quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Soneto do esquecido

No museu o quadro de palha enfeita a borboleta
dançam as águas rebeldes no fundo branco
torce uma gota de lágrima o vento sortudo
a natureza assovia um choro mudo

Tempestade enfeita o céu escuro
lanças ocas cortam abismo
fazem o seu espetáculo um piscar de nuvens
traçando batalhas inúteis

Um pequeno intruso abre o azul
já muito maltratado luta contra si
um homem velho está ali

Morre as ondas numa correnteza de dar nó
morre o homem 
num quadro esquecido do brechó 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Arco-íris de tinta

Pintei os cabelos de verde-água, essa cor-de-vida combina com as plantas que ele insistia em me trazer furtadas de um jardim qualquer, eu sempre me fazia rir daquele sorriso ordinário, ele calculava meus atos e disso fazia sua peça pessoal. O leque de cabelos pintados só não são maiores do que as vezes em que me peguei perdida no escuro daqueles olhos calculistas, tão pretos quanto o céu sem lua daquele domingo em que me prometeu amor bandido. No verão passado foi a vez do loiro, ele sufocou a minha sina com os lábios enfervecidos, dançamos sobre as margaridas amarelas e nem por uma noite eu consegui dormir sem suspirar de agonia sabendo que aquilo um dia virar-se-ia lembrança de um livro amarelado. Roxo-beterraba, vermelho-sangue, azul-borboleta, são tantas cores com codinomes bonitos que estão enterradas em fotos polaroides que estremeço quando penso em procurá-las.

Minha casa está encardida de uma cor que se chama amor, mas ele foi procurar o arco-íris nos olhos da menina-flor e deixou em minhas mãos aquarela que não tem mais vida. Eu pinto meu cabelo para tirar da cabeça a cor daqueles olhos fundos de tão, tão pretos e trago agora um cigarro para pincelar o cinza-morto da nossa estória que só durou algumas estações, morreu na primavera como uma planta que cai, da cor desse meu cabelo desbotado verde-solidão.

sábado, 12 de outubro de 2013

crônica de tristeza passageira

Cheguei ao ponto crucial, faz sol de arder os olhos e estar doente a pouco não faz descaso às conclusões. Descobri que sou covarde, soubera, fraca e medíocre, não somente porque deixo de desfrutar coisas boas por razões fúteis que, inexistentes; ou porque sou capacho de prazeres alheios, vivi angustiada, todas as passagens da vida fui covarde e; mas sou ferida, uma crônica de tristeza passageira. Deixei passar tanto e passei também, passei e não há buscas, entrei no abismo de covardia, e eu me consolo com pedaços atormentados de existência. Deixei de sonhar e não há morte pior do que não ter sonhos, implorando sem voz para ser achada onde um dia desapareci.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Narciso

O papel escondia a angústia que sentia 
Rabiscado de abismo,
O poeta sobre si escrevia 

Algumas vezes ele, modesto papel,  
Pagava pelos erros de uma palavra mal dita,
Logo era trocado pelo lote mais caro

A lixeira ainda frívola de versos vivia carregada 
Intragada pelo gesto de asfixia, 
Transbordava

Quem mais sofria era aquele lápis de marca
Remoto, profícuo, ligeiro 
Preso por mãos inseguras 

Tornara-se frágil, por pouco logo
Desapontava, por ser do parnasiano poeta,
O espelho narcisista  

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Retrato

Olhos tristes
mostram a saudade de mãe
gerou filhos e os cuidou
quando ela que precisava de cuidados

Um vestido longo de brechó
cobre gentilmente o corpo
e o corpo dessa mãe já velha
esconde um coração novo,
de criança afobada

Ela sorri e as nuvens
desaguam felicidade,
as curvas de rugas são os caminhos
traçados por ela,
chove saudade de mãe

Onde ficou perdida tua paz, mulher?

Com os pés cansados
se levanta antes da luz flertar o céu
as mãos enrugadas são retrato de um
destino fatigoso, que suga pouco-a-pouco
as forças dessa mulher incansável
ela precisa de repouso: amor


sábado, 27 de julho de 2013

Hoje sonhei poesia

Hoje sonhei com seus olhos


e a cor desse mundo insano não fazia sentido


através da vidraça íris furta-cor


ecos cotidianos


padeço pelo vácuo de vida deixada


a ponta pés gastos





No sonho a realidade pulsou seus lábios


procurando brados de amor


mas as amídalas rompidas de medo


impediram a voz embargada


de rasgar o silêncio



Tenho medo de acordar


abro os olhos


o escuro os devaneios


a insônia canta seu choro


intacto de solidão





Hoje sonhei


e ao acordar quero morrer dormindo


tocar teu beiço
e alimentar a ilusão



No meu sonho tentei amá-la


e consegui tão profundamente e acordada


esse calor chamusca as vértebras


desse corpo machucado


quero viver esse sonho interrompido


pela eternidade de uma lágrima na boca






Hoje as memórias dormidas


te vivo todas as noites sonhando


E deixo de sofrer
a realidade de ter você


somente dentro de um papel borrado

do vazio sentenciado de saudade

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Filme de despedida

Imploro que não se
despeça de mim
eu sou um trauma
de infância
e não sei
lucrar com despedidas

Não mereço perdões fictícios
pois tu formado
num teatro
teu diploma é a morte
da esperança

Teu terno de linho
enrosca meu suor sofrido
baile barato de esquina:
conquista
castidade perdida

Guerra por nirvana
teu coração bomba
tratado rota duvidosa
sagaz e ordinária
labirinto lucidez

Se for embora
rogo com fúria
não faça despedida
teu drama ganhou prêmio
tu é o pior roteirista