café e dores

café e dores

sábado, 16 de junho de 2018

Do Sól

Por mais que você olhe, A lua não te olha nos olhos

Meu corpo

Tem uma coisa que incendeia os rostos

Vamos dançar porque a música nunca acaba

Parapará

Tem alguma coisa aqui dentro

Oh meu bem

Tem dessas coisas

Enviar um beijo selando notícia

Envio teu nome

Quanta coisa guardada

Lua


terça-feira, 5 de junho de 2018

Mosqueteiro


O ocorrido veio a calhar em plena véspera de Natal, as brumas da noite, a Lua em painel romanciada, evocada por Virgem, entoava serenata às chamas impossíveis. O céu, por sua vez, tão límpido, denunciava, junto a rua vaga por lampiões espalhados pelo bairro, algum milagre ter acontecido. 

Vagara durante horas pelo sereno, das asas impelidas de agilidade, por vezes pairava suave sob algum banco de praça, ao relento, bichos enfurnados em moradas, feito paraíso construído. De uma dessas casas alto  barulho de cochicho chamou-me atenção. A voz por agudo de uma dama, sensual e polida, e o homem, por sua vez, devia estufar o peito enquanto dizia, de tom saía áspero, abrupto. 

Passei pelo espaço aberto do vidro colado ao mogno envernizado, o ambiente era de todo escurecido, exceto por uma luz que iluminava por gentileza os rostos dos românticos. Era um rapaz, estava ereto no canto, sentado; a dama, espojada, de bons modos, em uma cadeira, não parecia estar mal acomodada, talvez pelo modo como se espreguiçava confortável. De aparência, estavam cultivando o sono embutido no descansar dos olhos, ele, descansava nas feições do rosto dela; ela, nos próprios papéis de parede. 

Sejam por avenidas projetadas no relevo do rosto em contraste com a lamparina, seja por roupão com cheiro de naftalina ou pelos cabelos ao suor do encosto impregnado, ela aparentava mais jovialidade, no entanto, planejava um sorriso brando, possuía um jeito de olhar senil, lambia os lábios como quem se deleita. 

O rapaz esquálido, com olhos de profundeza bravos, deslumbrado com a imponência do verbo, titubeava, parecia em Virgem estar regido, e pelo modo como se entusiasmava, havia um interesse instantâneo naquele olhar bem fundo na dama trajada de íntimo, que a fazia mover-se ultrajada, entretanto de um ânimo em delírio, gozava em suspiros. 

Pousei sobre o livro posto no braço, os Três Mosqueteiros. Era decerto um ser inconsolável. Da-li por adiante tive a visão dela se avizinhando, de pele aguada, cheirosa à mobília antiquíssima, escorou-se de lado, nos tocando por puro atrito. O rapaz sofria de um súbito romance, os cílios trincados, àquela hora esquentara, havia sido acostumado às leituras de romance. A dama se fazia cumprida ao dedicar as palavras, e o juízo do rapaz, ao pé do ouvido, soava como um grande mistério. 

Passado o tempo do ócio, de monótono gesto, inclinara-se rente prestes a tocá-lo em palavras com a boca em gesto de língua, mas de súbito! zuuumbido agudo despertou uma sensação de desconforto. Pairaram os olhos sob meu corpo, e descrito um sentir deslocado me invadiu pelos olhos, olhei a lamparina e desejei a luz lá de cima. Tão passível quanto entrara, movido pela paixão, deixei que o desfecho daquele romance fosse escrito apenas nos papéis daquela casa alta. 

domingo, 3 de junho de 2018

Erva

Estamos deitadas ardendo
Sussurra algo lá fora
A vizinhança dormindo mas um som
De ouvido grudado na janela
Não estamos sozinhas
Então você escapa pelo buraco
E deixa o cheiro por todo lugar
Proibiram nosso amor
Algo lá fora reclamando
Do nosso perfume
E a gente sorrindo
De suor e cabeceira na cama


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Imagino que sejas

Imagino que sejas um sonho,
lembrei de quando sorrimos distraídos
parecia beijo entrecortado
a gente parou e pensei no quanto
a gente é um pouco triste por sorrir assim
e senti alegria, sei de tua alegria

Imagino que sejas um sonho,
quando a gente se leu no escuro
só com o tom da voz ouvi teu medo
e tive medo de ficar em silêncio
mas nós ficamos o tempo todo

Imagino que sejas um sonho,
quando vi teu olho fazendo ternura
pensei que a mim sobrava o mel
derramado da boca do mundo
então de paraíso tenho o gosto
que pensei ter provado

Imagino que sejas um sonho,
quando te esbarro e quando
pergunto sobre a manifestação de hoje
é preferência por teu gesto
e torcer o rumo

Imagino que sejas um sonho,
enquanto recito as palavras
que te acordam sob a forma de poesia
enquanto te imagino ouvindo
o tom dormente da minha alegria

sábado, 26 de maio de 2018

estarei no banco ao Sol
acordada pelo ronco das vacas,
rodeada de frutos, do seu gosto

refaço seu caminho, ao meu encontro,
por adivinhação, que virás
antes do Sol deixar o banco
e antes de mais nada,
te enchergo em silêncio,
apenas as folhas murmuram,
tua chegada

nossos olhos se acham
e você senta ao meu lado
feito se fosse segredo nosso lugar

permaneceremos de bocas imóveis,
de repente, quem segura minha mão
é a memória, quando escrevo sobre teu caminho

tua boca diz coisas que não posso prever
o contemplar do silêncio no banco do Sol
o gosto de Janeiro maduro

feito se fosse secreto estamos sozinhos
tem vezes que te espero acordar, sonho bom
é de tua chegada anúncio, solidão 

Gozo

deitado na cama pensei nos caras, nos volumes de seus bolsos
de manias do olhar de lado, e foi assim que conheci Jorge,
na Travessa, de mãos dadas, esperando o filme X men
a gente foi direto pra Botafogo
encarar o mar de frente e costas
e aquelas costelas, o gosto de Brasilidade
escrevo no livro azul que me deu
depois foi depois do bar
as amigas cheiravam Arruda
foi que depois do banheiro reparou minha boca
e quis beijar de lá a gente foi pra cama
e perguntou se eu estava feliz
fui embora pela manhã de domingo
outra vez foi bem amado
mas a gente não podia tocar mais dentro do que carinho
e do nada a gente foi findando
foi tocando a flauta que aprendi tocar
seu corpo de urso, seu gato selvagem
de frente pra Cristo
sinto-me pureza, amar de braço aberto
foi que escalei e encontrei o mato torrando
acreditei ser tremor um sentir incontrolável
e agarrei teu peito, rígido e tenso
depois foi um acidente
subir lá em cima, correr atrás, ir depois
tanto de sede insassiavel de provar
mais Raimundos pelados in  Rio
mas é que por imensa vaidade e delicadeza
me sinto solitário no quarto
mas é que por me sentir sozinho e ter de lembrar
dos outros caras, me ache mais sozinho ainda
deixo-me tocar como bem queira
é mais gostoso me amar sozinho assim
escrevo, sentindo, com os dedos, um poema de orgasmo

sábado, 19 de maio de 2018

Grãos

1.0

cheguei à praia, uma coisa frenezi, uma tontura de chegar, a margem parecia descrito um campo desfrutado, submersa, digo, inteiramente imensa, avancei a superfície, e de súbito Uma onda encharcou de manto uma metade espessa do corpo. De espuma grama e sal Bem que arranquei uma âncora e nos pés uma corrente de corais avançou-me, bem certo que de espanto afundei de boca aberta. gosto de gostar um gosto azul do céu do dia da praia, quando finca a cicatriz na camada da pele, faz sol que tem gosto de verão na boca, quando a gente avança A distância fica maior, mas tem vezes que o gosto da terra é de um Açaí Maduro, e a infância um destino

escrevo em prosa sobre essa onda, e sinto não ter chegado além do sentimento, e me senti indescritível por que há Não poder tocar nas palavras O mar amortecido, o que é que diga Sinto muito. volto à imagem da praia seca, descrevo molhado a pele Em instantes, grãos macios, nuvem erguida e embarcações, mais distante do que eu, o corpo

guardo no bolso o jornal aguado, e as letras uma fotografia

vejo o mar e as pedras, Duas bocas, os beijos, aos berros, de espuma e uma alegria me confunde com ? procuro palavras. sinônimo de tristeza é esmorecimento, e por não me sentir triste Acho que o sinônimo do meu sentimento não tem nome. mas decidi dar nome à praia e digo imagine Se a gente fosse dar nome a tudo que encontra, achei curioso que tivesse decidido dar um nome à praia e soube que era vontade de denominar o que eu sentia, e achando lugar nesse nome, acharia meu lugar no mundo. mania achar que no mundo eu tenha nome e não ache lugar, mas pensei ter encontrado nas duas juntas um só sentimento

2.0

que susto foi quando te perdi, e sei que quando digo que perco Falo da tua parcela tua fratura imagina praia Grão a Grão e tu o grão de metade da praia, então faz parte a gente se sentir partido, sentindo deserto em frente ao mar É que seu corpo foi lançado Então estou me perguntando E você? eu sinto lá no fundo. reencontro

as vezes costumo contar, fazer as contas perder as contas mesmo que, voltando à infância, tenha sido dispersa quanto aos números, mas eu conto os dias Quando vi numa notícia números maiores do que calcular nos dedos, vi os números dois mais dois ser dois dois, mas é que somando achei que dois números juntos fosse outra coisa, e tem dessas coisas que vão além dos números

4.0

(...)

5.0

sabe quando se descobre um cheiro novo, e sente mais do que dá nome, é feito assim que era a praia até que quis dar nome Os irmãos. praia seca, goela fluída Lembro de afogar de boca aberta, dizendo de um sentimento arenoso, desse estou móvel. quando o céu escorre faz tremor de acontecer no clima da terra uma depressão, mas sentir a firmeza da onda dá certeza, gosto de açaí no céu da boca. faz um tempo que não vou a praia, mas guardo na Bagagem espuma, e quando o som toca os dedos shhhhh

é que tinha cinco anos quando isso aconteceu E agora? pergunto é que me sinto perdida também. mas a praia de encontro e dava nomes e foi assim que soube Sentia um Sentir procurando palavras