café e dores

café e dores

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

sou todas essas coisas, embora não o queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal

lânguida
escrevo a procurar

-  além de palavras
um percurso menos pesaroso
do que me é instituído
não por causa da falta seja 
sol ou pedra no feijão 
é coisa que não se acha
mesmo no fundo

local ocupado
até pra lamúria 
mas é um desconcerto 
que assim escrevo
um tanto óbvia 
como se a dor
alegoria única 
desfilando 
à perigosa insolação 
e cólera de ócio 
fosse atestado de óbito 

enrolo o corpo
em suor ou choro e
reconheço partículas 
que nos diriam
-  vá embora 
desisto de caçar
desculpas ínfimas
a fim de decepar 
essa ânsia mínima 
enquanto escrevo 
agora 
de me degolar
no fio das memórias 

título: fragmento n.30 "livro do desassossego" f. pessoa 

domingo, 29 de janeiro de 2017

devíamos dormir mais cedo

quando a noite gritasse em cores nítidas existo! e pelos morros visto que logo em ânsia na tardinha se incendia é ali que saberíamos chegou a hora só vamos beber duas por quinze e os amendoins torrados na mesa não tem fome disso só aquilo que a gente não sabe dizer que vai passando de língua em língua até que o dinheiro como alarme mande embora dos muquifos mas olhe a rua fica acesa os carros atrás de faróis não tão distantes a gente para no meio fio ou invade algum lugar oh céus que não seja meu peito mas as pernas essas vão nos buscar até que a essa hora voar é mais do que o tempo a gente esquece mas se lembra que enquanto recitar algum poema não é tão vão só quis dizer aquilo que nem dois litros tendem a soltar vai que a noite esquece de findar 

(e a gente se acaba) 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

voltas e voltas até onde vamos?

Se fosse só medo
de retornar à escrita
feito acesso
à senha
de um cofre inviolado

Não teria que revisar a memória
a fim de encurtar
essas voltas que esgotam
o repertório que criei

Mas é que dentro
do contexto
a realidade
me parece
distante
à medida
que declino
junto às palavras 

Soaria simples
percorrer quilômetros
à velocidade desgovernada
até um encontro casual
de intenções armadas
e despejar através
do mecanismo oral o que
me é impossível escrever

Porém 

É que se fosse
só um simples caso
até o discurso pareceria direto

Mas é sempre um outro assunto
Uma conversa
que agride
até quando o ponteiro
atinge o ápice
e depois disso
é aquela história

Corro demais

domingo, 22 de janeiro de 2017

se eu te dizer que vejo tempestade em forma de lágrima

Dei pra preferir versões mínimas
do que soaria indiscreto
dizer a ti tão indireto 
mas é que justificativas
são buscas exaustivas
depois que passa da hora de agir 

e a gente vai seguindo mesmo

nem peguei sua mão ao despedir
mas é que tava suando o sol
às vezes faz o coração bater rapidinho 
o clima incerto é só pra aliviar medo
que tenho de ser indiscreta
e te assustar mas isso é tudo
que não posso conter 

não ensinaram que é preciso
mais do que vontade pra continuar
e saber é tão bonito quando se sabe nadinha 
é nesse instante que o sorriso
abre até tempo nublado
e nem lembra do acúmulo das mágoas

"mas querida não seja tão rude assim com o que sente" 
só pega um fogo pra gente queimar 
seja lá o que do céu sobreviver 
senta deixa eu te contar 

fecha os olhos enquanto a chuva passa 

sábado, 21 de janeiro de 2017

se o dia 
por acaso 
levantar vermelho
coloca água 
pra mornar
o chá 
e pega o que tu gosta 

deita no sofá 
esquece o dia
o sono 
e lembra 
há motivo de sobra 
pra gente se esquentar 

descansada 
volta à cozinha 
enfia o saco
no copo apaga 
o fogo
depois o retorno 

rotina cinza 

sem nome

O corpo se desfez em fragmentos. Era isso que fazia existir a poesia escrita hoje, mas quanto ao tempo cospe os tecidos da pele que morre ao raio do sol, a mancha existia e vazia um novo corpo passar indiferente, mas os sabia sim era um pequeno pedaço de cor ali nascida. O corpo se desfaz em meus braços, o próprio corpo sim coberto de pelo e mancha. Dia seguinte. Vejo e não tenho olhos. Envergo as curvas da sobrancelha quem diria é o que passou. Foi um susto. Tremi e senti a fraqueza dos ossos em pânico as chamas, o ardor do verso oral. É como um breve sonho 

inominável.
pode parecer egoísmo
falar de mim
à essa hora 
mas é que 
falo de 
você 

então dou prioridade
a qualquer voz
que soe nítida
ao escrever
você 

qualquer parte
que vive 
e morre
aos pedaços 
e eu entro
descrevendo
você 

nem precisa ler
pode parecer
que sou eu
mas não
é
você 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

E além das coisas ínfimas dentro da bagagem 
Papel de ingresso, comida envelhecida, 
as vezes guimba do cigarro que a gente fumou sem assistir 

As vezes paro e sequer penso
É que o pensamento cai como um toró de verão 
na ânsia de te falar dessa faísca presa 

Além das luzes de outros prédios 
é possível que veja seu rosto refletido num quadro grande 
exposto na sala do vizinho 

É porque aceito seu tamanho em tudo que couber pensar 

que exista espaço pra parar... 
descansa enquanto a fumaça sobe e o motor aquece 
a chama viva 

Você sabe as vezes morrer
É pequeno


breu

Estou na escuridão
Mas você vê
Tão fundo
Que subo pra te ver
Na superfície
Só o vácuo 
Ciente
De que a luz apaga
Você pisca
E o mundo retorna
Ao eixo
Mais distante
Subo
Até o cume
Procuro
Onde está?