café e dores

café e dores

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O dia socando entrada como se tivesse noite saída

Acompanhei alguns apocalipses no início do fim desses dias de manhã entregues às cores de tarde a noite acordando o dia dormido. 

pensei fluir mais devagar enquanto tragava em meio ao ponto, parada, mal sabia da espera continua. 

Me falaram das regras e normas como quem chupa tamarindo, e fui segura ao embarcar, não, nunca fui estacionada. 

outro dia duvidei do giro solar e pensei na força do sorriso, impossível não imaginar a onda em retorno. Batendo. 

Hoje senti falta de uma coisa lá perdida e parecia o corpo ter sido espancado e vi as cores do céu umas oito vezes e vi tão roxo que senti perdão. 

Era uma cor de consolo bonita, tão bom sentir o céu abafando o suor de choro. 


Acostumei a caminhar pelos caminhos transtornos. 

Fernanda

nada ficou no lugar 
além da figura 
do seu rosto
que me era desconhecida 
devido ao semblante 
de sombra e vida 
do apego que criei pra nós 

nada além da lembrança 
de evocar tua voz 
nos instantes de silêncio 
e ecoar teu distante 
pedido de calma 

amei a ti como quem descobre
um desejo jovem 
e feroz capaz 
de atravessar o
mar Mediterrâneo 
com os braços em desejo
do teu corpo manso 

e gostaria de dizer 
que do nada 
sobra tudo 
que podíamos ser 
porque não éramos 

e se fossemos 
seria tão prescrito 
que é preciso 
além de acreditar 
ter força para enfrentar 

tudo que somos 
tudo que fomos
e o que seremos  
até continuar sendo 

o que sempre será 

continuantes

cansada de proclamar teu nome
por mim anunciado desde cedo,
e de tantas provas,
o crime arquivado em suspense
suprime meu gosto pelo roteiro
de um amor declarado.

simplesmente desisto
de ostentar motivos para as palavras
harmonizadas à teu corpo
deslizando no manto calafrio
de exorbitante teimosia.

é que de tanto declamar
e os olhos buscarem um destino,
desando três passos,
como se descobrisse um iceberg
em pleno Rio.

no dia em que fui te encontrar
nas horas distraídas,
desinibida descontraída
exatamente pronta para dar
declarações despidas
encontrei a vaga ocupada
dentro do seu olhar.

cansada demais para avançar
deixo de continuar.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

miudezas

não por ti, a quem amei demasiado,
não por mim que resta no mundo
feito pólvora destilada no cano da faca.
quando velejo na infância do sorriso perdido
entre a cidade grande e as miudezas,
sinto a força da gravidade instantânea
de lágrima diamante e histórias pasmadas
o muro desfalecido,
o pulso arrebentado,
é por vagar que a estação parou.
nada é tão supremo feito o mar
entrando na borda da boca suprimida
os pés crescidos no deck prestes a saltar.
sigo a contar baixo os dramas,
impossível não rogar
pela paz desordeira entrando no rosto.
não é por nós que recordo as placas,
a cidade é gigantesca,
os discos atrasados e o novo
discutido no plenário, deixado pra depois.
é por acreditar que amanhã
as ovelhas abrem os olhos no pasto
mesmo de medo,
as crianças correm liberdade,
para onde?
não é por eternizar teu suspiro
na praça Mandela,
o rosto antiga verdade revelada
na boca estagnada
arraiá dos males entendidos.
não por ti, que amo desmedida,
é puro reflexo da vida estendida.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Corte a próxima cena

Cortei as lágrimas
uma por uma
como se fossem pétalas os cílios,
cortei a pele
e descobri um sangue aguado,
sem cor.

Cortei as esperanças aliadas aos pulsos
Cortei o fio que atava a sanidade
Segue a inspiração em meio à lama vermelha.

Passei batom dor que o sangue desconhecido já não tinha,
Fui mulher por mais um dia
Não me reconheço porém
meu nome não saiu no jornal,
só mais uma erguendo a dor como troféu no final;

O chão sujo de sangue pálido transgressor
O meu drama foi escrito em restrito
Morrerei sem dar avisos

Cena 2 (corta)
09 de junho de 2014


Não conte os segredos meus segredos ao mar

54. Escreva uma "mensagem na garrafa" e escreva para a pessoa que vai encontrar a carta

30 de julho de 2014
Não sei a razão exata para estar escrevendo essa carta numa folha bordada por uma mancha de café. A máquina de escrever está sem tinta, a lua crescente desceu o morro e se escondeu atrás do prédio mais caro à vista. A minha letra é ilegível, combina com a personalidade. Se eu não estivesse pronta para expor aqui algumas palavras entaladas no começo da garganta, você não descobriria a minha solidão. Não quero nada pessoal contigo, não quero que se compadeça e me procure à cada estrofe. Eu só preciso me salvar essa noite. Não quero passar de hoje então escrevo essa carta porque assim eu esqueço - ou finjo - que a minha vida afundou. 

Sim, estou me contradizendo, sei exatamente a razão de te escrever. Eu estou te usando. Não deixe de ler só porque os seus olhos já estão cansados, o dia foi exaustivo, o mar levou essa garrafa longe demais. Por que logo eu? Deve estar se perguntando isso - coisa que faço todos os dias.

Vamos, quero repartir minha solidão, minhas amarguras. Deite no escuro e sinta o cheiro dessa carta molhada por meu choro corrente. Lamba essa carta e imagine que o meu choro é o mar que embarcou essa carta inútil até suas mãos. Seriam mãos calejadas por amores navegantes? Queria ser salva essa noite. Eu só queria enfiar a minha tristeza nessa garrafa como farei com a minha carta. Seria muito pedir para você rasgar depois de ler? 

Peço licença aos Paulistas (isso é um caso pessoal)

Ele me chama de poetisa
E ri das minhas prosas
Faz graça do meu sotaque
Muito mais do que carioca

E reclama dos meu cabelos
Que se enroscam
Em suas costas

Mostra à todos meus defeitos
Mas quando vou embora
Me pega de jeito
E implora

Eu que sou carioca
Com meu jeito de poetisa
Ironizo a ginga desse rapaz

Que deu o coração
Mas se faz de durão
Pois sabe que o próprio sotaque
É de paulista

Sem rima
Sem poetisa

6 de julho de 2014