café e dores

café e dores

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Alilás

apresento ao sol minhas lentes
de reflexo
com sensibilidade
à exposição de afeto
até aceitar que o asfalto
absolve
os corpos multados
os passos corridos sob sinais entrecortados
anunciando
que ficar parado enquanto
avançam os carros é pior do
que morrer atropelado pelo tempo

contemplo distraída as múltiplas violetas murchas 
enroladas no pescoço 
de fulana
[violentas flores]
só então entendo que lilás é poesia
quando o céu decide 
espancar
as cores líricas antes do sol
se despedir de
requentados amores

fumo
mais um cigarro
segurando a ponta do
horizonte entre dedos como se morrer
lentamente
pelo tabaco incendiado
fosse motivo pra render mais uma página no jornal 
sobre os perigos do
fumo diário

trago notícias
mais um nome que morreu na poesia
um corpo baleado
s
o
b
e
o elevador
tiro ao alvo
há um silêncio esmagador no metrô

escondo no bolso a minha sede condensada
como quem se adapta
calculadamente
ao deserto de olhos
apáticos

há versos abafados no armário
o condomínio está atrasado
uma ferida no peito do pé
nasceram flores ao chão
do bairro
[violentas flores]
espancando
a solidão onde mora
dores

3 comentários:

  1. Se tuas palavras fossem cores - cada uma delas variando em suas matizes, tu te equivaleria ao Van gogh. Não tô puxando saco não, mas essa tua composição merecia virar ópera, ou tela para exposição. Tudo em teus poemas tem cheiro de mundo e constelação.
    Abraço e bom fim de semana.

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  2. Uma das coisas mais lindas que já li em vida. Lembrei-me do filme "O Carteiro e o Poeta", onde uma metáfora das ondas do mar é utilizada pra tentar demonstrar o sentimento ao ouvir uma poesia. É forte e suave ao mesmo tempo.
    (acho que já falei muito)
    Escrevo umas coisas também (que não chegam aos pés disso, mas, se interessar, é mulherabismo.blogspot.com.br
    <3

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