querer narrar 
uma aventura amorfa 
há sempre 
algo que diz
bastou um gesto brusco 
para me retrair e me voltar a ti 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

aos que me amaram

aos que me amaram 
não me amaram o bastante
não amaram a névoa 
atrás dos olhos 
os sorrisos que não escutaram 
o mulher que hei de me tornar
depois da tempestade o meu cabelo
e os lábios ressequidos 
ainda não amaram as minhas renúncias
os blêfes, o tossir depois da frente fria
aos que me amaram 
ainda não amaram a grandeza 
do que serei e nem a minha pequenez 
aos que me ganharam 
ainda não perderam 
aos que ousaram achar que ganham 
ainda sou mais eu