terça-feira, 2 de março de 2021

véspera

há quem repita que o amor 
é uma dor de dente 
e aqueles que banguelas 
chupam manga com leite

roço os dentes em teus tendões
a noite fulmina a tragédia 
dos corações pardais
 
impossível que não sinta a dureza 
desse vinho choco, a moleza 
desse ouro dependurado no pescoço 
o semblante muito esquivo

canto a tua orelha, mole 
os ossos nunca esquecem  

o amor o que é 
se não a véspera 

segunda-feira, 1 de março de 2021

quando o Sol nos coroa
pergunto da imagem que a gente fazia
nos troncos contraídos, da pele raiando as raízes,
a marca do teu rosto rastreando as ramagens amarelas
e os brotos corando, o verdinho queimando a pálpebra
tu pergunta coisas em silêncio
e me pergunto da imagem que a boca fazia
a gente ensaiando uma nova balada
do samba no banco de vidro
envio os ensaios da poesia
que pensei arqueada ao teu esboço
era o breve tempo acenando
dizendo coisas da boca em bamba
mais um enredo ao nosso gole,
entrar em campo, o Sol coroando a imagem
que a gente fazia do amor saudando os braços descontraídos
eu me pergunto da imagem que a gente fazia
quando o amor se fizesse brilhar mais do que o próprio reflexo de Narciso no Rio
e são tantas línguas palavras salinas 
e tantos mares que porventura corriam no mato
desprovido de roupa o inverno
saltitando sob os lençóis as aves saltimbancos 
éramos bonitos e a paisagem um brinco,
falar de natureza é transformar o que fazíamos encolhidos
raio de versos um poema desprevenido

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

carne de escorpião

antes do veneno
provaram a minha carne

acharam dentro da manhã
o inofensivo 
cutucar do escorpião 

aqui dentro

um coração que asqueroso
devora os olhos
pica a noite 

um corpo borrachudo 
incitando a própria morte 

letalmente previsível; genuína 

achavam que eu era um bicho comestível 
quando o ferro entrou - 

paixão era o nome do filete vermelho 
peçonhento na boca 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

línguagem II

se preciso digo sobre a vir -ada do ano 
ou do quarteirão que dei só para te filmar, 

esquece o tempo
ele tem passado 
e nos feito distância 
                   estranhamento) 

vejo os seus olhos bem loucos pedindo por nós, vejo os meus olhos bem loucos pedindo por nós, 

então, não são tantos quilômetros 
se os números 
e aliás 
as palavras são infinitas, 

imagina a borboleta vivendo em um dia 
desses o amor fantástico 
pousada 
em nossos ombros, 

teríamos de nos verbalizar
entre mais silêncio 

enquanto nos beijamos

ou a infinitude dos números 
- ou seja o tempo - 
em nossa boca 

ponto

é como se o antes 
tivesse nos modificado, 
as nossas falas 
são outras 
e outros são 
os nossos interesses

pode ser que ainda tenhamos 
algumas coisas 
em comum, 
eu olho para nossas mãos 
e percebo o quanto 
continuam inquietas 

eu vejo a nossa varanda 
e ela ainda reflete 
a luz do mundo 

turvo olhar

penso se posso suportar 
esta solidão
deste lugar na terra
tendo um coração tão delicado 

cavalgar a estreitar a rua
esta pedala atravessa o corpo - 
o meu desandado 

se o rosto ainda de lado
reage à contusão
do tempo
e das mãos
lentas dentro de um navio  

da longitude te vejo
ainda uma miragem
que flutua
sob as nadadeiras 

ainda nada é sem eira
mas resta o pouco de vista 
que eu encontrei em você

um mapa no meio do mundo
pedindo que eu vá 
embora não diga 
qual direção 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

recordo quantas caras feias
já me olharam
mas ainda acho todo o mundo bonito
de uma beleza que não se põe no rosto 
tem vezes que eu sinto é muita vontade
de deixar esses olhos de choro
de lado

começar a abrir a boca
como um canivete que sai do bolso
 
mas as vezes é só vontade
o que eu sou mesmo 
é essa feição de quem recebeu 
uma má notícia
no meio de uma festa 
onde todos esperavam 
que eu trouxesse o bolo