sábado, 8 de maio de 2021

vertiginoso

o corte da vidraça vigia a tua silhueta 

suspeito do teu amor
quando me espia, 
fresta única do poente unilateral 

te vejo despistando a sombra 

frequento a despedida 
bálsamo-cinza, 
dentro dela me comovo trêmula 
 
a carne o que é se não o vestígio 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

pena

quando fui criança costumei a curiosa passar a mão pelas suavidades das coisas e s p a l h a das pelo mundo 

numa certa vez numa pracinha em Copacabana ao tropeçar na pena de um pombo cambaleante chupei a pena dele sem dó feito quando faço com a palavra até enxugá-la 

guardei o meu apetite para o verão desse amor tardio

após o ato cresceram três caroços no meu pescoço e eu me dei a sentir adoentar a euforia nessa época acostumei a dormir o silêncio das covas 

e foi quando tive de tomar leite de peito eu tinha acabado de secar todo o peito da minha mãe de angústia também 

depois os tempos avoavam mas a pracinha continua enferrujada ou seria avermelhada pela luz do dia das tardes ferrugena da infância? agora ela é mais vazia ou sem zelo sem minhas andanças 

talvez a rua esteja menos acarinhada agora eu só me afasto do mundo 

o peito foi ficando mais e mais seco cada vez e eu acho que o leite agora é do sabor da lágrima que eu não consegui evitar com a minha língua 

só o que mudou realmente é que ao invés de chupar a pena eu faço confusão entre as aves migratórias

quinta-feira, 29 de abril de 2021

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
última parada

canto
da rua 
fora do rumo 
o equívoco
me leva
ao corpo
almejado
seu 
passo brando
retorno à memória
beiro a distância
predestino a história
já mais vívida 
avanço
mantenho
os passos
e acho estúpido 
o descuido
cruzando 
nossos caminhos
colidindo 
nossos corpos
confusos 
da rua 
você para
o pensamento 
e me vê
apressada 
suando 
de frio
calor
a hora do almoço
você passa 
será 
qualquer 
o motivo
mudo
de calçada
vazia
você
também sorri
assim
esticando
os lábios 
pro canto
pressionando
a pele
na parede
as folhas 
subindo
descendo 
os troncos
as curvas
desvio
aqui 
seu
sorriso
virando
a esquina
paro 
ali 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

aos poetas incompreendidos

eu quero a sorte 
de um amor bebido
com sabor 
de frutos 
na árvore
nós deitados 

na sombra
contando segredos 
triturados 

de tarde 
eu quero 
acordar

olhar 
os teus lábios
de achar poemas 
perdidos

noites 
de carnaval 

amor
meu pequeno 
e sem forma 
amor 
não vejo 
a hora 
do mundo

acordar 
e a gente
dormir 

terça-feira, 27 de abril de 2021

algum lugar no qual nunca estivemos

você fala de amor 
feito uma criança abrindo 
o álbum completo de figurinhas

declara a despedida 
como se já soubesse que nós
nunca nos encontraríamos

talvez algum dia eu te ouça 
recitando um poema
que pareça ser em meu nome 

talvez o poema seja 
algum lugar no qual nunca estivemos 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

miúdos

toda vez que você for me amar,
não esqueça das fronhas 
de trocá-las também 

da chave na porta, gire-a - outra vez,
de varrer os pelos do gato, 
os pelos e o gato estão no tapete 

de cortar as mangas 
as mangas maduras, todas 
chupar os dedos, todos 
antes e depois de fazê-la gozar 

antes e depois de me amar
não esqueça de que eu sou 
tudo aquilo o que existe 

nas miudezas 
as quais 

você não lembra de tê-las cuidado 

sábado, 24 de abril de 2021

te aguardo
com o coração áspero 

faço das tuas mãos
o meu aquário

ainda sei da tua fuga 
imperfeita, enfática 

nós deslizamos 
pelo viaduto 

da minha boca eu recebo
o seu dilúvio