sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

o dia parece acordar
reviso o relógio, 
esse grande olhar 
me toca genticulando, 
percebo a claridade, 
dentro dessa cúpula
é natural que espie pela fresta 
o acordar do dia 
e perceba a preguiça 
o esboço do bocejo
o repouso do galo, 
hoje o dia acorda e me despeço 

imaginemos essa solidão inodora 
sitiada no recanto de nossas sombras 
as vossas falhas tão insípidas 
imaginemos as bordas da boca bordada
rendendo palavreios urgir do tempo
tom às aspas e textura do peso do céu 
os olhos a chegada da noite sem fim 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

páreo

espreita essa nebrina 
invadindo 
o teu coviu
e arrebenta a borda da proa 
são muitas as histórias das bocas
e o volume desse pacote cruzado 
em teu pescoço 
espia a confusão apartada 
ao recolher teus panos 
e a retina em disparada
anuncida a partida 
essa delonga deternada ao fim 
e o início preterivelmente estático 
repara o contorno do passado 
a astúcia das feras naturais 
arque os teus sonhos 
e os planos que sejam 
aguarde a chegada 
mas segue teu coração 
órgão fundador da sua pátria 

praia desconhecida

me firo
te feres 
nos ferimos 
e ainda a delicadeza 
a tocar nossos olhos 
a mostrar o azul da praia 
e dentro do coração 
ousemos dizer 
- ainda bate! A
ouço o teu ruído 
uma praia muito tranquila 
e o bater do peito 
e o suave acariciar 
e os lugares desconhecidos 
e nós 
e essa vontade 
e e e... 

4 paredes

devo admitir 
não escrevo 
para ninguém 

é bem verdade 
a minha solidão 
é tão solida 

a companhia 
da minha poesia 
é a minha solidão 

então por isso 
eu não fico triste 
de ser só 

eu invento romances 
que só foram vívidos 
nos meus papéis

eu vivo tão isolada 
que os meus beijos 
são de gesso 

meu coração 
é quatro paredes 

gosto da sua poesia

gosto dessa imagem 

bateu um choro porque vó voou

porque os olhos iguais ao céu 

tempestuosos 

batem 

no meu rosto 

o retrato é uma peça 

sem ato 

nos inventamos a qualquer instante

não preciso negar o teu suspiro

tua proteção indiscreta

que me descontenta 

teu jeito de censurar as palavras

se o que tens por mim é afeição 

ou face contorcida

o que dirá se eu acreditasse 

ser amor o que vomita?

e mesmo que fôssemos dois 

a criar uma linguagem súbita 

não precisaria dizer que me despeço