café e dores

café e dores

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Não nos vemos se não saímos de nós

Embora espécime 
Fogosa, atentava quanto 
Aos ruidosos arcos Iris 
Que surgiam de súbito 
Espelhados pelo reflexo 
Dos vidros expostos

Frajola dormia íntegro 
Parcela das manhãs, 
Tardes, e quando descia o sol 
Escalava quaisquer lugar 

Gostava de revirar gavetas
Chispava em espanto 
Do que se revelava, 
Ocultado por debaixo 
De globos solares 

Tinha certeza do apego 
A nos amargar olhares, 
Rasgava os tecidos 
Deitava sob a cama 
Na ausência dos corpos 

Livre e foguento 
Aos momentos de euforia 
Amava os cantos. 
Os buracos se enfiava feito cão. 
Mas era delicado, 
Se sabia da manha 
E reluzia muito. 

Ao fervor das pedras
Felino despojado,   
No inferno se dizia dos cheiros, 
Foi então que desvendei 
O maravilhoso cheiro
Na pele da nuca, 
Todas as flores na pele

Gostávamos de atravessar
O caminho mais longo 
Atentas às clareiras dos raios 
Os reflexos intensificados 
Por passagem lânguida 
Dos tons vertidos 
Pela manhã ensolarada 
Doíam diante 
Das banalidades 

Mediante às horas líquidas 
Frajola descobria
A ilha desconhecida 
No fundo 
De onde 
Não se pode chegar 
É preciso sair de si 

*título trecho O conto da ilha desconhecida, j. Saramago 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

você tem o jeito
das coisas plenas
deixadas pra admirar
quando o suor
escorre da cara
por favor
não me fale
que estou falando
de amor
novamente
deixada na cama
o conforto
e vícios pra lidar
é só por precaução
narrar aos que
sentem as veias
a gritar
um pouco do
seu gosto
de coisa leveza
além da confusão
dos plenários
e o incêndio na Candelária
os jornais censuraram
seu modo to be
agora só a figura
de sua estúpida calma
desgosto constante
a nos aglutinar
quando retorna à casa
é um modo de alma
descalça da rua
toda em agonia
a cantar

"roubaram o véu
das manhãs"

[sinto agora
os ventos da estação
repensada na pele
transvestida de gestos
entregue aos atos
lentos e silenciosos
das fantasias criadas
em coro de sonhar
deitar e esquecer
me inflama
ânsia tardia
do inverno lá fora
destoado das cores
a deslumbrar]

conduzido por águas transtornadas o ato de afogar

há um deserto
imensificado
de mágoa
em nossos corpos
desnutridos
das cores que
irradiam
dos dias nas peles
é sobre os comas
das palavras irreguladas
por chegar
e aconchegar
o corpo na ilusão
da leveza
das conduções
assim feito rio
as correntes
nas palmas 
vertidas de contusão
vestido de esperança
os beijos
os bailes
nossos corpos
amenos 
há um deserto
surtado
de instruções
no entanto
o movimento
recorte
à vida
a pulsar
por mares intransitáveis
é possível
deitar e trancar 
os olhos
deleitados
pela seca
impelida
de transbordar 
é que há um deserto
irreconhecível
instigante
nos conduzindo
a naufragar 

domingo, 18 de junho de 2017

eu que não saí de casa a bater porta e suprimi gritos engavetados atenta ao bafo do mundo pedindo que calasse a boca a qualquer gesto de afeto; vacilante quanto à sombra de antepassados desconhecidos, assino por causas de transtornos inexplicáveis dados às autoridades, essas que atrelam a mim responsabilidade por um mundo assombroso, entretanto ignoro-as em meu tribunal. carrego na face um susto profundo e assopro antes de levar à boca e mais outras besteiras que se ouve sem saber o porquê a gente aprende a resignar quando é hora de pisarem no seu crânio pedindo que sorria. luz lá na frente do buraco que você tá metida até início da próxima vida, depreciante ir além, mas veja se é possível permanecer impávida diante do poder dos solos, das águas, dessa potência de voz enterrada. as flores! perfume de lágrima, tão despida de armadura é então gentil relevo, veludo meigo as veias rubras, posso falecer esparramada entre o sedoso amor das pétalas e a sentença dos espinhos 

é preciso muito mais do que sumir. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

sal

estou triste
queria estar te recitando
os poemas de amizade
que li nos cadernos
e decorei
mesmo falhando
disposta a demonstrar
que o pensamento
te incide

suas mãos
distanciadas
ocultam as linhas
do destino
a nós costuradas

li nos poemas de Drummond
sobre a solidão
dos números
e das cores
Van Gogh sorriu
dizendo adeus

você desfalecia
não apenas na sombra
dos galhos
ou da ressaca
do outono no mar

seu pelo
em harmonia
arrepiando
as vezes no tom
dos músicos
velozes em seus dedos
no percurso
da estação

o vento da paisagem
entre tantos sinais
devagar a face
despida do amanhã
restaurada pelo
porta retrato

as vezes no ardor
da noite introvertida
só você de perfil
nas memórias
coberta de flores

estou triste
pois só recordar
o semblante
atravessado pela poesia
me faz querer chorar

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Tenho coisas importantes a falar mas antes disso já viu o tamanho da lua sob os corpos desatentos? É que o seu cheiro de erva daninha e o medo tudo envolvido no céu da noite fria. Todo Rio gargalhando da gente e as bocas desatadas, o barco lá no cais e a gente pisando tudo como um chão de amarelinha. Todos transando e os corpos estirados, ao falar das cores as transfigurações os invernos aproximados, talvez não tenhamos falado do futuro sendo onipresente o que se vê a essa hora na escuridão. Então se sente, bota um disco alto e vamos torrar o finzinho da memória que nos sobra, é que o amanhã nem se vê. Não tô conseguindo falar sobre o presentimento no centro das atenções desmotivadas por um frio que tá mais dentro do que fora, mas é que você tá inclusa, lá no fundo, pode escutar? 

Vamos recomeçar