segunda-feira, 2 de agosto de 2021

esquife

se há um medo que amordaço 
nos dias suados, áspero 
nos dias envernizados 
é o da minha solidão 

as cobertas não encobre-nos 
ela dorme sem os olhos descansados 
com o sono dos que estão cômodos

há este medo que se ouve do outro lado
muda, corcunda, envolta em meus braços 

a lucidez me obriga
a chamar 
de minha 
ainda mais assim rente ao corpo 

as vezes ela decide 
sem abrir a boca 
engolir o mundo
e a nós de uma só bocada 

eu procuro as pílulas, leio as bulas 
me interesso por quadrinhos 
e penso em esburacar as paredes 

penso em esperar que ela volte 
para o lugar estreito
e comprimido de sempre 

eu própria não regresso
eu própria arregalo a boca e nos devoro 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

sombrear

quero ver 
se você tem a voracidade 
de resistir ser esmagado 
pelo minha sombra
dentro do meu pânico
dos lugares fechados
é que encaixada ao seu corpo
eu só insisto em existir 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

coberta

está muito frio para tirarmos a roupa
vamos abrasar os olhos
me deixe imaginar a sua pele
nos dias de quentura 
a temperatura que seria 
nos compre um vinho qualquer
hoje queimaram a Cinemateca 
estão incendiando o nosso filme
mas está muito frio para sairmos 
acabar com eles 
as mãos escorregariam
das luvas nos pescoços 
mas o seu corpo eu já imagino
o suor que seria à 40°C 
está muito frio vamos nos cobrir de vontade 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

museu da solidão

caminhar na borda do sol
com o sorvete de nuvem na língua

o teu braço feito um laço arco-íris 
enfeitando o meu pescoço de lava 

desde que cresci dentro dos cascalhos 
caminho abraçada aos fantasmas 

domingo, 25 de julho de 2021

bússula

desafiamos a velocidade das mãos 
crescendo dentro dos domingos

há uma rosa na linha da fuga
o rosto tremendo na sombra do fogo

no teu coração do tamanho da onda 
a alucinação estagnada do tempo 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

sextou

vou comer fritas 
as batatas 
sextou 
lembrar de você
dizendo eu te amo

como se fossem as únicas
palavras do mundo

mas as batatas
e os amores 
eu, 
já não sei quem somos 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

um dia na grama da praia em que fomos conversar com Deus

o mundo 
não tão violento
os meus pés 
o mundo

me olha
sem a sutileza
e sussuram 

olhem só àquela 
felicidade aguda, 
olha só aquela 
criatura besta