café e dores

café e dores

sábado, 30 de setembro de 2017

Desculpas

Desculpe pela confusão
Dos bares que não 
consegui sair 
As tormentas alagando
Os mortos 
Vim de uma cidade sem lei
Mas o estado mete o dedo
E a ferida coça
Feito doença alastrada 
Desculpa pelo desencontro
Depois da hora marcada 
Dos goles esquecidos 
Pelo seu nome 
Estranho aspecto de 
Natureza devastada 
Desculpa por insistir
Na culpa que jamais tivemos
Mas assumo 
Que o erro acompanha 
Mais do que passado 
Desculpa pela brutalidade 
Do tempo 
Anunciando que temos
Tão pouco
Que é preciso correr atrás 
Não só da desculpa 
Mas de nosso contato 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ao fim de partida

pegue o trem azul
na plataforma do último sonho
alcance
em vastidão
os cogumelos
e canelas e cravos

formule as palavras
enunciadas por convulsão
da boca solene
em delírio imóvel
entre hinos sonâmbulos
à medida que teu corpo
deita
esgotado
escorrendo pelos trilhos

confessaria fugir no véu
encoberto da noite satírica
no drama crepuscular
em ventania do
vestido acetinado

sem destinos apuros
o corpo desliza
nas vagas imprecisões
entretanto
pegue o trem azul
mais longe
mais distante
mais alto que puder
saltar

e quando alcancar
lembre do sonho
todo azul

atropele as estradas
as vias asfaltadas
feche os olhos
embora assustada
e grite
o terminal dos sonhos
ainda não alçou

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Depressão


Meu corpo em transe. Meu corpo inerte. Planos de fuga a algum lugar desconhecido de culpa. Sentindo culpa por sentir. Sentindo a mim muito pouco. Estado de modo inquieta. Os cães ladram sem saber o porquê dos soluços no quarto, decorado com minha bagagem. Retorno de bolso oco. Como aqui dentro do corpo é imensurável. Dispo as feridas escondidas abrindo espaços, me ocupo. Me refiro a uma dormência me deito e reviro. Não durmo direito. Outra vez o mesmo buraco. Não caibo. Na superfície o ar espreme meus pulmões de carvão. Meu corpo sente tanto por tudo isso. E eu sinto muito novamente. 

"A depressão comeu meus livros empilhados em ordem alfabética, os romances em drama brasileiro, as novelas infinitas, meus contos engavetados em folhas de caderno. Devorou os frascos de perfume que soam vazios, os rótulos de cosmético sem validade, as raras vezes que senti ódio. Comeu minha paz dizendo solidão, condenou o medo que sentia sob acusação de pena, desgostou do meu gosto de gostar." 

A solidez me abraçava em angústia, no peito uma armadura incapaz de proteger dos danos irreversíveis dessa conformidade pegajosa. O corpo obedecia à depressão intitulando que a pequenez em mim não só era tamanho, não me sinto capaz de enfrentar um mundo maior. Me encaro no espelho do corredor e desconheço pra onde. Estou? Talvez de medo, talvez de fúria, quem sabe o que se deu pra sair daqui. Em mim é muito vasto. Ensaio a próxima fuga. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Anti-horário

Quis te revelar em versos 

as preces conjugadas 

no fim de partida 

enquanto observaríamos 

o calor reluzente 

das letras 

Maiúsculas 


Repousar teu dorso insensato 

no centro dos seios 

e rogar por um destino 

que ajude o riso 

contínuo 

o fluxo elementar 

dos riachos verdinhos 


Se o mundo acabasse 

em melodia 

faria versos 

toda a vida 

e reencarnaria 

em teu nome 


Teu gesto urbano 

desmedido e insujeitável 

Transpirando

insolúvel 

fomos confundidos 

com os contornos

Das horas 

domingo, 10 de setembro de 2017

Passarinhos


Houve tempo 

das manhãs

Raiar cedo 

e olhos acesos


As batidas 

e o silêncio impreciso 

Tua casa 

aqui dentro 

Quentura dos 

teus cobertores 


O café dizia 

do acordar

Que descanso

Requentado 

em pleno domingo


Você ouviria 

as histórias antigas

De um tempo 

amarelado

O sol lá fora 

em convite

Como é bom 

sua rua liberdade 

Meu adeus 


Ainda há tempo

Pra discutir 

sobre o suor 

E o destino 

do apego 

Quanto ao receio 

Passageiros