café e dores

café e dores

quinta-feira, 26 de maio de 2016

um mês tem dias tristes

mais de trinta
muito mais de trinta
mais de uma
todas, todas submetidas
mais de trinta abusos ao dia
e a indignação
é vista como caso de histeria
todas, todas submetidas
violação
argumento pra punição
mais de trinta denúncias
e nenhuma solução

terça-feira, 17 de maio de 2016

como?

bebo teu nome
tua cor desbotada
e os olhos de vidro
me vivem como se amor existisse
além do romance nos livros
assim como se fosse matéria
cada glóbulo pulsando meu gosto
então engulo tuas digitais
os rastros no chão envernizado
a cólera precoce
esse mundo destilado
toda conversa amarrotada
na caixa torácica
mesmo atrás da porta
onde não possamos passar
bebo teu cheiro de árvore viçosa
pulsando descompasso
em agito bucólico
só pra dizer que te vivo
após os comas alcoólicos

segunda-feira, 9 de maio de 2016

alguma prosa há de surgir
e desbravar meus mares
assim depressa
antes da pose na foto
pro quadro
naquela hora imprecisa
ferindo contudo
assim bem rápido
só com o medo na ponta do dedo
no centro do umbigo
quase perdida sem amar
a prosa surgirá
mesmo que encolhida
sem pausa pro almoço
fumando Malboro
na porta do bar
bela
endereçada
com a boca pintada
aguardando a hora certa
de se amostrar
como um monumento
uma peça em liquidação
sem juros de graça
a prosa está fadada
a mofar num caderno sem pauta

domingo, 1 de maio de 2016

é só erguer a cabeça que o mundo desaba

o céu me cobre de
he ma to mas
como se atravessasse o papel carbono
e imprimisse as cores
em cada página que insisto
cê assistindo
o cobrir de rima
numa tela sem cor

palavras soando ternas
e a tempestade logo acima
desmancha a cautela
só com um grito um vento mais firme
assim um estrondo forte capaz
de nos amolecer

o céu é tosco e fere o corpo
transeunte
a
esmorecer

a
noite
Ser