quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

o que quero ser quando crescer?

pode ser que tenhamos nascido 
para o mundo feridos 
o desenho de flor, 
tristeza dos poemas, 
ao olhar o mundo sentir o mundo
ao olhar para nós 
o que é esse sentimento sem nome? 

o último poema

o último cigarro do dia é na cama
coincidentemente o último poema 
é quando você se encosta de lado 
decidido a esquecer meu rosto 
escorre o seu líquido e eu me reviro
é como uma ânsia que me confunde 
o que eu sinto quando nos avisto 
e eu volto ao plano de me autosabotar 
indecentemente eu retorno a tudo
e a nada como se fosse o primeiro
cigarro, homem e delírio 

domingo, 26 de janeiro de 2020

espero retorno

espia essa vaga imensidão acumulada 
entre nós, somada à distância irredutível

essa grandeza é fruto das coisas
pelo amansar das ondas deixadas 

perante ao que chamemos de afinidade
sobras e silêncios; 
nos confortando, 
braços encolhidos e a languidão

talvez fosse possível que o tempo
se acertasse por nós, e o mundo 

espero que não esteja tarde demais 
visto que ainda é tempo 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

o dia parece acordar
reviso o relógio 
esse grande olhar 
de tocaia 
percebo a claridade 
dentro dessa cúpula
é natural que espie 
pela fresta 
o acordar do dia 
e perceba a preguiça 
o esboço do bocejo
o repouso do galo 
hoje o dia acorda 
e me despeço 
imaginemos essa solidão inodora 
sitiada no recanto de nossas sombras 
as vossas falhas tão insípidas 
imaginemos as bordas da boca 
rendendo o urgir do tempo
aspas e textura do peso do céu 
os olhos a chegada da noite sem fim 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

páreo

espreita essa nebrina 
invadindo 
o teu covil
e arrebenta a borda da proa 
são muitas as histórias das bocas
e o volume desse pacote cruzado 
em teu pescoço 
espia a confusão apartada 
ao recolher teus panos 
e a retina em disparada
anuncida a partida 
essa delonga deternada ao fim 
e o início preterivelmente estático 
repara o contorno do passado 
a astúcia das feras naturais 
arque os teus sonhos 
e os planos que sejam 
aguarde a chegada 
mas segue teu coração 
órgão fundador da sua pátria 

praia desconhecida

me firo
te feres 
nos ferimos 
e ainda a delicadeza 
a tocar nossos olhos 
a mostrar o azul da praia 
e dentro do coração 
ousemos dizer 
- ainda bate! A
ouço o teu ruído 
uma praia muito tranquila 
e o bater do peito 
e o suave acariciar 
e os lugares desconhecidos 
e nós 
e essa vontade 
e e e... 

4 paredes

é bem verdade 
a minha solidão 
é tão solida 

a companhia 
da minha poesia 
é a minha solidão 

então por isso 
eu não fico triste 
de ser só 

eu invento romances 
que só foram vívidos 
nos meus papéis

eu vivo tão isolada 
que os meus beijos 
são de gesso 

meu coração 
é quatro paredes 

gosto da sua poesia

gosto dessa imagem 

bateu um choro porque vó voou

porque os olhos iguais ao céu 

tempestuosos 

batem 

no meu rosto 

o retrato é uma peça 

sem ato 

nos inventamos a qualquer instante

não preciso negar o teu suspiro

tua proteção indiscreta

que me descontenta 

teu jeito de censurar as palavras

se o que tens por mim é afeição 

ou face contorcida

o que dirá se eu acreditasse 

ser amor o que vomita?

e mesmo que fôssemos dois 

a criar uma linguagem súbita 

não precisaria dizer que me despeço 

devia ter quebrado a tua cama
acho que tu precisava desse
empurrãozinho
devia ser esse o motivo do medo 
de adormecer 
comigo tu tinha medo de amar
mas entendo que seja difícil 
não que eu seja difícil de amar 
acho que muito pelo contrário 
e esse era teu medo gratuito 
tu amando sem querer 
e eu sem querer amando 
assim até a cama não sabe se cai 
ou se dorme primeiro do que nós 
o outro me fez desenhos 
eu estava pronta para ir embora 
e ele fechou as portas
medo eu tinha de querer ficar 
devia ter quebrado a tua janela 
tu precisava desse empurrãozinho 
devia ser esse o teu medo de mudar 

quando

quando você chegar 
a estação estará transformada 
em algo que as flores dirão 
ser a novidade 
encontrará o ponto vazio 
estarão embarcados 
os que temem 
o bater do tempo 
enquanto você chega 
o pão estará fermentado 
e o forno frio 
mas ainda comeremos 
a nossa fome do encontro 
talvez você me encontre 
ou encontre a despedida 
quando chegar 
a chave pode não encontrar espaço
na fechadura e no meu lugar 
eu não retornaria 
mas prevejo que algum dia 
você irá chegar 
mas quando esse dia chegar 
pode ser que não haja mais lugar 
ou versos que rimem

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

solilóquio

faz tempo que busco regular meu sono
há algo em mim que não inquieta 
fico pensando que são os poemas 
não posso deixar de escrevê-los 
sinto estar cardíaca e mais humana
tenho feito de confessionário 
meus versos e devidamente me assombro
logo eu que tenho gosto por tudo
silencio e acostumo aos diálogos 
logo eu que observava a partida 
com os olhos e o coração silenciado
sinto a ânsia de que vejam esses papéis
avulsos em meio às multidões 

domingo, 19 de janeiro de 2020

ou famigerada pela chama

é natural que me sinta deslocada 
nos lugares comuns 
em meio às civilidades 
ou ao que chamemos de conversação 
poderia me entreter melhor 
com as pessoas em cima de uma cama 
que me entenda melhor poderíamos
sonhar pela eternidade
mas ainda é preciso definir 
por qual caminho da linguagem
estaríamos agora 
qual nome dariam para as mesmas
vontades vulcânicas 
os homens pólvora ansiando 
o soar estrondoso de sua passagem 
no mundo
outros passavam a vida buscando
comprovar suas vontades 
e eu estou distante da poesia 
da qual pretendo enquanto não explodo 

abre as janelas

ainda não é tarde 
embora as ilusões 
e a vida tenham começado
a dar as caras 
mais enumeradas 
mais egocêntricas
despretenciosamente 
do que no tempo da infância 
posso chamar de amor o que viveu 
esperança o que virá 
neste instante 
ainda é cedo 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

eco

dentro de mim as ilusões serpenteiam
você me grava uma canção 
e se torna mais distante 
além das árvores e dos pássaros 
além do nome que eu daria ao poema 

você me mostra a sua voz 
no tempo de um silêncio 
no tempo da rádio sem estação 
às cegas eu percebo
como um lugar desocupado 

sábado, 11 de janeiro de 2020

as cartas jubiladas

as cartas não seriam entregues
ficariam guardadas com o seu remente

seu nome de destinatário
permaneceria intacto

apenas  a imagem da leitura
do rosto se contorcendo

a oralidade envolta dessa paixão
que não é mais novidade

eu tinha acabado de imaginar o romance
e me pus a escrevê-lo

como ferida que nunca sara
eu retorno às cartas

e volto a atravessar a rua
e ir à padaria

na minha poesia
ele existe

na minha cabeça
ele remetente

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

poderia jurar que dizia sobre cálculos da matéria

tive tempo para pensar no poema
ou não o suficiente
mas eu me lembro daquele esquema
eram as palavras
e o som que soava
era praticamente viver
mas dentro de uma livraria
eu recebia um sorriso
e o silêncio permanecia
escrevendo os passos
espero mais e calculo a próxima incógnita

é um longo caminho

é lindo como em nossa língua
dançar soa transar
com você
fugir é foder
caminho é uma longa história
o tempo curto
morrer viver
e que se entendam os poemas

praça sem fim

queria que esse cigarro fosse infinito 
poderia ficar o dia todo nessa praça 
sem que me olhem a perguntar 
o que estou a fazer aqui 
eu não preciso ser eterna como esse cigarro 
nem tão nociva 
nem tão efêmera 
mas o meu tempo também se acaba 
mas olho para as pessoas a minha volta
e aquele bebê sorri com a vida 
aquela menina torce a lágrima 
e essa banda tenta pagar o disco 
depois do show terminado 
não precisaríamos dizer mais nada 
mas prefiro também ir embora 

na minha boca poemas

em catalão poema é jardí
não posso apagar o arquivo 
de um diário no qual 
eu não queira mais ler 
seria uma obsessão 
o que possuo 
com o poema? 
para mim 
faz todo o sentido 
que no jardim brotem flores  

domingo, 5 de janeiro de 2020

pontos finais

é como se o antigamente 
tivesse nos modificado, 
as nossas falas são outras 
e nossos interesses

pode ser que ainda tenhamos 
algumas coisas em comum, 
eu olho para nossas mãos 
e percebo o quanto ainda 
continuam inquietas, 

eu vejo nossa varanda 
e ela ainda reflete 
a luz do mundo 
esqueço a que vim
e findo a escrever 

sábado, 4 de janeiro de 2020

Nirvana

eu tive um sonho com o Raul Seixas
ele sentava à nossa mesa 
e me pedia para contar sobre a sua vida 
eu lembrava de detalhes 
um paparazzi dizia
serão póstumas essas fotos 
eu dizia algumas coisas invertidas 
e a mesa sorria e nós 
vivíamos a alegria de um sonho 

sarau

depois de recitar no bosque em poesia
eu vim com um sorriso e 
disse que parecia triste 
eu continuei sorrindo
não mais existia àquela hora 
e depois eu não sabia o que estava sentindo 
mas eu continuava a sorrir até me despedir

eu sinto muito

você sente isso que estou sentindo
essa dança e essa noite 
esse som do marítimo 
você consegue me ouvir 
mesmo que falemos bem baixo 
consegue ouvir esse clube 
essa noite essa dança 
então dança comigo 
deixa a noite falar 
você consegue sentir o que eu sinto 

amada

você não precisa sorrir depois de beber
você pode dormir em seu conforto
você pode publicar mais livros 
só tome cuidado com a rua 
cuidado para não se perder 
cuidado ao procurar amor 
eles estão dentro de você

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

só então...

não devo me espantar 
com a agilidade desses amores 
e a fugacidade dos olhares 
que se esbarraram e se abrem 
em cima de um colchão 

feito botão que acaba 
de conhecer o outono 
posto que o amor é chama 
e queima quem o vê e atende 

são lindos esses amores 
e esses blêfles 
esse susto vem com a naturalidade
da qual eu me deito 
e prefiro estar desacompanhada 

e que prefira me consolar sozinha 
por eu própria com minhas mãos 
é melhor quando eu me toco

esse susto devia surgir 
da minha solidão 
mas não é bem assim 
esse silêncio 
foi eu que proclamei 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

te amei como pudéssemos

te amei a todo tempo
o tempo todo
inteira toda
te amei e nem sabia
que te amava e sabia
mas quem sabe?
quem sabe se o amor
é o que eu sentia ou o que dizia
se é amor o que se sente ou diz
quem sabe se amor
é isso ou aquilo
se a gente encontra
ou perde alguma coisa
dentro de nós
ou se é amor
o que há

veraneio

uma volta inteira no sol, dias e dias de nuvens,
o verão entrecortado entre o calor da nuca
e a revolta do homem frágil pela condição de homem
o bebê que pede colo e carícia da temporalidade,
o retorno da ventania e muita carícia,
são tantas coisas que eu poderia te dizer
que não foi preciso decorar,
foi mais do que necessidade ter de te olhar
e ainda evitar revirar-me
e ainda fugir de encarar a noite
que entrava em nossos corpos desprevenidos,
nossos copos e nossos brindes
somos muita sede