sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

reflexos

os poetas só têm escrito um poema 
por mês ou por vez 
e o outro me olha sorridente 
depois de ganhar um livro do Gautherot 
me chama para fumar um cigarro 
e assinar meu livro
enquanto fala da fluidez da aquarela 
nós fumamos três 
e na despedida
eu não peço que fique 
eu tenho deixado que o fugaz 
seja motivo para fugir dos eventos
por mais que tenha me sentido lisonjeada 
pelo entusiasmo ao dizer que eu era legal
e que eu devia saber disso 
no dia seguinte eu cancelo as provas
eu invento motivos para não aparecer 
eu esbarro com o outro no bar 
seria surpresa se fosse outro lugar 
ouço da outra quina o barulho dos beijos 
enquanto falo sobre a arte na China 
e penso no quanto tenho me tornado 
uma pessoa indiferente 
eu que vivo a sensibilidade 
sinto evaporar meu suor 
e a vontade de fechar os olhos 
eu esqueço que simplesmente existo
até me olhar no espelho imundo 
eu me reconheço pouco 
parece que além de legal eu sou bonita 

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O beijo no envelope

que se entendam os amantes 
mas eu não tenho tempo 
para negar o amor 
enquanto o beijo termina 
e a linha tênue entre amar e sorrir 
me faz querer ler outro romance 
eu quero mais e 
eu posso estar em todas as cenas 
apenas com a força da minha fantasia 
e o bilhete único, 
eu embrulho o presente 
e entrego outra carta a ninguém 
peço que preparem o gin 
e apertem os tabacos, 
eu me entrego na carta 
e ninguém mais lê, 
assim eu retorno ao primeiro encontro 
e todos voltam ao sentido do fogo, 
assam seus jantares 
e cobrem os olhos antes de acordar 
eu faço poesia como reprise 
e organizo a minha presença, 
a festa acontece, 
outros rostos se encaram 
os corações se embrulham 
e entregam cartas sem destino,
parece que felizes para sempre 
só acontece enquanto assisto 
esse beijo que termina 

nos dedos

carrego o sentimento do mundo 
nos dedos, 
o sentimento que pode parecer 
de uma pequena criatura 
de olhos apavorados 
de coração drenalizado, 
eu carrego o sentimento que é 
pra mim o mundo, 
eu me pergunto o que fizemos 
das nossas delicadezas, 
o que fizemos da espuma e do sal, 
do brilho entardecente dessa piscina 
vazada e calma, 
os corpos não se jogam, 
o que os empurra é a coragem 
daqueles que foram negados 
o sentimento próprio do mundo, 
daqueles que bóiam e comem 
ovos na ceia, 
eu deveria ter apostado tudo 
mas me submeti a encenar a derrota, 
eu fracassei só para me sentir 
menos frágil, 
são nesses instantes que o olho 
do furação me olha 
e arremeça sua fúria, 
eu sinto os ossos esmagados 
tentando escrever mais um título, 
apostando o que não existe 
em um jogo marcado para que 
todos os vencedores se sintam 
a derrota, 
eu abdiquei até a dormência 
que me fazia sentir a paz 
que eu nunca teria 
pois eu carrego 
o sentimento do mundo 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Ana e o Mar

ao fundo azulado
às margens a larga praia 
disforme teu corpo de areia 
maresia o perfume teus olhos
tamanha ternura chorei junto ao mar 

miragem o brio pincelada 
merecia moldura tuas jóias 
teu tesouro revestido pele e seda 
teus contornos à mão e véu 

verão suei inteiro assistindo 
imaginei que não mais estivesse viva 
pois o mundo era incapaz de tanto sonho 
pensei que havia morrido nas águas 

eu fechava os olhos e te via límpida 
soava como uma onda atravessada 
tu sorria e o céu escorria de tormenta 
 
e me abraçava o sol e as ondas 
e me engolia o sal e as espumas 
e eu roçava nas conchas 
eu beijava os corais teus lábios  

devo ter esquecido do título

tenho achado os poemas chatos 
é natural chegar a esse ponto
tendo que arranjar outra distração 
para não fazer a Sylvia
ou arriscar fazer a Virgínia, 
por aventura a César... 
ainda não sei mas eu ainda 
quero criar um novo modo 
de fazer isso valer 
eu tenho esse papo torto 
e acho que eu tô desanimada 
pra cacete 
não sou locadora 
pra ficar alugando 
mas pareço aquela garotinha louca 
pelo terror e pelo cabeludo da CAVIDEO
eu só queria que a minha cabeça 
não acordasse doendo tanto tanto tanto... 
só de pensar parece que eu tô inflamada
e que não precisasse querer acordar 
no meio do sonho enquanto 
eu fugia do Veloso e encontrava
biscoitinhos no banheiro
os banheiros são a miséria
lá a gente esquece que tá vivo 
e deixa rolar
eu tô pensando merda... 
as vezes pareço com aquele velho 
que apostava nos cavalos, 
alguns dirão ser o Buk mas 
eu acho que era o meu avô
mas eu não o conheci para ter certeza, 
eu só lembro da cadeira de balanço 
e um silêncio de túmulo e biblioteca... 
voltando ao velho Buk ou 
o guardador de pássaros azuis 
ele era um velho safado e alcóolatra 
e eu lembro de uma vez estar na Bambina 
fumando unzinho em frente à DP 
chegou um cara de jaqueta de couro 
típico crítico de bosta dizendo 
que o velhote era só um reclamão 
eu acho que eu tinha recitado um poema 
que ele achou ser do velho 
aliás eu sempre recito um poema 
quem me conhece sabe 
e acho que eu já enchi muito o saco 
com essa coisa de poesia 
e não adianta eu criar um nome 
para isso 
para essa síndrome 
então me arrisco a dar nome aos poemas 
tenho pena de mim as vezes 
e fico achando que os outro também 
ou é pena pelo mundo todo 
e isso acaba refletindo em mim 
eu realmente não sei mas talvez 
seja por isso que eu precise esquecer 
se não eu realmente vou fazer Torquato, 
eu vou fazer Florbela, 
eu também bebo e penso sacanagem, 
mas eu não quero mais pensar 
eu queria esquecer os poemas 
e o porquê de ter começado mais um... 

triste não é viver de solidão

nos acostumamos com a tristeza
e brindamos a ela sorrindo 
deixamos que ela ganhe nome 
e lugar no assento preferencial 
e a medida que vamos morrendo 
ela se torna amigável e besta 
nos encoraja a escrever capítulos 
a esperar o sinal abrir 
assim desfilamos 
assim nos sentimos 
mais acompanhados 

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O nome da Rosa

vejo em meu retrato memória 
o seu rosto debruçado na janela 
eu te encontrei na Lapa 
e você do Sul estava mais a vontade 
do que eu no meio de toda gente 
você me chamou para um bairro da Barra 
e dizia que era uma barra chegar ali 
eu concordava com um sorriso 
toda confusão que a gente soava 
para mim aquilo era um labirinto 
você dentro da literatura carioca 
então eu entrei no apartamento 
e você entrou calada na varanda 
eu não conhecia mais ninguém 
então quis recitar um poema sobre livraria 
e eu vejo o seus olhos sem noite 
eu olho para a Lua e fico sem palavras 
você me diz para voltar 
mas ir a onde se eu vim a ti 
a gente se despediu em Botafogo 
eu até hoje não entendi 
mas acho que você também não