café e dores

café e dores

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Corte a próxima cena

Cortei as lágrimas
uma por uma
como se fossem pétalas os cílios,
cortei a pele e descobri um sangue aguado, sem cor.

Cortei as esperanças aliadas aos pulsos
Cortei o fio que atava a sanidade
Foi a inspiração em meio à lama vermelha

Passei batom da rubra cor que o sangue desconhecido já não tinha,
fui mulher por mais um dia
Não me reconheço porém
meu nome não saiu no jornal,
sou só mais uma erguendo a dor como troféu no final

Sujei o chão de sangue pálido transgressor
O meu drama foi escrito em restrito
Eu morrerei sem dar avisos

Cena 2 (corta)
09 de junho de 2014


Não conte os segredos meus segredos ao mar

54. Escreva uma "mensagem na garrafa" e escreva para a pessoa que vai encontrar a carta

30 de julho de 2014
Não sei a razão exata para estar escrevendo essa carta numa folha bordada por uma mancha de café. A máquina de escrever está sem tinta, a lua crescente desceu o morro e se escondeu atrás do prédio mais caro à vista. A minha letra é ilegível, combina com a personalidade. Se eu não estivesse pronta para expor aqui algumas palavras entaladas no começo da garganta, você não descobriria a minha solidão. Não quero nada pessoal contigo, não quero que se compadeça e me procure à cada estrofe. Eu só preciso me salvar essa noite. Não quero passar de hoje então escrevo essa carta porque assim eu esqueço - ou finjo - que a minha vida afundou. 

Sim, estou me contradizendo, sei exatamente a razão de te escrever. Eu estou te usando. Não deixe de ler só porque os seus olhos já estão cansados, o dia foi exaustivo, o mar levou essa garrafa longe demais. Por que logo eu? Deve estar se perguntando isso - coisa que faço todos os dias.

Vamos, quero repartir minha solidão, minhas amarguras. Deite no escuro e sinta o cheiro dessa carta molhada por meu choro corrente. Lamba essa carta e imagine que o meu choro é o mar que embarcou essa carta inútil até suas mãos. Seriam mãos calejadas por amores navegantes? Queria ser salva essa noite. Eu só queria enfiar a minha tristeza nessa garrafa como farei com a minha carta. Seria muito pedir para você rasgar depois de ler? 

Peço licença aos Paulistas (isso é um caso pessoal)

Ele me chama de poetiza
E ri das minhas prosas
Faz graça do meu sotaque
Muito mais do que carioca
E reclama dos meu cabelos
Que se enroscam
Em suas costas
Mostra à todos os meus defeitos
Mas quando vou embora
Me pega de jeito
E implora
Chora
E eu que sou carioca
Com meu jeito de poetiza
Ironizo a ginga desse rapaz
Que deu o coração
Mas se finge de durão
Pois sabe que o próprio sotaque
É de paulista
Sem rima
Sem poetiza

6 de julho de 2014

Teu desde 27 de julho de 2014

Descobri o meu cansaço
nos olhos dela
ausentes de cor.

Compreendi que a aceito
mesmo sabendo
que qualquer hora
vai abrir a porta
com a roupa mais justa
até no inverno
e me ouvir chorar atrás da porta.

Meu coração
vai ficar mais apertado
do que o corpo dela
contra o vestido
de couro sintético.

Ela vai socar
minha felicidade
enquanto
sai pela porta.

E ela me chama de amor
porque não sabe o meu nome
mas se for embora
imploro que volte
sem demora
e me chame
pelo codinome: Teu

Entre as tragadas do cigarro se entrega
"Não se iluda amor, tudo que sou não é nem meu"

20 de julho de 2014

Quase 4:00 horas da manhã
E o carteiro não chegou
Com minhas cartas extraviadas
Acho que algum dia vão notar que gosto de cartas
Vão saber que eu gosto mesmo é de você

Alguma parte me falta
Será o fígado baleado por cachaça
O meu dinheiro é pouco, minha fé é muita
E você assim do outro lado da montanha
Me ganha como fosse debaixo da cama

Fantasmas ao lado do travesseiro
Eu não tenho mais medos
Só essa ausência me castra
Estou debilitada e você me falta 

Mar morto

24 de agosto de 2014

Estou me transformando em maresia
Porque seus olhos são esse mares que se transformam em poesia
Vai-e-vem me arrebentando e sabe-se lá,
Que sabe um dia eu enjoe de você

Por que insisto em te lembrar nas noites de insônia?
Como um fantasma que me consome em lágrimas
E gritos
E mitos de que você seja só um sonho
Mas sei tão nítido que eu ainda nem dormi...

Prezo pelo seu descanso nos ombros de uma onda mansa
Que te carregue ao precipício
... Esse mar é o meu suicídio por te amar ...

Rodovia 666

07-09-14

Suspirar a solidão dessa noite morna me faz querer escrever
não apenas sobre esse vazio indiscreto, sobre nós
sobre você e as bermudas que não negam sua idade mental
ou seus cigarros viciosos - eu sou aquele que mais intoxica

Você me intriga assim tão camuflado entre duas cidades soberbas
cada viela que te entrega não nega a sua falta de pudor
e seus modos exaustos de me pedir amor

Assim me pinta em seu corpo como faixa de pista
só para não me perder de vista e, enfim, sair da linha
em meio ao caos da rodovida engarrafada
prestes a morrer na contra mãos - de mãos dadas
e se alucina quando me olha pelo retrovisor
revisando os lados para ver o do encontro amor