café e dores

café e dores

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Vida de isopor

Tinha um anjo em minha vida, não era família, amiga ou coisa do tipo, era meu anjo. Era bem mais velha que eu e tinha o rosto bem enrugadinho, marcas que o tempo deixou. Tempo cruel, fez com que meu anjo ficasse cansado. Seus olhos eram escuros e desconexos, quem os encarasse, perdia-se. Quando sentava para conversar, ficava por horas proseando comigo, meus olhos tão grandes ficavam a menear aquele rosto marcado e vazio. Ela sorria e seus dentes postiços cintilavam juntamente com meu semblante, que se abriam ao perceber o quanto eu amava aquela mulher. Era amor puro. Amor de apertar o peito e me fazer delirar se ficasse um dia inteiro sem ouvir sua voz. Oh, a voz tão fina e falhada, com notas musicais e cantigas de ninar. Eu ficava horas falando dela para o meu diário, por vezes manchei as palavras escritas com a caneta, pois as lágrimas corriam dos meus olhos.

Em um dia muito bonito, rosado e abafado, me dediquei a fazer um presente para meu anjo, uma casinha vazia por dentro, mas por fora, muito bem modelada, feita de isopor. Pintei com as mais primordiais e caras tintas, beijei cada aresta daquela humilde residência, que para mim, era o coração de meu anjo. Por diversas vezes me vi soluçando somente a observar aquilo que fiz.
Botei um laço de fita nos cabelos, vestido mimoso e sapatinhos de verniz. Sentei na varanda, que estava iluminada por tímidos raios solares e esperei por ela. O relógio fazia tique-taque, tique-taque. Meu coração não fazia barulho, mas batia tão rápido, estremecia a cada sístole e diástole.
O sol sumiu, o vento entrou cortante pela janela ainda aberta; só conseguia ouvir o grilo a reclamar pelo lado de fora. O telefone tocou e corri com euforia, como criança em busca de doce, foi quando recebi uma notícia e pálida como parede recém pintada fiquei. Arregalei os olhos e não consegui respirar, fiz esforço mas a garganta fechou. Balbuciei blasfêmias tão altas. Emudeci. Andei com os ombros largados até a casinha, encarei sem expressão e comecei a destruir tudo, destruí o que pude daquilo que tinha feito com as mãos, com amor. Minhas mãos sangraram de tanto soco que dei no chão, arranquei cabelos da cabeça e não sobrou nada além de poeira de isopor.

Eu sou aquela casinha.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Meu poema

Quero que meus versos atinjam o colapso
Farei um poema sem traço
Sem forma
Poema sem rima, técnica
Sem palavras de efeito moral

Quero fazer um poema a pleno punho
As rosas que me perdoem, nele não estarão
Um poema que arrepie sem cautela
Nostalgize as crianças, moças velhas

Poema que seja ácido, com humor
Tenha, por favor, a seriedade de um doutor
Censura que me desculpe, não terei pudor
Quero um poema que fale do que sou.

Poema frágil como campos de lavandas
Bruto feito punho de homem trabalhador
Poesia enamorada
Dilacerada como coração de puta
Cálida igualmente flor

Poema que não simplesmente toque
Mas que fira, destrua
Palavras psicopatas
Que só matem se for de amor

Farei um poema sem eu-lírico
Sem final feliz
Sem história
Quero que fique na memória

Que meu poema seja chato
Porém não será forçado
Colocarei nele perfume
Para que não seja lido,
Preciso que ele seja exalado

sábado, 21 de abril de 2012

Bobagens noturnas

A noite está tão gélida, porém, não mais que meus olhos
Olhos que derramam lágrimas congeladas
Vindas de uma alma derrubada.
Lágrimas fantasmas que não ouso deixar ninguém ver
Veriam minha vida,
Eu iria morrer.

O copo de chá está quebrado
(o coração também)
Derrubei-o quando te vi passar, sem me olhar,
Devo lembrar que meu coração pulsa
Tão forte, tão violentamente.

Todas aquelas risadas que fiz questão que você ouvisse
Estão guardadas
em uma caixinha de música.

Continuo a tentar preencher todas as lacunas
São buracos enormes, necessito de muitas ferramentas
Preciso comprar cimento
Ou parar de lamentos.

Ando tão boba, fazendo rabiscos de teu rosto
Tentando imitar sua voz
Ou procurando cartas
que nunca foram entregues a mim.

Essas palavras você nunca irá ler
Memórias que eu insisto
Em escrever.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Repetição para perdoar

Perdoa se quando falo
Você não consegue
Ouvir.

Perdoa pois as palavras
Saem sem sentido
Para ti.

Perdoa pelo ciúme
Que sem querer
Te faço sentir.

Perdoa pois eu
Sou pequena e
Tenho problemas.

Perdoa se no frio
Não há meu corpo
Para te aquecer

Perdoa essa tua fome
Só nos resta
emagrecer.

Perdoa se há
Espinhos nas rosas
Que te dei.

Perdoa se não tenho noção
Contudo, perdoa primeiramente essa repetição.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

As larvas da tua língua

Que as larvas comam minha carne crua
Pois esgotada de toda hipocrisia estou
Pra que saber meu nome
Se quando as costas nuas virar
Infâmias você dirá?

Das palavras feitas de mel que lançou
Sinto o cheiro do fel escondido,
Respiro a mentira nas fendas das palavas suas
Sujas falcatruas!

É desnecessária a busca pela utopia
De repente vejo-me no meio de toda essa gente
Rindo de deboche, sendo fantoche
Falando da mulher que não tem pudor
Reclamando do homem que não sabe fazer amor.

Vejo-me em um palco, palhaços, bravo!
Que fervam as más línguas na panela da mentira
Aliviar-me-ei da fadiga, desespero, desabafo sem freio
Chega segunda feira e você finge novamente ser minha amiga
Eu, de iludida.


terça-feira, 10 de abril de 2012

Distante donzela

Ela tinha cheiro de alfazema nos louros cabelos,
Catastroficamente em teu seio vi m'alma feliz
O luto cegou os olhos meus.
Vi  meu corpo deitado sobre o caixão;
Suicídio por causa da desilusão.

Se tinha a plena certeza do amor
Morria por saber que envolvia dor.
Noite tanto, tanto brilhou
Perto daquela donzela, nada era.

Das rosas bonitas do verão amargo que colhi,
Donzela era a mais exalante que senti.
Das pedras duras que pisei,
Donzela era a mais preciosa e fria que amei.

Nada existe, só meu amor e o cheiro da flor
Flor donzela.

domingo, 8 de abril de 2012

Medíocre prosa

Olha-me como se não visse,
se faz de mudo
quando peço para falar
se imploro que emudeça
grita.

Usa de palavras rudes
a sutileza natural,
mata-me com a indiferença
de um amor descomunal.

Dar-te-ei uma pequena rosa
para você perdoar essa 
medíocre prosa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fábio

Fábio, amanheceu e fez um sol tão bonito
Os passarinhos
Gritam de agonia, sorria

Você é composto de notas de uma velha canção
Música que arranha os ouvidos, notas soltas; sem sentido
Oh! A primavera inveja seu aroma de rosas desnaturadas
Estou agonizando a falta que você faz
Na aurora da solidão você deve segurar minhas mãos

Minha pele é o pecado que vi em seus olhos de fogo
Meu amor desafinado é humilde
Onde sua paixão de homem sem regras desfaz
Desfaz meus planos

Navego distante na realidade a qual não existo
Você se desdobra
E me corta
Eu me desfaço de erros quadrados
Numa matemática sem respostas

A brisa gelada sufoca a minha dor
Você foi embora no sopro da morte
A sorte me abandonou e só ficou saudade
Degolando a felicidade

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ala da morte

Recebeu um telegrama avisando que ela teria que aparecer imediatamente em um hospital que cujo nome não conhecia, em outra cidade. Tão frágil ela era que seu corpo estremeceu. Suas passagens estavam pagas e no dia seguinte, com seu vestido de renda, foi. Ao entrar no hospital percebeu que era tudo muito diferente por ali, havia dor em demasia. Seus olhos estreitaram-se e ela se dirigiu ao homem que aparentemente deveria saber o porquê dela estar ali. O homem, com sua barba bem alinhada e branca olhou-a com indiferença. ela mostrou-no o telegrama, ele assentiu com a cabeça e começou a andar, de alguma forma ela sabia que deveria segui-lo.
Chegaram a uma ala em que as pessoas soltavam gemidos baixos, os pelos da menina rapidamente arrepiaram-se. Existiam muitas camas com pessoas tão magras dentro que isso a assustou. Ao chegar à última cama sua boca não conseguiu segurar o grito amargurado. Era ele, o irmão que havia partido e até então não respondia suas cartas, a única pessoa que ela tinha no mundo.

Ela apertou os passos e encostou-se em sua cama, seus olhos já estavam cheios de água, teve receio, mas pegou em sua mão. Ele estava tão magro e com olheiras escuras. Definhava, pois seus dedos encontravam-se duros, quase que não se moviam. Ela queria falar e gritar, mas o nó na garganta ia para dentro do seu peito dando um gosto amargo em sua boca. Queria perguntar porque ele não a respondeu todo aquele tempo e teve rapidamente a resposta: ele não queria vê-la sofrer. Agora, a vida da pequena menina era uma névoa escura e sem sentido.
Ele abriu os olhos e pediu desculpa com o silêncio, a menina não conseguia mais segurar as lágrimas desesperadas, sabia que não teria mais esperança dele bater na porta e agarrá-la até sufocar. Ele fez um esforço para abrir os lábios e os olhos acabaram fechando-se.
Ela sabia que ele só estava esperando-a para morrer.

Ela sabia que o irmão era forte o bastante para espera-la até agora, ele queria pedir desculpas por ter deixado-a tanto tempo sem dormir, por ter feito-na esperar ansiosamente suas respostas. O irmão da menina exalava o cheiro da morte, o nariz dela sentia cheiro de algodão molhado com naftalina. Ela sentia as tais borboletas no estômago, mas agora elas destruíam-no, debatiam-se incontrolavelmente contra as paredes de seu intestino.

O médico disse que a AIDS era uma maldição sem perceber que a menina já estava saindo da ala. Ela precisava morrer.