café e dores

café e dores

sexta-feira, 21 de março de 2014

Chove poesia

Você é o canto bonito que existe em mim
disse ele, sem querer chorar
porque chorar era fraqueza em um mundo
em que os olhos são desertos

Eu não compreendo o que ele quis dizer
se me vê como morada da própria vaidade,
um canto para refugiar-se com cheiro de tinta fresca
sem mobília pois o vazio ocupa muito espaço
entre nós

Se sou música amanhecida e fúnebre
canto de passarinho que chora a cada manhã
por não ter morrido antes do sol flertar o dia
que é pesado,
cinzento

Os olhos dele articulam esse mistério
mas eu não aprendi a ler poesia de mudo,
muda mais rápido que a posição dos ponteiros
do relógio que grita
o tempo que não nos sobra

Bem capaz dele querer nada ter dito
e eu, desvairada, nadando fundo
nesse abismo sem escrúpulos

Não sei em que estação me encontro
porém o vagão de chuva anuncia
que pouco fui e nunca serei
aos olhos de Poeta

7 comentários:

  1. Bom dia Gyzelle..
    quantos de nós que poetamos já vertemos lágrimas por vezes sangrentas de ilusões e amores irreais.. a poesia vai além dos versos.. ela nos transporta a planos maiores.. abraços e um lindo dia até sempre

    ResponderExcluir
  2. Bonita dualidade. A tristeza se fez por uma oposição frágil. Muito bacana mesmo.

    ResponderExcluir
  3. gyzelle, que poema bonito.

    é lindo ler algo assim, eu aqui na minha vida em plena manhã de domingo. :)

    ResponderExcluir
  4. estava lendo seu poema e quis rebater sem pressa de intrepretação; esqueci, fiz as coisas da semana e voltei usando outros autores que ia lembrando; os trechos não tem nenhuma intenção linear de querer semelhanças, foi apenas eu vagando tuas ideias indo parar noutros autores. foi um barato porque as ideias param em tempos e lugares tão distintos que ficamos com a sensação de que poesia é algo por fora.


    um abraço


    Emily Dickson - A Coffin—is a Small Domain

    A Coffin—is a small Domain,
    Yet able to contain
    A Citizen of Paradise
    In it diminished Plane.

    A Grave—is a restricted Breadth—
    Yet ampler than the Sun—
    And all the Seas He populates
    And Lands He looks upon

    To Him who on its small Repose
    Bestows a single Friend—
    Circumference without Relief—
    Or Estimate—or End—


    Delmira Augustini - Lo Inefable [excerto]

    Yo muero extrañamente... No me mata la Vida,
    no me mata la Muerte, no me mata el Amor;
    muero de un pensamiento mudo como una herida.
    ¿No habéis sentido nunca el extraño dolor
    de un pensamiento inmenso que se arraiga en la vida
    devorando alma y carne, y no alcanza a dar flor?


    Murilo Mendes - Reflexão n°.1

    Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
    Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
    Nem ama duas vezes a mesma mulher.
    Deus de onde tudo deriva
    E a circulação e o movimento infinito.

    Ainda não estamos habituados com o mundo
    Nascer é muito comprido.


    Antonia Pozzi - Grito [trans. ramonlvdiaz]

    Não ter um Deus
    não ter uma tumba
    não estar nada firme
    somente coisas vivas que escapam -
    ser sem passado
    ser sem futuro
    e cegar-se nesta ausência
    -ajuda-
    a miséria que não tem fim -

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Holostasis, que coisa profunda! Quanto zelo posto a um comentário, quanta poesia em prato cheio! Espero que volte novamente e se quiser conversar, me avise.

      Excluir
  5. Samuel, Diego e Antônio eu só tenho a agradecer pelo comentários que são tão inspiradores quanto a própria inspiração...

    ResponderExcluir
  6. Gyzelle, primeiramente, muitíssimo obrigada pelos seus dizeres! Dito isso, digo que, quanto ao seu costume de escrever nas multidões carecedoras, como pôde o ver, também o faço. A gente se reinventa para viver, desmanchar o peito - ou complementá-lo. A gente se salva para ser mais, não? E, quem tem piedade da nossa densidade, é porque não sabe que dizer é preciso, porque sente-se. Estar para ser. Dizer para viver - e sobreviver.


    Esta sua poesia choveu em meu canteiro. Irei guardá-la, como se estivesse fugindo do silêncio, segurando-a em meu ventre.

    Ainda que em silêncio, sigo-a. Continue chovendo.

    Vá consigo, e fique bem.

    Beijo de luz, cara!

    ResponderExcluir