café e dores

café e dores

quarta-feira, 27 de março de 2013

Artísticos sonhos surrados

Mulher com sonhos defasados,
Sonhos jogados ao chão como as roupas velhas.
Possui um corpo em função de dinheiro amargo,
Corpo frágil, frígido e usado,
Cheio de hematomas, surrado. Corpo magro.

Aquele sorriso é um desenho feito com lápis sem ponta,
Rabisco da felicidade que nunca existiu
E seu rosto é um borrão de maquiagem,
Triste e artístico, manipulado por mãos trêmulas.

Ela sobrevive em um quarto e sala cheiroso a mofo,
Divide-o com outra mulher sem esperanças

Seu coração é frio
Seu corpo levemente maleável
Molda-se nas mãos de homens ocultos,
Às vezes ela cria histórias durante o abate,
Outras vezes coloca uma máscara sobre o rosto deles
e finge ser criança
Uma pequena e inocente criança que precisa chorar
Ela quer colo e só consegue um gozo forçado ao desfecho

Sob os ombros ela carrega um fantasma
E coloca suas mágoas dentro de um diário
lá pela manhã enquanto se entope de sucrilhos
Anda pela casa semi nua de móveis e faz planos de fuga
Tudo precisa é refugiar nos braços de um amor
Mas não existe amor e nem esconderijo

Suas roupas são curtas, não a cobrem do frio
Seu colar é de lata, os dentes apodrecendo igual aos sonhos
Ela tem olheiras enormes e um rosto febril,
Sua voz é uma súplica à beira do suicídio.

Ela não teve chances de mostrar o quanto escreve bem
O papel e a caneta são suas únicas aliadas
Ela é poeta e só consegue mostrar sua arte na cama,
Arte mal paga
Arte maldita, mal escrita, mal usada.

Ela não quer mais viver,
Mas anoitece e  sai criando histórias para poder comer.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Mestre dos olhos solitários

Ela era a calma que um poeta precisa pra criar um verso
Ela era muito mais que breve inspiração,
Era jardineira de sonhos,
Mulher que muito tinha no olhar e pouco falava.

E aqueles olhos meigos eram uma valsa noturna
Coisa que quem visse logo a chamava para dançar
Mas ela não dançava!
Ela somente sorria e fazia gestos meigos,
Um feitiço com zelos de amor mal interpretados.

Ela era muito envergonhada
E as maçãs do rosto ficavam coradas facilmente,
Ninguém conseguia compreendê-la,
Logo ela se via sozinha dentro da madrugada com os olhos inchados,
Caminhava até a janela observando a lua dançando sobre a bruma
E rezava baixinho uma canção de dor.

Ela é dor!
Ela é o presente que nesse poema eu não escrevi
A alma dessa mulher é loira como os cabelos
E sua pele cheira a perfume das flores,

Ela é brega, as músicas que ouve também o são
Mas em meio a tanta agonia ela se desfaz de bom gosto,
Traz na bagagem a vida solitária, nas mãos o afago ao amado
E nos lábios o mel que forjou sendo abelha para resguardar-se

E logo quem a vê percebe que ela é muito diferente
Exala o cheiro de bem querer, sensualidade, saudade.

Diante de seus ensinamentos deitamos no leito da verdade
Ela é a mestre que sempre sonhou ser
Alma resignada a todos os dias florescer.


Carolina

segunda-feira, 18 de março de 2013

A fumaça apagou a dor, o amor

Ela tinha aquele cigarro de marca desconhecida no canto da boca.

Eu a observava com o canto dos olhos, sempre com cuidado para não ser percebida. Quando a encarava, ela fazia questão de não olhar para mim, era melhor assim. Os olhos dela eram cor-de-sol, cor-de-folha, cor-de-mar, era estranho pois a cor de seus olhos mudavam de acordo com o humor. Humor? Ela não tinha humor, só tinha aquele maldito cigarro na boca. Não que eu me importasse muito com o humor dela, já estava acostumada, mas por que ela não soltava aquela droga? Tinha eu aqui, ela poderia me segurar por entre os dedos e tragar-me até o fim. Ela poderia muito bem me colocar na boca e viciar-se.

Aqueles cabelos dourados fediam a fumaça, balançavam contra o vento fazendo com que meu coração parasse. Seu rosto era malicioso e quando sorria, os lábios grossos enfeitavam-no. Ela ficava horas e horas jogando a fumaça para cima e balançando o cigarro, como se fosse uma marionete, mais uma de sua coleção. Tratava essas marionetes fedorentas com tanta carícia que eu sentia ódio, era como se a cada novo cigarro fosse mais um amante a beijá-la com tamanha ferocidade que a fazia rir. Eu era uma marionete, porém nem sequer estava em sua estante.

Eu me preocupava tanto! Seus pulmões estavam sendo queimados e poluídos, seus dentes em breve amarelariam e provavelmente ela teria um câncer em pouquíssimos anos. Oh, seu cheiro amadeirado, levemente misturado com baunilha, não mais exalava. Seus cabelos que deveriam ter cheiro de shampoo barato, hoje em dia não têm mais. Ela se tornara alguém que eu não mais conhecia, uma névoa, algo efêmero, mas a amava do mesmo jeito nefasto. Eu tinha a mesma dor no peito, sentia o nó incontrolável na garganta quando pensava em ser descartado como a bituca que ela jogava ao chão, mas como seria descartado se nem a ela pertencia?

Certo dia, em casa, achei um maço de cigarros jogado na mesa, provavelmente era de minha mãe. Levei-o para o quarto, peguei o fósforo e decidi experimentá-lo. O primeiro trago foi a coisa mais terrível que senti na vida, depois vieram outros, no mesmo dia fumei todos os vinte que tinham e comprei mais. Comecei a fumar e fumar incontrolavelmente, mesmo não gostando do cheiro e nem do sabor que ficava na boca, fumei por ódio, rancor, amor. Os dias passaram-se e quando vi a menina novamente, meu coração bateu normalmente e logo percebi: Troquei-a pelos cigarros! Eu não precisava mais estar na estante de ninguém, tinha minhas próprias marionetes. Achei engraçado quando vi a garota da minha rua encarando-me, por vezes ela soltava suspiros, eu fazia sempre a mesma coisa, ficava brincando com o cigarro na mão e abria um sorriso malicioso, que antes não tinha.

Dentre goles de solidão

Andando curvado, aquele homem ia pelas avenidas. Ele tinha um suspiro tão profundo e seus olhos, de olheiras roxas, eram imensos. Acordava deitado e a voz rouca dizia coisas breves, as pessoas sorriam com febre ao tentar entender, depois bagunçavam o cabelo com as mãos, atordoadas.Ele entrava todos os dias na mesma cafeteria com cheiro de madeira velha, pedia um café com caramelo e observava as moças e rapazes passarem com irreverência, bocejava o tédio.

Aquele homem teve tantas mulheres nas mãos e parou para pensar nelas. Tinha Catherine, que perdeu a virgindade aos treze. Vitória, que conheceu na faculdade, ela era engraçada, mas perdeu a graça. Outra que nunca esqueceu foi Mariana, sua primeira namorada, era muito insana. Foi sorrindo de lado enquanto vasculhava a cabeça tentando lembrar de todas, com o café em uma das mãos, ele chacoalhava lentamente entre beberico rápidos. Lembrou-se de Amanda, falava mais do que podia pensar. Teve também Olga, que era tão inteligente que fez ele perder o interesse. Maria era a menina que ria, ele fez planos para o futuro, mas faleceu. Nunca mais viu Vanessa, Andressa, Carolina, Regina. Julieta era tão apaixonada, hoje em dia anda drogada. Foi louco por Gracinha, conheceu no elevador do prédio, descobriu que ela queria todos os caras, a loucura virou piada. Agora, o homem sorriu rapidamente, lembrou de Capitu, que interpretou tão bem o livro, só que na vida real. Tomou um longo gole do café enquanto pensava em Glória, perdeu-a para um cara com pinta de otário. Aninha foi o romance mais rápido e intenso, de suspirar. Teve Elena, que falava sobre livros, música e filmes, sem saber nada sobre filmes, música e livros.

De súbito, o homem levou um susto retraído, balançando a cabeça. Tinha uma mulher na frente dele, com um sorriso largo e desenhado, maçãs do rosto coradas e cabelos ondulados. Ela perguntou com uma voz intimidadora se ele se lembrava dela, ele abaixou a cabeça e finalmente deixou escapar um sorriso sincero. Ela perguntou qual era a graça, ele pigarreou:
— Não que seja engraçado, mas estava agora mesmo pensando em você.
Passaram aquele dia juntos e de noite o homem estava acompanhado da saudade. No dia seguinte iria novamente para aquela cafeteria lembrar das mulheres que teve nas mãos e que deixaram apenas a nostalgia no fim do dia.
Homem, de todas elas, quem mais amou?
— Solidão, que deita na minha cama e me acompanha.

Coisas que não foram escritas

Jaz uma garrafa vazia em cima da mesa
Mas quem está alcoolizado é m'alma
Que bebeu de ti veneno
Dos seus lábios que eram tão doces
Droga! O meu fim está chegando...
Chega!

Rasgou as cartas que ainda não estavam escritas
Cuspiu no prato sem comida
Eu sou um amuleto de sua sorte:
Meu azar.

O tempo está mudando
Lá fora nublado, aqui dentro chove.
O clima entre nós mudou
Não existem flores a não ser pétalas
Jogadas
Como as palavras.

Tempo, eu preciso dela.

Eu queria te conquistar a cada dia
Porém, perco-a, instante a instante
Cada promessa quebrada, prova de nosso fracasso
Do meu penar
Que você acha graça.

As roupas jogadas ao chão comprovam o descaso
Os pratos sujos retratam as palavras,
que de tua boca vêm,
Boeiro.
A vitrola toca músicas falhadas,
O disco está arranhado como meu pulmão, de gritar:
Volte para seu lugar.
Sem carne no jantar, coração moído.

Dela, eu preciso de tempo.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Maria-Ana psicodélica

Seus olhos são pontes para o inferno
Pequenos porém escuros como pérolas negras
E seus cabelos curtos de fios marrom cor-de-vida
São uma enorme bagunça
Retratando gentilmente o que existe dentro dela.

Seu cheiro de erva medicinal embala o vento para cantar
E sob uma enorme árvore ela pintou o seu amor
Nas mãos tão macias ela segura o lápis
E desenha uma borboleta
Mas ela não sabe fazer cores e entristece quem a vê.

Ela é tão solitária e anda curvada como se carregasse o peso da solidão
E todos os dias eu conheço uma nova Mari-Ana
Renovando-se a cada pôr-do-sol tristonho
Maria, Ana, Mariana
Uma infinidade de mulheres em um só corpo infantil.

Sob o sol Carioca ela desfila com uma calça preta de veludo
E seu coração está afogado em um poço congelado
Condenado a anos de arte.

Seu corpo é desenho exótico
Tão pouco explorado
E ela vive um conto de duendes
Cheio de cogumelos psicodélicos
Seres humanos não são capazes de entrar

Vive rodeada de anjos
Mas é um demônio do inverno
Pronta para mais uma brincadeira do espelho
Não há quem não se apaixone
Pela garota do gorro vermelho.

Fui tua até entristecer

Minha garganta está queimando
esse fogo seca a saliva
e mesmo assim me afogo

E fui tua até deixar de ser
até não poder mais aguentar
e hoje não resta mais nada dessa paixão absurda.

Eu queria poder desabafar
e contar que nunca fui culpada
contar minha versão sabendo que serei julgada.

Estou tão perdida
não existe ninguém que me encontre
e eu choro.

Choro sem que ninguém perceba.

Queria desabar
os alicerces da dignidade permanecem frágeis
e esse coração ferido cansado de bater
reclama incessantemente.

Eu fui tua até o último grão de sensatez
e agora eu quero mais ser essa aberração
sofrendo por amor que não existe
um poema é tão pouco para a chave dessa porta vil.

A herança que deixaram para mim foi doença maligna
e esse coração ferrado não quer mais te pertencer
mas fui tua
fui tua
até não mais querer.

segunda-feira, 11 de março de 2013

190

Heis que agora você não passa de matéria inorgânica que fede e quando sinto teu cheiro a ânsia vem direto de minhas entranhas mais sensíveis. Você que andava tão imponente e que ficava a esnobar amores, hoje chora por dores, curvado a carregar nas costas a vida que você mesmo traçou. Você e eu que fomos nós agora não passamos de conta algébrica errada, feita por aquele aluno que nunca estudou. Somos o confronto do alienado e o consciente, aliás, não existe mais o nós, existe eu e você, homem sujo. Suas mãos macias tocaram meu rosto e com as mesmas você machucou, são aquelas que o trairão para um futuro ainda mais destrutivo. Eu não desejo a você um fim, quero assisti-lo agonizando todas as dores que causou, entrevado em uma cama de hospital público, onde várias vezes você me deixou.

Doces amargos, céu-cor-de-lápis

Está frio, muito frio. Não sei se conseguirei escrever tudo que preciso, essa coberta de lã não está aquecendo meus pés, tenho medo de não conseguir escrever.

I - Minha vida sempre foi muito doce, como algodão doce, me derretia toda por esse mundo tão bonito e gostoso. Ficava feliz quando corria pelo campo atrás da minha casa branca, o chão verde era macio e fazia carinho nos meus dedinhos, sempre depois de muita corrida eu deitava no chão com cheiro de planta fresca e era quase engolida por Cruela, minha cachorrinha, ela sempre estava feliz, ela era muito feliz.
Quando fiz seis anos as coisas foram mudando para mim, eu não conseguia entender as coisas, mas meus papais pareciam preocupados comigo depois que fiz alguns exames em que tiveram que enfiar uma agulha no meu braço, nesse dia eu passei uma vergonha tão grande! Chorei, chorei e gritava, só conseguiram me fazer parar depois de um pirulito enorme. Bom, a partir desse dia nada mais foi igual, me obrigavam a comendo legumes, tinha que engolir uns doces que não eram doces, outro dia ouvi papai falando sobre câncer e que eu precisava dobrar a dose de ''remédios'' e apontou para os tais doces amargos, que ficavam presos na minha garganta por um tempão até eu sentir descer.

II - Tenho que contar algo muito, muito, muito triste que aconteceu, foi em um dia de sol quente e suador, o céu estava tão azul que parecia a cor do meu lápis de fazer pinturas. Estava na cama, fazia um tempinho que eu não tinha forças para brincar no campo verde ou até mesmo com minhas bonecas de porcelana, quando decidi levantar para ir fazer xixi e tomei um susto enorme, Cruela estava toda molinha no chão com a língua para fora, fui tentar ver qual era a brincadeira mas ela não pulou em cima de mim, nem ficou feliz. Comecei a  gritar muito alto o nome dela para ver se me ouvia mas ela não queria acordar daquela brincadeira chata, mãe chegou e logo me afastou, ela soltou um gemido alto depois que viu a cena, depois disso eu não sei mais o que aconteceu, só sei que acordei em um lugar estranho e engraçado.

III - Lembro que quando abri de leve os olhos minha cabeça doía, eu estava deitada em uma cama macia mas aquela não era a minha, era um quarto todo branco e por mais que minha casa fosse branca, o meu quarto era rosa, lá não tinha minhas bonecas e os ursos, apenas uma mesa vazia e um sofá que provavelmente era diferente da minha cama macia. Estremeci quando olhei para os braços e estavam cheios de tubos transparentes ligados a eles, quando levantei-os doeu muito, tinha algo dentro da minha pele e eu comecei a berrar pelos meus pais e quando eles apareceram, estavam com os olhos vermelhos, mãe ainda deixava algumas lágrimas correrem pelo rosto rosado, eu chorei com ela. Não sabia porque estava chorando, mas eu chorava. Acho que deixei papai e mamãe tristes por chorar tanto do meu rosto ficar igual um tomatinho e das lágrimas secarem.

No segundo dia, um moço todo de branco apareceu no quarto, ele tinha o rosto tão sério e triste, ao contrário das ''enfermeiras'', eu as achava tão lindas e ficava admirando enquanto elas cuidavam de mim, mas eu não sei porquê precisava ficar trancada naquele quarto com tamanha dor e cuidados, mas também não me importava, não tinha ânimo para fazer as coisas que fazia antes. O moço de branco disse algo para mãe que a fez chorar como no primeiro dia que entrei nesse quarto, só que dessa vez eu não chorei junto, eu não tinha forças para isso, era tão estranho!

Perguntei o que estava acontecendo, mãe se ajoelhou ao pé da cama, segurou minha mão com uma força delicada, abaixou a cabeça e parecia desesperada, eu alisei seus cabelos com a outra mão e disse que estava tudo bem, eu não sabia o que dizer, mas eu queria chorar com ela para não deixá-la sozinha, poder dizer ''mamãe, eu estou aqui contigo, você vai ficar bem'' mas eu não pude porque algo me impedia de tomar alguma atitude de filha, agora eu era apenas uma alma triste que havia entrado em contato com a dela, o silêncio falou por nós duas durante muito tempo até ela levantar a cabeça e dizer que eu era uma boa menina e que o ''médico'' (acho que era o moço de branco) disse que eu iria para o céu, que encontraria Cruela e a Deus. Disse que só pessoas boas vão para lá, que quem fica aqui não é bom. Perguntei se ela e papai viriam comigo e vi no rosto dela uma expressão de dor, daquelas quando eu ralava os joelhos e daí eu chorei, como nunca havia chorado, mesmo depois de ter ralado feio o braço uma vez enquanto subia as escadas correndo.

Depois que ela saiu eu fiquei pensando se eu era uma menina tão boa assim mesmo, me senti uma menina má por deixar papai e mamãe aqui sozinhos, eu sei que eles são bons. Animei-me logo ao pensar no céu e aquela tristeza foi embora, eu queria tanto tocar naquele céu-cor-de-lápis e logo comecei a rir ao imaginar correr com Cruela por lá, deve ser mais macio que os campos verdes atrás da minha casa branca. Eu só quero ir para lá logo e sair desse quarto branco.

Tenho que parar de escrever pois agora eu estou tremendo, e você?

quinta-feira, 7 de março de 2013

Cólera do homem corrosivo

Era catastrófico o fim presente
mais 1 fim
aqueles olhos vazios
e pequenos olhavam a acusar
éramos água e álcool
e por milhões de vezes queimamos.

Foi um amor conturbado,
mas meu coração não tem dono
é relojoeiro a forjar amores.

Eu sofro!
sofro mais do que aqueles que amam por 100 anos
mais do que o outro que nunca amou
muito mais do que aquele poeta que diz morrer de amor
eu sofro como se tivesse em estado terminal
quando descubro que é hora de trocar de amor.

Sou um doente em busca de ajuda
e machuco as pessoas por onde ando
eu maltrato quem me ama
e viro serragem separando e viro heterogêneo
mas amo por cem mil vidas
amo por centenas de noites.

Mulheres que amo
e sou enlouquecido em busca de paz
e sou louco
mas não sou de ninguém
eu não quero conformar-me com a ideia
de acabar com minha sede.

Ando bebendo demais
eu só quero um amor tranquilo como nunca fui
mas agora só preciso é de mais 1 amor corrosivo

Queimando, por favor.

domingo, 3 de março de 2013

Moléstia de saudade

Me abrace? Isso não foi uma pergunta e sim despedida tão sólida e real quanto ser devorado por selvagens. O mórbido de minha cantoria vira rotina das mesas de bar que estão vazias. Lá vem mais um corpo sem alma a desfilar com sua dor, mostrando-a tão distraidamente como se fosse seu litúrgico troféu! Lá vai ele com sua saudade a martelar da cabeça aos dedos cansados dos pés! Tantos julgamentos a um homem que o único erro foi amar, maldito amor!

Depois da despedida fui caminhando por becos pouco iluminado e tragava o cigarro no canto da boca com tamanha força que chegava a sufocar, logo jogava aquela rajada de fumaça pra fora com um longo e exasperado suspiro e fungava fundo também em concordância com os olhos que não paravam de inundar-se repetidamente. Comprei a garrafa mais barata de vodka para limpar de vez aquela mancha avermelhada que o coração arrebentado havia deixado, seria inútil, aquela hemorragia era grande demais para todas as bebidas existentes, grande demais para minha pouca saúde física e mental. De súbito, comecei a rir, gargalhar, gemer, resmungar, uma explosão que me fez cair. Acordei no dia seguinte vendo todos aqueles olhos cheios de olheiras amanhecidas, levantei e para casa fui, o rumo foi difícil, não conseguia reconhecer a mim mesmo mas eu cheguei... Corri para nossas fotos e ah! Curei-me... Estava novamente apaixonado por ela!

E se ela voltar, aqui estarei. Todos os dias escrevo-lhe cartas, estão em cima da mesa de madeira herdada de um familiar qualquer, os cigarros eu sou capaz de largar se ela voltar! Ela sabe o quanto a amo? Amo aquela mulher de cabelos escuros, dos olhos de felina levemente cândidos. Amo os laços que ela usa nos cabelos, do cheiro de café que vêm de seus lábios carnudos, amo aquela voz ligeiramente louca. Amo aquele sorriso que me faz o homem mais feliz que já vi, amo-a tão demasiadamente que esqueço quem fui, sou e serei, esqueço que existo para contemplar a existência daquela mulher. Se a mim ela volta, beijarei-a em todos os momentos, longos e demorados beijos seguidos de carícias e abraços. O abraço... E se ela volta eu peço que abrace-me e logo esqueço de tudo, nada mais peço depois, só que ela acabe com a minha saudade que já sufoca.