café e dores

café e dores

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Acordar de um perdedor

Acordei de súbito e deparado com aqueles olhos enormes em cima de mim, devorando-me. Os meus arregalaram-se também, mas logo voltaram ao normal, os dela não. Aquelas bolas eram profundas e azuladas, furta-cor, tanto azul claro quanto o mais escuro, em uma escala bem mais bonita que as cores do céu. Naquela imensidão de seus olhos eu muito mergulhei, pratiquei apneia por pura opção, só para permanecer mais tempo dentro deles. E agora ela sorria de lado como quem zomba de um perdedor após a derrota. Era isso que acontecia sempre, eu perdia para ela. Perdia e me perdia dentro dela. Labirinto nefasto e cruel, cheio de sombras e frutas frescas. Oh! Seu aroma de laranja lima entrava por meus poros, qualquer buraco que existia dentro do meu corpo absorvia um pouquinho dela.

Agora eu a observava também, seus olhos se perdiam a cada segundo que piscava, aqueles cílios negros entravam em cena, como se dançassem balé, eram as suas pétalas. Perguntei o que ela queria, mas fui tolo demais, era muito fácil saber. Não foi preciso que abrisse os lábios ou roubasse um longo beijo, seu silêncio de cortante sinceridade dizia que era mais um adeus. Vi na expressão aliviada de seu rosto que ela novamente ia embora. Eu só precisaria agora era de suas pétalas para cortar todas as lágrimas que viessem, as minhas são tão frágeis que se desfazem sem querer. Paro de respirar, entro em apneia por meio de meu cobertor. Precisava que o sol morresse para tê-la novamente em minha medíocre cama, com cheiro de sujeira, com jeito de perdedor.

Eu estava esperando novamente o soco da solidão.

4 comentários:

  1. Nunca tinha visto ninguém tão viciado em peidar debaixo do cobertor.

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  2. A solidão sempre me
    convida para um novo round.

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  3. Olá,estive visitando seu blog e gostaria que vc visitasse o meu também.É sobre literatura.
    http://poetajr.blogspot.com.br

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