café e dores

café e dores

sábado, 24 de maio de 2014

As cores anunciaram nossa despedida

Quando eu toquei no papel alvo, gélido, pálido, não tive coragem de dizer o que pensei a manhã inteira deitada sobre a cama de solteira, revirei-me durante a madrugada com toda a intensão de escrever para você aquilo que a boca borrada de batom ameixa hesitou. Não foi covardia, foram seus olhos despidos, decotados, que me fizeram puritana. Quando eu pisei em seu coração movediço, soube que naquele instante eu estaria perdida, não só em você, também no vazio que me desconforta e acolhe a plenos braços nus. Dê-me alguns instantes para remoer a poesia dos seus ombros ternos, sua superfície arrepiada, morna. Deixe-me deitar mais alguns instantes no leito exausto que são suas pernas bambas, porque já não me cabe essa cama, porque já não sou mais solteira, porque já estou viúva. Você vai viajar daqui a algumas horas para capitais de outros quadris e eu terei que sepultá-lo em terreno baldio pois não sobrará hectare de tanta dor ocupando espaço. Não posso mais escrever-te.

Quando eu decidi colocar no papel que eu te queria mais uma noite,
o entardecer ofereceu-me uma explosão de cores no céu,
era um arco-íris anunciando que eu te esqueceria.

5 comentários:

  1. as vezes não sei se comentar é um elogio ou uma presunção - fica-se a impressão que perscrutamos a vida dos outros... confesso que não sei medir... estou tentando escrever uma história e volta e meia me vejo lendo seu blogue, não por causa do mero elogio [e não há em mim nenhuma forma de desprezo aos que carinhosamente fazem] mas porque tem algo que me fez escrever o que te mando abaixo... existe uma Stella que sofreu uma violência profunda, e isto nela é a ausência máxima - como lidar com uma ausencia maxima? - de fato não sei, o que temos sao uns estereotipos toscos de marie claire e meia duzia de novelas sôfregas... ah sim temos clarice, mas também temos a clarice revisitada mil vezes... não queria cair em uma prática de salvação e superação da dor (que acho outra violencia apontar como alguem deve se portar depois de ser amputado) e como isto não te deixa respirar... também não queria a vinganca, que seria cair em outro circulo sem fim; não queria enclausurar a mulher na escuridão alheia... queria uma terceira via que fosse além - um caminho de desconstrução sensorial - esta personagem, apos sofrer com o estupro, junto com um especialista em botanica [Stella tenebrum] que conhece, modificam geneticamente (enxerto) para criar uma flor híbrida que retira toda e qualquer sensação da pessoa e sera isso que Stella fará, retirar dos seus
    algozes não a vida, mas a sensação da vida... não como vingança mas como algo que eles causaram ela propria...Uma violência pode causar esse tipo de sensação... me pergunto se a necessidade de amar e sentir esta ausencia, também causa em tempo, alguma insensibilidade... Stella então cria o caminho que lhe resta: viver uma misteriosa insensibilidade... estou te mandando abaixo um capitulo; espero que não se incomode em responder.

    um abraço.

    Midnight Flower [chapter one: mountain laurel] by ramonlvdiaz

    I was wearing red dress when almost die. Brutally rapped for precisely 56 minutes, where from the greengrass beneath trees and dark shades from eaks lights I could see the Hamilton Watch Complex and the time cease to sync with my own body. Everything that was familiar and sweet on Lancaster, as the Crystal Park hours earlier where I was watching strange sculptures of Ulrich Pakker turn into shades of other person that I suppose I was sometime. Was I? Now I could feel every part of my body say no, every cell to repulse, to deny every science ever since. Never in my whole life I was completely aware and at same time so distant. I was screaming and crying but one of them was closing my mouth with torn pieces of my dress and I couldn’t see their faces either because they wear dark masks and black motorcycle goggles.

    Every second was a dark eternity, where blood and bruises from mark of teethes and sweat from seven men forced themselves upon me to rip off my clothes and laugh.

    “Red Devil Dress”, one said. And laugh. And laugh again. His laugh could eat all those shadows - was it inside me?

    I look for any sign of god. All lights seem so starry with an old yellow frame, like distant alleys with no one around and certainly no god. I tried to pray at same time that I knew that wouldn’t work. I haven’t enough faith, I didn’t know even how to get faith enough to overcome this. Or that. And now everything.

    They finish me off. One of them come close to me. "Conqueror", I knew he felt like that. Superior. I was not their prize or pride. I was their right.

    “Hey Red, this is for you”. And then he throw at me a smashed mountain laurel on my naked belly before punch me on face and I passed out believing that I was dead. And sometimes death it’s not enough either. I could feel this absence where I have no place to go: just a straight line that no one could join me.

    I’m alone and I don't want to surpass this or feel comfortable and secure again. I don't want any kind of security. And i'm affraid what comes next from this black hole.

    ResponderExcluir
  2. Ramon, fiquei muito interessada em sua história, nessa mulher, me parece que esse método é um cano de escape depois de tanto sofrimento, desejo que dê certo. Obrigada por ler meu blog, gosto dos seus comentários.

    ResponderExcluir
  3. Seria sim um cano de escape, também pensei nisso mas pensei nisso como um homem... e aí vem algo interessante, o vazio tem seu primeiro estágio de demolição mas como seria não-sentir (e pensar esse não-sentir) não difere tanto assim dos espaços e tempos da criação na poesia - existe um momento raro em nossas vidas que não tem qualquer definição, esse abismo ou céu de sentidos (entre esse ceu e abismo é que estou curioso) escritores e poetas como voce e tantos outros produzem isso - claro que as vezes pelo lado oposto, pelo excesso, sentimos tanta coisa... na tradição budista o nirvana é essa desistência radical, tão radical que as vezes retorna ao mesmo ponto sem aparente revolução - acho que é como estar apaixonado, mas uma paixão pela esquerda sem nada para se apoiar, um amor pelo vazio?...a grande vitoria de Stella seria devorar os homens pela insensibilidade e vazio que eles não suportam (os homens tem um medo profundo nem de solidão mas da insensibilidade) - mas as mulheres viveram séculos disso... voce não quer escrever, até porque estou espelhando o que escreve de outro modo, testando a sensibilidade alheia, seria mais justo se voce escrevesse e pra ser sincero não ligo muito para autoria... fiz uns cinco trechos mas travei ...

    um abraço

    ResponderExcluir
  4. Midnight Flower [chapter two: goodbye lily] by ramonlvdiaz

    Stella Van Maanen it’s my name. I wake up at Lancaster General Hospital and my mother Loreen was trying so hard to not cry while my father Albert was holding my hands besiding me all the time without say anything. His eyes, no, his iris couldn’t look at me: maybe looking through me, trying to find somekind path to walk or any form to reckowning. He was ashamed. Not for me or all those things we call as family matters. He was ashamed himself to not be able to avoid and even more, what comes next. No human being is prepared to this… even if we could prepare ourselves, what kind of heart did remain after this knowledge? No, there is no knowledge, no wisdom. At that instant I could see that my family and all those things we can call as family matters are forever gone. And I’m really afraid that I cannot even recognize them either.

    The door opened. The doctor Isobel Swanson silent came into the room. I could note that she undone his make up, her face seems recently washed with adistringent cleaners, that also moisturize the skin make it more brightly, with a pale scent of galbanun of Iran – maybe Chanel N19, disappearing between the aseptic taste of hospitals. So she also changes her clothes and I wonder it was the only way that she could pay some respect to me. But she is so pretty and this hurt so much right now. I don’t wanna see her beauty or anyone but I couldn’t resist all my training. This cost me five seconds of thoughts. I study and work as cosmetologist on Empire Beauty School but maybe this does not matter anymore or maybe, as my family itself, will change to walk other routes.

    “Hi, I came here to see Stella. There is an officer, the sergeant Jill Tarter waiting outside. I could delay her visit for tomorrow if you want.” She avoid to look into my eyes, not because the shame, but she care – as if eyes could violate even more what now live inside me. She clearly don’t wanna to expose me more that she can’t even imagine.

    “I go talk to the officer. I don’ want too many questions or proceadures right now. Stella still recovering.” Said my father

    He open the door and I could see, slightly, the face and mien of that officer. Other woman. For no more than a second she catch my eyes, looking for those things that the doctor Isobel couldn’t. Her eyes project shades of cold with a respectful tone. Those eyes are the eyes of a hunter and for so miminum slice of time, I didn’t know if was me, she or both of us that were searching for targets.

    No, it wasn’t she. She was trained to hunt. I was trained to see all kinds of beauty. Now I reborn strange, knowing where all darkness could exist.

    obs: o nome stella van maanen deriva de uma estrela, uma ana branca, a primeira descoberta fora de sistema e aglomerados, é uma estrela solitaria...

    ResponderExcluir
  5. Bom dia Gyzelle.. estimo muito tua presença assim como teus deixados excelentes..
    muito me encanta a maneira que tu desdobra coisas cotidianas.. existe uma briga interna comum em nós poetas sempre debruçados com as despedidas que são frequentes.. os teus pensamentos e inspirações vão além.. vc escreve com a alma sempre transbordando.. parabens e um excelente dia abraços moça querida

    Lapidando Versos

    ResponderExcluir