café e dores

café e dores

sábado, 12 de outubro de 2013

Procura-se

Cheguei ao ponto crucial de uma existência penosa, faz sol de arder os olhos e estar doente a pouco tempo não faz descaso às minhas conclusões. Descobri que sou uma pessoa covarde, sempre soube mas é cômodo mascarar com mentiras uma face tão vazia, fraca e medíocre, não somente porque deixo de desfrutar coisas boas por razões fúteis que na verdade nem existem ou porque sou um capacho de prazeres alheios, mas sim por tudo que já vivi tão angustiosamente, por admitir que em todas as passagens da minha vida fui covarde e efêmera, tentando moldar uma essência que dói, mas sou ferida, uma doente crônica de tristeza passageira, que não se acaba com remédios de farmácia, fica e desola uma personagem velha de quadrinhos preto e branco. Deixei passar tantas coisas que não percebi que passei também, eu passei e não há como voltar no tempo para me buscar, entrei em um abismo de covardia que assusta a quem vê de perto, e eu me consolo com pedaços atormentados de existência, tentando tirar do oco uma ideologia forjada, uma coragem nojenta que não me convence. Não é apenas um desabafo corriqueiro de diário essas palavras duras que escrevo, isso é confissão de uma vida inteira, coisa séria que sufoca a quem vive, onde os planos são matéria podre que se deterioram na gaveta abandonados como um amante que deixa a prostituta após tê-la prometido casamento. Eu me formei no conformismo de um futuro errado, deixei de sonhar e não há morte pior do que não ter sonhos. Sou um cadáver infértil que chora e não ama, vivendo de restos sem crenças ou armas, implorando sem voz para ser achada onde um dia eu desapareci.

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