café e dores

café e dores

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma cartinha insana sobre sal e tempestade

Escrevo essa carta sem nenhuma tristeza, guarde-a pois será a última. Saio dessa estória com moedas de amargura nos bolsos da alma, uma maré de azar na conta do meu destino, um dissabor na ponta da língua que tem gosto de mágoa. Espero com toda a violência que você me esqueça tão rápido quanto esquece de acordar quando tem compromissos de manhã, que ao abrir esses olhos carnavalescos seu cérebro de ostra lembre de colocar alimento para o cachorro pois eu não vou mais estar lá preparando para os três aquela comida ensossa. Eu acho que Poseidon me entende, com aqueles olhos enormes envoltos por anéis de pelo escuro ele te segue pelos cantos azuis da casa e finge ser irracional para encobrir teus segredos, com medo de decepcionar o dono ele não late, não corre ou morde as pernas dos móveis cheios de cupins, apenas aspira deitado o carinho que nunca chega. Ele espera a tempestade chegar para ter um motivo de correr até sua cama durante a madrugada e se contenta com uma migalha de calor do homem que ama. Eu que fazia a tempestade, mas era como seu cachorro, com medo de correr para fora dessa casa cheia de mofo enquanto você ia jogar o lixo fora. Ou será que eu era o lixo? Certamente fui ambos, até decidir comprar um vestido que sufoca meus soluços, com um decote escancarado para meus seios demonstrarem a força que tiro desse peito de azedume e a visitação estará aberta para homens que não tenham a mesma inicial que seu nome. Homens que usarem outro perfume, que tiverem um sotaque menos viado e as calças mais largas. Você vai tentar apagar meu número da memória mas vai me ligar depois de ter trepado em pé com a vizinha e eu vou ter jogado o celular na parede, em uma parede branca e não azul-fracasso como a sua. Você deve estar rindo das palavras sujas que estão aqui escritas, procurando o número daquela vizinha enquanto molha a carta de vodka e eu estarei distante desse seu mundo chulo e obsoleto. Não me procure nos lugares que frequento, mudei de cidade, fui morar no coração de outro, lá ele fala minha língua e colocará sal na minha vida.

7 comentários:

  1. sou absurdamente fã de cartas. e a sua é linda, inspiradora. já quero ler outras. :)

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  2. O pior fim é aquele em que não acaba.
    GK

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  3. Eu diria adeus, mas levaria o cachorro.Tenho pena dos animais cujo o dono não sabe o que é ter amor próprio.

    Não precisa dizer que adorei a carta.:)

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  4. Bom dia Gyzelle.... as cartas são assim como a poesia um libertar interno muito grande.. vc sempre coloca um peso nas palavras mostrando que a vida as vezes precisa levar um sacudão.. só passar a mão e dizer que tá tudo bem é enganar a si mesmo.. continue assim bjs de bom dia

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  5. Te convido a participar de um grupo no face de divulgação de blogs. Está bem legal, aguardo a tua visita. https://www.facebook.com/groups/405760246235096/

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  6. Fico grata por terem gostado, cartas sempre inspiram.

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