quinta-feira, 28 de maio de 2020

transpassar

sou toda a sensibilidade 
que a língua não alcança

verbo
trans
passado

ainda que pudéssemos 
retornar
ao amanhã, 
seria luminoso ainda? 

ainda somos os mesmos meninos
que ousavam se dizer sábios
e as luzes a sombra
o susto de voltar à mim à você 

quarta-feira, 27 de maio de 2020

adormecer

ao dormir meu choro
se permite ser 
mais confortável 
estou resignado 
em um sonho 
confundo as espadas 
e as orações, meu corpo 
generoso se fastia 
do cheiro das mangas 
pela manhãzinha 
quando os olhos 
estão estupefados
e o coração verde 
a despedida 
para depois 
quando estivérmos maduros 

domingo, 24 de maio de 2020

escrevo para não me distanciar 
dos meus deslizes  
para que seja perdoado 
o retorno 
o coração ferido 
por agulhas 
e linhas tontas 
o ronco do amor 
no centro da barriga 
não saberia a que hora 
nos despedimos
estamos atrasados? 
mas é quase lento 
esse infarto 
em que dormimos 
entre as mãos 
daqueles que teimam 
o abandono 

ilha

foi em paquetá olhando para o mar 
que eu ouvi beatles ao lado dela 
acho que é por isso que os ouvidos 
são dois e que o coração 
é do ritmo ouvido da ilha 
também caminhamos pelos túmulos
e pelo silêncio abrigável das casinhas
tanto sorriso e calma e mistério
eu poderia dormir entre as pedras
sem temor por não ter uma cama 
foi nesse dia que a barca parecia 
nos querer roçar e temer naufrágio
e que o túnel de volta pra casa 
parecia muito deserto 
era o sentir desolador de terminar 
uma aventura e ter de voltar 
para onde a praia não estaria 
aos pés do ouvido 
ouço a nossa trilha 

quinta-feira, 21 de maio de 2020

terra

vejo os olhos dela nublados
ao fazer menção ao meu descuido
mas ela levanta e se curva
para me dizer que sou abençoada
não posso evitar na minha voz
aquela fragilidade que desfilava
e se poe no parapeito para filar o sol
será que leu os meus poemas?
parece que derramei todo o leite do peito
com os dentes afiados, mas ainda é cedo
para me desgarrar, ainda sinto que desistir
nunca foi a palavra, por entre atos irrecorrigíveis
suspeitava da aurora que brotava dos meus espinhos
eu que sempre fui delicada, não sabia a hora do hematoma
entre os meus ousava engatinhar como quem gargalha 
do parto e de partir, vejo o meu semblante borrado 
e por mais que tente distrair nunca vou poder fugir
ou quem sabe rabiscar o meu registro

e não quero mais esse desterro
do esquecimento prematuro
que não escolha o meu nome
eu vejo o destino escancarado
quando me deito e escrevo
que nós somos o alívio
quando os olhos estão secos

terça-feira, 19 de maio de 2020

eu queria estar muito mais perto 
de você além dos poemas 
os quais nunca dediquei ao seu nome 
posso não ter sido muito franca
quando a gente sorriu e eu virei o rosto
enquanto caçava borboletas na piscina 
e você me assistia assinar as cartas 
as quais nunca seriam entregues 
ainda sinto o cheiro do seu violão 
clareando os rostos transtornados 
em volta do meu coração 
eram as nuvens que anunciavam 
o dever de partir antes das flores 
antes de ouvir você dizer 
que eu não devia ter chegado tão tarde 

Final de Festa

poetas desgraçados, roucos ou
românticos? trocamos socos 
e vendemos bala de espuma
talvez você tenha se sentido 
uma merdinha na Baía de Guanabara
ainda provável à contemplação
do terraço do Shopping Escada 
lá de Botafogo eu poderia dizer
que a entrada para o filme da tardinha
nos renderia uns chupões, 
biquinho do peito e pau duro 
nos renderia uns empurrões 
com certeza ou nenhuma 
enquanto a vida diante dos olhos
parece essa rotação aos nossos pés 
os corpos estariam rentes 
mas as mãos seguram um sorvete 
que derreteu antes de chegar à casca 
você deve ter se sentido aliviado
quando a corda apertou 
e quando o cérebro apagou 
quando a festa nem tinha começado
ah, você deve ter pedido para parar 
no meio da dor quando ainda 
nem havia começado a última valsa 

M.

Por algum tempo achei que tinha te perdido, que toda a glória de ter lido o seu traço no mundo do meu coração faria parte de uma trilha distante, e que teria de me contentar com fragmentos seus que mofavam na biblioteca. Mas à meia-hora ou meia-noite eu te reencontrei, pensei ser uma vertigem por delírio da saudade, você havia trocado de nome, e de endereço, e de lugar dentro de mim, mas é a verdade que encontrei você novamente. Você que eu simulava que talvez não lembrasse e que deve ter mudado tanto os móveis de dentro da sua casa móvel que propriamente ainda deva se desconhecer, você que eu não mais ousaria dizer que amei por medo de amar ainda mais sozinha, você que ainda mantém a mesma cor de caneta, e o mesmo rasgo na costela, a mesma coragem de seguir enquanto eu ainda temo tê-la deslocado para um lugar mais silencioso do que a memória. 

segunda-feira, 11 de maio de 2020

não à ditadura

o meu estado está dopado
de autoritarismo escancarado 
achei que só veria o passado 
nos livros de história

a humanidade vociferada 
no pulso ódio encolerizado 
estampam a bandeira
do meu amado estado 

não será preciso que me dê 
o cigarro, o verme come 
e rói os meus sapatos

meu espaço foi engolido
pela latrina de um pseudo-governante 
que se julga mito 
sendo na verdade um delirante 

não tirarei a camisa de molho 
não irei recolher ao toque
direi não a tudo o que me impede 
da liberdade de fazer escolhas 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

curtida

poemas curtos 
não saber por onde começar 
mas saber que além 
desse horizonte ocioso e árduo
nossos beijos adormecem 

amendoeiras

quando tudo tiver fim 
e se o fim for tudo 
teremos o nosso recomeço 

as baladas mais tocadas 
o cheiro de beijo
o gosto dos amassos 

deitada debaixo da amendoeira
as mangas em nossos calcanhares 
a boca que fala mais do que cala 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

adeus, sono

a última luz do dia 
dormiu na lente dos seus olhos
quando o céu parecia dizer 
a luminosidade que surgia do fogo
e da minúncia com a qual 
eu te discernia 
a cabeça inflamada 
de poemas morosos 
de amor que te envio  
sem cobraças 
os planos rabiscados 
a cama deitada 
não saberia despedir 
sem ir embora 

até a eternidade

cheguei a tempo de te escrever uma canção
o sol sabido abriu teus panos
despida a poesia alinhada a teus lábios
a carne da boca avenida da saudade
muita bandeira e muitos planos
toda revolta é o anúncio
de que acordamos
para onde iríamos
se não fosse o corpo
o que bebemos
se não for o cálice
a minha mão no teu comprimento
nos despedimos até amanhã
até quando a cicatriz
não calo o nosso canto

verso nada

toda paixão
se desenrola
nos dedos

toda mensagem
se elabora
no contexto

desinibida
a canção
se versificou

a melodia
aturdida
se revela 

o cansaço
depois de gasto
te levantaria 

as canções
são emblemas
dos sorrisos

domingo, 3 de maio de 2020

será o que

todos saibam
dos seus carinhos
assim todo o mundo
choro junto 
todo lábio
faz festa 
a gente
se entrega 
sem saber
a quê

quem sabe
canto mudo
uma parede
bem discreta 
meio do céu
nossas bocas

quem sabe
o que será 
que será
de nós 
se a gente
se esbarrada 
e de repente
quem sabe 
o que será 
que será 

extraviada

cheguei
ao teu ninho 
feito ampola
sabor tutti frutti
eu cheguei
no teu carinho 
acanhada mansinha
enterrei meu coração
no teu calo
fiz uma extraviagem 
o sol brilhando nas estrelas
quem sabe o céu 
os Recifes e as Montanhas
de uma forma muito estrambólica 
eu me peguei sonhando
madrugada o sol quarando
as roupas no varallll
tem muita coisa linda
no pão, na rua que vai descendo
no sonho que vai nascendo
a solidão esse refrão

sábado, 2 de maio de 2020

Bateria

Um samba enxuto 
Eu fico sem palavras
O coração não sabe a hora 
De te encontrar 
Que seja só agora 
Uma palavra
Uma mensagem 
Vem simbora
Uma canção 
Uma saudade aqui agora
Teu coração
Eu perco até a hora
De te encontrar 
Vem simbora essa é a hora
De encontrar 
Teu coração bate aqui na porta