café e dores

café e dores

sábado, 14 de junho de 2014

Stella

Toquei a madrugada inteira e ninguém me toca. Sou a mesma guria que muda mais do que um camaleão em ambiente hostil, mesmo tendo tão pouco a oferecer. Sinto-me ameaçada o tempo todo e os fantasmas que me importunam na hora de dormir sabem que não tenho medo do escuro.
Tenho medo disso aqui dentro que tem me ferido.
Acontece constantemente uma rebelião em meu interior mas não existe sistema, guardas. Não tem quem pare essa baderna instalada a cadeados.
Sou um pouco exagerada, viu? Não. Porque ninguém me repara tão bem.
Deu vontade de pintar as unhas, traçar a vaidade no corpo para me fazer de fortaleza.
Bateu uma ânsia de sair pelas vielas do centro da cidade, conversar com as putas loucas cheias de pó na cara para entender um pouco mais daquela dor. A dor da gente é tão nossa, tão universal.
Quero saber da dor daquela balconista que me serve café sem sorrir, do difundo que achei na rua enquanto voltava pra casa do trabalho. Não devia ter voltado, queria saber o nome dele, cantar pra ele. Acho que todo mundo deseja ser lembrado por um estranho depois de ter morrido perfurado por balas de um revólver raspado. Stella, eu sei da sua dor. Sei muito bem que você quer ser amada, meu bem, mas quem mandou você ser logo a porra de uma bebida?
Tenho os dedos dormentes e rasgados de tanto tocar violão na dor dos intocáveis. O que mais me dói não são esses machucados, o foda é que ninguém quer se ferir por mim porque o pouco nunca é suficiente. Malditos exigentes.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. ''Porque ninguém me repara tão bem.''

    Penso o mesmo constantemente.

    Viu, guria... Eu adoro esses teus textos quase contos, essas crises existenciais descritas de forma completamente poética.

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  3. Que texto! Me lembrou os escritos de Bukowski gostei.

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