café e dores

café e dores

sábado, 29 de abril de 2017

Vambora

ainda não é chegada fim das nossas vidas mas sinto o corpo socado na estrada muita passagem muita cor antes da manhã surgir como envio do além, lá distante até de espaço, forma, é bem no lugar que a gente devia ir pés nus, corpo untado, nunca assistiríamos tanta paz e esperança de nos alimentar dessa sede que é sumir em conjunto sem rastro, pegada, o que for de pista que nos ache em pleno ato de amor. se for pra ir que seja agora antes que você descubra que mal se sabe onde o que interessa é só ir embora não esperar o sol surgir. é que se amanhece a gente deixa pra dormir esquece de sair às vezes é bom fugir.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

brisa

já sentiu
cheiro 
da tarde brotando?

tranco do motor 
estagnado o céu 
flash
cardume lânguido 
dos pássaros 
ao longe 
uma florinha fincada 
no asfalto
suja de lama 
no vão do salto

as vezes a gente expressa 
e não diz é que desacredita,
se palavra toda solta 
fosse revolução

no mais,
o cachorrinho caminha 
sorriso língua nervosa
o chão é perigoso 
as quedas, 
só olhar pra frente, 
tem gente, 
e me olha como se fosse bicho, 
o cão

A gente nem olha, 
desvia, 
sente, sente mas vê, 
falta sentido

ah é que bate uma nostalgia 
imagem de infância 
segurar nuvem 
na mão, 
e devagar roupa bate 
no corpo, 
de tão forte que é vento 
gostoso vindo depressa

sabor de deserto na boca
olhos e água mais sal do Brasil,
desacredita, 
tem cheiro pra todo lado 
vindo de fora!

não quero falar 
como se a gente fosse tudo 
mas tudo não passa 
de um pouco da gente, 
e segue cabisbaixo
as durezas do chão 

reluz no ponto 
mais indecente 
lá da frente, 
aponta
cheiro de fim.

É lá que a estrela 
tá gemendo de gosto da noite, 
muda a estação, 
olha pra cá 
gingado as flores 
brotando 
muita arte das cores, 
quanta pintura!

acho que o céu 
piscou pra mim

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Aos pés do altar

Tomai, deleita desse corpo
Santo fruto de formas
Transforma no ato
Deforma

Bebei até engasgo
Pasmo enfia o gozo
Boca à fora
No grito

Agrido teu sopro
Em susto me visto
Tornado zumbido
Pé do ouvido

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quase não tenho você em mim

Ainda fumo aos fins de semana e falo sacanagens em voz alta sem tremer os puritanos. Você permanece na minha lista de chamadas perdidas. Eu perdi a nitidez que existia em meus olhos de indecisão e lembro de seus lábios ainda úmidos de saciar vontades que nunca serão minhas. Não te quero nesse precipício que insisto em exibir e se te coloco em minhas poesias é pra amenizar a queda de tantas primaveras hostis. Não peço carona em seu peito vadio porque a viagem é longa demais e essa rua não tem saída, sabe. São muros e concretos tão frios que hoje o inverno me dá boa noite antes de amanhecer seus olhos calados novamente. O cheiro da outra te trará saudade de casa mas não tem como voltar porque você cresceu demais. Ao longe ainda ouço os pássaros que fotografei pra te mostrar uma manhã sonâmbula e sem querer ensinei a partir apenas com o remorso no bolso por não ter feito morada em mim. Há um pedaço do céu que eu te doei e agora o café grita no fogão implorando para não doer tão cedo assim.

(2015)

Guardo nessa carta saudade e um pouco do sal desse meu mar

Os músicos da sua cidade herdaram o seu sotaque e as pontas das estrelas apontam pra nós, você ao norte e eu desnorteada. Quantas borboletas repousaram a metamorfose em seus cabelos? Você pode morrer agora antes de ler essa carta e isso seria a morte da minha literatura, de meu coração arcaico e de tantos planos ainda não pensados. Acho que chove em alguma parte da cidade e você cresceu cedo demais para um homem com medo. Eu tenho tantos segredos e medos. Esse avião pousa às 21h em Santos Dumond no horário de Brasília. Vê se me guia.

Aceitar o seu amor seria confessar a mim que te amo mais do que devo. O que tento dizer não se põe em grade ou linha. Eu ouço o zumbido das teclas sendo disparadas como balas invisíveis contra mim. Ouço meu sangue fluindo por veias que rezam para serem cortadas, e os relevos do corpo gemendo por você aqui me olhando enquanto te escrevo. As luzes dessa cidade estão tão cansadas. E agora eu não quero falar seu nome. (serei escrava de seu nome). Daqui a sua luz quase não chega então eu tento te imaginar no meu escuro, sendo sugado e se aquecendo porque a tempestade não tarda a chegar. Eu sinto os pingos metralharem os ombros e se preciso de alguém agora penso em seu nome. Apertado. Miúdo.

É muito triste os olhos do motoqueiro no vagão das quatro? É muito triste aqui. Eu quase não vejo brilho, sabe? E se choro agora é porque ouço os trovões de toda seca desses meus tão íntimos 40 graus. Semi-aberta, digo que eu não sei onde esconder que durmo tranquila sabendo que existe você quando acordo... Eu falo é dessas neuroses que podem te assustar a qualquer instante, me avise o motivo de ir embora quando a música acaba. Olhar seus olhos e tomar a pureza ainda verde, no entanto só os vejo tão vermelhos a me desnortear quando admitir que sou sua. Eu nunca fui nem minha, entende? Você consegue sentir o que escrevo sem nem admitir? Eu não consigo ver o arco íris, estrela cadente ou pecados impossíveis. E vendo meu corpo por salvação. Seja da praga, do amor, dessa carne que torra os meus neurônios bons. Só a ressaca de você basta para que consiga escrever livro de uma página.. Meus pais estão brigando na sala e eu perdida no quarto reparando a solidão que me ponho submetida. As vezes acho que foi escolha ser do meu jeito, e ardo um pouco menos quando me aceito. Então eu tenho motivo pra chorar sim e não falar de amor até morrer dele. Eu não gosto de falar, entende? Eu gosto de ouvir um solo que me faça querer morrer enquanto escrevo. Gosto de ler suas reclamações às seis da manhã. Você é o meu café. Tudo isso faz muito sentido. Você consegue sentir?


(2015)

Acabou chorare

Há baianos antigos gemendo um choro brasileiro e nesse aeroporto o preço do pão de queijo é mais caro do que em Minas. Sou virgem de amores, repito. Isso é Rio de Janeiro. Toda essa gente comemora fevereiro com um sorriso que só aparece nos carnavais. Tem beijo com gosto de Skol e à noite as moças de família perdem o pudor nas mãos de algum malandro fantasiado. Não tem bagagem hoje. Não tem roupa limpa pra amanhã. Tem essa vontade de morrer enquanto o bloco passa. Eu quero esse calor da loira dizendo que amanhã vai amanhecer bonito pois tudo passa e que hoje estamos solteiros. Tem gente pulando nessa festa da carne e há quem condene o erotismo em tudo o que escrevo. À noite o calor não termina e nem a folia esfria.

Há muitas despedidas nesse aeroporto cujo preço do pão de queijo é quase tão caro quanto o amor.

*Escrito no aeroporto do Rio numa segunda de carnaval enquanto escutava Acabou chorare de Novos Baianos em fevereiro de 2015
seja o meu João ou o seu
quem morre ou mata não somos nós 
é o amor que se escalda escurecendo.
é de paz que estampo as paredes mas o caos encarde até os pulmões.
quebrar promessas ou ferir multidões eu não preciso.
amor é isso, a poesia ganhando título. 

são tantos títulos e muitas preces mas sem saber o porquê da escassez de seus olhos.
é água isso que você chama de lágrima? 
quantas garoas em becos do rio... 
não escrever sobre isso é suicídio

o mar já secou

os vizinhos gritam depois das três da manhã e o interfone toca:
é o sono que não vem

(2015)

amem

deixando a poesia
no mundo
como um susto
hino de misericórdia
carta extraviada
pelo destino
pois a minha identidade
é anônima

a cor do esmalte
desbotou enquanto roía
o tempo líquido
e as palavras distraídas
se transformaram
oração

amem
amem

deixo os rabiscos
no armário
pois só creio
no descanso
almejado
desde a primeira
falta de rima
no planeta de homens evoluídos

não há mais chances
de viver em olhos rasos
mas se a maré sobe
o dilúvio
cai
arrastando
discurso sobre
a seca no coração
de quem naufraga
no planeta terra

somos compostos por água
e despedida
quando a ferida exposta
gera matéria prima
então exponho ao sol
pouco de rima
para suprir sede
que a poesia
desconhecida
tem de se afogar
no amar

amém

(2015)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

sento a escrever suave 

tive tempo de buscar 

palavras inventivadas 

assim nos encaro impotente 

diante do manejo de sentidos


logo pela manhã pão quente 

com manteiga fria, 

cigarro oco pra abafar jejum, 

surgem as palavras dormidas 


passei por um sonho longo 

de personagens ausentes 

em memórias mais remotas 

antes de acordar 


o sol bem mansinho

essa mulher na rua escrevendo 

um livro, ao chão, 

seu corpo inscrito

desses olhos aflitos, passagem


o vento muito brando 

peço desculpa por insistir 

tanto quanto ao destino 

por não saber sequer 

há volta se irmos? 


sexta-feira, 7 de abril de 2017

te falo baixinho em segredo

poderia falar

sobre coisas pontuais

sem temer te afastar 

quando universo 

só nos sobrasse 

contando sobreviver 


te lembraria do cheiro

daquela noite antiga

tom da sua língua 

miúda 

te falaria tudo censurado

pela falta de jeito

em confessar o zelo

que tenho pelo riso 


quando surge então seu rosto

é por qualquer instante 

o afeto 

que me ataca

das vísceras 

à expressão 

de modo evito 

pra não revidar 

tamanha intervenção 


apontaria pedaços

deixados por mim a você 

na cidade grande 

demais pra nós 

tanto a dizer 

que é preciso calar 


pra ver me escuta 

baixinha 

todo gostar 

só compartilhar 


ao morrer as flores dão frutos

definho

murcho e a flor

prostrada na sacada da sala 

explícita ao sol

tão longo

o dia demora a cair

o céu denso

tal peso fundo

cansativo é dizer

andar os pés amarrados

o chão movediço

traça na parede

em particular 

tanta palavra

o jeito como ginga os braços

largar o mundo afora 

lá dentro muda 

bonito de tão morto 

não tem pressa

as cores as massas

caminhando pra onde

foi-nos em vão

resta um tanto 

mal se vê 


domingo, 2 de abril de 2017

aponta pra fé e rema

sem condução
ou tempo no relógio de pulso,
vivia o poema fadado ao desbotamento


as unhas pintadas,
o barulho da hora rente ao ouvido
como se falasse das histórias de paixão
às pressas


onde aceitar espaço sem rota
precisa


é bem no instante que inspira ar mais denso
e se admite chegamos tarde
depois do horário da janta
o poema faminto,
todo momento


as passagens sem volta,
quem diria o ponteiro indica caminho


seguimos