quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

quero-quero

hei de falar sob o corpo-vertigem
até sobrar sede e o pigarro suturar 
o ato da pronúncia abrupta 

hei de gesticular frente ao delírio
oscilando entre a ficção e o dia-dia 
como os pássaros equilibristas
fazem com os galhos contorcionistas 

mas diferente dos ninhos não descanso
dentro do seu corpo, alcanço as suas penas 
me debruço sobre o músculo do poema 

domingo, 29 de novembro de 2020

codinome

miro ao espelho a figura 
do meu sentimento 

penso que amar outra que não eu
é o grande (e cansado) retorno 

lido com o que eu vejo com menos
nitidez do que quando escuto o seu nome

peço ao espelho algo 
para que possa esquecê-lo 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

apesar de que
não envie mais cartas 
ao me corresponder 
com esmero vigio e aguardo 

hoje tenho gavetas com trancas, 

me agacho no silêncio
da ânsia prometida 

nos instantes violentos a vida 
que me ensina a ser mais delicada 

sem a intenção de me ter afeição, 

esquece de que acordo esgotada 
pós êxodo 
mostro à rua 
meu coração frouxo 

se recordo ser o mundo a casa, 

sempre é a primeira hora 
da compaixão a raiz 

que caça além do abismo da terra 
a hora última 

ainda que eu contasse à todos mais alto, 

quem diria 
meu cabelo cresce junto ao dela,
que eu contei fio por fio

sábado, 21 de novembro de 2020

Anúncio

se acendam todas as luzes da cidade
o fogo de nós irá arder as chamas 
os nossos olhos espelho 
de um lugar lindo dentro da gente

quando as maçãs estiverem maduras 
nós seremos o paraíso

os dedos serão confundidos com lunetas 
seremos tão felizes que será possível tocá-la - 
a felicidade 
- fruta exposta

nosso baile; nossa luminosidade
irá acordar toda a cidade

flor no asfalto

você brotou 
em uma hora 
terrível 
da minha história 

como quando as cigarras 
decidem entrar em um jarro 
no meio da festa 

uma pétala no meio do caminho: 
você parece uma flor no asfalto 

ainda hoje não sei 
se o tempo atropelou
se meu coração

(...)

ainda abre passagem:
o beijo estatelado 

você me conheceu 
em um instante em que 
o terrível 
se tornou bonito 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

pintura

do seu rosto desmanchava 
uma água sem cor pegajosa 

eu te adoraria até o final 
desconhecendo onde dissolvo 
se você retorna 
 
pela veia do rastro pusilânime 

dentro do sexo
na tela o retrato vasculhado 

até então eu desconhecia
o rosto do amor paralisado 

despido; exibido cenário 
meu aceno sua postura cravado 

me retrato escorro e pinto 
das mãos segredos são quadros