terça-feira, 31 de março de 2020

faz sinal se ainda me lê passar

parece loucura ou provavelmente é
parece tanta coisa
e o sensato é dizer ser
simples falta de lucidez

esqueci que esquecia os nomes
e oferecia um adjetivo um enfeite
às pessoas
às suas elegâncias

mas os poemas sempre tem o quê 
de rancor ou de remorso

acredito que esquecer do tempo
era mais sensato do que pensar o dia
vivendo dentro do sono ou das sete noites
em que eu te esquecia 

o seu nome eu não sei ou melhor nunca soube
assim como a ti ou pior as suas intenções

mas se eu te dei algo foi confiança
você se tornou mais preciso
de que era a pessoa como é

mas hoje eu nem preciso repetir essa historinha
eu vim com esse assunto pois me peguei pesquisando
sobre o ator com depressão, suicídio, lembrei era Robin Williams

não me apego a nomes mas àquele rosto...
Impossível que pudesse ser apagado, 
assim como alguns nós ou entre aspas na goela
que de vez em sempre desejei que fosse literal

assim eu ou morria de poema ou vomitava palavras
e não ficava esse silêncio de túmulo

assim como um poema que me pega pelo gogó
e me faz encher a boca, o copo de goró
e a paciência de todos ao redor

tem vezes que eu esqueço porque ainda continuo
... tem vezes que não sei como ainda não evaporei
no verão choro, tumulto 
como ainda não queimei com o cigarro
junto virar fumaça... 

segunda-feira, 30 de março de 2020

você

já não me importa
que o instante 
seja ontem 

e as borboletas 
que voaram 
sem te ver 

esse sol morno 
no verão 
das nossas pernas 

nossas virtudes 
sem molduras 
no salão 

que amanhã já não seja primavera 
o que me importa
é você 

só você 
e mais você 

que é só você 
e você 

o ferver do mundo

acordar para os meus sonhos 
o fogo tua boca 
soprando macia 
o sol amanhecer 
quando ainda for tarde 
e nessas horas
em silêncio 
meu rosto queima 
a combustão de 365 dias 
a chama que me arde 
era o nome meu tua boca 
o ferver do mundo 

sexta-feira, 27 de março de 2020

destino

des
conhecer 

nossos corpos 

escuto as fibrilações 
através do rastro 
da veia no pescoço, 

descubro as sensações 

des
governada 

ainda falarei das cartas

a máquina começa a ser desfeita
nos fios dos pentelhos
na borda de uma carta
você diz adeus ao gozo
nos despedimos sem disfarce
mas na topografia das costas
no encerrar das contas
ouço entrecortada uma pronúncia
falamos através das quadras
percorridas pela distância
ainda não descoberta pelas pegadas
você surge uma hora ou outra
ou nunca mais
?
fazendo jus ao tempo
que dorme na despedida

fluir

como de costume a sensibilidade 
percorre os meus nervos 
sempre fomos os anjos encarnados
desfeitos e maltratados 
se culpássemos o tempo 
estaríamos desafiando os ombros 
a mandíbula e a rigidez dos ossos 
se por ventura pulássemos 
não haveria rio que fluísse 
haverão muitas lágrimas 
e ainda assim persistimos sorrir 

sexta-feira, 20 de março de 2020

afago dos mamíferos

ouço o meu nome 
queria ouvir de tua boca 
fonte de virtudes 
devorador de versos 
encarnados em minha pele 
ouço que a noite 
não acabaria conosco
talvez a manhã se desfizesse 
não para o mundo 
mas no silêncio de nossos lençóis 

"O grande corpo teu"

aos meus olhos se encolhem 
se encontram na garrafa 
Hilda cantando 
com a sua voz de cálice 
no mar de Gaza 
é a poesia que nos enfia os porres 
que nos faz selar secretas memórias 
de um jeito ou de outro 
nossos versos são amarelinhas 
e nós jovens destiladas 
a terminar a noite na boca

quarta-feira, 18 de março de 2020

mais uma vez digo a poesia como um guia

ou estou muito eu mim 
ou estou muito alheia 
me sinto alheia 
estou aqui 
ou fumando um cigarro 
ou atravessando a rua 
e de 0 a 10 
prefiro não prever o lugar 
deixo que me leve a poesia 
onde sequer possa escolher 

domingo, 15 de março de 2020

Glória

estive no colo de América
quis narrar meu sono
há muito não durmo e falo sozinha
estive pensando que a tristeza,
grande folia dos desgraçados,
soa nos lábios dela como uma sirene 
vermelha, brilhando, ela vestida 
e uniformizada, a noite brincando 
de levá-la para casa mais cedo 
quando que esperaríamos 
chamar algum lugar de casa?
eu de pé vejo que a nossa grandeza 
se retrai quando os braços abertos 
desaguam das casas seus choro
por toda brecha, por toda a festa 
brindada com sal e ferida 
o colo que me acostumou 
a dormir na melhor hora do sonho 
enquanto lá fora silêncio desocupado
faz mais palavras, ruídos de
seus olhos ruínas tortas, 
quando que estaríamos dispostas 
a abandonar o terreno, lama 
e Glória, quando se fizesse 
mais amor do que versos?  

sexta-feira, 13 de março de 2020

lavar as mãos

estamos esfregando as mãos
com terror pelo vírus
do outro lado do mundo
fazia tempo que eu não ouvia
tanta notícia do outro País
que atravessasse-nos
eu acho bonito o mundo unido
mesmo que essa causa seja terrível
parece que a gente se fechou tanto
desse lado da terra
que o terror das mãos unidas
fica mais distante ainda
era certo de que procurariam
algum culpado
era estúpido que ignorassem
uma espécie invisível

quinta-feira, 12 de março de 2020

terra sem lei

mãe dizia que coração 

é terra sem lei 

mas não tem desespero

acostumei a domar 

os meus leões 

precisei dopar o sorriso 

dentro dos livros 

decidi declarar abrigo 

dentro dos deslimites 

desligava as tomadas 

e ouvia fraquejar o pulso 

ouvia o coração terra sem lei 

fazer churrasco com o meu corpo 

e precisei dar uma volta 

e achei estar perdida 

e achei a noite grande 

dentro da minha miudeza 

eu não saberia dizer outra coisa 

senão poemas

sexta-feira, 6 de março de 2020

moedor

Cartola dizia que do amor
herdaremos só o cinismo 
de tu herdei
o sarcasmo
a distância
os rasgos 
que me tornam mais legível 
de tu herdei a mordaz palavra 
que me eleva à superfície 
das coisas que acabam 

quinta-feira, 5 de março de 2020

eu bem que acho graça que se entendam os poemas

aqueles que imaginam 
o poema
o poeta 
troféu 
da sua poesia
uma medalha 

escrevem 
um poema 
por vez

recebem 
o prêmio
o primeiro lugar

guardam a energia 
para esse poema
e ainda assim 
contam os versos

articulam 
o melhor 
de todos 
os títulos

eles não precisam 
do poema 
para sobreviver

"é mais uma vaidade 
para o meu currículo"

diria o poeta 
com a boca cheia 
de meias palavras

diria o poeta 
com o microfone 
na mão

eu bem que entendo 
que eles achem graça
daqueles que respiram 
através das palavras

"são todos 
uns desesperados"

diria o poeta 
com o copo cheio
diria o olhar 
voltado às palmas

eu bem que acho graça 
que se entendam 
os poemas

quarta-feira, 4 de março de 2020

A escolhida

ao buscar tua voz 
vejo embargar meu coração 
imagino que os romances narrados
são dos que degustam a maçã 
e ignoram os conselheiros 
era correto concordar com o desamparo 
mas eu decidi o caminho da pele
havia me preocupado 
com o volume da capa
e a mensagem de orelha 
havia preferido o caminho reto 
ao desviar do habito de parar 
e encolher em qualquer cama 
era preciso fugir 
de quem do que diriam 
e eu me escolhi 

O veredito

ainda é cedo 
mas sinto por nós 
e desisto de escrever 
por tamanho silêncio 
tendo se ancorado em meu corpo 
me desculpe por me desculpar 
pelas coisas indiscutíveis 
tem se tornado trivial 
a vida que se habita em mim 
esqueço o próximo lamento 
e aceito o veredito 
como quem da torre 
observa o corpo que se lança 
e a lança paralisada 
no alto da sentença