terça-feira, 19 de janeiro de 2021

fim

tenho em mim todos os poemas do mundo
mas também
não tenho nada 

é o que se chama vastidão
esse vasto mundão
é aqui dentro sô
e lá fora 

e tenho além de tudo 
o que restou:

o verso que apesar de ser o princípio 
não vê a hora do fim  

diário

inventiva
deito o jornal na cadeira 
procuro fogo
e com os olhos te encontro

está por ali orgulhoso 
do Sol eternizado 
na cor do dia e dos dentes 

atravesso a cozinha 
pego o cigarro e te imagino exposto 
íntegro de face acordada 

prensado entre os dedos 
discuto sobre o dia e ontem 
o passado café esquece dos assuntos 

te imagino frio molhado 
cavado no botão de linho 
- as vezes você me olha de fora 
desvia e entra 

e tem vezes que tu me define
enquanto encontro as palavras 

Toc Toc 
Você entrando 
Você saindo 

você e as previsões de hoje 
e café e nós 
mais uma vez 
para começar o dia 

avesso dobrado
o céu engravatado 
te parei antes da porta
para entregar um recado 
- a tempestade mais mansa
do que a rebeldia uivosos teus braços 
vem vindo 

e me diria sorrindo que o buraco negro
foi engolido 
então você vem

inventiva 
encerro o cigarro no chão
nua arrumo um motivo
mais se parece intervenção

procuro o fogo
seus olhos
um lugar específico para amar
o dia todo até notícias vazar
de uma manifestação

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

J. da saudade

te escrevi alguns poemas, João
difícil esquecer da força das suas mãos
ainda procuro seus escritos
por mais que na livraria você tenha dito 
ter parado com os poemas 
eu me pergunto como? 
se te como ali mesmo em pé ou se 
você tem se alimentado direito 
se ainda sinto vontade de te chamar 
para curtirmos a tristeza é por causa 
de que posso vê-la enquanto você 
busca uma forma fácil de sorrir 
sem que os outros percebam
você levanta e esquece de ir embora 
é por essas e outras que quando a rua
se tornou a fonte da saudade 
eu sempre que passo me perguntam 
por você ou melhor cadê? 


domingo, 17 de janeiro de 2021

todas as cores do seu choro 
as 14 velas horizontais 
envergam a minha visão 
a estúpida felicidade 
a sua forma de degustar o mundo 
uma rosa que vive na sombra 
te descubro ainda molhada no centro
da sala e do meu âmago
te amo o amor nunca escasso 

sábado, 9 de janeiro de 2021

avanço distante do terror 
de encarar
os seus olhos 
na hora última do último vagão

juro quando você entrou 
em algum lugar 
além de mim
eu não tinha espaço para te aguardar 

e durante todo o tempo 
o que ouvira bater
fora o tempo 
do coração em estado de fuga 

(...)

desconheço a causa desse horror 
de encontrar você 
me olhando enquanto decido 

não querer ter de ir 
embora ficar 
seja tarde demais 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

ainda não sei se ainda

não sei se ainda me lê
mas você deixou 
de percorrer

palavras condizentes 
silêncios em nós grafados 

neste assunto 
tanta coisa 
se deixou ultrapassar 

enquanto o bonde também passa
e o dia tem se arrastado 

não sei se ainda me lê
enquanto isto tudo 
vira distração

até mesmo as palavras 
sobrevoando 
as nossas 
atemporalidades 

viro as curvas
e piloto o coração desordenado 

disto eu falo 
sem que me distraia
e mudo 
de assunto

a cama 
nossa amante
sequer somos
fomos nossos

mas ainda paro 
onde quer que esteja
e nos pergunto se 
se quer ainda lê 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

as rugas das mãos

minhas mãos irão envelhecer mais cedo
do que o meu rosto, 
lembro do seu --- 

esse que revela 
a idade da pedra,

absurda de pensar que é possível
calcular o nosso ano na terra  

mas eu ainda vejo a criança,
acuada e sem saber o nome das ruas 
de frente para uma mala

pensando se ir embora é realmente 
dizer que cresceu