café e dores

café e dores

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

traduzindo os olhos de serpente

você está dentro das minhas conversas
e a sala está com cheiro de mijo seco
essa parede é calma demais para aguentar
esse furacão de sentimentos
que colo em cada pedacinho branco que me sobra
é tudo abismo e eu toco o meu coração intocável
tantas vezes que acho
se alguém tentasse conseguiria também
fazia tempo que não chorava aqui
posso ouvir o vento me pedindo para dar nome ao que sinto
cansa e dói e sei lá mas falar disso é tão dificultoso
pra mim que mal sei fazer discursos acadêmicos

o cheiro de erva entrando
e você saindo junto com essa flauta pesada
estou ficando sozinha mais uma vez e hoje ainda é carnaval na cidade
preciso da poesia de marcela e dos olhos oceânicos do rapaz das cartas
eu temo a ventania
temo o meu sentimento sem identidade
e toda a rua criminosa me chamando para mais uma noite

essa amigdalite sempre retorna
todos os sonhos com serpentes e parentes que não usam o meu sobrenome
são réplicas desse universo egoísta que criei porque não me resta nada de real
esses olhos tão passionais não passam de uma mentira sem amor
a minha pele branca é obra de arte
e eu estou esterilizando sentimentos ruins por toda a vida
por mero medo de finalmente me abraçar ao precipício

é difícil ser criança aqui
há sangue no lençol da cama
e o incenso exala o cheiro da lua que não está no céu
sinto fome de amor e bolo caseiro sem ovos
sempre assisto à minha mãe chorar na frente da televisão
e a poesia as vezes pousa em mim como uma borboleta distraída
querendo desfazer meus planos de morrer
e me ferindo o pulso direito
o poeta escreve para outra
e acha que sou só mais uma transviada
quase não resta espaço para que alguém entre por essa porta
e me arrombe
até que eu reclame de ser feliz

ainda acordarei algum dia sem medo de chorar
e vou fazer discursos sobre a independência da alma
até o ponto de enxergar o fio da calma que tanto procuro nesses nós
entrelaçados debaixo de lençóis sujos de sangue
eu só vivo romances quando escrevo
e mais uma vez ainda não te disse tudo

6 comentários:

  1. nunca gostei da separação entre poetas urbanos e rurais, tão pedagógicas em nossos sistemas de ensinos... acontece que a pedagogia, se refere originalmente a paidos, a paideia, a infãncia, (não somente a cronologica, nos homens) mas também as da civilizações) talvez a infancia das sensações e emoções - e por ai podiamos seguir... ando lendo seus textos em silencio sem querer responder, observando esta implosão (de tempo e espaço?) que esta fazendo ao seu redor para o centro - até mesmo os elogios diminuiram nos comentarios e acho isso sintomatico - voce esta realmente incomodando com a sua escrita e isto é sempre importante e bonito... porque aos desavisados voce so parece histerica, mas esquecem que histeria tem origens (biblicas) importantes... as paixões, que são concentrações semanticas, partem de auto laceração da carne - e assim isso o extase... na estatua de santa teresa davila de bernini que fica em roma... as paixões de teresa davila fundaram a nova lingua e literatura espanhola, suas chagas permitiram que a mais cruel inquisição não corrompesse seu castelo interior... e isto sobreviveu aquilo.

    ficarei aqui na distancia, e também curioso para ver que tipo de escrita vai desenvolver em sua vida após tanta laceração - vou confiar na religião da poetisa, no que diria jean cocteau, que a "poesia é uma religião sem esperança."

    um abraço

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  2. eu gosto de te ler assim, sem vírgulas e sem pontos finais, pois realmente te ler é desafiar o fôlego, é desejar por mais linhas e saber que o ponto final não está no fim do texto porque existe muito mais por trás das metáforas. caralho! impossível te comentar sem desejar ser grosseira.

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  3. Queria eu ter escrito todas estas linhas, a identificação sempre me assombra, mas também me põe no colo.

    Tu sabes que és uma das minhas escritoras preferida, tua graça e tua tristeza diária também são minha sina.

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  4. Me lembrou Lispector e, por ter lembrado Lispector, não poderia classificar com outro adjetivo que não seja admirável. Poesia crua, assim, a gente somatiza de uma vez. Parabéns.

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  5. Estupendo! De tirar o fôlego! Incisiva, autêntica, crua, confortavelmente, bem real. Sentimentos vivos, expostos ao sol do meio dia. Impressionado.

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  6. Eu temo que o mundo não conheça tua poesia, ao mesmo tempo em que da forma mais egoísta possível, quero guardá-la só para mim!

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