domingo, 5 de dezembro de 2021

morangos

é tempo das flores dos morangos
cheiro o teu rosto
cheio do fruto
suculento
.
nunca estivemos 
tão pintados
como os morangos
no beijo de um bicho rosa 
você aborda o sol 
sem espinhos 
eu te ofereço 
a macia mordida
de um coração semente 
os parques 
esqueceram 
de nos convidar: 
fecharam-se 
as grades
abro a minha fruta, 
infinita ternura do estio 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

cúmplices

é tempo de você
me furtar o juízo; a fala

nós que roubamos
os relógios banhados de prata 

(pairados detrás das vidraças) 

é tempo meu amor
de cometermos aquilo 
o que o amor não contou 

talismã

queria dar a ti 
um talismã 
um poema 
da espessura
do Sol 

viajar contigo 
de mãos úmidas 
como se 
me confiasses 
o calor das paisagens 

fazer uma canção 
que te fizesse 
amigo 
e amante 
e boca entumecida 

sangrar o que há pulso 
o que seja apenas 
um sinal 
uma palavra 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

arrozes

quero te provar
pago os pecados
ajoelho no arroz
e o cozinho em fogo baixo

alinhados 
nós e os arrozes 
somos doces
mas nunca fomos

mais do que duas fontes

de alimento 
debaixo da terra
pedindo á deus
que nos perdoe 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

fonte da Saudade

lançaram novas luzes 
nos fundos meu bairro
pensei ter te avistado 
com um livreto úmido 
debaixo do suvaco 
sob a sombra de uma jaca 
você que ronca enquanto
viaja à terra dos pombos
de lá avista uma silhueta 
de braços arreganhados
você me diz olha eu te vejo
desta janela rasgada 
eu não sei a que horas
digo que estou com vontade
de te cozinhar feijão
quando você me vê 
mastigar cebolas roxas 
você que não é como as cebolas
nem os meus olhos sabem
qual a hora de dizer 
você não dorme ?
no canto do meu bairro
há um refrão que eu te dedico 

eu quero te escrever em meus papéis

você que mais parece 
um dos meus poemas 
me encara com um gesto
no olho
eu me olho
através das tuas lentes
me questiono 
com que rosto
eu digo que te leio