quinta-feira, 15 de abril de 2021

ao fundo o som da flauta

a casa permanece imóvel, 
mas algo está suspenso. 
não há o que dizer da alegria hospedada 
na outra janela, 
ainda existe o menino flautista 
da cobertura:
quando os vizinhos decidem se jogar,
vibra o primeiro requiém aprendido na vida 
no parapeito 
uma mulherona fuma e bebe
qualquer hora do dia, 
permanece o recorte 
de uma revista manchada no vidro, 
mas o amor revisita a nossa cama, 
algo 
está fora do lugar comum, 
vigio a sacada 
e vejo o último instante 
em que os pés 
estiveram no chão. 

terça-feira, 13 de abril de 2021

leviana

não saber por onde começar 
anuncia o poeta 
que pouco fez senão gozar
da sua condição de louco, 

da mão que quase não se move
dentro de um cobertor fino 

mal estive abocanhada pelos dentes
mas de bem o que colhi
foram os olhos fechados da noite
me comendo fria,

não saber por onde parar 
já anuncia um lugar no poema 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

não diga que não te avisei

segura minha mão até a rua terminar 

esse barulho louco? o meu coração

nunca te contei desse sol que combina 
com a tua íris luzidia?

olha só que descuido essa rua no fim

e nós de mãos vazias

segunda-feira, 5 de abril de 2021

no semblante algo além do desejo

você me olha 
cerimoniosamente 
como quem rasga 
o corpo vermelho cintilante 
de uma bala de licor: 
 
ainda nos salva o que escorre 

O poeta espião

se você vem às duas

por exemplo 

desde antes de você dizer que vem 

eu estarei à sua espreita 

sábado, 27 de março de 2021

algorítmico

te fisgar 
o corpo 
além da carne

onde possa cravar 
a mandíbula 
do teu medo 
o fosco adormecer 

o prazer 
de esfriar 
ao umedecer 

o trauma 
a cartilagem 
trêmula 

agachado 
neste corpo 
tão medonha 

a coragem nova e tátil de sentir 

quinta-feira, 25 de março de 2021

a fome dos parques

o tempo se fecha áspero 
sob o rosto monótono 
do copo de plástico 
como um morango 
esmagado num drink de 51 

o outono senta cabisbaixo 
descascando 
o balanço paira 
o parque às traças
as crianças esquecem 
de brincar e de cair 

quem veio me disse que anoitece 
um senhor faminto 
alimenta os pombos 
famintos 

me avisam não só da prontidão 
da migalha do tempo 
apontam para o meu umbigo talvez 
ser adulto seja a solidão dos parquinhos