domingo, 30 de agosto de 2020

Torquato

estou cansada de morrer 
sinto muito  

o tempo está engomado 

as horas agora amadurecem de acordo
com a minha assincronia 

desamasso o tempo 

cuido ser lembrada 
pelos poucos 

como aquela engatinhando 

que vislumbrou a luz inteira 
decidindo cerrá-la 

dilato o útero da fênix 
reacendida 

sou o pó e a verdadeira cinza 

eu sou ainda a passagem insolusável 
chão mastigado 

estou cansadérrima, 

ainda é tempo 
a minha hora de viver está passado 

sábado, 29 de agosto de 2020

EU

minhas mentiras usam o ato da verdade para existir

escrevo, atuo, construo o meu papel 
torço as palavras contra o meu favor

e me revelo sem a nitidez 
das lentes, 
dos espelhos ao redor cravados 
nos rostos,

me reconheço desigual,
o mundo assim me reconhece,
como se já existisse uma igual a mim  
que não me pertencesse

mas que fosse mais apurada
do que o gesto do próprio existir 
(o meu) 

uso muitas vezes o eu,
ao me repetir busco encontrar 
a minha diferença, 
o meu momento preciso de indecifrabilidade 

são nesses encontros de fragilidade pura 
em que o reflexo se confunde,
quem eu sou 

o que arrasta a minha escrita

não mais minha
já não precisa  

sou todas essas cópias de uma só palavra 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

noir

você me conduz à fila do cinema, 
eu escolho o filme mais nonsense 
arrisco ser o seu palpite: 
me ver agradada, 

antes de irmos às profundezas da sala 
te guio à barraca dos doces, 
mais sal na manteiga, 
mais pipoca no pacote, 
te deixo na fila do banheiro 
com a mão no ingresso, 

penso no espelho em não voltar, 
tenho pavor de te beijar no escuro
e conhecer uma nova época, 

tenho receio de criar um filme 
na minha cabeça, 
que faça mais sentido, 
que me faça pensar em sentir 
vontade de acender as luzes, 

assim apareço com as mãos úmidas, 
temo entrar em contato com as suas 
evito movimentos descuidados,  

assim então deixo você ficar com a pipoca
aliada ao corpo me parece seguro, 
e aperto os olhos nos números das cadeiras, 
percebo a nossa distância em relação aos
outros, 

vejo em câmera lenta sentar-nos 
no mesmo ritmo, 
não me permito falhas - por nós, 
tateio o controle, 
esqueço estar realmente perdida 

acho que o filme termina ou é o início 
do meu desespero, 
ninguém se levanta entre nós 

e eu só sei que você me faz uma pergunta 
e eu só consigo 
ainda sem olhar 
dizer que o melhor do filme 
é a parte em que a gente se encontra 

os lugares da memória

você consegue descansar 
ao pensar me ter amor? 

eu não conseguiria
ser passífica 

depois de você 
ter nos trancado

embora 
pela porta 

à outro bar 
tenha seguido 

ainda não havia 
frequentado 

essa saída 
há sempre alguém esperando

mas eu te compreendo
só um pouco, 
só para dizer que compreendo 

embora 
antes que conferisse 
pelo buraco embaixo da porta  

eu voltaria 
embora 

seja muito tarde para achar 
outro lugar que esteja aberto 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

cortes/

deixo o cigarro apagando- 
se 
te espero ter-
minar as conjecturas 
sobre 
os poemas 
fala-
dos demais 
de-
certo o teu olhar 
a-
traz algo 
da morte 
e do pequeno
prazer, 
de-
certo eu não sei 
por onde
ter-
minar 

esferográfica

deixo escapar os poemas 
as pontas dos dedos 
azuis
me encaram de lado
acho o céu 
e o seu olho
um só traço 

mas os poemas 
por mais que me escapem
ainda beijam 
os dedos 
os olhos revirados
sinto muito tudo
azul 

Absolvição

Em tom pagão Drummond 
Que resignado buscava além das pedras
A lapidação da própria pedra 
"Chegou um tempo em que não
Adianta morrer" 
Não é por mal que te digo
Sobre o lugar da angústia 
Em que estamos ancorados 
É o tempo em que morrer 
Não é mais preciso 
Nem mesmo nos arrepender 
O perdão não mais existe 
Pois não há pecado 
Não há mal algum na fala 
Mas não diga que não avisei 
chego à beirada, 
o esboço aceso 
e a fundura das águas 

em chamas 
os livros
foram eles 
que queimaram 
as minhas mãos 

te faço ardências, 
incendiada pelo aspecto
bebericado da manhã  

não falarei de mágoas 
dos pássaros pesados 
- petrificados estão
em movimento involuntário 

na gaiola do meu 
intestino fino
há uma constante hora 
em que o sono
não adormece 

está revirado, 
atravessado nas águas 
a boca de um vulcão 

domingo, 23 de agosto de 2020


vejo mais do que as flores no seu sorriso
tem aquele pássaro descansando 

emergências

vejo a vanguarda com seu guarda-roupa
de novas alegrias, o psiquê que ficou
lelé da cuca, o braço cheio de furos 
e os furos que a gente deu na vida 

há tanto que buscamos não voltar atrás
mas há quem se arrependa e siga 
há quem parou no meio-fio da avenida 
Atlântica nunca foi tão deserta 
e existem aqueles que além do horizonte
não fecham os olhos, se inclinam 

vejo mais do que as flores no seu sorriso
tem aquele pássaro descansando, 
a goma de mascar e a ferrujem 
ainda não te levei pela mão na despedida
foi pela entrada descoberta a saída 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

desperta

volto a ver os seus olhos 
de intensa raridade

minhas pálpebras desérticas 
o mundo parece de uma secura

deserto igual ao que vejo 
a terra o imenso desterro 

nunca pedi que partisse 
mas abri os olhos 

e o peso dessa aridez 
me faz coceiras

me irritabiliza 
nunca pedi que me abrisse os olhos 

domingo, 16 de agosto de 2020

ternura

pego as fotos da minha infância 
dentro de um moisés, 
pelas mãos da minha mãe 
aprendi a navegar 
no tecido da ternura 

eu surgia como quem estreia
a própria vida 
vestida demasiado tecida, 
radiante, como quem nasceu 
de uma estrela 

e em mim foi crescendo também
a vontade de costurar 
o meu próprio afeto

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

mapa

você me mostra o peso 
das suas mãos leves 

o susto de querer as suas mãos
moldo 
minha superfície 

e não me contento 
com os mapas
aonde fomos é além 
aquele lugar que chamamos 
            de escudo

escolho as suas mãos 
            e me encolho
num lugar de pouso
na aresta de uma cidade 
ainda não delimitada 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

quero compartilhar uma mensagem contigo

o que posso fazer 
para te ver mais de perto? 

lembrei daquele sonho da banca 
em que via os lados e só via túnel 

então retornava com uma maleta 
cheia de caminho na mão 

foi quando lembrei de acordar
e ainda te enviar o meu nome

mas à essa hora não retornamos 
os telefonemas e os cobradores 

nesses instantes eu quero voltar
a roncar em seu peito de gato
distanciado e rancoroso

é nessa vida que eu percorro 
a estranha sensação de não ir 
embora esteja muito distante 

embora partir seja apenas 
mais um gesto
de compartilhar a saudade 

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

das mortes morridas

das vezes em que morri 
foi a de saudade
a morte mais longa, 
dessa palavra criada 
para tornar mais gentil 
o jeito em que sentimos
o coração dentro de um tanque 
debaixo d'água
se debatendo 

ouveram mortes mais catastróficas
como quando morri de esperança
e assim como quando se espera 
neve no deserto 
eu fiquei no terminal
esperando ser atropelada 

e vocês esperam que eu diga 
que eu morri de amor 
mas é nessa morte 
em que me encontro 
é morrendo de amor 
que eu aprendi a viver 




quarta-feira, 5 de agosto de 2020

rampa

em algum lugar as palavras 
não se repetem  

o meu corpo inflama ao tempo 
desacostumado 

mover os braços, o ato egoísta 
aquele cujo não me permito 

apesar do cheiro de gás no almoço
não encontro vontade de me mexer 
nem para separar o arroz 

você poderia estar disposto a entregar 
as cartas ou andaria de skate em cima
do meu peitoral?

você comeria o pão do diabo
ou diria amor que não devo te chamar
de amor? 

em tempo de seca o meu coração
parece uma folha 
perto do fogo
em direção ao vento 

terça-feira, 4 de agosto de 2020

onde as ambulâncias não ligam as sirenes

você lembra das minhas tetas apontadas
ao horizonte, tristes 
dos três tigres
do cansaço das ambulâncias  
e a velocidade dos carros vermelhos 

você me disse que ninguém tinha 
mais livros do que eu 
e eu lembro que ninguém 
tem tanta tristeza 
apontando à essa luz e hora 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

enfeitados

lembrar das noites iluminadas
dormir sob o seu nome sonífero
sonambular pela noite enfeitada  
ainda não esculpimos as palavras 
que residem em nossas pálpebras 

mas vou me distanciando das estantes 
ainda guardo o relógio no bolso
e a rosa da folha de goiabeira 
você perambulando sob o teto
ainda teríamos de secar as roupas

os nossos rostos de espuma
e os pulmões encardidos 
é muito tarde para dizer que não seríamos
os velhos pirragos dos automóveis 
ainda é por entre os dedos que fizemos
o que os laços fazem aos cabelos 

domingo, 2 de agosto de 2020

banho de chuveiro

me distraio com as chamas casualizadas 
pelo meu insubordinado coração
faz tempo que o frio não me faz tristeza 
eu me sento na beirola da cama 
e me delicio com a delicadeza das cores
das capas dos livros que me encaram 
eu decido tomar um banho 
e me irrito com frieza do chuveiro
mas eu não me sinto triste
pelo contrário me lembro que ele 
nos dias frios não toma banho
e não ama também 
mas independente da limpeza ou do amor 
eu me distraio com o meu coração insubordinado 

sábado, 1 de agosto de 2020

kafka

temo pisar em você
se movo os tornozelos
já estou no meio da estrada 
nada me distancia dos desequilíbrios
mas eu vejo você tão de perto
corroendo 
onde você se encontra?  
se eu soubesse 
seria mais simples desviar
ou não simplesmente acabar com você

temo te machucar 
mas se levanto 
esqueço dos meus sonhos  
e antes de abrir os olhos 
a sua imagem se apaga junto
me dando bom dia com as patas 
você se esconde quando vê a luz 
você não quer sair 
e o meu quarto já se tornou pequeno