domingo, 13 de julho de 2014

Temo que ele leia essa poesia

Temo que ele volte no meio da madrugada
Não porque a rua marginalizaria seu corpo desleixado
Mas porque temo que durma em mim
Durante mais outras noites cruciantes

Temo seus músculos contraindo-me junto à saudade
Esfolando o meu orgulho
Despedaçando o amor que auto-construí

Já não entendo porque te(a)mo idolatrar ainda mais aqueles olhos
Acastanhados e simplórios
Envoltos por uma magia sórdida
Que o deixa com olheiras absolutas

Não me encaixo no meu medo surrupiado
De ouvir os discos antiquados no volume máximo
De reler os livros de Drummond
E cismar que cada personagem carrega o nome dele

Sou composta por batons borrados e temores que me aprisionam
Ora, se me borrei foi porque sua boca não me acerta
Não mais suporto a espera
E confesso por intermédio de rimas incrédulas:

Eu diria sim
Sem temer nosso mais do que esperado fim

sábado, 12 de julho de 2014

Os gringos e as moças cariocas não pagam o teu preço

Há todo um mistério nesse céu mestiço de cores que estampam os seus colares. Copacabana está lotada de gringos loucos pelas tais brasileiras de sorrisos fáceis e molejo doce na ponta dos pés e samba e bocas carnudas. Começou o inverno mas não cai uma gota sequer de água porque os santos sabem da fama que nós temos de tropicais, dá pra ilustrar os raios de sol nos cabelos das moças com seus copos de chopp na mão e o cigarro slim na outra. Sobe o cheiro de hortelã que vem da fumaça importada, da bala, da vontade de beijar um cara que tenha barba.
Em plena temperatura de 43 graus você ta lá debruçado sobre suas artes, trançando sob uma pedra dócil a corda, fazendo um novo colar. Disse com uma voz instigante que âmbar me curaria com um papo quase intelectual  'Ela absorverá a energia negativa, é indicado para pessoas com tendências suicidas ou auto-destrutivas.' Acho que lá no fundo você sabe que nada disso pode me curar, mas bem que sorriu de boca aberta quando eu disse que a tal pedra era inspirada nos seus olhos. 
Não para de chegar gringo falando sacanagem em línguas divertidas e vejo você aumentar o preço porque ninguém te dá valor. Os seus cabelos estão sujos, as suas roupas já rasgaram, a sua fala ninguém mais entende, hippie. Vem se jogar no mar comigo para gente se desfazer um pouco dessa tal energia negativa, me banhe com as suas pedras que choram o preço dessa nossa ilusão por vivermos tão só. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Marcha fúnebre XX

Poucos são aqueles que de teus lábios provarão o verdadeiro sabor da saudade. Poucas línguas traduzirão teu nome com o relevo da saliva. Chopin já tocou na minha dor, mas você lambeu, mordeu, sarou. Angustia-me saber que tudo aquilo que escrevo sobre ti irá ao pó comigo, não cabe a mim guardar os escritos que te enaltecem, mas é doloroso mostrar a minha devoção. Se os outros souberem de tuas curas irão pestanejar aos teus pés afinados. Eu sou a tua doença mais incurável, nua, intacta.

Se descobrem os teus encantos
eles vão querer te curar
desse mal que se
chama
amor.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Renascer seu inverno em minha poesia

Eu morri trezentas vezes em seus tons hostis de mármore
Recompus-me fêmea em sua ferida
E como fina casca me fiz de morada
Para pertencer puramente à sua pele usada

Falando de saudades a poesia se corrompe
Vira tatuagem
Se gruda à alma como parasita
Furtando migalhas de reminiscências

É só relembrar que seus olhos de Plutão
Levaram-me à astros
Para reviver que morei em ti outra realidade

Será que seu caos já destroçou a minha raça?
Já não pertenço ao meu sangue
Ao meu destino
Este universo planeja contra nós

Ontem o escasso inverno flagrado de seu peito
Camuflou a geada que me condensa
Derreto em suas camadas
Muito mais do que amadas por minha primavera

Você me disse manso que eu seria o seu fim
E se padeço no instante do agora
É porque ainda morro sozinha
Enquanto vejo-te fortificar no nascer da aurora

Transformei-te em poesia ou a poesia te transforma?
Espero rasgar seu coração
Para te colar nos meus suspiros ínfimos
E metamorfosear o nosso quase-amor em canto lírico

domingo, 6 de julho de 2014

Se te vivo nas palavras é porque te quero eterno

Mato você todos os dias a cada olhar que lanço sobre algum homem de barba mais cheia do que a sua. Mato você todos os dias para te ter insignificante dentro de mim, mato até carregar um cadáver como romance.

Estou sorrindo aos estranhos no meio da rua em plena luz do sol. Veja só com quem estou tendo um encontro, olhe o bar que dancei. Não volto para casa hoje.

Meu discurso está incoerente? Voltei a escrever todos os dias, sei como isso te incomoda porque me faz ser mais interessante. Não estou escrevendo sobre você, as minhas poesias falam sobre sexo e os signos.

Acredito nos signos porque só eles conversam comigo. Acho que ao escrever acabo me conversando. me.com.verso. Gosto dessa pausa.

Gosto dos pontos finais em demasia, isso tem algo haver com você. Conosco.

Gosto de dar espaço entre as frases porque é disso que preciso. Respirar mansa o equilíbrio que você me roubou. Consegue perceber o quanto isso é doentio? Estou te matando em mim enquanto te vivo eterno nas palavras.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Guarda o universo inteiro no olhar

Seus cabelos só não são tão rubros quanto as laterais de sua face porque o verão desse nosso Rio de Janeiro castiga com um sol que te queima de febre. Se eu não soubesse de sua natureza lasciva eu arriscaria um palpite de que sua palidez é falta de amar, mas sei tão profundo que seu peito já está ativo feito um vulcão, mas não por mim que sou pequena brasa.

Marco as horas em que os ponteiros decidem o nosso encontro, o momento no qual me perco e você não me acha porque já perdeu sonhos demais. Sou apenas mais uma ilusão batendo à sua porta e você permanece fechado enquanto me abro nessas prosas enfadonhas.

Conheço o seu cansaço pelos olhos pesados. Como pode um olhar conter o infinito e ser tão vazio ao me olhar te amar assim... Tão de graça...

Não se assuste, meu bem. O meu amor não vai te ferir enquanto houver galáxias que traduzam o quanto a gravidade pesa sobre os meus ombros. Não posso mais ir atrás de você. Não posso mais te oferecer o mundo pois pertence a algo bem maior: à perpétua infinitude de seu globo ocular.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Fiz esse último verso

fiz de mim tão pouca
tão pesada, dolorida
fiz de mim passagem
e acabei passando sem querer
fiz do meu corpo porta de entrada
de quem não tinha intenção de ficar
e acabei indo com cada pessoa que levava
vastos pedaços de mim

fiz de mim poesia e morro no último verso