café e dores

café e dores

sábado, 18 de maio de 2019

amanhã agora de ontem

é passível que antes do que se espera a gente por óbito recorra às sentenças escritas e duras de um silêncio proclamado através de um pedido que volte, não o tempo decerto que passa, mas que à vida um retorno imprescindível.
por egoísmo ou quaisquer que descreva o nome a gente se prende ao corpo e abraça uma ideia de presença que desfigurada a gente sente ausente até as memórias passadas.
de futuro o tempo se apropria a nos descrever mais uma vez que o tempo próprio é findo nas instâncias que vagam por agora.
essa manhã não sei mas se pôr eu vou amanhecer em mais um sonho e se puder que me esqueça na cama estarei em tempo futuro.

é bem verdade a partilha

ontem eu te embarquei na minha onda
diziamos sobre o deslize do romance
e das palavras impossibilitadas de dizer
possivelmente impossível pelas mesmas palavras no entanto
pelo susto me diria é esse o lugar
ah é verdade que o amor é um susto
eu diria é possível com a voz doce de um romã maduro e traria as verdes folhas de uma primavera imprescidível
a gente toda discute a tradução perfeita e o peito lambido arrepio de uma boca indefinida é verdade que o gozo vem depois de transarmos todas as minúncias tua memória teu corpo descrito ainda incompleto é verdade que te quero entrando pela porta sem pedir perdão é verdade que descrevo teus passos com imprecisão não sei se retorna ainda hoje ou se amanhã nos despedimos

sexta-feira, 17 de maio de 2019

eu adoro tu em mim

adoro tuas mãos entrando em mim
eu pedindo mais líquido
teu jeito de me botar pra cima
e entrando
eu entrando
adoro o perigo de estar na tua
entrando em mim
dos pés à cabeça
abro a porta e bato depois
tu me recebe com um cigarro
e a gente queimando
vendo a noite se alongar
mais uma vez em nós
adoro muita coisa em ti
que ainda nem descobri
mas adoro mesmo assim
ver tu entrando em mim

domingo, 12 de maio de 2019

vi teu rosto contraído
parecia que me dizia de amor
no engolir do choro
queria dizer que te amo
mas isso é difícil aos poetas
sem falar de poesia
aguardo que pergunte
qual poema te escrevi
poderia recitar esse aqui
poderia dizer que te amo

sábado, 11 de maio de 2019

à uma hora dessas

à ponta da noite te penso acesso
teu sorriso ocioso
debruçado na quina do bar
penso em ganhar na loteria
fazer uma aposta
ou acreditar na sorte
penso em muitas coisas além de ir
a ti.
à esquina de casa
ou melhor da tua casa
decido não voltar à minha
entro como se fosse nossa
tiro a roupa e fumo um cigarro
tomo um banho e tomo seu corpo
não prevejo qual a ordem dos fatores
mas me altero a qualquer fato.
à esse instante recorro à memória
e novamente teu sorriso
chamado ocioso
desde que me viu
subindo a rua
cinco vezes.
tem coisas que é impossível contar
e se fosse possível
possivelmente eu não contaria.
tem coisas que eu não sei dizer
mas se soubesse
provavelmente eu te diria.

domingo, 5 de maio de 2019

solidez

não cabe a nós o soturno breu
cabível às palavras amenas
se repousa teu rosto à palma
encostada desterrada à solitude
não nos cabe o silêncio esperado
prostrado altar das divagações
se aliso teu sonho enquanto dorme
senta e espera que a balbúrdia
soará àspera novidade aos loucos
é tarde ainda aos que exaltados
aguardam que amanhã nos mova
límpida a vastidão preenchida
evocará os malditos bestiais
de asas arcaicas e leves
os homens apreenderão a recontar
as horas narradas em realismo
por pura vaidade de vida e caos
decerto descobrirão que não estão sós
até no silêncio da torre de cinzas
até mesmo no mármore do caixão
é nessa hora que a palavra
encontrará boca que a exalte
quando não nos couber saída

quarta-feira, 1 de maio de 2019

nesse instante
estou sem fôlego
ou ânimo
ou âmago
ou alguma coisa que desse paz
às palavras
nesse instante
decido desistir da poesia
por puro impulso
de querer o poema
de ausência alguma coisa
dessa paz
desencontrada
nesse instante