café e dores

café e dores

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Copo sujo

Calça suja, boca suja, copo sujo e alma imunda. Vida encardida, ela só quer me foder e eu não posso fugir. Casa bagunçada e um coração de merda, entregue às moscas. Coço o saco e o café aguado de ontem desce rasgando, um quadro maldito me faz lembrar do que a cana me fez esquecer, corro pro bar. Volto fodido e fedendo. Abro a porta; uma, duas, três, fecho. Apelo para a geladeira que se encontra vazia e logo sei o que há, eu sou como aquela geladeira, frio, vazio, mas cheio de espaços entupidos de mágoas. Lavo as mãos; um, dois, três, enxague, limpo. Não tão limpo, ainda sujo. Entrego-me ao choro engasgado, quebro a última taça que foi herdada de um parente insuportável, a vergonha estampada rotula a derrota de ser um nada, de estar nessa casa mal pintada, vivendo de solidão pois a minha própria companhia é um porre. Toc-toc, o som da noite chega, a cama me olha, eu olho para ela... Nosso romance é certo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Esse sonho é meu

No fundo daquela casa
tão soturna e cheia de angústia
o meu amor se escondeu

Naquela casa faltava alguém
faltava cor
faltava parede
só não faltava dor e uma velha rede

Aquela casa guardava um espelho antigo
e ele refletia a beleza da
fruta amor
madura e viçosa

De tanto amar a casa transformou aquela menina
numa prisioneira
trancou suas portas
colocou lenha na fogueira
chorou e transformou o drama numa tempestade

Essa casa sou eu
insegura e completa
Esse sonho é meu

domingo, 17 de novembro de 2013

Soterrada em silêncio

As folhas desse dia morto
caem deixando a sombra cobrir o meu cabelo
gotas navalhadas cortam
o silêncio

Silêncio
eu sigo muda
transcrevo o que sinto em livro

Você não me lê
na estante mofada minha voz foi guardada
em sonetos distantes estive nua
vulnerável à espera de seus dedos
que não folhearam meus versos curvos

Diz que te pareço insana
quando cato todas as folhas do chão
para cobrir o livro nas noites
em que passa frio
congelado pela frieza do seu coração

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Soneto do esquecido

No museu o quadro de palha enfeita a borboleta
dançam as águas rebeldes no fundo branco
torce uma gota de lágrima o vento sortudo
a natureza assovia um choro mudo

Tempestade enfeita o céu escuro
lanças ocas cortam abismo
fazem o seu espetáculo um piscar de nuvens
traçando batalhas inúteis

Um pequeno intruso abre o azul
já muito maltratado luta contra si
um homem velho está ali

Morre as ondas numa correnteza de dar nó
morre o homem 
num quadro esquecido do brechó 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Arco-íris de tinta

Pintei os cabelos de verde-água, essa cor-de-vida combina com as plantas que ele insistia em me trazer furtadas de um jardim qualquer, eu sempre me fazia rir daquele sorriso ordinário, ele calculava meus atos e disso fazia sua peça pessoal. O leque de cabelos pintados só não são maiores do que as vezes em que me peguei perdida no escuro daqueles olhos calculistas, tão pretos quanto o céu sem lua daquele domingo em que me prometeu amor bandido. No verão passado foi a vez do loiro, ele sufocou a minha sina com os lábios enfervecidos, dançamos sobre as margaridas amarelas e nem por uma noite eu consegui dormir sem suspirar de agonia sabendo que aquilo um dia virar-se-ia lembrança de um livro amarelado. Roxo-beterraba, vermelho-sangue, azul-borboleta, são tantas cores com codinomes bonitos que estão enterradas em fotos polaroides que estremeço quando penso em procurá-las.

Minha casa está encardida de uma cor que se chama amor, mas ele foi procurar o arco-íris nos olhos da menina-flor e deixou em minhas mãos aquarela que não tem mais vida. Eu pinto meu cabelo para tirar da cabeça a cor daqueles olhos fundos de tão, tão pretos e trago agora um cigarro para pincelar o cinza-morto da nossa estória que só durou algumas estações, morreu na primavera como uma planta que cai, da cor desse meu cabelo desbotado verde-solidão.

sábado, 12 de outubro de 2013

Procura-se

Cheguei ao ponto crucial de uma existência penosa, faz sol de arder os olhos e estar doente a pouco tempo não faz descaso às minhas conclusões. Descobri que sou uma pessoa covarde, sempre soube mas é cômodo mascarar com mentiras uma face tão vazia, fraca e medíocre, não somente porque deixo de desfrutar coisas boas por razões fúteis que na verdade nem existem ou porque sou um capacho de prazeres alheios, mas sim por tudo que já vivi tão angustiosamente, por admitir que em todas as passagens da minha vida fui covarde e efêmera, tentando moldar uma essência que dói, mas sou ferida, uma doente crônica de tristeza passageira, que não se acaba com remédios de farmácia, fica e desola uma personagem velha de quadrinhos preto e branco. Deixei passar tantas coisas que não percebi que passei também, eu passei e não há como voltar no tempo para me buscar, entrei em um abismo de covardia que assusta a quem vê de perto, e eu me consolo com pedaços atormentados de existência, tentando tirar do oco uma ideologia forjada, uma coragem nojenta que não me convence. Não é apenas um desabafo corriqueiro de diário essas palavras duras que escrevo, isso é confissão de uma vida inteira, coisa séria que sufoca a quem vive, onde os planos são matéria podre que se deterioram na gaveta abandonados como um amante que deixa a prostituta após tê-la prometido casamento. Eu me formei no conformismo de um futuro errado, deixei de sonhar e não há morte pior do que não ter sonhos. Sou um cadáver infértil que chora e não ama, vivendo de restos sem crenças ou armas, implorando sem voz para ser achada onde um dia eu desapareci.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Narciso

O papel clarinho escondia a angústia que sofria
Rabiscado de um abismo,
O poeta escrevia sobre si

Algumas vezes ele, aquele humilde papel,  
Pagava pelos erros de uma palavra mal dita,
Logo era trocado por um lote mais caro

A lixeira sempre tão fria vivia carregada de histórias
Engasgada por algumas falácias,
Transbordava

Quem mais sofria era aquele lápis de marca desconhecida
Baratinho, profícuo, ligeiro 
Agarrado por mãos inseguras
Tornara-se frágil, por pouco logo
Desapontava por ser o espelho parnasiano
De um poeta Narcisista 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Retrato

Olhos tristes
mostram a saudade de mãe
gerou filhos e os cuidou
quando ela que precisava de cuidados

Um vestido longo de brechó
cobre gentilmente o corpo
e o corpo dessa mãe já velha
esconde um coração novo,
de criança afobada

Ela sorri e as nuvens
desaguam felicidade,
as curvas de rugas são os caminhos
traçados por ela,
chove saudade de mãe

Onde ficou perdida tua paz, mulher?

Com os pés cansados
se levanta antes da luz flertar o céu
as mãos enrugadas são retrato de um
destino fatigoso, que suga pouco-a-pouco
as forças dessa mulher incansável
ela precisa de repouso: amor


Desenhando pôr-do-sol

Foi preciso poesia pra ficar inerte
de um vazio que parece fome,
e foi bastante até cansar poeta

Precisou de flores pra fazer perfume
em uma cidade cor-de-prata,
pouco rica

Com páprica e torta de maçã o que era amargo
virou beija-flor, sedento e eufórico
docinho, para suportar um pôr-do-sol sem chorar
(pois o choro vinha salgado)

E com arte moldou-se um abraço calejado
se desenhando e dançando por entre dedos finos
com bolhas de tantas tentativas frustadas de forjar amor
(o amor existiu porém não dura mais que horas)

Quem não sabe fazer arte desiste
vivendo só de esmola

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Hoje sonhei poesia

Hoje eu sonhei com seus olhos
e a cor desse mundo insano não fazia sentido
através da vidraça da íris furta-cor
refleti os meus erros cotidianos
e padeço pelo vácuo de vida deixada para trás
a ponta pés gastos

No meu sonho a realidade pulsou seus lábios
procurando pelo grito de amor
mas as amídalas rompidas de medo
impediram a voz embargada
de rasgar o silêncio

Eu tive medo de acordar
mas quando fecho os olhos
o escuro amedronta os devaneios
enquanto a insônia canta choro
intacto de solidão

Hoje eu sonhei
e ao acordar quero morrer dormindo
para tocar suas maçãs
e alimentar uma ilusão doce
quero morrer e esquecer das lembranças
que martelam essa alma desgastada

No meu sonho eu tentei amá-lo
e consegui tão profundamente que acordada
esse calor chamusca as vértebras
desse corpo machucado
quero viver esse sonho interrompido
pela eternidade de uma lágrima 

Hoje as memórias estão doloridas 
te vivo todas as noites sonhando
pra deixar de sofrer
a realidade de ter você 
somente dentro de um papel borrado
do vazio de saudade sentenciado 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Filme de despedida

Imploro que não se
despeça de mim
eu sou um trauma
de infância
e não sei
lucrar com despedidas

Não mereço perdões fictícios
pois tu formado
num teatro
teu diploma é a morte
da esperança

Teu terno de linho
enrosca meu suor sofrido
baile barato de esquina:
conquista
castidade perdida

Guerra por nirvana
teu coração bomba
tratado rota duvidosa
sagaz e ordinária
labirinto lucidez

Se for embora
rogo com fúria
não faça despedida
teu drama ganhou prêmio
tu é o pior roteirista

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Rapunzel de neve

Anoitece frio de névoa
ela sorri com lábios ressecados,
cada lacuna é o labirinto de sangue
e minha saliva inunda esse mistério

O chá borbulha fazendo som burlesco
Sem açúcar
Ela quer emagrecer 
e deixa a vida mais amarga

Seus cabelos estão pesados de sono
os olhos carregam marcas escuras
como as que leva 
na bagagem

O inverno amanheceu mais cedo
não quer deixá-la sair
Ela faz desse frio uma cruz
pesada e tristonha
Só sonha 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

À deriva de mim

Leve-me pois não sei mais prosear
E de onde vim não há mais chão
Minha nacionalidade é o estrangeiro

Leve-me com você
E limpe meus pés dos maus caminhos
Embarcarei no seu destino pois estou sem porto
Meu barco à velas navegou sozinho
Deixando-me nessa ilha de areia movediça

Leve-me e cuide dos medos
Deitarei no leito de seus braços insanos
Pois de onde vim não tinha cama

Leve-me e não conte para onde vamos
Tenho sede pois meu caminho foi seco
E hoje sou semente infértil
Mas vele este ventre vazio

Meu peito é um horizonte de ilusões
E nesse ilusionismo eu te espero
Fecho os olhos pois as pálpebras cansaram
E sem lugar eu continuo à deriva de mim

Leve-me nessa repetição perambulante
Deixe uma fresta para eu entrar na sua vida ferida
Pois farei de ti minha moradia

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Reticência de fim

Leviana e obsoleta
Não sou o que fui
Verdade que sufoca
Gravata virou corda
Que o lance de pés transborda

Eu era reticências 
Outrora continuidade
E translúcida hoje sou fim

Ingrata e reclamo
Clamo por minha volta
Eu não sei voltar
E soberbamente finjo ser o que fui
Não sou

Navego hino de saudade
E cada nota do piano eleva minha dor
Estou distante daqui
Deste peito abandonado 
Onde há vácuo 

Quero ser o que fui
Estou perdida
Roubaram o meu nome
E estupraram minha consciência
Eu sou o vapor da máquina
Que se desfaz em ponto no final da frase 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Esmola de sonhos

Ele está de bruços em um lago de flores mortas
a lua se esconde
esse lago é a alma dele
o céu está escuro de chuva carente
e seu rosto é uma poesia de quinta,
Hoje é sexta

Os pés pequenos são castigados
aquele chão rachado é berço de sementes secas
onde o alimento não floresce,
romance de uma vida ressecada,
Ele é o sertão

Esses sonhos vêm para a cidade
onde as ruas cinzentas mostram a solidão
as paredes são pichadas de nomes
no buraco de uma avenida vazia
esconde-se a ferida

Meninos com futuros furtados
sujos de maldade precoce
eles querem brincar e brincam com o medo
nos olhos eles carregam a felicidade perdida
nas mãos uma arma,
Inocência falida.

Ele sente fome de tudo
pede esmola sentado na calçada
fica feliz quando recebe um sorriso

Come um pão por dia
e divide com outro menino
sentindo fome de ser criança
divide o sorriso

No natal ele quer escrever uma carta
pedir doces ao Papai Noel
ele não sabe escrever
pega a navalha e vai buscar o presente,
Ele rouba
Ele mente

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Memórias I

Quero despedir-me desse amor
amor que me cobriu no frio
de madrugadas sombrias
espantando todos os medos vivos

Jogo fora as armas e armadilhas
eu deixo contigo a paz de um refugiado
e quero que você corra
que fuja desse mundo corrompido.

Sujo as mãos com o sangue que passou seus dedos
esta navalha de alumínio é minha cúmplice
deixo escorrer o desespero morno da derrota
eu perdi e foi você o que apostei
perdi para minha fraqueza
perdi milhões de vezes
e não me resta nada.

Desloco-me por essas ruas sujas e vazias
estou tuberculosa de solidão

O dedo está inchado e o anel deixado no baú
a senha é o dia do nosso noivado
os doces trouxeram cáries de paixão
e os passeios nas nuvens desgrenhadas serão memoráveis
você viajou sobre meu corpo delinquente
enquanto traguei suspiros quentes

Eu fui morfina para a sua vida dolorida
te viciei incansavelmente
e estou presa em um passado
onde os sonhos se desfizeram com inocência

Os filhos não foram gerados
grito mas a dor corta
as veias da garganta
estou condenada a silenciar-me

Foi bom e cinzento
o arrependimento não aparece nas palavras
talvez nos gestos
talvez na chuva que persegue meus passos vacilantes
e vou embora gripada
mais uma vez tropeçando nos soluços navegantes

A rosa que me deu está guardada dentro de um livro amarelado
onde as palavras esfarelam-se
num romance antigo com as pétalas ressecadas
O roteiro de nosso filme ganhou Oscar no verão passado
e hoje ele está esquecido
assim como você terá que fazer comigo
e com os planos falsamente editados.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Café forte e poesia

O café soprando a saudade
Música nova tocava para ferir
Manhã quente,
Nublada com a vontade de chorar.

Cardápio borrado de palavras
Jogado na mesa com desprezo
Duas marcas de copos vazios,
Silêncio deixado pelo cappuccino.

Dois casais sussurrando ofensas banais
Ameaças durante golada doída
Nó na garganta, língua queimada
Água nos olhos e na relação.

Chega o pedido da menina sozinha
Blues, café forte e poesia
Ela reza baixo uma prece
Lê o jornal ''o amor e o calor''
Coloca o casaco de pele
Aquece as diversas faces da dor.

Um garçom de branco exibe a bandeja vazia
Anda pelos lados com agonia
Com giz nos dedos ele traça o cardápio:
Hoje teremos alegria.

Pensa,
Mentira.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Rocambole

Coloquei a música mais triste que tinha entre a poeira
E dancei conforme a melancolia pedia
Lembrei do nós
Esse apartamento pequeno não me cabe
Nos cabia
Éramos um
Eu era somente sua

Hoje sou inteira
Chata
E não mais compartilho chocolate de panela
Engordei
Devoro a sobremesa sozinha, deito e durmo
Durmo para esquecer
Não esqueço
Sonho com você

Última vez que te deixei no ponto de ônibus: céu limpo
Eu sabia era a última sexta do mês
Última vez que me daria sorvete e cheesecake

Agora só me resta o bolo aguado da padaria
Ou deliciar-me com poesia

Decido limpar essa bobeira
De amor complicado
Vou no mercado comprar sabão em pó
Volto com rocambole e pão de ló debaixo do braço

Prêmio dourado

Desfazendo de rancor o ódio escorre
De cegueira vil o homem se caracteriza
Os musgos crescem das folhas incrédulas

Aplauda esse bicho que você criou
Seja devorado por essa unanimidade

Atinge o auge do triunfo
Goza e não está satisfeito
Reclama no espelho por não ser perfeito
Pisa em cima das costas do irmão
Bate no peito da própria carne

Urubu que ganha prêmio da humanidade
Alimenta-se de suor roubado
Rouba sonhos e de insônia
Sofre
Sofre
Sofre
Sorriso e um terno impecavelmente alinhado

Ele está entre a sociedade
Conduz uma dama ao lado
Comprou com cheque dourado

Com amor é mais caro
Ele não pode comprar

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Serpentina

Pintou o rosto de cinza
Colocou vestido de bolinhas
Uma peruca escondia seus cachos
Fantasiou-se de palhaço

O carnaval estava no fim
O circo não tinha chegado
Serpentinas pelas ruas taciturnas
Cores em avenidas escuras 

Ele fazia as pessoas sorrir 
Nem a banda o tornava feliz
Dançava durante a noite 
Dormia enquanto o sol surgia
No escuro dizia-se contente
Caía na calçada com os olhos descrentes 

Apunhalado pelo amor
Pintou um coração na testa
Apunhalado pela vida
Pintou o rosto de tinta. 

Visita homicida

Seus pedidos podem virar uma tempestade inesperada

Jogou as chaves em cima da mesa de vidro como se o ato tivesse virado costume, deu alguns passos cansados e semicerrou os olhos ao ver aquela imagem pálida, rígida e arrumada diante de si, ou melhor, sentada em uma cadeira de balanço e gaguejou
-Massss, o que? o que faz aqui?

- Espero que não seja novidade-

Ela suspirou ardentemente, logo levou uma das mãos à boca e o ato que tinha sido extinto foi cometido, roeu as unhas enquanto se perguntava coisas que não caberiam colocar em pauta. A saliva desceu seca pela garganta deixando no ar um ruído constrangedor, logo decidiu retrucar
- Isso não é possível! Eu só...

Foi interrompida pelo barulho do copo de vidro cheio de gelo bater sobre a mesa, era ele, sempre muito petulante, deixou aquele sorriso mais branco do que o próprio invadir totalmente o rosto, soltou uma gargalhada que fez a cabeça pender para trás, mas voltando ao normal, encarou-a seriamente
- Eu só? Como pode estar só se eu, ilustre presença, estou aqui? Não diga mais nada, não faça-me perder a cabeça. Enfrentei dragões, muralhas e a força da terra para vir aqui e logo tenho a certeza que irá cooperar comigo. Por um longo tempo refleti se era sensato tirar de ti a escolha, contudo, meu ego que sempre foi gigante impulsionou-me e agora só resta a ti o sim.

Com os olhos arregalados ela deu um passo vacilante para trás, ela tinha incerteza de tudo neste universo, porém, de uma coisa ela não tinha... Esse homem pálido e prepotente estava morto e era seu falecido marido. Ele balançava-se calmamente enquanto observava o medo nos olhos dela, o sorriso irônico lançava na casa uma música de suicídio. Cenas do enterro dele a faziam suar por mais que estivesse um frio de congelar gafanhotos, com a voz embargada gaguejou novamente
- O que veio fazer aqui?

Ele levantou, ajeitou o terno preto e a resposta era mais óbvia para ela do que para a morte, tirando ela, a única coisa que ele possuía era essa névoa que saía de seus lábios sem cor
- Vim buscar o que é meu.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

primavera adormecida

O sol gira em torno dos seus olhos
Olhos estranhos de tanta boniteza
E brinca com a alegria momentânea
Ofertando-te uma dança da primavera.

Você é minha primavera!
E eu fiz um jardim em sua homenagem
Flores tolas e encabuladas.

Toca uma canção de ninar
E eu novamente sinto meu coração pulsar fortemente
Você sorri da minha embriagues de amor
E aparece borrachinhas azuis em torno desse sorriso de criança
Invejo-os com a força de um meteoro sem rumo.

A escuridão chega silenciosa
Ela teme que você a rejeite e vomita estrelas incandescentes
E a lua aparece recitando réquiem de morte
Mas toca gentilmente uma valsa e ela chama para bailar

Com pouca serenidade
Abandono a filosofia da presunção
Suplico que fique
Confie nesse castelo de sonhos que tricotei nos dedos para você
Traçados no escuro quente e gelado
Noites que me adoeceram

Uma canção dormente
Somos espelho de uma vida errante
E serei enfermeira dos medos morfinados
Ânsia do beijo em sua nuca suada de perfume amadeirado

Você é sempre tão triste e cheia de névoa
Numa estrada efêmera almejo seu corpo débil
Fantasio uma cortina tênue de felicidade
Segure minhas mãos vazias
Cantando novamente breve canção de ninar
Faço sua dor abrandar

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O diploma

Sobressaltada por um gozo de memórias
Queima essa lacuna que me faz escrever,
Eu não creio no que vivo
Vivo escrevendo o que creio
E na filosofia da imensidão de palavras insanas
Eu zombo da minha agonia.

Que desculpe-me por esse poema falho
Por um mundo tão errado
E eu aqui errante
Errante, solitária e triste.

Escrevendo,
Um parágrafo a mais e respiro aliviada
Uma página em branco de uma vida borrada
Uns sonhos destroçados
Por um mundo tão errado.

Eu não conheço a mim mesma,
Escrevo e acabo encontrando a face fêmea,
Findo sabendo da abstinência de paz
Grades por toda a parte me impedem de gemer

E eu só quero que essa tristeza aqui dê um tempinho
Eu imploro que ela procure outro caminho
Dou passagem, canto e escrevo
Mas ela não quer arredar o pé

Gírias de uma mulher diplomada
Bacharel na própria dor
Presidente de uma corriqueira desilusão
Condenada a viver sem ópio, em vão.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O romantismo literário feito para ela

11/04/13


Eu tenho certeza que deveria começar escrevendo como sinto-me neste velho e acolchoado diário, só que ao pegar a caneta acabo ficando totalmente eufórico para contar o meu dia, eu sei que você, querido diário, não acredita mais em mim e em minhas efemeridades literárias, reconheço que tenho aquela mania de criar situações e personagens, mas dessa vez eu peço um pouco de sua credibilidade e atenção.

Acordei bem cedo, tomei um nescafé com biscoitos amanteigados e decidi ir ao sebo da próxima rua e acredite, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida pasma. Chegando lá o cheiro de livro antigo deu boas vindas, logo a infinidade de livros entonteceu, findei decidindo começar pela última estante de livros estrangeiros e num relance de olhos, eles pararam em uma mulher que estava com um livro nas mãos e os olhos nele. Não acho que será preciso descrever com tantas palavras aquela que estava diante meus olhos e ao mesmo tempo, tão distante de mim. Ela era alva como as páginas do livro que lia, os cabelos escuros como a noite passada que não teve lua e naquela escuridão um laço de fita vermelho enlaçava-o, apenas um vestido de flores pequeninas encobriam aquele corpo delicado. Eu tive ali a certeza que depois de chocolate branco, ela era a coisa que eu mais amava no mundo. E aquele amor ficaria guardado para todo sempre em mim, como um livro, e eu sofri por antecipação. Ela estava explorando aquela capa dura e abriu um sorriso, um sorriso tão destrambelhado e nos dentes ela tinha um metalzinho delicado e azul, que me fez sorrir junto, um sorriso angustiado pois eu daria meu eu para ser aquele metal parasita. Ela folheava como se estivesse fazendo carinho naquelas folhas e acabei aproximando um pouco mais, com o coração batendo tão violentamente que até o espanhol da padaria talvez estivesse ouvindo o ritmo. Ela me olhou e nesse instante as batidas cessaram, o sangue gelou, a barriga estremeceu, a vontade de vomitar apareceu: aqueles olhos de raposa eram hipnóticos, floridos como a primavera. Logo depois ela fechou o livro e colocou-o no devido espacinho, ajeitou a bolsa de pano que estava escapando do próprio ombro e saiu da livraria. Eu não acreditei que ela tinha ido embora tão de repente e corri até a rua, mas eu não mais a vi, ela havia sumido e eu queria poder terminar esse escrito contando algo feliz, como nos meus contos imaginários. E estou pensando em abrir um sebo na próxima rua só para ver se a mulher primaveril aparece para reanimar meu coração desesperado por esse amor literário. Querido diário, peço que não se preocupe, eu não o colocaria nas estantes para viver empoeirado na solidão, como eu, que encontro-me nesse apartamento mofado.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Artísticos sonhos surrados

Mulher com sonhos defasados,
Sonhos jogados ao chão como as roupas velhas.
Possui um corpo em função de dinheiro amargo,
Corpo frágil, frígido e usado,
Cheio de hematomas, surrado. Corpo magro.

Aquele sorriso é um desenho feito com lápis sem ponta,
Rabisco da felicidade que nunca existiu
E seu rosto é um borrão de maquiagem,
Triste e artístico, manipulado por mãos trêmulas.

Ela sobrevive em um quarto e sala cheiroso a mofo,
Divide-o com outra mulher sem esperanças

Seu coração é frio
Seu corpo levemente maleável
Molda-se nas mãos de homens ocultos,
Às vezes ela cria histórias durante o abate,
Outras vezes coloca uma máscara sobre o rosto deles
e finge ser criança
Uma pequena e inocente criança que precisa chorar
Ela quer colo e só consegue um gozo forçado ao desfecho

Sob os ombros ela carrega um fantasma
E coloca suas mágoas dentro de um diário
lá pela manhã enquanto se entope de sucrilhos
Anda pela casa semi nua de móveis e faz planos de fuga
Tudo precisa é refugiar nos braços de um amor
Mas não existe amor e nem esconderijo

Suas roupas são curtas, não a cobrem do frio
Seu colar é de lata, os dentes apodrecendo igual aos sonhos
Ela tem olheiras enormes e um rosto febril,
Sua voz é uma súplica à beira do suicídio.

Ela não teve chances de mostrar o quanto escreve bem
O papel e a caneta são suas únicas aliadas
Ela é poeta e só consegue mostrar sua arte na cama,
Arte mal paga
Arte maldita, mal escrita, mal usada.

Ela não quer mais viver,
Mas anoitece e  sai criando histórias para poder comer.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Mestre dos olhos solitários

Ela era a calma que um poeta precisa pra criar um verso
Ela era muito mais que breve inspiração,
Era jardineira de sonhos,
Mulher que muito tinha no olhar e pouco falava.

E aqueles olhos meigos eram uma valsa noturna
Coisa que quem visse logo a chamava para dançar
Mas ela não dançava!
Ela somente sorria e fazia gestos meigos,
Um feitiço com zelos de amor mal interpretados.

Ela era muito envergonhada
E as maçãs do rosto ficavam coradas facilmente,
Ninguém conseguia compreendê-la,
Logo ela se via sozinha dentro da madrugada com os olhos inchados,
Caminhava até a janela observando a lua dançando sobre a bruma
E rezava baixinho uma canção de dor.

Ela é dor!
Ela é o presente que nesse poema eu não escrevi
A alma dessa mulher é loira como os cabelos
E sua pele cheira a perfume das flores,

Ela é brega, as músicas que ouve também o são
Mas em meio a tanta agonia ela se desfaz de bom gosto,
Traz na bagagem a vida solitária, nas mãos o afago ao amado
E nos lábios o mel que forjou sendo abelha para resguardar-se

E logo quem a vê percebe que ela é muito diferente
Exala o cheiro de bem querer, sensualidade, saudade.

Diante de seus ensinamentos deitamos no leito da verdade
Ela é a mestre que sempre sonhou ser
Alma resignada a todos os dias florescer.


Carolina

segunda-feira, 18 de março de 2013

A fumaça apagou a dor, o amor

Ela tinha aquele cigarro de marca desconhecida no canto da boca.

Eu a observava com o canto dos olhos, sempre com cuidado para não ser percebida. Quando a encarava, ela fazia questão de não olhar para mim, era melhor assim. Os olhos dela eram cor-de-sol, cor-de-folha, cor-de-mar, era estranho pois a cor de seus olhos mudavam de acordo com o humor. Humor? Ela não tinha humor, só tinha aquele maldito cigarro na boca. Não que eu me importasse muito com o humor dela, já estava acostumada, mas por que ela não soltava aquela droga? Tinha eu aqui, ela poderia me segurar por entre os dedos e tragar-me até o fim. Ela poderia muito bem me colocar na boca e viciar-se.

Aqueles cabelos dourados fediam a fumaça, balançavam contra o vento fazendo com que meu coração parasse. Seu rosto era malicioso e quando sorria, os lábios grossos enfeitavam-no. Ela ficava horas e horas jogando a fumaça para cima e balançando o cigarro, como se fosse uma marionete, mais uma de sua coleção. Tratava essas marionetes fedorentas com tanta carícia que eu sentia ódio, era como se a cada novo cigarro fosse mais um amante a beijá-la com tamanha ferocidade que a fazia rir. Eu era uma marionete, porém nem sequer estava em sua estante.

Eu me preocupava tanto! Seus pulmões estavam sendo queimados e poluídos, seus dentes em breve amarelariam e provavelmente ela teria um câncer em pouquíssimos anos. Oh, seu cheiro amadeirado, levemente misturado com baunilha, não mais exalava. Seus cabelos que deveriam ter cheiro de shampoo barato, hoje em dia não têm mais. Ela se tornara alguém que eu não mais conhecia, uma névoa, algo efêmero, mas a amava do mesmo jeito nefasto. Eu tinha a mesma dor no peito, sentia o nó incontrolável na garganta quando pensava em ser descartado como a bituca que ela jogava ao chão, mas como seria descartado se nem a ela pertencia?

Certo dia, em casa, achei um maço de cigarros jogado na mesa, provavelmente era de minha mãe. Levei-o para o quarto, peguei o fósforo e decidi experimentá-lo. O primeiro trago foi a coisa mais terrível que senti na vida, depois vieram outros, no mesmo dia fumei todos os vinte que tinham e comprei mais. Comecei a fumar e fumar incontrolavelmente, mesmo não gostando do cheiro e nem do sabor que ficava na boca, fumei por ódio, rancor, amor. Os dias passaram-se e quando vi a menina novamente, meu coração bateu normalmente e logo percebi: Troquei-a pelos cigarros! Eu não precisava mais estar na estante de ninguém, tinha minhas próprias marionetes. Achei engraçado quando vi a garota da minha rua encarando-me, por vezes ela soltava suspiros, eu fazia sempre a mesma coisa, ficava brincando com o cigarro na mão e abria um sorriso malicioso, que antes não tinha.

Dentre goles de solidão

Andando curvado, aquele homem ia pelas avenidas. Ele tinha um suspiro tão profundo e seus olhos, de olheiras roxas, eram imensos. Acordava deitado e a voz rouca dizia coisas breves, as pessoas sorriam com febre ao tentar entender, depois bagunçavam o cabelo com as mãos, atordoadas.Ele entrava todos os dias na mesma cafeteria com cheiro de madeira velha, pedia um café com caramelo e observava as moças e rapazes passarem com irreverência, bocejava o tédio.

Aquele homem teve tantas mulheres nas mãos e parou para pensar nelas. Tinha Catherine, que perdeu a virgindade aos treze. Vitória, que conheceu na faculdade, ela era engraçada, mas perdeu a graça. Outra que nunca esqueceu foi Mariana, sua primeira namorada, era muito insana. Foi sorrindo de lado enquanto vasculhava a cabeça tentando lembrar de todas, com o café em uma das mãos, ele chacoalhava lentamente entre beberico rápidos. Lembrou-se de Amanda, falava mais do que podia pensar. Teve também Olga, que era tão inteligente que fez ele perder o interesse. Maria era a menina que ria, ele fez planos para o futuro, mas faleceu. Nunca mais viu Vanessa, Andressa, Carolina, Regina. Julieta era tão apaixonada, hoje em dia anda drogada. Foi louco por Gracinha, conheceu no elevador do prédio, descobriu que ela queria todos os caras, a loucura virou piada. Agora, o homem sorriu rapidamente, lembrou de Capitu, que interpretou tão bem o livro, só que na vida real. Tomou um longo gole do café enquanto pensava em Glória, perdeu-a para um cara com pinta de otário. Aninha foi o romance mais rápido e intenso, de suspirar. Teve Elena, que falava sobre livros, música e filmes, sem saber nada sobre filmes, música e livros.

De súbito, o homem levou um susto retraído, balançando a cabeça. Tinha uma mulher na frente dele, com um sorriso largo e desenhado, maçãs do rosto coradas e cabelos ondulados. Ela perguntou com uma voz intimidadora se ele se lembrava dela, ele abaixou a cabeça e finalmente deixou escapar um sorriso sincero. Ela perguntou qual era a graça, ele pigarreou:
— Não que seja engraçado, mas estava agora mesmo pensando em você.
Passaram aquele dia juntos e de noite o homem estava acompanhado da saudade. No dia seguinte iria novamente para aquela cafeteria lembrar das mulheres que teve nas mãos e que deixaram apenas a nostalgia no fim do dia.
Homem, de todas elas, quem mais amou?
— Solidão, que deita na minha cama e me acompanha.

Coisas que não foram escritas

Jaz uma garrafa vazia em cima da mesa
Mas quem está alcoolizado é m'alma
Que bebeu de ti veneno
Dos seus lábios que eram tão doces
Droga! O meu fim está chegando...
Chega!

Rasgou as cartas que ainda não estavam escritas
Cuspiu no prato sem comida
Eu sou um amuleto de sua sorte:
Meu azar.

O tempo está mudando
Lá fora nublado, aqui dentro chove.
O clima entre nós mudou
Não existem flores a não ser pétalas
Jogadas
Como as palavras.

Tempo, eu preciso dela.

Eu queria te conquistar a cada dia
Porém, perco-a, instante a instante
Cada promessa quebrada, prova de nosso fracasso
Do meu penar
Que você acha graça.

As roupas jogadas ao chão comprovam o descaso
Os pratos sujos retratam as palavras,
que de tua boca vêm,
Boeiro.
A vitrola toca músicas falhadas,
O disco está arranhado como meu pulmão, de gritar:
Volte para seu lugar.
Sem carne no jantar, coração moído.

Dela, eu preciso de tempo.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Maria-Ana psicodélica

Seus olhos são pontes para o inferno
Pequenos porém escuros como pérolas negras
E seus cabelos curtos de fios marrom cor-de-vida
São uma enorme bagunça
Retratando gentilmente o que existe dentro dela.

Seu cheiro de erva medicinal embala o vento para cantar
E sob uma enorme árvore ela pintou o seu amor
Nas mãos tão macias ela segura o lápis
E desenha uma borboleta
Mas ela não sabe fazer cores e entristece quem a vê.

Ela é tão solitária e anda curvada como se carregasse o peso da solidão
E todos os dias eu conheço uma nova Mari-Ana
Renovando-se a cada pôr-do-sol tristonho
Maria, Ana, Mariana
Uma infinidade de mulheres em um só corpo infantil.

Sob o sol Carioca ela desfila com uma calça preta de veludo
E seu coração está afogado em um poço congelado
Condenado a anos de arte.

Seu corpo é desenho exótico
Tão pouco explorado
E ela vive um conto de duendes
Cheio de cogumelos psicodélicos
Seres humanos não são capazes de entrar

Vive rodeada de anjos
Mas é um demônio do inverno
Pronta para mais uma brincadeira do espelho
Não há quem não se apaixone
Pela garota do gorro vermelho.

Fui tua até entristecer

Minha garganta está queimando
esse fogo seca a saliva
e mesmo assim me afogo

E fui tua até deixar de ser
até não poder mais aguentar
e hoje não resta mais nada dessa paixão absurda.

Eu queria poder desabafar
e contar que nunca fui culpada
contar minha versão sabendo que serei julgada.

Estou tão perdida
não existe ninguém que me encontre
e eu choro.

Choro sem que ninguém perceba.

Queria desabar
os alicerces da dignidade permanecem frágeis
e esse coração ferido cansado de bater
reclama incessantemente.

Eu fui tua até o último grão de sensatez
e agora eu quero mais ser essa aberração
sofrendo por amor que não existe
um poema é tão pouco para a chave dessa porta vil.

A herança que deixaram para mim foi doença maligna
e esse coração ferrado não quer mais te pertencer
mas fui tua
fui tua
até não mais querer.

segunda-feira, 11 de março de 2013

190

Heis que agora você não passa de matéria inorgânica que fede e quando sinto teu cheiro a ânsia vem direto de minhas entranhas mais sensíveis. Você que andava tão imponente e que ficava a esnobar amores, hoje chora por dores, curvado a carregar nas costas a vida que você mesmo traçou. Você e eu que fomos nós agora não passamos de conta algébrica errada, feita por aquele aluno que nunca estudou. Somos o confronto do alienado e o consciente, aliás, não existe mais o nós, existe eu e você, homem sujo. Suas mãos macias tocaram meu rosto e com as mesmas você machucou, são aquelas que o trairão para um futuro ainda mais destrutivo. Eu não desejo a você um fim, quero assisti-lo agonizando todas as dores que causou, entrevado em uma cama de hospital público, onde várias vezes você me deixou.

Doces amargos, céu-cor-de-lápis

Está frio, muito frio. Não sei se conseguirei escrever tudo que preciso, essa coberta de lã não está aquecendo meus pés, tenho medo de não conseguir escrever.

I - Minha vida sempre foi muito doce, como algodão doce, me derretia toda por esse mundo tão bonito e gostoso. Ficava feliz quando corria pelo campo atrás da minha casa branca, o chão verde era macio e fazia carinho nos meus dedinhos, sempre depois de muita corrida eu deitava no chão com cheiro de planta fresca e era quase engolida por Cruela, minha cachorrinha, ela sempre estava feliz, ela era muito feliz.
Quando fiz seis anos as coisas foram mudando para mim, eu não conseguia entender as coisas, mas meus papais pareciam preocupados comigo depois que fiz alguns exames em que tiveram que enfiar uma agulha no meu braço, nesse dia eu passei uma vergonha tão grande! Chorei, chorei e gritava, só conseguiram me fazer parar depois de um pirulito enorme. Bom, a partir desse dia nada mais foi igual, me obrigavam a comendo legumes, tinha que engolir uns doces que não eram doces, outro dia ouvi papai falando sobre câncer e que eu precisava dobrar a dose de ''remédios'' e apontou para os tais doces amargos, que ficavam presos na minha garganta por um tempão até eu sentir descer.

II - Tenho que contar algo muito, muito, muito triste que aconteceu, foi em um dia de sol quente e suador, o céu estava tão azul que parecia a cor do meu lápis de fazer pinturas. Estava na cama, fazia um tempinho que eu não tinha forças para brincar no campo verde ou até mesmo com minhas bonecas de porcelana, quando decidi levantar para ir fazer xixi e tomei um susto enorme, Cruela estava toda molinha no chão com a língua para fora, fui tentar ver qual era a brincadeira mas ela não pulou em cima de mim, nem ficou feliz. Comecei a  gritar muito alto o nome dela para ver se me ouvia mas ela não queria acordar daquela brincadeira chata, mãe chegou e logo me afastou, ela soltou um gemido alto depois que viu a cena, depois disso eu não sei mais o que aconteceu, só sei que acordei em um lugar estranho e engraçado.

III - Lembro que quando abri de leve os olhos minha cabeça doía, eu estava deitada em uma cama macia mas aquela não era a minha, era um quarto todo branco e por mais que minha casa fosse branca, o meu quarto era rosa, lá não tinha minhas bonecas e os ursos, apenas uma mesa vazia e um sofá que provavelmente era diferente da minha cama macia. Estremeci quando olhei para os braços e estavam cheios de tubos transparentes ligados a eles, quando levantei-os doeu muito, tinha algo dentro da minha pele e eu comecei a berrar pelos meus pais e quando eles apareceram, estavam com os olhos vermelhos, mãe ainda deixava algumas lágrimas correrem pelo rosto rosado, eu chorei com ela. Não sabia porque estava chorando, mas eu chorava. Acho que deixei papai e mamãe tristes por chorar tanto do meu rosto ficar igual um tomatinho e das lágrimas secarem.

No segundo dia, um moço todo de branco apareceu no quarto, ele tinha o rosto tão sério e triste, ao contrário das ''enfermeiras'', eu as achava tão lindas e ficava admirando enquanto elas cuidavam de mim, mas eu não sei porquê precisava ficar trancada naquele quarto com tamanha dor e cuidados, mas também não me importava, não tinha ânimo para fazer as coisas que fazia antes. O moço de branco disse algo para mãe que a fez chorar como no primeiro dia que entrei nesse quarto, só que dessa vez eu não chorei junto, eu não tinha forças para isso, era tão estranho!

Perguntei o que estava acontecendo, mãe se ajoelhou ao pé da cama, segurou minha mão com uma força delicada, abaixou a cabeça e parecia desesperada, eu alisei seus cabelos com a outra mão e disse que estava tudo bem, eu não sabia o que dizer, mas eu queria chorar com ela para não deixá-la sozinha, poder dizer ''mamãe, eu estou aqui contigo, você vai ficar bem'' mas eu não pude porque algo me impedia de tomar alguma atitude de filha, agora eu era apenas uma alma triste que havia entrado em contato com a dela, o silêncio falou por nós duas durante muito tempo até ela levantar a cabeça e dizer que eu era uma boa menina e que o ''médico'' (acho que era o moço de branco) disse que eu iria para o céu, que encontraria Cruela e a Deus. Disse que só pessoas boas vão para lá, que quem fica aqui não é bom. Perguntei se ela e papai viriam comigo e vi no rosto dela uma expressão de dor, daquelas quando eu ralava os joelhos e daí eu chorei, como nunca havia chorado, mesmo depois de ter ralado feio o braço uma vez enquanto subia as escadas correndo.

Depois que ela saiu eu fiquei pensando se eu era uma menina tão boa assim mesmo, me senti uma menina má por deixar papai e mamãe aqui sozinhos, eu sei que eles são bons. Animei-me logo ao pensar no céu e aquela tristeza foi embora, eu queria tanto tocar naquele céu-cor-de-lápis e logo comecei a rir ao imaginar correr com Cruela por lá, deve ser mais macio que os campos verdes atrás da minha casa branca. Eu só quero ir para lá logo e sair desse quarto branco.

Tenho que parar de escrever pois agora eu estou tremendo, e você?

quinta-feira, 7 de março de 2013

Cólera do homem corrosivo

Era catastrófico o fim presente
mais 1 fim
aqueles olhos vazios
e pequenos olhavam a acusar
éramos água e álcool
e por milhões de vezes queimamos.

Foi um amor conturbado,
mas meu coração não tem dono
é relojoeiro a forjar amores.

Eu sofro!
sofro mais do que aqueles que amam por 100 anos
mais do que o outro que nunca amou
muito mais do que aquele poeta que diz morrer de amor
eu sofro como se tivesse em estado terminal
quando descubro que é hora de trocar de amor.

Sou um doente em busca de ajuda
e machuco as pessoas por onde ando
eu maltrato quem me ama
e viro serragem separando e viro heterogêneo
mas amo por cem mil vidas
amo por centenas de noites.

Mulheres que amo
e sou enlouquecido em busca de paz
e sou louco
mas não sou de ninguém
eu não quero conformar-me com a ideia
de acabar com minha sede.

Ando bebendo demais
eu só quero um amor tranquilo como nunca fui
mas agora só preciso é de mais 1 amor corrosivo

Queimando, por favor.

domingo, 3 de março de 2013

Moléstia de saudade

Me abrace? Isso não foi uma pergunta e sim despedida tão sólida e real quanto ser devorado por selvagens. O mórbido de minha cantoria vira rotina das mesas de bar que estão vazias. Lá vem mais um corpo sem alma a desfilar com sua dor, mostrando-a tão distraidamente como se fosse seu litúrgico troféu! Lá vai ele com sua saudade a martelar da cabeça aos dedos cansados dos pés! Tantos julgamentos a um homem que o único erro foi amar, maldito amor!

Depois da despedida fui caminhando por becos pouco iluminado e tragava o cigarro no canto da boca com tamanha força que chegava a sufocar, logo jogava aquela rajada de fumaça pra fora com um longo e exasperado suspiro e fungava fundo também em concordância com os olhos que não paravam de inundar-se repetidamente. Comprei a garrafa mais barata de vodka para limpar de vez aquela mancha avermelhada que o coração arrebentado havia deixado, seria inútil, aquela hemorragia era grande demais para todas as bebidas existentes, grande demais para minha pouca saúde física e mental. De súbito, comecei a rir, gargalhar, gemer, resmungar, uma explosão que me fez cair. Acordei no dia seguinte vendo todos aqueles olhos cheios de olheiras amanhecidas, levantei e para casa fui, o rumo foi difícil, não conseguia reconhecer a mim mesmo mas eu cheguei... Corri para nossas fotos e ah! Curei-me... Estava novamente apaixonado por ela!

E se ela voltar, aqui estarei. Todos os dias escrevo-lhe cartas, estão em cima da mesa de madeira herdada de um familiar qualquer, os cigarros eu sou capaz de largar se ela voltar! Ela sabe o quanto a amo? Amo aquela mulher de cabelos escuros, dos olhos de felina levemente cândidos. Amo os laços que ela usa nos cabelos, do cheiro de café que vêm de seus lábios carnudos, amo aquela voz ligeiramente louca. Amo aquele sorriso que me faz o homem mais feliz que já vi, amo-a tão demasiadamente que esqueço quem fui, sou e serei, esqueço que existo para contemplar a existência daquela mulher. Se a mim ela volta, beijarei-a em todos os momentos, longos e demorados beijos seguidos de carícias e abraços. O abraço... E se ela volta eu peço que abrace-me e logo esqueço de tudo, nada mais peço depois, só que ela acabe com a minha saudade que já sufoca.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Felicidade da fonte de seus lábios

Quero contemplá-la no momento de distração para te ver sorrir
E depois dos lábios embalados pela minha música
Consolar-te em meu peito febril

Canto um amor medonho e manso
Ando condenada amargar a eternidade finita dessa juventude casta
E apodrecer a cada madrugada frígida, vendo o sol nascer, florescendo,
Florescendo esse amor humilde e exacerbado

Peço que me desculpe por amar-te tão estranhamente!
Aos seus pés deixo ramo de tristeza
E coberta por remorso oferto lágrimas,
Salgadas como o mar límpido,
Só para sua boca sentir sede e pedir a minha

E se me pede, Oh, minha amada!
Se a mim pede um beijo, eu morro!
Morro e morro em dimensão cadavérica,
Morro numa repetição mundana
Morro em seu seio divino e desfruto dessa felicidade
Doce felicidade sugada de seus lábios

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Trague-me!

Sete da manhã e eu ainda não consegui dormir
Ela está em minha cabeça
Sopro do vento
Esmigalhando chances de que eu a deixe

Ventre milagroso foi da mãe dessa fada
Contra versando qualquer chance
De não me apaixonar por ela
Paixão do diabo!
Tão perto de m'alma e tão longe do meu corpo
Menina dos olhos diamantinos
Nas ondas do mar vejo choro noturno
E me afogo nele diante do desespero de tê-la
Olhos d'água!

Posso chamá-la de Minha Lua!
Aquele sorriso perfumado com canela medieval
Fez de minha poesia campo de pequenas e devoradoras violetas
Ela é devastadora como um vulcão a muito adormecido
Acordei-a com um beijo!

Ela é tão só!

Durante a madrugada lá está ela bebendo vinho barato,
De safra ruim
Ela quer tocar a lua

Que boba essa menina és!!!
Não consegue ver que a Lua é o seu corpo
Tão intocável pra mim que sou tão frio
Observo de longe
Sinto medo de perdê-la

Ela tem tantas faces!

(E não sabe que me apaixonei por todas)
 Shhhhh...

Está na hora de dormir, minha menina.
Solte esse cigarro que você coloca na boca
E que tão rudemente traga
Largue esse rapaz que te faz chorar
Você me tem nas mãos

                           À menina Lua