café e dores

café e dores

sábado, 25 de março de 2017

amanhã

seja delicada comigo 

por todas as vezes

que sair do sistema

em desarranjo te dobrar 

as horas do relógio

por longos dias

nem se contam ainda hoje


só vá breve enquanto os barcos

abarcam os destinos

mais distantes que estejam 

horizonte

é pouco então 

mas é preciso carinho

só até o dia acabar 

e assim renasce

tão pequeno

doce sol 


sexta-feira, 24 de março de 2017

florescer

se te aparento desatenta quando cruza os braços e desvia o caminho dos olhos indignada é por mero devaneio desse sentimento que me é dificultoso nomear

por falar nisso é que não digo mas soletro seu nome em segredo de modo organizado abro as portas sem facilidade mas se te prevejo na sombra dos vãos é ali que arrombo até as passagens do abismo pra te assistir

assim como uma miragem no calor do deserto do corpo te descubro incisiva e vasta. pondero o quanto isso me penetra e destranco o anseio pávido pra te receber inteira, instauro as digitais dos dedos úmidos em mim como quem instantaneamente derrete de medo do abandono

reviso sem exceção as curvas embora prefira aquelas dos traços que desenha sem compromisso de assustar sábia da força que proporciona e me mantém, esse amor comprimido

é disso que temo quando o tempo fecha e você dá sumiço assim feito sol triste sem contorno. é quando te parece que em pleno desastre simplesmente mudo enquanto que no absurdo lá fundo, em mim te inscrevo


quinta-feira, 16 de março de 2017

mari

no momento preciso 

da escrita 

me é difícil 

a tarefa de te escrever 


é que diante de palavras

as memórias

surgem como fotografias

esparsas nessa fundura

Incansável 


esboço de perfil 

tragos recontados 

correio das lembranças 

o alcance impossível 

do poema incompletude


olhar distraído 

gesto

mero desvio de rota

bate à porta 

chegar ao coração


o poema vive

no espaço destinado

aos versos mudos 

em repouso no tempo

da prosa 


confuso 

desprende 

o sentido das horas

e revive nossa história 


te escrever 

é reviver 

e viver

é simples morrer de -

Mãe

Tarde e quente dentro do período que nasce em plena janela de cada espaço que reservei pra você, lentamente, nos poemas de afeto. O maço vermelho achei na boca da cachorra pequena do lar, que carrega também seus cuidado pelos cantos mutáveis da casa. Trago pra você ver o relevo de gratidão que não se expressa por palavras, é por isso que talvez me calo, e a noite prestes a desabar. A batida na porta, seu peito alvoroçado pela passagem das horas, seu jeito de falar como quem ama todas as vezes de uma vez só. Na cama de casal seu corpo vívido macio embrulhado, no topo das mãos além de rugas apontam também direções que sequer segui mas governam os passos. Desabafo do vento lá fora sem rumo a nos seguir. Eu te penso em tudo. Você em mim eu saindo de ti pela porta. Você e eu na praia que vento bom te sentir tranquila debaixo da barraca sentada me deixa molhar teus pés. Te penso em terminar esse poema sem ferir o choro que desagua como fonte de milagre mãe. Te penso no correr do tempo que bate mais forte do que onda brava, e o relógio na parede - as nossas falam. Seu teto, meu chão, o tecido que te costura, abençoadas são tuas mãos.  

sinto os dias,
tanto em particular as palavras,
evacuarem por tudo, 
do outro ângulo ali entre dedos, 
quem sabe o andar tenha sido atingido 
visto que vago é mais sem saber 
o porquê de irmos

como, não se ousa questionar 
onde ou quando, 
a gente escolheu parar? 
aceito todo argumento, 
e limito meu som, 
assim vou minando aspectos singulares 
que soariam afrontas à comunicação

dois corpos e essa 
distância conhecida 
por mínimos fins trágicos 
será que sequer fomos livres?

é possível enredo, 
entretanto retorno às palavras, 
em transtorno e indolores, 
despindo a narração intocada 
até por quem constrói essa estória

pois bem somos nós vividos 
de mormaço e um quarto de medo, 
sequer livres do discurso rente, 
por descarte involuntário, 
nus de fantasias

fomos todos que desistimos 
somos
e cada vez
se desconhece
onde veio 
não sabe se vai 
é parte do medo 
é quase sempre 
fim

assim vão
os dias
e você

por aqui? 

segunda-feira, 13 de março de 2017

signo

penso que seria simples dialogar contigo de modo legível 
a fim de que nossas línguas cruzassem

mas no entanto as bocas são involuntárias e dificilmente cederiam 
ao ego dessa comunicação passageira

afinal o romantismo perdeu vez desde as publicações na coluna jornalística 
sobre a criação de um modelo prático de amar tranquilo

mal se sabe ficamos tarde por onde deixasse nós ali 
feito estátuas sangue quente e suor um gelo

medo dos sentimentos sem destino e a gente ficava mesmo tendo por onde ir 
o problema não foi isso

é só

questão

de sentido

sábado, 11 de março de 2017

Acompanhante

A morte aceita 

Tuas maiores desculpas 

Esquece teu nome 

Espera pelo banho insiste 

O sono retorna tão forte

Tua morte aguarda 

Os olhos acendem 

Os fumos aliados 

Marcas de perfume em frascos

Barriga cheia de amido 

As pontes ligando 

Esperaram as ligações

Aqui não 

Ninguém além 

Dessa estrada indisponível 

Bar amanhecido 

Espera última gota 

Acende as luzes também 

Isso te leva a algum lugar 

Longe de tudo 

Esquece teu nome  

Aluga um quarto maior

Sumir com o corpo 

Dentro do copo 

Enterrar as mágoas 

Vida vaga a morte acompanha 

Aceita tuas desfeitas

Malas feitas 


Pode fechar 

Lá fora

A morte te leva na porta espera

segunda-feira, 6 de março de 2017

fui à busca do título adequado mas me fugiram as palavras

o que tu for dizer de nós

é o que desconheço

perante a ideia da geração

deste romance solitário

aguardando que abra os olhos

visto sol e flor lá fora

é que temo tempestades

de silêncio inoportuno

enquanto indaga o tempo

que ainda temos pra sofrer

por esse amor imprescindível

há tanta força

irradiada dos abraços

frágeis despedidas

as contrações

nos aguardam lá fora também

basta gesto demasiado

de bocas em atrito

parir primeiro indício:


amor gerado

quinta-feira, 2 de março de 2017

fotosequência

inconsolável manejo 

enquanto inscritas memórias

pressão 

sob botão 

quando há pulso 

inconsolável contramão 


enfoque revestido 

socando as palavras 

dentro de fotos impávidas 

revelações impróprias 

ânsia por via rápida 


olhar sucinto 

sequência

embora

por desistir de mirar

basta virar a câmera

e a cena retorna 


quarta-feira, 1 de março de 2017

Se estiver firme podemos continuar

É possível falar do medo 

até que mudemos a estação dos sonhos

O trânsito, neblinas 

chegam mesmo através do verão 

insistente em oscilar

Viemos tão despreparados 

antes de sorrir veio o choro

sem ver a gente acolhe as mãos

Firme promessas surgem igual suor 

em manifesto indevido 

silêncio absoluto

Os lábios esquecem função dos beijos 

e permanece pasmo verso que recita carta de adoração

É possível até provar o presente 

se te falar de ilusão 


É tanta dureza...

Seguremos as mãos