café e dores

café e dores

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Desenhando por do sol

Foi preciso poesia pra ficar inerte
de um vazio que parece fome,
e foi bastante até cansar poeta

Precisou de flores pra fazer perfume
em uma cidade cor-de-prata,
pouco rica

Com páprica e torta de maçã o que era amargo
virou beija-flor, sedento e eufórico
docinho, para suportar um pôr-do-sol sem chorar
(pois o choro vinha salgado)

E com arte moldou-se um abraço calejado
se desenhando e dançando por entre dedos
com bolhas de tantas tentativas incansáveis de reinventar amor
(o amor existe porém não dura mais que horas)

Quem não vive arte desiste
sobrevivendo de esmola

(2013)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

sonâmbulos

Oh se estamos tão cansados
(no intervalo das programações)
a vida vai arrastando
de trás pra dentro
enfiando tudo
de uma só vez
pra ver se nos cabe

E assim
como por acaso
o sol surge
timidamente nítido
o suor acompanha
o punho
e o rosto côncavo
inclina-se pra fora

Então os mares
em revolta
vingam as ressacas
os bondes passam
a nuvem treme
quase esquecemos da morte

Mas estamos cansados
e o corpo cobra
as contas cobram
os telefonemas
as transmissões,
mas é isso
a gente
tenta tanto
e sente muito
novamente

No entanto,
costumamos brindar
o fim do dia
de alguma forma
o corpo paira
os olhos indicam escuridão

As notícias notam
a gente distraído
fora as outras vozes
tomando posse
de uma manifestação
tudo entorno decrescendo
das falências institucionais

Ainda falaram
sobre a banalidade
do poema
no mundo
como quem decerto
despreza o mundo

Ah se estamos
tão cansados
mas o dia quase
como um sonho (acorda)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

um tanto de prosa e sintonia

diz que escrevo
diferente
quando falo da ânsia
da gente
de tudo bem devagar
vamos conversando
sobre os músicos
e a baderna
instalada nos televisores
e na vida remota
da gente
discutimos
sobre a nova canção
que ainda não foi
pro disco
nem pro papel
mas soa
assim como se
já tivesse ritmo
rimos um pouco
e depois
nos calamos
como se o sorriso
bastasse pelas palavras
acordamos
e por mais
um dia
a gente se fala
como se as novidades
surgissem dos instantes
de vida
a nos desligar
da rotina
diz que tudo vai
se acertar
e que não devemos
os erros descartar
eu afirmo
sou o erro 
e sorrimos novamente
como se bastasse
de palavras
nosso samba
é de segunda
até segunda-feira
mas o fim da semana
chega
a gente
se acaba
fumo mais um cigarro
e trago poesia
voltamos pra cama
de literal rotina
à pedido dos pés
e rodamos
os corpos
no sentido marginal
digo que sou diferente
e que a vida é
feito a gente
um pouco de tudo
um tanto banal

quem sabe seja só

acho que estou fugindo
talvez seja de mim
todas as cores
entre tantas horas 
impossível denominar 
a natureza é muito maior
talvez esteja falando de mim
as cores em tudo
é porque não há espaço
e os horários lotados
talvez seja hora de partir
e refiro a mim
acho que perdi a conta
das vezes que perdi
talvez seja apenas melhor
dormir e acordar no sonho
e não querer voltar
não estar aqui dentro
quem sabe de mim
e de nós
as cores diriam adeus
mas quem sabe pra quem
quem sabe o que
nós aguarda
como se tivesse
acordado de um sonho
dentro das cores
lá no fundo
talvez seja eu 

domingo, 3 de dezembro de 2017

ainda falta acontecer

fomos tão breves
e corriqueiros
supus sejamos
Instantes

dizíamos adeus
onipresente de força
que diria fraqueza
se nós
por acaso desatar

supus tanta fé
no encontro
que o banal desvio
acenando os beijos
e os anúncios da porta
nós aliados

pra onde iríamos
se corresse o tempo
à caminho do contato
percorreria a língua
os becos e ecos?

por quais destinos
nos falta buscar
para enfim a porta aberta
a fechadura entrar
e pedir pra ficar
antes da gente desandar

e se encontrar perdido
em público desvio
a voz destinaria?

fomos tão encontro 
que resistia o tempo
destino do silêncio
a imprecisão das horas?

fomos tanto
que esquecemos
ainda nós falta ser



sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Aurora

antes que se transformasse


as cores do céu


e entornasse sobre nós


o aspecto da beleza introvertida


abri os olhos


sob o mar agitado


e rezei ao Deus


que molhava


os olhos


os pés


e inundava naquele instante


todo meu percurso






pedi ao Deus a construção


da cidade falida


dos sonhos fantasmas


as estórias demolidas


que desfalecem no tempo


das revoluções


ouvi um uivo


que tomei por ser


um recado inesperado


em plena areia macia






atentei os ouvidos ao mar


o canto ressoava


adorável de uma Deusa


distante e diante dos


olhos marejados


pedi ao céu


Me leve!


e a Deusa infinita


arrastando suas asas


de ondas


me lavou


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O dia socando entrada como se tivesse noite saída

Acompanhei alguns apocalipses no início do fim desses dias de manhã entregues às cores da tarde a noite acordando o dia dormido. 

pensei fluir mais devagar enquanto tragava em meio ao ponto, parada, mal sabia da espera continua. 

Me falaram das regras e normas como quem chupa tamarindo, e fui segura ao embarcar, não, nunca fui estacionada. 

outro dia duvidei do giro solar e pensei na força do sorriso, impossível não imaginar a onda em retorno. Batendo. 

Hoje senti falta de uma coisa lá perdida e parecia o corpo ter sido espancado e vi as cores do céu umas oito vezes e vi tão roxo que senti perdão. 

Era uma cor de consolo bonita, tão bom sentir o céu abafando o suor de choro. 


Acostumei a caminhar pelos caminhos transtornos.