café e dores

café e dores

segunda-feira, 18 de março de 2013

Dentre goles de solidão

Andando curvado, aquele homem ia pelas avenidas. Ele tinha um suspiro tão profundo e seus olhos, de olheiras roxas, eram imensos. Acordava deitado e a voz rouca dizia coisas breves, as pessoas sorriam com febre ao tentar entender, depois bagunçavam o cabelo com as mãos, atordoadas.Ele entrava todos os dias na mesma cafeteria com cheiro de madeira velha, pedia um café com caramelo e observava as moças e rapazes passarem com irreverência, bocejava o tédio.

Aquele homem teve tantas mulheres nas mãos e parou para pensar nelas. Tinha Catherine, que perdeu a virgindade aos treze. Vitória, que conheceu na faculdade, ela era engraçada, mas perdeu a graça. Outra que nunca esqueceu foi Mariana, sua primeira namorada, era muito insana. Foi sorrindo de lado enquanto vasculhava a cabeça tentando lembrar de todas, com o café em uma das mãos, ele chacoalhava lentamente entre beberico rápidos. Lembrou-se de Amanda, falava mais do que podia pensar. Teve também Olga, que era tão inteligente que fez ele perder o interesse. Maria era a menina que ria, ele fez planos para o futuro, mas faleceu. Nunca mais viu Vanessa, Andressa, Carolina, Regina. Julieta era tão apaixonada, hoje em dia anda drogada. Foi louco por Gracinha, conheceu no elevador do prédio, descobriu que ela queria todos os caras, a loucura virou piada. Agora, o homem sorriu rapidamente, lembrou de Capitu, que interpretou tão bem o livro, só que na vida real. Tomou um longo gole do café enquanto pensava em Glória, perdeu-a para um cara com pinta de otário. Aninha foi o romance mais rápido e intenso, de suspirar. Teve Elena, que falava sobre livros, música e filmes, sem saber nada sobre filmes, música e livros.

De súbito, o homem levou um susto retraído, balançando a cabeça. Tinha uma mulher na frente dele, com um sorriso largo e desenhado, maçãs do rosto coradas e cabelos ondulados. Ela perguntou com uma voz intimidadora se ele se lembrava dela, ele abaixou a cabeça e finalmente deixou escapar um sorriso sincero. Ela perguntou qual era a graça, ele pigarreou:
— Não que seja engraçado, mas estava agora mesmo pensando em você.
Passaram aquele dia juntos e de noite o homem estava acompanhado da saudade. No dia seguinte iria novamente para aquela cafeteria lembrar das mulheres que teve nas mãos e que deixaram apenas a nostalgia no fim do dia.
Homem, de todas elas, quem mais amou?
— Solidão, que deita na minha cama e me acompanha.

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