café e dores

café e dores

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Welcome to the hell

A Estamos frente à paisagem
Os pássaros alheios
Ao som de nosso passado
Flutuam desgovernados
Na ilusão de um amor suave
Que não nos pertence
A estação anuncia o suor
Causado por um frio contínuo
Muita luz e azul
E as trevas chamaremos poesia
Ali do alto o coração sufoco
Mas ao olhar pra cima
Pinturas no seu quarto
Mansidão de teus braços
Desconhecida textura
E portanto na falta de abrigo
Descubro um lugar elevado
Soletro devagar teu nome
Em delírio na boca
Meu suspense infantil
Propenso à recortes do vento
Ao sul teu corpo
Verão teu rosto


Fera Ferida

dotado das sutilezas 

tédio disforme 

fugindo da jaula

assim bichinha manhosa 

as garras faíscas 

o retorno de ontem 

feito presente 

urge brilhantíssimo 

rogo incenso de lótus

as flores no alçapão 

carregam hoje tarde que faz

tanta pureza morta 

trocar marcha 

ondas soníferas 

contração instantânea 

rogar benção tardia 

por vias

flor fincada 

recortes da sanidade

fera encarcerada


Título: música da Maria Bethânia 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Descuido

Devia ter desistido da poesia

No primeiro frio mudo 

A ponto de trancar o casaco

Acima do rosto bem firme

Cega as margens do que sigo


Assim as conduções

Turno rápido optariam 

Folhas enterradas no solo

Acimentado a estação floriam


Todavia contei com a sorte

Por vias estreitas - 

Sorria 


Devia ter desistido

Desde primeiro - 

Desvio 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ressaca

Espanto notar semblante ameno aos ruídos da praia mansa longe, logo mapeio os pensamentos enquanto desloca o corpo na área destinada a nos perdermos de vez, e como sem volta de maré agressiva, divindades enviam uma correspondência do outro lado da Oceania mais próxima, estrelas sucumbem e nos engole um buraco forte sem motivo; então agarro sua desconfiança do avesso, e se houve sentido, afogo e nos salvo da corrente mais grossa: Afinal amar requer distúrbios na fala. Adapto os modos de abordar severo destino aliada a tanta suavidade, a gravidade revela cores presas de um sintoma universal; escuto trovejar e como prova da maré distante retorno à prosa falha titubeando no que nos sobra, nos falta. Revido olhar perdido quando a pretenção é buscar seu corpo que no entanto flutua na água e isso me soa proteção tardia, vejo Lua na proa encostada e as implosões de um céu metódico anunciar o fim de fantasias áridas. O choro seco, pele e ausência de palavras, pura, áspera, socorro intensa calmaria. Apelo pros sintomas anormais, surgindo brevemente olhar distinto descubro modo de manter corpo unido: agito. Amar é. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Contar uma história pra gente dormir

Se te contam os dias,
Horas arrastadas com urgência,
Sopro do instante 
Contagem regressiva 

Conta com a morte somente
Deposita no crédito da vida 
Pós suplício o resto de alívio 
Nos ombros de um destino 
Não previsto, 
Daqueles gigantes 

E acredita como se fosse um sonho 
Se deita de novo pra dormir, 
Agarra a cintura tipo
Aquela música repetindo

Gasta a última gota de suor do corpo 
Dança pra não chorar e,
Segura,
Não, você não está só aceita 
Vê se acredita na possibilidade

Só assim então se aconchega 
Quando as luzes
Apagarem
A gente deita 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

transferidos manuais instrutivos: voa

Supondo consorte instante
Suprido no peito contido
Resguarda primária suplente
No quanto tem gente surgente 

Suponho alguma palavra 
Quem sabe argumento provável
Sugiro passo translático
Suporte de vóz oprimido 

No passo controle constante
Se houve total circunstante
No outro bocal sopro inteiro 

Pra dar ursupal verdadeiro
Das outras frangalhas soantes
Um tanto oral desordeiro 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Cicatrizes sem rastros trafegam pelo interior do corpo cedido



Peguei pra ler textos curtos


De poetas desconhecidos


Recordei nostalgia


Não cabia no meu repertório


Mas amargo sentir a costura


Ainda crua pele explícita


Ali punida


Nada meu existia


Contudo desgosto nocivo


Sabia o pertencer unânime


Memórias retalhos


Estancam o sangue


Transitar por escrita


Resgatando carne 


Esquecida


Exibida consistia 


Ferida


Ali eu existia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

crédito indisponível

agacho ao lado das caixas de papelão 
e com o canivete à mão um surto 
parece óbvio mas enquanto 
o lacre rompe 
o pescoço 
soa fácil matar as dívidas

nada novo no céu além do rumo 
ao sul de rios frágeis 
e o lirismo certo de que vocês 
também e 
eu estamos 
estado de crise
porém o que pensar depois 
alguém te vira e pergunta 
tudo bem? 
como quem sabe 
o que há? 
como quem zomba da maneira 
indefesa como conduz a vida 

os pés enfiados na merda da sala 
a calcinha limpa o xixi da buceta 
o que diria quando chegada a hora? 
eles enlouqueceram! interna hoje 
mesmo porque isso é ameaça 
à vida 
não pode matar

tem que se alimentar talvez 
limpeza espiritual cortar gastos 
e inventar codinome quem 
sabe viajar 
pra perto só 
esquecer daqui da terra 
você é impura e imprecisa 
calma o remédio pode ajudar histérica 
conta uma história alivia o ego 
estamos aqui pra escutar 

"lembra quando a gente saiu juntas pro bar da sorocaba e enquanto a cerveja descia o formato da boca crescia e quando se ouvia música era poesia dos corpos agredidos pela distância que nem a gente compreendia mas quando voltamos pra casa já sem sei como o elevador subia daí paro o corpo entende a gente e se alia as bocas quase se uniam mas chega a hora é aceitar..." 

as vezes você se trata ou então não 
tem mais trato conosco pois é só 
botando expectativa acima 
do que pode alcançar 
funciona na hora exata 

ah creditamos em você 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Foda parte 2.

Enquanto me esfregava entre os dedos, meu corpo rígido fazia folia, rangia, hesitava, até que um jato desordenado lhe sujasse os dedos por dias. "Não fode", escrevia. E me fodia enquanto não esgotasse a última gota que eu tinha. Era êxtase e pressão enquanto dávamos fim ao dia. Desfilava lisa por suas mãos escorregadiças e lábios e me mordia com afinco até que fizesse rachar as laterais do meu esqueleto. Suspira. "Me fode", eu sabia o que ela pretendia. Prensada entre dois dedos afobados, mal notava o desenho corrido; era capaz de pulsar com tamanha pornografia. 

Foda parte 1.

Das vidraças sujas da poeira urbana constante, eu observava o sol em declínio quase a se perder de vista, se desfazendo por detrás do edifício Mediterrâneo, o mais antigo do bairro. Requentei o café coado de manhã, um coque mal sucedido por causa da falta de cumprimento do cabelo embaraçado, o cálculo mental da figura íntegra do corpo dela deslizando convulsiva por entre a palma viscosa das mãos, até pousar firme entre os dedos a caneta de acrílico cor azul. Acabara o Malboro, "Não fode", um bilhete à vida no papel que me fitava em cima da mesa. Uma carta ela entenderia. É que me parece tão tarde pra censuras das palavras trancafiadas na gaveta, de roer o que resta das unhas, poupar tinta da caneta. Escreva. "Me fode", era o que eu pretendia. Escrevia. Com aquele monumento rígido enfiado por entre vácuo dos dedos, me satisfazia.

fevereiro do ano passado

pra cessar ressaca
só tua vista de longe
braços estendidos
uivando entre as nuvens 
de fevereiro
mitos carnavalescos
escada rolante
elevados
a lua sobreviveu ao Sol
ladeira íngreme até sua rua 
mesmo que os pulmões insistam
a dar sinais de morte
as voltas do pássaro 
grande 
é preferível morrer 
a perecer trancafiado 
crise do noticiário 
ontem
essa poesia 
hoje 
pisoteada
a flor e o asfalto
beijar até que a boca seque 
e o sol apague a Lua
agora 
embriagados 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

cores de um cenário natural 
alagam pedaço de retina
pintura de aquarela
que vinha dos olhos daquela 
senhora na praça vendendo todo
tipo de bala
doce minha véia 
é que explosivo a gente foge 
dos olhos do tempo cedido 
ao cansaço dela exposta 
enquanto o quadro
o céu seja qual hora
encara a gente
não tem preço agora enquanto 
as linhas cedem espaço, crianças
correndo de que? na rua 
balas cortam pedaços
as cores
vindo Norte 
sob um céu que esmaga 
os olhos velhos dela 
quando vê 
diz 
Basta ser 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

rodear

iria parecer brutal
te convocar 
através 
de poema 
como quem mal sabe 
chega hora de erguer
tombada a voz e cabeça 
pois é longo dizer
tanta coisa bonita 
tantas voltas

mas há algo que diz
do susto 
das coisas doídas
enquanto urgência 
de alegar nomes 
e contornar
volta

é que fugir faz
o vestido vira roda
cabelo e vento 
e isso é delicado por demais
pra falar se não for
volta